31.10.06

O senhor solene, o guarda-chuva, o transeunte desconhecido e o veículo que passa

Manhã escura européia, às vésperas do fim do horário de verão. 9h da manhã com luz de 6h em Dubai, um sol baixo no horizonte e uma chuva fina e fria que vem e vai. Um senhor bem arrumado e prevenido carrega o seu guarda-chuva que escorrega entre o braço e as costelas e cai no momento em que atravessa a rua diante dos pés de outra pessoa que caminha no sentido oposto, interrompendo sua marcha.

Ambos se deparam: impasse no meio da rua. Ambos fazem menção a se abaixar, mas o senhor bem arrumado e prevenido dispara uma seqüência de procedimentos que aturdem ao seu parceiro de circunstância: olhando nos olhos, abaixa e toma o guarda-chuva, colocando-o entre as pernas. Corrige a posição da gola de sua camisa, acerta a gravata, ajeita o terno verde e os óculos, toma o guarda-chuva e o coloca em seu devido lugar – debaixo do braço, como uma baguete. Posiciona-se hirto diante do espectador estupefato, pende a cabeça para a frente e diz levantando as sobrancelhas com a solenidade de quem ensaiou por horas o que dizer:

- Pardon, monsieur!

Um veículo se aproxima da faixa de pedestres, reduz a velocidade e aguarda o desenlace da situação. Cumprimentos subentendidos entre cabeças que pendem mais uma vez para a frente e para o lado com um sorriso gentil e uma despedida não menos solene com a voz grave de quem acordou há pouco:

- Bonne journée.

O senhor solene segue seu caminho, talvez com o contentamento único de quem recupera algo perdido e que não possuiria se não houvesse derrubado seu guarda-chuva - que não portaria se não houvesse reparado na chuva fina que ia e vinha ao sair de casa - diante do transeunte desconhecido. Este, por sua vez, continua também sua marcha, ainda aturdido por tamanha solenidade, perguntando-se inutilmente se o guarda-chuva caíra por acidente ou se fora lançado propositalmente ao chão: mesmo que a resposta a sua infrutífera paranóia pareça mais do que óbvia para um leitor menos atento aos detalhes, ele, desconfiado, nunca a saberá, pois perdeu a chance de perguntar ao protagonista que nunca mais verá. Oportunidade que se esvaiu no tempo, como a folha seca desprendida de uma árvore que o vento levou para longe até se perder no horizonte, misturada e confudida a tantas outras folhas secas, ou como a gota de chuva que caiu momentos antes e deixou de existir, tornando-se parte de um todo maior que era apenas uma poça d’água ao lado do guarda-chuva caído ao chão.

E o veículo apenas segue em frente pela manhã escura européia de fim de horário de verão, como haveria de ser.

Um comentário:

alex disse...

em Dubai ou na França??