14.12.08

Táxi x aluguel de carro e habilitação

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Procurando emprego em Dubai":

Olá Sheik Luis,

Tenho acompanhado seu blog a algum tempo, pois no início de Janeiro irei para Dubai a trabalho.

Uma coisa que me preocupa muito, é a questão do transporte. Li em alguns posts onde voce comenta que transporte publico praticamente não existe e taxi é uma alternativa. Voce tambem citou a possibilidade de alugar um carro, que seria algo bem em conta.

Por isso quero te perguntar:
1- Qual é em média o custo de taxi por ai?
2- Qual é o custo de se alugar um carro básico semi-novo por mês ou semana?
3- Qual o custo da gasolina?
4- E carteira de habilitação? Nós brasileiros podemos utilizar nossa carteira por quanto tempo? Temos que tirar nova licença? Como funciona habilitação?

Grato pela ajuda e parabéns pelo blog.

Abraços
Wesley



Ex-sheik Luis responde:

Fala rapaz,

Essa é fácil:

1- Qual é em média o custo de taxi por ai?


Uma corrida sai por aproximadamente 1,5 dh por km. Uma corrida de 25 km sai por volta de uns 35 dh. É barato. Mas em Dubai, tudo é longe. No final das contas, fica caro.

2- Qual é o custo de se alugar um carro básico semi-novo por mês ou semana?


Carro básico semi-novo... não entendi esse último detalhe. Geralmente aqui as empresas de aluguel de carro tem um padrão mínimo de qualidade, e todos os carros são novos e bem cuidados. O modelo mais barato é o Mitsubishi Lancer com motor 1.3, câmbio manual.

Você vai gastar entre 1500-2000 dh/mês. Com a gasolina barata, sai mais barato que táxi!

Uma empresa do setor: http://www.diamondlease.com

3- Qual o custo da gasolina?


A gasolina custa 6,25 dirham/galão imperial.
Um galão imperial tem aproximadamente 3,8 litros.

4- E carteira de habilitação? Nós brasileiros podemos utilizar nossa carteira por quanto tempo? Temos que tirar nova licença? Como funciona habilitação?


Há duas condições primordiais para estar apto a dirigir e portanto, alugar carro:

1. você tem um visto de turista e uma carteira internacional de habilitação;
2. você tem um visto de residente e uma carteira local de habilitação;

ATENÇÃO: a partir do momento que o visto de residência é aplicado ao seu passaporte, você NÃO PODE MAIS dirigir com a carteira internacional. Aí é táxi até você conseguir passar na gincaninha da carteira de habilitação (alguns meses de contínua frustração).

Prepare-se, pois mais desagradável do que tirar a carteira de motorista em Dubai, só mesmo encontrar um lugar decente para morar com preço aceitável.

O lado bom é que a época de janeiro a março é a mais agradável em Dubai: você vai poder andar à pé ou bicicleta ao ar-livre. Aproveite, pois depois...

É isso aí: boa sorte!

Abraço de ex-sheik,

Luis

18.11.08

Área portuária

Terça-feira, 28 Outubro, 2008 ariosvaldo disse...

Olá Luiz, trabalho na faixa portuária na função de operador de portainers. Gostaria de saber se tenho chance de conseguir um emprego na área, tenho experiencia de 7 anos.


Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 ariosvaldo disse...

gostaria de saber a resposta


ex-Sheik Luis responde:

Caro leitor exigente,

Vamos lá: tem chance? Sim, sempre tem. Na área portuária, há posições abertas para estrangeiros. Se o que eles têm a oferecer te interessará, já é outro caso...

Vamos falar um pouco dos portos existentes na região nos emirados mais importantes:

Dubai

Em Dubai, há dois portos: Port Rashid (o mais antigo, no centro da cidade) e o monstruoso Jebel Ali Terminal, o verdadeiro terminal de cargas de Dubai. Ambos são operados pela empresa Dubai Port World, ou simplesmente DP World.

As vagas de trabalho abertas estão disponíveis aqui.

Sharjah

Sharjah possui 3 portos: Port Khalid, Hamriyah Port e Khorfakkan Port (este último, já do outro lado leste do Emirado, face ao Oceano Índico).

Eles sao operados pelo departamento estatal: http://www.sharjahports.ae

Para consultar as carreiras disponiveis :
http://www.sharjahports.ae/candidatehome.php (é necessário se cadastrar).

Abu Dhabi

O porto mais importante de Abu Dhabi, terminal de cargas, é o Mina Zayed (Porto Zayed), seguido de outros portos menores, Mussafah e Ras Sadr. Todos são operados pela Abu Dhabi Ports Company.

Carreiras disponiveis : http://hr.adpc.ae/careers

Omã

Você não está contente com o trabalho nos portos do Brasil. Você quer trabalhar nos Emirados Árabes... sinal que você realmente gosta de rock. Então, rock por rock, por que não tentar uma vaga no país vizinho?

O porto mais importante do Sultanato de Omã é o Porto de Salalah, a aproximadamente 1000 km da capital, Musqat, quase na divisa com o Iêmen. Não sei como está hoje, mas há 2 anos atrás, a Vale do Rio Doce construía um terminal para si neste porto. Mais informações sobre o porto:

http://www.salalahport.com/

Tem um link neste site para "carreiras" (embora não haja nenhuma vaga disponível no momento):

http://www.salalahport.com/careers.aspx

Grandes do setor

Você pode tentar também entrar em contato com as grandes do setor que operam em Dubai. A Evergreen é de Taiwan, a COSCO, chinesa:

Evergreen: http://www.evergreen-marine.com/
COSCO: http://www.cosco.com/en/index.jsp

Subsidiária da CORASCO no UAE: http://www.cosraco.com/

Bom, se quiser realmente trabalhar por aqui, vai ter que pesquisar estes sites, avaliar as oportunidades disponíveis, quem sabe contactar o RH dessas empresas. As ferramentas para começar estão aqui. Mãos à obra!

Abraço de ex-xeirrrr,

Luís

11.11.08

Assunto: boas notícias

Ei, escute-me!
Eu soube ontem...
Os criminosos foram julgados e condenados a 7 anos de prisão!

Nosso promotor uma vez nos disse que pediram prisão perpétua, mas essa foi decisão do juiz... não é o bastante para nós, mas finalmente chegou a um final. Estou feliz pelo que a polícia, promotoria, cônsul, e você fizeram!
Obrigado por cuidar da gente naqueles dias!
Nós gostaríamos de dizer em voz alta de novo e de novo, Obrigado!



Garcia Marquez diz em um de seus textos que, "escrevendo, expulsa seus demônios". Pois bem: durante muito tempo essa estória me incomodou e essa mensagem fecha um de seus ciclos.

Verdade? Mentira? Como sempre, isso não vem ao caso: o importante são os sentimentos que ela proporciona. Como nas novelas, como nos filmes: "qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência".

Imagine se Simenon fosse interpelado por cada crime solucionado por seu Comissário Maigret, só porque se passam em Paris? Ou Agatha Christie? Paro por aqui. Você pensa demais, leitor, e se eu continuar, você vai achar que eu sou arrogante, arvorado a ser o que não sou.

Arvorado a ser o que não sou não é coisa de minha índole: por ora, sou apenas um humilde ex-sheik. Vamos, leitor, acredite: leia até o fim cause I wanna be a paperback writer. Sigamos em frente, que até eu já estou impaciente. Afinal, quem matou Odete Roithman?

The visitor

Acabo de ver o filme The Visitor, filme que fala de muita coisa: música, mundo árabe, África, imigração nos EUA.

Bem verdade que desde que saí de Dubai, venho em uma fase de negação de tudo o que seja ligado à cultura árabe, mas as sutilezas desse filme me trouxeram agradáveis lembranças: o sotaque árabe ao falar inglês; as releituras que alguém criado em um cultura faz do "outro". Como no diálogo em que o personagem Tarek pergunta a Walter se ele gosta de "Chawarma", e recebe como resposta "sim, eu gosto de Charma"; Walter dizendo "Kalil" ao invés de Khalil (o sobrenome de Tarek que se pronuncia "RRRRRalil) ... ou ainda Tarek chamando sua esposa de "habibti". A legenda em francês contentou-se a mostrar "habibi" (de certo, o tradutor não falava árabe).

Já os trejeitos de Muna, a personagem de Hiam Abbass, lembrou-me e muito da elegância contida das sírias que conheci em Dubai, cristãs ou muçulmanas (pois é, nem todo sírio é muçulmano). Mais precisamente de Sandrela, com quem morei por 7 meses em uma casa de 9 quartos... ô menina generosa: ela adorava cozinhar, e eu sempre gostei de comer. E um dos maiores prazeres de quem cozinha é ver alguém saborear suas obras-de-arte: é Ramadã? Lá vinha Sandrela me convidar para um Iftar. E lá ia eu mandando brasa nos fatuches, fatáiers (esfiha aí no Brasil), tabulis, homus e muitas outras coisas cujo nome não sei. Às vezes, seus pais vinham lá de Homs para uma visita. O problema é que eles não falavam muito bem inglês. Aí rolava aquele diálogo básico:

- Sabah al kheir...
- Sabah al nur...
- Kifik?
- Miliha! Wa kifak?
- Amdulilah...
- !@#%@#%@^#$%^#$%^#$ ?
- ?! - sorrisos amarelos de ambas as partes - iála, Sandrela, volta aqui traduzir!

Poxa, deu até fome. Vou escrever para ela, perguntar se está tudo bem.

E para finalizar: depois dos eventos decorrentes do 11 de setembro e da era Bush, sempre tive um preconceito em relação aos EUA. Mas nos últimos tempos, minha curiosidade por essas esquinas do mundo como Nova Iorque vem aumentando. Quem sabe agora, na era Obama?

10.11.08

Happy new year

"Quando eu morrer, vou direto pro céu". Repito-me renitente a máxima quando a mente, tal qual um promotor público obcecado pela auto-promoção, lança voraz baldes de culpa sobre mim. Auto-engano ou salvação?

Foi com a melhor das intenções que passei meus contatos para Yoko. Ela dissera que dentro de um mês, passaria por Dubai e queria um contato para tirar dúvidas. Foi logo depois da celebração do Ano-Novo: meia-dúzia de estrangeiros reunidos na cozinha do Hotel, tentando se aquecer. Silêncio na cidade: segundo o calendário iraniano, o Ano-Novo - Nou Ruz - coincide com o início da primavera, de modo que em 31 de dezembro é um dia qualquer e 1o de janeiro não é feriado. Não: alguns comemoram. A dica dos iranianos é de procurar por festas no bairro armênio, que comemoram estas datas, Natal, Ano-Novo... mas estava muito frio para isso.

Na mesa, variedades de pistache e sementes de girassol em vários tamanhos e formas cuja casca os iranianos quebram girando a semente entre os dentes frontais, restando na língua apenas o miolo; anos de dedicação a este hábito moldam os dentes, conferem agilidade automática e precisão incompreensíveis para quem vem de fora: iranianos se divertem com o estrangeiro que, no afã de quebrar a casca, despedaça a semente na boca e por fim aceita a derrota, mastigando casca e miolo.

Na mesa, refrigerante de cola iraniano. Saiba você: o ser humano tem necessidade de beber refrigerante. Não qualquer refrigerante: refrigerante de cola. Não qualquer refrigerante de cola: refrigerante de cola em embalagem vermelha. Algo que se pareça com Coca-Cola. Se possivel a genuína. Mas esta nao existe no Irã...

Coca-cola, Zara, Adidas. Necessidade de consumir marcas. Devido ao embargo, ou talvez pela nao-proteção da propriedade intelectual, as grandes marcas não entram oficialmente no Irã, mas proliferam-se em falsificações vendidas no Grande Bazar. As genuínas sao vendidas nos elegantes centros comerciais em pequenas butiques, onde ainda se vê Papais Noéis e enfeites natalinos com a inscrição: "Christmas Mubarak!". Seus proprietários viajam a Dubai ou à Europa, enchem as malas e retornam ao pais com as novas concepções de liberdade, nobreza e confiabilidade.



Adibas, Abibas, Abidas. Azidas; são várias as marcas nas roupas e tênis de três listras dos jovens no metro de Teerã, mas a massa lembra ainda um Brasil de uma cidade do interior de uma distante década de 60, 70, 80: pessoas com seu único sapato, com sua calça social de um alfaiate, com sua única pasta de trabalho, onde guardam seus pertences.
Alguns lerão esta busca doentia das marcas como uma "busca provinciana do progresso", outros mais idealistas como "poluição capitalista"; atitude blasé: leituras feitas do alto da arrogância da liberdade e do excesso de acesso; as marcas são dispensáveis apenas para quem não precisa. Elas estão lá, disponíveis do outro lado do vidro; voce pode, mas não quer. Assisto a este teatro do metro quase me esquecendo de meu tênis All Star velho e rasgado que uso com descaso, fingindo não lembrar da exclusividade que desejo que me aporte.



Roupas de marca, refrigerantes de cola, pistaches e outras sementes sobre a mesa; é meia-noite de 31 de dezembro em Teerã e agora o grupo de estrangeiros se abraça e faz poses e sorrisos para infindáveis flashs de cameras digitais: felicidade é cada um com a sua. "Happy new year!". A esperança no futuro é uma das coisas mais curiosas no ser humano, principalmente quando olhamos para tudo o que se sucedeu com uma distância de quase um ano. Fico uma impressão de uma comemoração equivocada. Mais sensato seria: "Congratulations, we survived until here!".

Já passa da 1h da manhã, todos deixam a cozinha e se aglomeram no corredor ao lado do aquecedor a gás. Alguns fumam e o rapaz da portaria vem de tempos em tempos pedir que se fale mais baixo - há pessoas dormindo. Em meio a promessas de envio de fotos que jamais serão cumpridas, trocamos e-mails. Cada e-mail, uma intenção; sementes de uma árvore de possibilidades de eventos futuros que se realizarão ou não, segundo a próximas interações da vontade de cada um com a Fortuna.

Alguns psicólogos defendem que a Razão pode sim controlar a Vontade e que isso nos distingue dos demais animais; outros mais céticos julgam que a Vontade é a senhora do destino. Neste caso, a Razão seria apenas uma sofisticada maquina justificadora, advogada da Vontade, ocupando-se em manter o Conjunto convicto de que "está correto". Seriamos mesmo racionais ?

Sim: entregar-lhe o e-mail trouxe à tona um certo frenesi sobre as várias probabilidades que se abriam diante de uma garota atraente. Afinal, quais são seus reais interesses? Não: entreguei o e-mail embuído de um sentimento altruísta - ajudar por ajudar e um dia ser ajudado. Ilusões pudicas de um mundo melhor onde pessoas viajam pelo mundo trocando experiências e cortesias. "Quando eu morrer, vou direto pro céu", já dizia minha avó.

9.11.08

Dúvida

Não sei se continuo essa estória. Tambem não sei porque tive essa genial idéia de começá-la em 1a pessoa. A 1a pessoa é uma merda: personifica, dá um rosto e personalidade ao protagonista. Talvez eu rasgue tudo, recomece: "Era uma vez ..."

Concordo com você: a leitura é essencialmente idiossincrásica. Mas você exagera! Mal lê o texto e já se apressa às inferências. Você lê "a, b, c, ..." e , afoito, adianta-se: "...é D!". "Quem matou Odette Roithman?", "Será que Helena vai ficar com Augusto?" Você não consegue viver sem a novela. E agora me olha com este ar agoniado de criança que não ganha pirulito - "Será?!".

Entendo sua ansiedade. Foi assim nas semanas em que esperei Capitu voltar de férias. "Será? Será? Será?!?!". Uma mensagem: "Está tudo bem". Hoje vejo que sim, estava ótimo! Ah, leitor! Voce paga agora pelo que nao fez. Vingança! Ódio babado pelo canto da boca.

Noite de diarréia aguda na noite paulistana. Estava no Ó-do-Borogodó. Noite de iluminação; na parede do banheiro a frase que liberta:

A maior sensação de poder que o ser humano pode ter é fazer esperar.


Sofra, leitor. Ninguém mandou não ter vida própria! Faz sol, os animaisinhos se acasalam na floresta e você nesta busca pela Verdade Suprema, "mordendo corrente". Um consolo para ti? A espera é justamente uma das percepções mais agudas do tempo presente. Nesta agonia, VIVO se está; tempo que escorre milimetricamente e sem pressa entre os dedos enquanto o Desfecho libertador se aproxima: o Ultimo Suspiro, o resultado do Exame, o Sim ou o Não da Pessoa Amada, o efeito da droga que neutraliza a Dor do cálculo...

Depois de "a, b, c ...", "... c, d, c"; "... f, j, k". Ou quem sabe, o seu "... D!". Por ora, nada. Sádico, eu? Isso já começa a ficar repetitivo; você sabe bem o que disse minha avó.

5.11.08

Holy Movements Photography Exhibition



Se você está em Dubai e pensando em visitar o Irã, ou já estiver de viagem marcada para Teerã no final do mês, fica aqui a dica: exposição "Movimento Sagrado" de fotos de minha querida amiga Sara Masinaei! Maiores informações na própria imagem.

+++

If you're in Dubai and considering visiting Iran, or has already planned a trip by the end of the month to Tehran, let me give you suggestion: exhibition "Holy Movement", of my dear friend Sara Masinaei! More information on the picture above itself.

4.11.08

O que eu estou fazendo aqui?

Meira! deixou um novo comentário sobre a sua postagem "A ironia, a modéstia e a comoção de Narciso":

Me responde, sheik Luísão,
Agora são duas da manhã,
Tenho revisar 20 páginas da tese até amanhã.

O que eu estou fazendo aqui?
Responde sheik!

Abraços,
Luis Augusto Meira (Ec97... long long time ago)


Postado por Meira! no blog Dubai F. C. em Segunda-feira, 03 Novembro, 2008

Caro amigo,

Os psicólogos encontraram um nome bonito para isso: Procrastinação.

Fica tranqüilo, em geral não é grave (eu também faço isso às vezes). Agora, o único remédio é... enfrentar o leão.

Então pára de ler esse blog e volta pra sua leitura, uai!

Abraço de ex-sheik,

Luís

3.11.08

A ironia, a modéstia e a comoção de Narciso

Assis Editora deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: quem é o Sheik?":

Querido Sheik Malba Tahan Luis Brasileiro, agora não tenho a menor dúvida de que é um brasileiro nato. Pois somente um brasileiro poderia ter tanta criatividade e humor. Muito prazer, pois é a primeira vez que escrevo para meu ídolo literário (rs). Gostaria muitíssimo que você estivesse em nossas comunidades do orkut: (...) Você é fantástico. Talvez o maior contador de histórias que eu ja tenha ouvido, ou melhor, lido.
Vou contar sua história, e o nosso encontro, aos quatro ventos e quando alguém me perguntar se é verdade direi, como Chicó: "Sei não, só sei que foi assim.".
Em Dubai ensina-se português?
Não sei como devo me reverenciar a um Sheik, então vou me despedir de um jeito brasileiro. Até breve. Abçs, Ivone.

Postado por Assis Editora no blog Dubai F. C. em Sexta-feira, 31 Outubro, 2008

Salam Aleicum minha cara Ivone,

Obrigado pelo 'ídolo literário': os elogios levam ao delírio os narcisos... e os irônicos.

Obrigado, prezada Ivone! Eu sei que sou querido e fantástico, mas é sempre bom ouvir isso de alguém. Só agora compreendo a ordem de um certo Rei: "se quiser me homenagear, que o façam em vida!". Aceito seus elogios com o auto-conhecimento de um Estadista, tal qual um certo Stalin que ordenou aos seus biógrafos que ressaltassem, na obra em sua homenagem, sua humildade e modéstia...

... Modéstia, cara Ivone! Minha maior qualidade é a modéstia: tal qual o reflexo de Narciso nas águas do lago, seus elogios iluminam as trevas de meu exílio. Tal qual os beijos nas mãos e lambidas sublimes em meu dedão de meu pé esquerdo, desferidas por ávidos e inúmeros súditos e camelos em meus dias de glória. Para eles, o sabor acre da mistura de suor em fricção da pele com o couro de minhas alpergatas era o ponto máximo de suas vidas. Isso me tocava profundamente, e me deixava orgulhoso de meu altruísmo: emprestar-lhes o dedão era um sacrifício e uma boa ação. Ver assim os efeitos de minha bondade sobre miseráveis mortais me preenchia de júbilo - como agora.

Eu choro de emoção. Agora ria, minha cara: a gargalhada dos irônicos é o presente com o qual lhe retribuo tão generosa oferenda.

Em Dubai, não se ensina português. Não há necessidade: quando alcançam a idade correta, os filhos de nossa realeza são enviados à Paris para aprender tão nobre idioma (nada mais propício ao estudo de língua tão nobre que a Terra dos Intelectuais, bebendo da seiva da Razão, que nos é tão cara e rara. Oh, oh, oh).

Sem arrogância: prometo entrar em contato. Anoto seu e-mail em minha agenda em letras pequenas, mas bem torneadas, com floreios em caneta Mont Blanc verde para enfeitar. Um dia desses, um de meus escravos eunucos responsáveis pelo trato de minhas correspondências concederá-lhe o privilégio de algumas letras em meu nome.

(Oh! acabo de reparar como minhas unhas brilham. Oh, oh, oh).

Agora, com licença: feita a boa ação do dia, permito-me entregar meu corpo aos prazeres e carícias das concumbinas que restaram de meu reinado.

Abraços humildes de ex-sheik resignado e sofredor,

Luís

30.10.08

Mashad hotel

Passava das 17:30h ao entrar na estação de Rueil-Malmaison. Estação sobre o nível da rua, caminho aberto ao vento úmido. Envelope lacrado em maos; fazia frio. Não: frio estava em Tehran naquela manhã de dezembro de 2007.

Frio: na fonte da praça Iman Khomeini, a água formava estalactites sobre os cabos de aço que sustentavam bandeirinhas decorativas de alguma data especial. No Irã, trabalha-se 6 dias por semana, mas há muitos feriados para compensar. É o que dizem (digo isso apenas para justificar as bandeirinhas congeladas, mas temo que isso não explique nada. Mania de querer explicar tudo).



Não é a melhor área de Tehran: a parte rica fica ao norte, na encosta da montanha, em direção à Darvand, onde neva. Bairros onde vivem a classe média e alta iraniana, comerciantes armênios, algo muito semelhante à Oscar Freire (oh, São Paulo: saudosismo irracional; por vezes me pego a chamar-te de minha. Oh, identidade, essa ilusão: nunca foste, nunca serás). Ali, seguindo da praça pela rua Amir Kabir, é a região das "auto-pecas": pneus, correntes de pneus para neve e tapetes de carro se acotovelam na calçada sobre os pedestres. Entre estas lojas, um ponto de encontro de estrangeiros que seguem o roteiro "low-budget" do guia Lonely Planet: o Mashad Hotel.

No início da noite, na recepção, um pequeno corredor com um banco longo de cada lado, os turistas se espremiam e fumavam para se aquecer, enquanto o gerente do Hotel blasfemava: o site do hotel, principal meio de contato com estrangeiros, havia sido bloqueado por conta do embargo norte-americano.

- E o que é que eu tenho a ver com isso? Eu tenho cara de terrorista? Deixem-me trabalhar! - justo ou não, nao julgo (o que por si só, já é um julgamento).

Ambiente "internacional": dentre os turistas, um holandês que viera de bicicleta. Um ciclista belga que se acidentou na Turquia e seguira de trem, mas que agora se encontrava sem dinheiro, apenas com cartões de crédito (que não são aceitos no Irã). Um garoto neo-zelandês que terminara seus estudos e tirara um ano para realizar sua Grande Viagem antes de iniciar seus estudos superiores. E uma oriental. Chamemo-la de Yoko. Dentro do hotel, terra franca; não usava véu. E fumava entre os homens.

- Sao 4.500 tomans por dia - informa o gerente, acendendo a luz do quarto. O equivalente a 4,5 dólares. Sao 5 camas: duas de cada lado perpendiculares à rua, e uma à parede oposta à janela. Do lado de lá, o coreano que dorme cobre o rosto. Do lado de cá, roupas de mulher. Eduardo escolhe a cama do lado de lá; fico do lado de cá. Misericórdia ao coreano, apagamos a luz e na luz-de-porta aberta, abrimos as malas. Neste ínterim, entra a dona das roupas.

- Brasileiros?
- Sim.

Ela se empolga e começa a falar palavras em português: morara antes com uma brasileira.

- E como é Dubai?

Pergunta dificil, resposta longa. Ela senta perto na cama porque a voz é baixa (o coreano dorme). O banheiro é coletivo e o Eduardo vai e volta do banho. Por fim, o novo ocupante da quinta cama chega. Eles falam a mesma língua e o interesse dela agora muda: seguem fumar e conversar lá fora. Hora de dormir.

10.10.08

Drogas em Dubai?

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Ultimato para as "shared villas" em Dubai":

Sheik,

tenho uma pergunta da maior seriedade e espero que você posa me ajudar.
Estou me recuperando de uma dependência de cocaína e tive uma oferta de trabalho em Dubai (em um Hotel - Head Waiter). Como são as coisas em termos de drogas em Dubai? O risco de envolvimento com drogas é alto? Com Álcool eu já sei que terei de me segurar (da mesma forma que faço por aqui) mas me preocupo com as outras substâncias. Não estou fazendo piada, entenda por que não assino este post. Por favor me dê uma luz.
Obrigado


Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Sexta-feira, 10 Outubro, 2008

Caro Anônimo,

Dubai tem muita luz, especialmente no verão.

Sobre a cocaína, eu acho que você pode ficar tranqüilo, Dubai será um bom lugar para você se desintoxicar. A legislação é bem dura para quem entra com drogas, o que faz com que o consumo seja no mínimo muito discreto.

Digo discreto, porque ele existe. Mas não no meio em que você vem para trabalhar. É o que se ouve, mas ninguém diz, pois ninguém se compromete. Se é que você me entende. Quanto à cocaína em específico, nunca conheci ninguém que fizesse uso dela em Dubai.

Geralmente, quem quer consumir drogas, tira férias e vai viajar. Pega um vôo para Índia, Irã (o consumo de maconha e ópio é algo relativamente difundido entre os jovens das grandes cidades iranianas, por vezes mais disponível e aceito que o álcool), Europa, América, ... e depois volta calminho para Dubai.

Dubai é mais aberto neste quesito(ou ocidental?) que a Arábia Saudita, onde não há bares, cinemas ou casas noturnas e o consumo de álcool e qualquer outra droga é proibido e o tráfico punido com pena-de-morte. Interessante que apesar de toda essa rigidez do país vizinho, é recorrente relatos de "festas de portas fechadas" no altos meios, onde o proibido é servido na bandeja (aliás, como em qualquer festa dos extratos sociais que estão acima da lei, não é?). Para que estas festas sejam possíveis, alguns coitadinhos morrem enforcados de vez em quando por tráfico. Mas afinal, quem se importa?

Outra dica é para você fazer a sua quarentena antes de vir para evitar problemas. Exame de sangue é obrigatório para todo estrangeiro na chegada. A polícia também pode te forçar a fazer um exame de sangue em caso de delação. Neste caso, "traços de droga" são suficientes para qualificar o sujeito em 4 anos de xilindró seguido de deportação. Outra coisa interessante é que aqui não existe o conceito de que a moradia do indivíduo é inviolável: se há suspeita, a polícia vai e entra na casa, sem precisar de autorização. Nos jornais há sempre uma notícia de alguém sendo julgado nesta situação.

Bom, é isso. País novo, vida nova: escolha bem suas novas amizades e aproveite para levar uma vida saudável.

Abraços de sheik,

Luís

26.9.08

Paris

Fim de tarde de uma segunda-feira chuvosa. A mulher procura meu nome nos arquivos.

- Voilà! - e me entrega o envelope.
- O resultado já foi enviado para o doutor?
- Sim, monsieur...

Era um exame de sangue simples de rotina. Na última hora, pedi que adicionasse os testes de HIV.

- Sem problemas! Adiciono também o teste de Hepatite C, d'accord?

O trato era esse: em caso de qualquer anomalia, ele entraria em contato. Mas 17h era ainda muito cedo. Em vez de abrir o envelope, preferi seguir até o metro com o envelope na mão.

RER A, destino Boissy. Carro de 2 andares. Escolho o banco mais ao fundo do andar mais alto. O dia não era dos melhores: no dia anterior, terminara um relacionamento com a mais recente "mulher da minha vida". Isso dói, mas não era a causa do tormento: há muito que já não usávamos preservativo. Ela estava tranqüila, convencida com minhas respostas. Eu não: omiti fatos, aleguei que não havia risco e não a protegi de minhas dúvidas. Agora, envelope na mão, tinha ali uma resposta com um potencial devastador que extrapolava a minha existência... eis aí uma boa definição de remorso: quando se constata que o seu destino, como uma nau descontrolada, acerta em cheio o barquinho alheio, muitas vezes tão especial. Eu sentia remorso do que não acontecera, e isso me tirava a fome, travava a respiração e trazia um estranho calafrio nos ombros. Em meio ao turbilhão, pensava em todas as hipóteses e em algo que me confortasse e me trouxesse dignidade caso o pior caso se confirmasse.

Deixemos o envelope devidamente fechado. Ainda não é hora de abri-lo. Voltemos a onde tudo isso começa: Teerã, dezembro de 2007.

Assim dizia minha avó

Manhãs de domingo de sol. Porta da copa aberta, vento entrando. A família dividida entre o lado de cá e o lado de lá da mesa. O avô, próximo da TV, fala de futebol.

- Quando eu morrer, vou direto pro céu.

A família se olha com olhos grandes e por fim, a própria avó ri do absurdo que dissera.

Sim, disse absurdo. Creio que, no fundo, todos em minha família são incrédulos também. Mas têm tanto medo da morte - o tempo que pára, a ausência de luz e de som, ausência até mesmo do próprio nada - daí esses olhares de olhos grandes que tanto dizem.

E você se pergunta o porquê agora de lembrança de fato tão corriqueiro. Relato-o por constatar nas palavras de minha avó algo tão humano; esta necessidade de, no íntimo de nossos processos mentais, justificar-nos e de sempre nos perdoar. Tal avó, tal neto: se ela, que jamais andou de avião, encontrara ao fim da vida uma razão justa para se outorgar um lugar ao céu, também busco eu em cada ato aquilo que melhor me convém. Cada linha escrita é a razão que corre atrás de meus desejos, providencialmente para que nenhum ato seja vão.

Caro leitor, deixe então que estas linhas corram soltas, como o purgante que purifica o corpo. O importante é que, ao final, eu também esteja convencido da máxima de minha avó.

Impossível você diz

Juliana deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Ultimato para as "shared villas" em Dubai":

Mas me conte uma coisa, eh simplesmente impossivel nao gastar tanto em aluguel??? E vc eh obrigado a depositar o aluguel anual?? Assim eh impossivel ir para os encantos de Dubai. que alternativa temos se conseguimos um emprego em Dubai para nao pagar alugueis tao caros??


Postado por Juliana no blog Dubai F. C. em Quarta-feira, 24 Setembro, 2008

Caríssima Juliana,

Não entendi muito bem essa parte dos "encantos" de Dubai. Em todo caso, não existem coisas impossíveis. Mas, digamos, há coisas possíveis que talvez você não queria vivenciar. Se é que você me entende...

Geralmente, para trabalhos temporários (até 6 meses), aviação, ou ramos muito especializados (engenharia de petróleo, finanças) as empresas oferecem alojamento ou hotel. Para todos os outros casos, é "na raça": as empresas oferecem como parte do pacote salário uma parcela chamada housing allowance para ser gasta com acomodação, e que salvo grandes exceções, não cobre o aluguel de um apartamento digno. No fundo, é uma maneira das empresas te darem um "balão", na hora de pagar prêmios ou aumentos (baseados sempre no salário-base).

Para ter um contrato bonitinho, preto no branco, o mais comum em Dubai é mesmo se exigir um cheque anual, ou com alguma conversa, 2 cheques. Algumas empresas oferecem o "benefício" de adiantamento do primeiro ano, e assim, a empresa deduz as parcelas do seu salário. No ano seguinte, é você que tem que se virar!

O grande problema é que, com a forte diferença cultural, poucos chegam em Dubai com essa certeza de ficar 1 ano, dispondo-se a pagar o aluguel adiantado. É aí que entra a conveniência das tais casas compartilhadas...

Enfim, minha cara, como eu já disse antes: Dubai não é para crianças.

Abraço de ex-sheik,

Luís

24.9.08

Ultimato para as "shared villas" em Dubai

Iterrompo aqui a série "As prostitutas chinesas" porque eu quero a sua opinião, caro leitor: o que você acha deste ultimato de um mês dado pelo governo de Dubai aos moradores de colocação em Dubai (as "shared villas") para saírem de suas residências ?

Apenas algumas informações:

- o aluguel de um quarto com banheiro em Dubai em uma "shared villa" custa entre 4.000 e 8.000 dirhams por mês. Como ilegal, tudo é feito sem contrato. Mais caro que alugar um apartamento em Paris, com contrato no seu nome, e tudo mais;

- alternativas para quem mora uma "shared villa" em Dubai:

- alugar um estúdio em International Village a um preço equivalente (a 15 km da cidade no meio do deserto e mal-provida de transporte público);

- alugar um estúdio em empreendimentos de luxo como Marina, Al Barsha... detalhe: um estúdio na Marina não sai por menos de 10 mil dirhams por mês. E tem que pagar o aluguel anual com um ou dois cheques de uma só vez. Quem é que agüenta?

- ah sim! Há outras opções, como morar em Sharjah, onde o consumo de álcool dá cadeia, ou ainda em Ajman. E passar 5h do dia atravancado em congestionamentos;

É no mínimo curiosa esta "cruzada contra os solteiros" neste exato momento de crise no setor imobiliário internacional, em que especialistas no setor apontam para um aumento na oferta de imóveis vagos em Dubai e quem sabe, uma correção nos preços dos apartamentos (ou você realmente acha que há motivo para um apartamento em Dubai custar tão caro quanto em Paris?).

Fica um cheiro de deslealdade no ar: o governo querendo resolver os problemas de seus amiguinhos especuladores com o dinheiro e destino de quem ajuda a tornar Dubai o que é.

E cá entre nós, imagine esta situação: você ganha um salário de, digamos, 15 mil dirhams/mês. Você paga o seu aluguel de 5.000 dirhams mensalmente para morar em um quarto em frente ao mar. Você acha que valeria a pena continuar em Dubai sendo forçado em um mês a trocar o seu quartinho perto do mar e no centro da cidade por um estúdio cafofo no meio do deserto, tendo ainda que pagar um ano adiantado em dois cheques? O ainda melhor: comprometer-se com um aluguel de 10 mil dirhams/mês na Marina, que consome mais de 50% de seu salário, e para tal, terá que fazer um financiamento no banco para o adiantamento. Você acha que valeria a pena ficar em Dubai?

Pois é exatamente essa a realidade da maioria das pessoas que vivem em casas compartilhadas em Dubai. E se essa gente pesar bem as coisas, vai ver que não vale mais a pena ficar na cidade, que o sonho ou nunca existiu, ou já acabou faz tempo.

Arrumar as malas e ir embora é o maior trunfo na mão de um expatriado em Dubai. Porque sem ele, solteiro ou não, Dubai não é nada.

Cyclone

Dubai, meados de setembro de 2006. Véspera de Ramadã. No trabalho, o grupo marca o encontro: Cyclone. "É um dos poucos bares abertos que venderá álcool", alguém avisa.

A entrada não é barata: 75 dirhams. Entrando no recinto, um choque: pela primeira vez em Dubai, um local com mais mulheres do que homem. Tudo bem organizado: aproximadamente 50 chinesas à esquerda. À direita, em menor número, européias, russas, árabes. São mais caras. No extremo canto direito, um palco. "Está desativado", disse o garçom. "Durante o Ramadã, não é permitido música ao vivo".

Que saborosa surpresa: em véspera de Ramadã, um dos poucos bares a vender cerveja é um prostíbulo! E não estamos no meio do deserto: o Cyclone fica ao lado do American Hospital, centro de Dubai. Aliás, ficava: o estabelecimento foi fechado pela prefeitura em meados de 2007, quando a caça às bruxas, ops, prostitutas, começou. Mas isso não vem ao caso, pois ainda estamos em 2006, e o garçom traz pipocas gratuitas para acompanhar nossas cervejas à 30 dirhams a long neck.

Sob o vidro grosso do balcão, um papel com uma frase: "Não viemos no mesmo navio, mas estamos no mesmo barco". Frase que expressa bem o sentimento do grupo: "que merda estou fazendo aqui?". Após a primeira cerveja, o Vítor reclama: "então, minha namorada começou com uma estória de que não sabe se quer continuar...". Uma história que se repete, e que geralmente termina com o mesmo fim.

No pátio à esquerda, o taxista de turbante, o economista asiático, os loiros europeus de terno. Risos, cervejas. Em cada riso, o mesmo sentimento revanchista: "Você me rejeita? Então eu pago!!!". O jeito masculino de resolver as coisas.

Eu sei leitor: você ri. Ri porque acha que se dá muita importância a isso. Isso porque você está aí no Brasil ou em Portugal, onde você leva uma vida normal: mesmo que nada aconteça, sempre tem o charme da mulher do café, a promessa da garota da banca de jornal... vivemos todos de esperança. Mas até isso tiram de você quando se vai a Dubai. A realidade de um um país com uma proporção de 4 homens para cada mulher é seca. Dubai é um garimpo de luxo. E convenhamos, se você é solteiro em Dubai e não trabalha na Emirates, você tem grandes chances de estar em maus lençóis...

Saímos do balcão, aproximamo-nos do setor chinês. As garotas se aproximam. Salto alto, saias curtas, e muita maquiagem. "Hi, you ale beautiful!". Carinhos, cafunés. Carinho... como é bom ser bem tratado por mulheres. Tentamos manter conversa:

- Where are you from?
- Beijing.

Interessante. Ela e todas as outras 49 chinesas do recinto são de Beijing. Coincidência ou simplesmente o mesmo agente? Tentamos aprofundar o assunto:

- And what's your name?
- Beijing.

Difícil, inglês calamitoso. Na dúvida, a resposta é sempre "Beijing". O Vítor já emenda com sua grande presença de espírito:

- Aí galera, ela quer beijim! Ela quer Beijim!

As garotas riam. Mas o tempo passa e elas não têm tempo a perder:

- You want massage? Massage?
- How much?
- 700 dollars.

O preço inicial assusta. Mas esse é o preço das russas. Todos sabem que esse preço pode ser reduzido a algo entre 300 e 600 dirhams com uma boa conversa. Com um pouco mais de procura, pega-se esse preço com serviço de "delivery".

Os 2 ingleses de terno saem abraçados com 5 chinesas. Necessidade de auto-afirmação. Mas a gente só está ali para uma cerveja, então compramos uma ficha de bilhar e ficamos ali, "fazendo hora": um dá a tacada, enquanto o outro protege a caçapa para a bola não cair, e assim, prolongar o jogo.

São 2:30h: a luz aumenta de intensidade, e os seguranças fecham o cerco. Hora de fechar o "bar". Todos pra rua, sem exceção. Os seguranças empurram sem nenhum respeito as garotas que fazem uma "cera" para sair. Os mais jovens tentam ali suas últimas fichas para ganhar um desconto.

Oras, leitor. Veja como o seu pensamento é mesquinho: eu aqui fazendo um relato de interesse antropológico e você aí só quer saber daquilo que não lhe concerne: se eu dei ou não uma "metidinha". Oras, leitor, como você é vulgar, baixo, vil. É por isso que a nossa relação é de amor e ódio. Eu te odeio, leitor. Leitor, eu te amo. E o amor presume fidelidade. E só por esta razão e nenhuma outra, que naquela noite de descobertas de véspera de Ramadã em 2006, mantive-me casto.

Mas leitor, meu amor, meu ódio: mantenha-se atento. Atento, pois pensando bem, agora ficou claro: a história não começou aqui, embora explique muita coisa. Voltemos ao futuro, em que o Cyclone já não existe mais, varrido do mapa pelas políticas moralistas do Governo de Dubai. Futuro que já é pretérito no momento deste relato.

22.9.08

Eu não sei

Sinceramente, eu não sei como começar essa história. Embora saiba exatamente como ela termina, não sei exatamente onde ela começa. 2006? 2007? Pouco importa.

Pouco importa, leitor, eu sei.Independente do fim, você não a lerá, pois este - já aviso de antemão - não é um texto sobre empregos em Dubai. Pouco importa o que está escrito: você quer a resposta rápida, personalizada, por e-mail ou telefone, um emprego sob-medida em Dubai. Pouco importa o resto: você está cego pelo brilho do Burj Al Arab e prefere quebrar a cara.

Pouco importa o resto: escrevo assim mesmo. Simplesmente porque preciso botar pra fora esta história que me incomodou e que ainda me incomoda (não, não é cocô na porta).

Decidido: voltemos a 2006. Com vocês, um pouquinho de realidade.

8.9.08

Sheik is not dead

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Diretivas para "Sheik Luís responde" e "Empregos"":

Oi Pessoal!Acabei de descobrir esse site e realmente posso lhes dizer que esse Sheik nao existe aqui em Dubai onde moro ja a 8 anos.
Ele lhes pregou uma grande mentira!
Perguntem a ele seu sobrenome? Tenho certeza que nao podera mentir pois se personificar o sobrenome de um verdairo Sheik daqui ele entrara em grandes problemas.Deve ser Milk Sheik de Banana. A proposito, Dubai e pessimo. Quando cheguei aqui era otimo lugar, 8 anos atraz. Hoje e uma cidade ocupada e conduzida por Indianos que somente favorecem a Indianos. O povo e muito feio em geral. Oque voces veem pela tv ou fotos e somente a parte nova com belos predios onde ninguem mora pois sao predios vendidos a investidores internacionais que so compram p/ trancar e esperar o preco subir. As praias sao sujas e poucas, com uma populacao enorme de Filipinos comendo frango frito na area e mulheres de vestidao preto entrando na agua e pakistaneses escarrando na agua. As acomodacoes para trabalhadores, sao pessimas. As vezes ate dez pessoas dividindo um quarto.Nao existe nem um direito para o trabalhador. O rompimento do contrato de trabalho e algo muito serio aqui. Eles seguram seu passaporte e nao os deixam voltar ao seu pais.Um calor insuportavel com uma humidade altissima, nao se sobrevive sem ar condicionado.Nao e nada tao lindo como o pessoal pensa por ai.Estou para sair daqui deste terceiro mundao.Realmente nao consigo imaginar um Brasileiro vivendo aqui com os salarios miseraveis que vi em alguns anuncios oferecendo emprego. Quanto a comecar seu negocio aqui. Cuidado, voce jamais sera dono/a dele, pois sempre pertence ao sponsor local que controla tudo. Os gastos sao enormes e nao vale a pena. Aluguel aqui anual de um apto de um quarto e sala da para se comprar uma casa de 3 quartos todo ano no Brasil.Toda a grana que ganhar aqui fica por aqui. Pense bem

Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Segunda-feira, 08 Setembro, 2008

Caro Sr. Anônimo,

Suponho aqui que você tem uma característica nata que lhe impede de ver a Verdade. Algumas suposições:

a. Você não consegue desfrutar do sabor da ironia pois "não tem olhos para ver";

b. Você não enxerga o brilho no olhar nas crianças que gritam no Natal: "PAPAI NOEEEEL!". Você é o estraga-prazeres que vai dizer às criancinhas que Coelhinho da Páscoa não existe;

c. Você talvez não tem senso de humor;

Larga a mão de ser chato! Deixe as pessoas viverem suas fantasias. Você, assim como eu, sabe que bem menos de 1% das pessoas que lêem esse blog conseguirão alcançar o "Prêmio Supremo", o "Santo Graal": um emprego em Dubai em pleno verão. Dubai, o paraíso dos arquitetos e dos en-di-nhei-ra-dos! A terra do Futebol (com F maiúsculo). Terra onde o Prazer (com P maiúsculo) jorra como rio, como dinheiro. Terra onde todos têm Masseratis (e por isso são mais felizes, não?).

O Sheik existe? O Sheik não existe? Jesus realmente ressuscitou dos mortos? Papai Noel existe? Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim? Caro Sr. Anônimo, você, que já mora há 8 anos em Dubai há de convir comigo que a esta altura, isso tanto faz. Lembre-se que os sheiks são oniscientes e, sobretudo, onipresentes. Eu estou em Dubai, eu estou em Paris. Eu estou em São Paulo. Eu fluo pela internet: estou em todos os lugares.

Outro dia li algo a respeito que dizia algo mais ou menos assim: "toda história, verdade muito verdadeira ou mentira muito cabeluda, tem sim um fundo de verdade pois ganham vida nas sensações bem reais que proporcionam: alegria, tristeza, angústia, medo, vontade de mudar, ou de ficar onde se está. E apenas por isso já valem a pena."

É isso aí. O meu prazer é te ver chorar. Mas fiquei com uma dúvida: 8 anos. Como você aguenta? O que ainda está fazendo aí? Ganhou o prêmio Asceta do ano. Você disse também: "Indianos que favorecem indianos"... e isso é diferente entre brasileiros? E com ingleses? E entre os árabes? Veja bem, meu caro, panelinha é um recurso tipicamente humano.

Bom fim de verão e beijocas do Sheik Luis

22.8.08

ex-Sheik Luís às vezes responde

vinicius p. benini deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: estudar em Dubai":

Olá,
Vi no google o seu blog e me interessei bastante!!
estou querendo ir morar por uma ano ou ate mesmo seis meses em dubai!!
Gostaria de saber como é que funciona a respeito de estudos(como inglês) e sobre trabalhos temporários.

obrigado
vinicius p. benini



Postado por vinicius p. benini no blog Dubai F. C. em Quarta-feira, 20 Agosto, 2008

Fala rapaz,

Beleza?

Lamento dizer, mas Dubai é um lugar meio escroto para essas coisas. Não é um lugar fácil para turistas low-budget e trabalhos temporários.

Tem trabalho temporário? Tem, nos hotéis, com alojamento e tal. Até em shopping tem. Mas mesmo aí, já vão te pedir um minimozinho de qualificação. Mas não espere guardar dinheiro. Tem que procurar nos sites dos próprios hotéis. Dá uma olhadinha nos posts iniciais de "Empregos" que há varios links para sites de hotéis por lá. Mas eu não recomendo. E imagina que eles não te pagam a acomodação: você vai penar para achar um muquifo para morar. E qual é o prazer de sair do Brasil e morar pior do que em uma favela? Ao menos em uma favela brasileira há mulheres. Com sorte, dançando funk.

Só um tapinha não dói...


O aluguel é mais caro que em Paris é não é fácil encontrar. E você vai ter que negociá-lo tudo "na tora", com pagamentos adiantados, tudo no inglês indiano. Opção barata: ou você vai morar no meio do deserto, onde você vai se arrepender de ter nascido, ou num lugarzinho tosco e fedido e cheio de homens perto dos mercados de Deira e Bur Dubai. Igualmente, você vai se arrepender...

... se ainda assim você quiser arriscar, venha. Quem sou eu para saber o que é melhor para os outros. Mas escreva em um cantinho escondido do braço com tinta indelével: "O ex-sheik avisou."

E para dar um tom apocalíptico a este post, citação bíblica:

E então haverá choro e ranger de dentes.

Ai, ai. Deu até vontade de cantar Chico:


Quero ficar no seu corpo
feito tatuagem
Que prá dar coragem
pra seguir viagem
quando a noite vem...

(...)

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...


É isso aí.

Abraço risonhos e corrosivos!

ex-sheik Luís

Iate

Dubai...
Petrodólares...
O Paraíso dos Endinheirados...

... Ferraris.
... Masserattis.
... Campos de Golfe.

Quem joga golfe é muuuito mais feliz. Não é mesmo?

... isso, minha gente. Continuem a masturbação. Para te ajudar, lá vai uma foto do iate do xeque de Dubai, no Porto Rached, em maio deste ano:



Oooooooooooh...

Ras Al Rêiman: Pão-de-Açúcar neles!

E saiu ontem em vários canais de mídia do Brasil a notícia de que empresários brasileiros lançarão um empreendimento em Ras Al Khayman.

O emprendimento, que tem a forma do Pão de Açúcar, me traz a lembrança de algumas piadas em mesa de bar. A gente brincava de lançar um empreendimento genuinamente brasileiro: O Rocinha Inn. Faríamos as montanhas no meio da cidade(isso é fácil, areia tem de sobra) e venderíamos os barracos com tetos de zinco. Uma verdadeira "experiência tropical". O empreendimento, voltado para as classes menos abastadas, rapidamente seria invadido pelas classes média e alta, em busca de preços menos escorchantes e moradias mais próximas ao centro da cidade... ah, divagações, divagações...

Antes de mais nada, parabéns aos investidores. Para quem ainda sonha em ganhar "petrodólares" por aqui (sei que muita gente se masturba com isso aí no Brasil) e tem pés no chão, tem que ser assim: seguir para os outros Emirados que pegam carona em Dubai, que já está quase no limite do viável e da especulação. Ras Al Khayman é hoje o que Dubai era há uns 5, 10 anos atrás.

Mas vamos falar um pouquinho de Ras Al Khayman: a pronúncia correta do nome é Rás (como o R de 'baralho') Al Rêiman (como no RR de 'carro'). Ras significa "cabeça", Rêiman significa "barraca, tenda".

Emirado de Cabeça da Tenda. É assim mesmo. Suspeito que "Cabeça" tenha a ver com a formação geográfica da região, da maneira como um "braço de mar". Em Dubai, o final da Ria (ou Creek) é chamado de Ras Al Khor ("Cabeça das Águas Correntes" ou algo assim, um fétido lodo-meio-mangue onde flamingos às vezes passam para se alimentar, atraídos pelo seu cheiro apetitoso).

Voltemos à Cabeça da Tenda: O Emirado de Cabeça da Tenda é mais antigo que o Emirado de Dubai. Na verdade, até o século 19, o Emirado era o mais forte da região. A tribo dos Qawassim tinha uma importante frota marítima e controlava a passagem pelo Estreito de Ormuz, com seus domínios se estendendo a algumas ilhas e cidades da costa persa. Até que os amiguinhos britânicos resolveram acabar com a graça dessa turma de miseráveis metidos a donos-do-mundo e com um eficiente bombardeio, afundou quase toda a imensa frota de barquinhos desses barbudinhos Qawassim. É, foi assim, lá pelos idos de 1820...

... o importante dessa história é que os britânicos não bombardearam a esquadra de Dubai e Abu Dhabi, e assim o fim da hegemonia dos Qawassim favoreceu o "florescimento", ou melhor, expansão desses dois emirados. Toda essa história se reflete hoje no maior alinhamento entre Dubai e Abu Dhabi, e em certas divergências de opinião entre os xeques sobre questões como o relacionamento diplomático com países como o Irã: enquanto Dubai e Abu Dhabi mantêm relações amistosas com o amiguinho barbudinho persa, Ras al Kheiman defende um endurecimento no relacionamento por conta da disputa de 3 ilhas (Dedo Menor, Dedo Maior e Abu Mússa) hoje controladas pelo Irã (e que pela sua posição estratégica, não serão devolvidas tão cedo).


Ilha de Abu Mussa, vista de um barco


Turistas apreciam a vista da Ilha de Abu Mussa


Até hoje os barquinhos de madeira, dhows, passeiam pelo Golfo (Pérsico? Árabe?)...


... alimentando um importante comércio com o Irã. Aqui, carros usados de Dubai chegando ao porto persa de Bandar Lengueh

Mas como sei que essa historinha pra camelo dormir não te interessa e o que você quer mesmo é petrodólares, é nadar em petróleo como alguns patinhos fizeram quando Saddam incendiou os poços kwaitianos, então vamos a algumas fotos do Emirado de Cabeça da Barraca". Com vocês, todo o glamúRRR e o luxo desse emirado:







É. Como você pode ver, ainda há MUITO o que desenvolver. Hoje, O Emirado de Cabeça da Tenda está mais para Beirute Pós-Guerra que Dubai Brilhante. Mas vamos, lá: Pão-de-Açúcar neles.

Notas sobre a reportagem do jornal:

1)
"...ficou tão empolgado que resolveu até a entrar como sócio com 51%..."


Vale lembrar que 51% é nada mais do que a lei no Emirado: se você quiser montar seu empreendimento, saiba que obrigatoriamente você precisará de um ou mais sócios locais que detenham 51% do capital da empresa. O que não desqualifica o interesse do xeque em inteirar sozinho os 51%...

2)
... a 40 minutos de Dubai...


Bom, aí eu digo: depende da hora em que você tentou ir pra lá, e de onde você mora em Dubai. Esse percurso pode levar tranqüilamente mais de uma hora.

Enfim: Fim.

17.8.08

5a noite brasileira com DJ Igor

Saiu até nota no Gulf News:

In Dubai

5th Brazilian Night with DJ Igor dishing out the best of Brazilian rythyms and international hits at Jimmy Dix, Movenpick Hotel.
Entry Dh35, ladies free admission.



Parabéns ao Ígor e ao Elton, que seguem firme com a baladinha brasileira. Quem sabe um dia Dubai não ganha uns 2 ou 3 forrózinhos semanais, como Paris?

Nota: nas primeiras edições da festa, lá no Golden Tulip Hotel, a entrada era gratuita, tanto para homens quanto para mulheres. Agora que a coisa cresceu, já mudou de figura: 35 dh para homem, gratuito para mulher.

Machismo? Aí eu tenho que defender os garotos. Se não é assim, a balada vira uma sauna masculina, conseqüência da desproporcional relação homem x mulher de Dubai, digna de um garimpo. Ainda mais com a promessa de presença de meninas brasileiras, que são consideradas hot.

Dubai 40 graus

O meu primeiro dia em Dubai foi também o mais quente que tenho em memória: lembro-me de que eram 10h da noite e os termômetros na saída do aeroporto marcavam 39 graus. O motorista do hotel que foi-me buscar possuía providenciais toalhinhas umidecidas guardadas em um isopor com gelo. Estávamos na primeira quinzena de agosto de 2006.

Passados 2 anos, a memória começa a fraquejar, e confesso que até eu, que vivi essa experiência nojenta, começava a duvidar de mim mesmo: "39 graus às 10h da noite... isso não existe!".

Pois bem, hoje entrei aqui no serviço meteorológico. Dubai, meia-noite: 38 graus.



Resolvi variar a fonte, e encontrei 37 graus à meia-noite e meia...



... mas a umidade do ar está abaixo dos 40%, portanto, a sensação térmica não deve ser das piores.

Muita gente não entende como é esse calor: você abre a janela à noite de olhos fechados e sente aquela brasa que esquenta o rosto, como se fosse meio-dia... aí você abre os olhos e é de noite. Hora de fechar a janela. Brisa fresca?! Esquece, isso é só lá pra final de setembro, começo de outubro, inchalah.

+++

Ultimamente não tenho postado, e sinto que quando posto, acabo postando algo desmerecedor. Mas fiquem tranqüilos: prometo postar coisas mais alegrinhas e bonitinhas, para que você aí no Brasil, Portugal ou sei lá onde realmente acredite que é o máximo morar no deserto. Afinal, é isso que você procura aqui, correto?

Beijinhos de um ex-sheik.

5.8.08

Perdeu a bagagem de mão?

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: quem é o Sheik?":

Olá

Gostaria de saber se vc pode me ajudar. Estive aí em Dubai e viajei com a Emirates. Mas na hora de passar pelo controle de passaporte, acabei esquecendo minha bagagem de mão (maleta com filmadora, máquina digital...) Meu guia que me acompanhou na viagem, foi até lá e se encontra com o achados e perdidos no aeroporto de Dubai. Mas como não falamos mto bem inglês, não estamos conseguindo que nos mandem para São Paulo no p´roximo voo da Emirates. A polícia federal me sugeriu q entrasse em contato com o Consulado do Brasil no Dubai. Vc poderia me dar alguma idéia de como proceder??
Obrigado
Ari Jr


Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Segunda-feira, 04 Agosto, 2008

Meu camarada,

A Emirates Airlines tem um escritório no Aeroporto de Guarulhos com funcionários brasileiros. O telefone do escritório não está disponível em nenhum lugar mas você pode dar uma ligadinha lá no Aeroporto pra perguntar: PABX:(11) 6445-2945.

Se eu fosse você, telefonaria no escritório deles ou até mesmo iria pessoalmente munido de seus documentos e do canhoto da passagem aérea e relatar o ocorrido. As empresas aéreas têm um procedimento padrão de recuperação de bagagem, e isso é mais ou menos organizado no Aeroporto de Dubai. Se a sua bagagem já chegou a ser localizada, então você tem grandes chances de recuperá-la.

Boa sorte!

Luis

1.8.08

Fonoaudióloga?

MENEZES, ANGELICA deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: emprego em Dubai?":

Bom Dia Luís,
Hoje assisti uma bela reportagem sobre Dubai e fiquei encantada com a beleza e principalmente com a qualidade de vida.
Sou brasileira, formada há 8 anos em Fonoaudiologia e pós graduada em Motricidade Oral. Isso é estranho pra você? Pra muitos brasileiros também. É uma área de saúde, que lida com dificuldades de voz,linguagem, audição e muito importante na reabilitação de alterações vocais presentes muitas vezes em profissionais que fazem muito uso da voz no trabalho e também muito importante para reabilitação de alterações neurológicas envolvendo alimentação, fala, compreensão,voz etc.
Sou apaixonada pelo que faço, porém nada ouvi dizer sobre como é a área de saúde em Dubai e em outras regiões dos Emirados Árabes.
Como tenho imensa vontade de morar no exterior, conhecer outras culturas e principalmente trabalhar e aprender novas técnicas relacionadas à minha área. Estou disposta a enfrentar esse desafio de disseminar meu trabalho.
Aguardo contato para saber maiores informações na área de saúde dos Emirados Árabes.

Respeitosamente,
Angélica Menezes
Brasília,DF - Brasil



Minha querida Angélica Menezes,

Sua área tem espaço sim em Dubai. Um bom começo é procurar uma vaga em um hospital ou clínica para "sentir". Mas atenção: é bem provável que eles peçam uma certificado de qualificação de algum conselho de medicina norte-americano, europeu ou inglês (sic)...

A área de saúde está em franca expansão. O carro-chefe da área de saúde hoje é o Health Care City, um condomínio, ou vamos dizer, um conglomerado de prédios que aspira a se tornar um centro de referência médica em todo o Oriente Médio.

Veja bem: Health Care City não é uma empresa. Assim como outros condomínios (digamos assim) como Dubai Media City, Dubai Internet City, etc, o Dubai Health Care City é um condomínio temático destinado à investimentos na área de saúde. Isso significa que o governo de Dubai aluga os prédios para investidores de peso na área de saúde. Resumindo, não procure empregos no site do Dubai Health Care City, mas dos hospitais, clínicas e laboratórios que lá irão se instalar.

Um comentário à parte: é compreensível o desejo de criar aqui um centro de excelência na área de saúde. Até meados dos anos 60, não havia hospitais nos emirados que formam hoje os Emirados Árabes Unidos e até pouco tempo atrás era comum o governo de Dubai pagar para seus cidadãos tratamentos de saúde no exterior por falta de pessoal qualificado.

No mais, é isso: cuidado com as paixões, com as empolgações. As imagens que fazemos das pessoas e cidades quando em um estado de paixão raramente correspondem à realidade (seja lá o que isso venha a ser).

Se você é uma pessoa puritana, vai adorar a nova guinada moralista do governo de Dubai de prender gente na praia e nos shoppings por "vestimentas indecentes". Foram 80 na praia, e mais uns 40 nos shoppings logo no primeiro fim-de-semana. Eu achava isso tudo um saco, uma infantilidade. Dias atrás, um casal inglês foi preso de tarde na praia, só porque estavam fazendo essa coisa linda que une as pessoas, faz criancinhas e faz a economia crescer, que a gente chama de amor. Oras...

...enfim, Dubai foi uma fase importante, mas hoje, pra mim, Dubai é como a piada sobre os dois prazeres de uma mulher que faz sexo com gordo: quando ele começa e quando ele termina (e sai de cima).

É isso: os maiores prazeres de Dubai são também dois: quando a gente chega... e quando a gente vai embora.

Abraços e beijos de um ex-sheik,
exilado, feliz, contente e sem tempo (digo, para escrever)

Luís

20.6.08

Paris F. C.

E você deve estar se perguntando: acabou o Dubai F.C.?

Veja bem... não acabou, mas anda me faltando tempo para atualizar...

... falta de tempo, concordo: bela desculpa. Falta de tempo não existe, o que ocorre de fato é uma mudança de prioridades. E enquanto a prioridade não chega de volta ao Dubai F.C., fica aqui um novo endereço: Paris F.C..

É isso aí.

Beijocas de um ex-sheik,

Luís

12.6.08

12 de junho

É de manhã: moça decidida que vai ao comércio pensando no moço. Loja de lingeries: "De renda". Papelaria: "De carta". Perfumaria. Escolheu e escolheu e escolheu e estendeu o cartão: "Parcela em três vezes?"

É tarde, sol que atravessa a vidraça, ilumina a moça que desenha. Giz preto sobre a folha bege. Fantasias, versos de Adélia Prado:

Janela

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora,
monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném,
a mãe do Pedro Cisterna urinando na chuva,
por onde vi meu bem chegar de bicicleta
e dizer a meu pai: minhas intenções com sua filha
são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.


É quase noite. Banho, roupa nova, maquiagem, embalagem com um cartão. Espera...

Espera. O moço que chega suado de bicicleta vestido de dia comum. Espanto: "Tem festa hoje?".

É noite. Desencanto: louça partida. Conserto? Colam-se os cacos... mas ficam as marcas.

6.6.08

"A morte de um sheikh?!" ou "Em busca de Passárgada"

Paris, 06 de junho de 2008



(repare leitor, já começo este post arrotando caviar. O que escrevo abaixo deve ser importante...)



Caro leitor,


Lendo agora o título acima, penso que é forte e desmedido: talvez eu o mude para "O exílio de um Sheikh", pois é o que de fato ocorreu.

Sim, leitor: fugi às pressas de Dubai, apenas com alguns alforjes e um camelo. Viagem longa: da despedida em Dubai foram muitos dias de viagem até aqui chegar:



... de barco até Bandar Lengeh (Irã)...



... de ônibus até Shiraz com temperaturas acima de 45 graus ...



... de camelo atravessei planícies agrícolas, montanhas e desertos...




... até chegar em Isfahan, a cidade mais bonita da Pérsia:





E como cheguei até aqui? Longa história, leitor. Você é demasiado curioso.





Fuga, mas também um período de imersão. Imersão na hospitalidade persa.




Imersão em reflexões sobre o tempo e sobre a brevidade de nossa existência, seja como indivíduo, seja como nação, nas ruínas de Persépolis, Passárgada, Nagh-e-Rostam...





Repare no guarda tirando catota do nariz ao lado da coluna onde está escrito "Eu sou Ciro, Rei da Pérsia", em Passárgada. O guarda ali e eu aqui, tentando entender Manuel Bandeira...

Durante esse período refleti muito sobre o novo papel desse blog. Dei cabeçadas na parede. Enfiei farpas de palha sob minhas unhas. Lixei meus dentes nas pedras das ruínas. Pedalei em subidas com sol quente, em planícies com vento-contra. Fiz cocô em latrinas e limpei com o dedo.

Acalme-se, leitor. Este blog continua a ser redigido em meu exílio. Era assim na década de 70 no Brasil, né? Cantores cansavam de lutar contra o regime e se exilavam em Paris, Londres... que luxo.

Que luxo? Quem já foi rei, nunca perde a majestade. Confesso que estou ainda muito triste: estou com uma saudade enorme da quantidade de homens de Dubai, do aperto nos elevadores da Shatta Tower. Do barulho constante dos aparelhos de ar-condicionado. Mas aí tomo um café, como uma baguete, vejo meninas pedalando pelas ruas... e ela logo passa.

Não me entenda mal: minha intenção não é lutar contra o regime. Não quero mudar o mundo. Esta nova fase deste blog não é uma fase de revanche, o que importa é o amor. Dias atrás um rapaz aqui me abordou:

Dubai?! Por que é que você saiu de lá? Dubai é lindo! Dubai é um paraíso! Eu vi na TV!


Esse comentário entrou pelos meus ouvidos como um pão seco descendo pela garganta, sem água. Veja bem...

... é como eu disse: não quero mudar o mundo. Continuarei dando dicas até que elas se esgotem por si só, tornem-se antigas. A diferença é que agora o faço apenas com um pouquinho mais de liberdade, menos temores.

E o ex-sheikh aqui ficará feliz se a leitura deste blog (e de todo o histórico aqui acumulado em quase 2 anos) ajude a reduzir a distância entre as (enormes) expectativas de quem vê Dubai pela TV e de quem chega na cidade para morar. E que cada um consiga encontrar a sua Passárgada, inclusive eu.

É isso. Beijos e abraços de um ex-sheik.

Luís

22.5.08

Drinking water



Pia em uma rua, ao lado de uma mesquita...



A palavra correta seria "waste". Mas estudar o erro alheio ajuda a entender como o outro vê e interpreta o mundo ao seu redor.

Em árabe há uma letra, و, cuja pronúncia é ua. Curiosamente, é sempre transcrita para o alfabeto ocidental como w ou wa. Esta letra, sozinha, significa "e".

Assim, parece-me que, pensando com a cabeça de alguém alfabetizado em árabe, wiste faz todo o sentido, com a exceção do "i" alienígena.

Mais curioso ainda é ver que em farsi, و pronuncia-se como "va" e esta letra, sozinha, também significa "e". Isso também explica por que iranianos que aprenderam tardiamente inglês tendem a pronunciar todos os "w"s como "v"s: vere are you?, I vant vater. Ven is your flight?

Alguns indianos também tem essa pronúncia "envezada", mas não tenho idéia do por que.

Enfim.

Isto é tchicu

Isto é o tchicu...



... que vem da Índia.



Parece kiwi, mas não é (é muito melhor).

Em uma cafeteria em Deira: Chicoo Milk shake LARGE - 10 dirhams

21.5.08

Arfan, um afegão

Mais um táxi, mais um aceno. Finalmente um táxi com motorista de bigode e óculos escuros pára:

- Good afternoon, sir.
- Umm Suqeim, please.
- Sheik Zayed Road? Al Wasl?
- Sheik Zayed Road, please, I'm in a hurry, it needs to be fast...
- Ok, sir...

No rádio, sintonia no canal indiano, cantora de voz aguda. Ao chegar na rodovia, o táxi é ultrapassado por uma BMW da polícia.

- No seu país, como são os carros da polícia? São como esses?
- Não, não são BMW...
- E são como?
- Bom... são carros novos, mas não caros como esses...

Ele acena para o porta-luvas:

- Abra. Há fotos de carros de polícia aí dentro.

De fato, ali estavam duas fotos. Em uma dois rapazes com fardas policiais posam ao lado de uma motocicleta da Polícia. No outro, os mesmos 2 rapazes posam ao lado de uma caminhonete Mitsubishi:

- American car, sir! Bullet proof!
- Algum parente?

Ele tira os óculos e aponta para o policial de olhos claros, topete, farda e sandálias.

- Este aqui sou eu... - mas o tempo cobra seu preço, levou seu topete, aumentando a testa:

- Isso foi lá em 91 e 92. Afeganistão!

Boa parte dos paquistaneses e afegãos possuem olhos claros. Dizem que é um resquício da passagem do exército de Alexandre, o Grande, pela região.

- Então você fala Dari?
- Não, não. Eu falo Pachtu!
- Então é pertinho do Paquistão...
- Sim. Em uma distância como que daqui no Western Union (do outro lado da Sheik Zayed) e você está no Paquistão. Mas agora o Paquistão fechou a fronteira com cercas e arame farpado...
- 91, 92... isso já é época dos Talebãs, não é?
- sim, sim! Eles ainda têm muito poder na minha cidade. Por isso que vim para Dubai. Agora os talebãs visam Mas minha vaga está garantida: sou registrado. Quando os talebãs forem eliminados, volto para a Polícia!
- bom... pela sua opinião, vejo que você não acredita que eles são bons para o país...
- Olha, só... o Islã, não é essa coisa violenta. Você não pode sair por aí matando desse jeito em nome do Islã. O Islã é amor, é paz...
- Então você mora sozinho aqui?
- Não, minha esposa acabou de ir para a Índia, de férias... ela é indiana, de Mumbai...

Ele vai contando como é que um afegão se casa com uma indiana. Trabalhavam juntos no Spinneys: ela, supervisora de frota; ele, motorista. Até um dia em que chegou para ela e disse:

- Aprecio muito a nossa amizade. Gostaria que você pensasse a respeito. Gostaria de tê-la a meu lado.
- Preciso de um tempo para pensar.

Passada uma semana, ela troca seu turno de diurno para noturno. Ele protesta:

- Isso não é correto!
- Por favor, aguarde, aguarde. Já há pessoas na empresa desconfiadas...

Passou mais um mês até um dia em que perdeu a paciência: comprou uma flor, uma rosa, coisa de 8 a 10 dirhams. Colocou a melhor roupa e foi de manhã no supermercado e fez uma declaração mais ou menos assim, na frente de todo mundo:

- Escuta! Não me importa sua religião, língua ou sua nacionalidade. A única coisa que eu quero é ficar com você.

Ela protesta:

- Mas você já é casado no seu país!

Ai eu pergunto:

- Mas você já era casado no Afeganistão?

Ele se defende:

- Sim! Mas eu fiz tudo certinho: pedi permissão!
- E a esposa afegã? aceitou?
- Sim!!!
- Bom... neste caso, se ela aceitou, então tudo bem!
- Sim! E a indiana aceitou! Todos os colegas que estavam ali bateram palmas...

Ele conta orgulhoso das qualidades de suas esposas: a afegã, descendente de Tadjiks. "A família dela veio lá do norte, ele é diferente... mas falamos em pachtu, no problem...". A indiana, sua ex-chefe, mulher independente. "Eu não sei explicar, não sei se é a pele, o cheiro, ou o jeito: a indiana me atrai!"

O táxi sai da Sheik Zayed e se aproxima do semáforo da Al Manara Street com Al Wasl Road:


- Left, sir?
- No, straight ahead.


Uma boa oportunidade para mudar de assunto:

- E você, vem de onde?
- Brasil...
- Ah, very good football players... the best. Pelé, Ronaldo, Roberto... Já ouviu falar de Pelé?
- Sim, acho que já ouvi falar...
- Man, bola no pé de Pelé é gol! 100%! Pelé is a poet! Pelé is the best!

Chegamos. Ele não precisava falar de futebol para ganhar simpatia. No marcador está 27 DH. Tiro 30 DH. Ele procura moedas de troco. Mas 3 DH não pagam uma boa estória...

- Thank you, sir.
- What your name, again?
- Arfan! From Afganistan!


Arfan, do Afeganistão: sorriso largo de dentes abertos. Um aperto de mão. Desejo boa sorte para ele e suas esposas. Ele abre as mãos, olha para o céu e diz "Inch'Allah! God bless you, too!".

Marido quer ir pra Dubai...

Lika deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Minha querida aula de árabe II":

Olá,

Meu nome é Alice e moro em Salvador. Meu marido é italiano e professor de inglês, e
agora está com vontade de trabalhar em Dubai pois se cansou do carnavalismo diário baiano. Tá cheio de festa, festa e festa. Acontece que eu só falo 3 palavras em inglês: Num Lock, Caps Lock e Scroll Lock; estão escritas aqui no meu teclado.
Vc acha que minha vida aí será um mar de rosas? Que diabos posso eu fazer aí pra não morrer de tédio? Será que posso dar aulas de samba ou fazer um show de axé/afro em algum hotel? Porque vida de dona-de-casa-24hs seja lá em que país for já me deixa cheia de bolotas roxas.

Será que meu digníssimo vai conseguir um trabalho que dê a ele din-dim suficiente para pagar meu psiquiatra, já que vou ter depressão pós chegada a Dubai? Eu preferia ir para a Polinésia mas quem vai tirar essa idéia infâme da cabeça desse tresloucado?

Vc pode me dar umas dicas? Não sei se estou sendo pessimista mas tô vendo "hara" pela frente.

Bjs Sheik


Postado por Lika no blog Dubai F. C. em Segunda-feira, 19 Maio, 2008

Olá Lika,

Há algumas brasileiras na região na situação que você descreve: seus maridos, brasileiros ou não, trabalham por aqui, e elas não falam inglês. Muitas têm crianças para cuidar, o que preenche o tempo, outras não.

Sem inglês, fica difícil de encontrar trabalho por aqui. Torna quase impossível tirar carta de motorista (não defendo o transporte motorizado individual, mas em Dubai, é como uma carta de alforria). Sem inglês, seu círculo de amigos acaba ficando restrito à comunidade lusófona ou à italiana (não há muitos, mas há).

Sem emprego, Dubai acaba se resumindo a: praias, supermercados, salões de beleza shopping centers, compras, compras, compras... e até psiquiatras. Se você gosta de esportes, há também muito o que fazer.

O salário pagará as contas? Bom, aí já é outra estória: todos os professores de inglês que conheci são jovens e solteiros e eles não davam aulas em Dubai, mas nos outros emirados e cidades, onde a presença estrangeira não é tão grande. Salvo raras exceções, oriundos de países onde inglês é sua língua nativa. De repente, vale a pena uma viagem de férias até aqui para conferir.

Boa sorte!

Abraço de sheik,

Luís

20.5.08

Dubai World Cup: a calcinha com franjas

Ao final do evento, a amiga belga liga para a Anna:

- Estamos na área corporativa! Venham para cá!

Na entrada, uma loira de vestido relativamente curto e e penacho na cabeça já descalça vem nos entregar os crachás:

- Hi, my name is... and yours?
- Anna
- ... and you...
- Luís
- Oh! Na verdade, eu já tinha te visto antes. Eu estava comentando com minha amiga hoje à tarde... você é diferente... vocês são namorados?
- Não, somos amigos - foi o que a Anna disse.
- Ah, então não tem problema - a moça australiana se empolga e pega no meu braço - você é lindo!

Mesmo entre amigos este tipo de comentário causa constrangimento. Saída diplomática rumo ao casal belga. Fotos. O garçom aparece e assume que gosto de uísque:

- Red Label? Jack Danniel's?

Essa história de beber uísque de barriga vazia após algumas cervejas não é algo sensato. Mas não estou dirigindo, então tudo bem. Mas não quero ressaca, melhor comer. Na mesa, aperitivos: queijos, salgados, doces. Na volta, a loira me intercepta, agora com outra amiga:

- Oi, esta é minha amiga colombiana. Amiga, este é o Luís...

A colombiana diz algo ao ouvido da australiana, que responde em voz alta:

- Não! Não tem problema, eles são só amigos!
- Aaaah booom! Então não tem problema!!! - agora as duas me puxam, uma por cada braço, e me jogam no sofá. A colombiana está ao meu lado cruza os braços com o meu. A australiana senta-se na mesinha baixa (daquelas mesas de sala que as mães não deixam os filhos apoiarem o pé enquanto assistem TV) cruza as pernas e com uma das mãos, alisa minha perna. Eu, um acessório de luxo, colocado entre elas, enquanto conversam. "Ele é tímido! Que fofo!", diz uma delas. E elas tinham muito assunto para conversar:

- Cicatriz? Vou te mostrar o que é uma - então a colombiana se levanta e abre o corte do vestido longo para mostrar uma enorme cicatriz no quadril, na altura da cintura. Belas pernas, mas a cicatriz, coisa feia. Coisa para uns 20 pontos.

- Eu estava no carro com minha mãe. Foi um acidente...

O garçom chega com mais uísque. Ah, a eterna disputa darwiniana... os seres humanos tentam disfarçar, mas no fundo, até uma inocente conversa sobre cicatrizes se resume a uma medição de forças ... a australiana se levanta:

- então vou te mostrar a cicatriz que tenho.

Ela sobe o vestido até acima do umbigo. Barriguinha de quem faz ginástica. Calcinha - bem dizer, calcinha, não: tanguinha - branca com detalhes verdes que combinam com o vestido - branco de detalhes verdes. Tanguinha muito pequena para aquilo que esconde: Tanguinha com franjinhas... e eu aqui me pergunto por que uma loira tem pelos pubianos castanhos. Na altura do rim direito, uma série de marcas de cortes.

- Suas cicatrizes são lindas.

Sou interrompido com um rapaz sorridente que chega, e para o qual a colombiana se levanta e dá um longo e apertado abraço. A colombiana volta a se sentar enquanto ele diz algo à australiana e vai embora. É prudente realizar uma vistoria, e a colombiana tem um anel no dedo esquerdo:

- El es tu marido?

A esta altura, a Anna já está longe, sorriso-padrão, fingindo que não me vê, conversando com dois ou três homens. É quase meia-noite. Era o nosso trato para ir embora... a colombiana dá uma longa risada para a australiana:

- Você viu isso? Ele achou que o Fulano de Tal é meu marido! - e agora as duas riem juntas - hahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!

A australiana põe ternamente a mão em minha perna e me explica com ar didático:

- O Fulano de Tal é meu marido. O marido dela é aquele ali - e aponta para um inglês que está no balcão, e que a algum tempo olha para nós com aquele sorriso "não doeu".

Ele se aproxima sorrisa e me comprimenta. Aperto de mão longo, apertado. Longo. Apertado. Bom, eu não tenho nada com isso:

- Eu vou ali e já volto.

Aproximo-me do garçom:

- Água?
- Sim, sim. Mas tome também esse vinho do Porto.

Anna agora está sentada em uma mesa mais afastada do resto das mesas e conversa com um árabe de Omã. Mas ela já me disse que não quer nada com árabes. Ela cruza a perna esquerda sobre a direita. O rapaz, de fraque, dá os ombros para o resto do pessoal, fechando a vista.

Volto ao sofá: o marido inglês agora ocupa o meu lugar e segura firmemente a mão da garota. E segue com o mesmo sorriso... mas já é quase 1h, estou quase dormindo em pé. Como interromper uma conversa sem parecer ciumento?

- Oi, ... é ... então, Anna, já são quase 1h...
- Quando quiser ir embora, me avisa...
- Só vou ao banheiro e já volto...
- Ok.

O rapaz me olha com uma cara de reprovação. Eu me desculpo:

- Não quero interromper, mas... pegue o telefone dela, depois vocês combinam alguma coisa...

Reconheço: essa história de sugerir para trocar o telefone soou meio artificial. Ciúmes, eu? Na hora de me despedir, a australiana não se intimida. Abraçada ao marido, diz em alto e bom som:

- Nice to meet you. Você foi o cara mais atraente que conheci hoje.

Lá fora, silêncio... tento quebrar o gelo:

- É... acho que a moça foi meio inconveniente...
- Mas ela não é casada?
- É...
- Que coisa...
- É... que coisa.

E até hoje, quando lembro da calcinha com franjas, arrependo-me de não ter pego o telefone. Pensando bem, melhor assim. Ou não.