22.5.08

Drinking water



Pia em uma rua, ao lado de uma mesquita...



A palavra correta seria "waste". Mas estudar o erro alheio ajuda a entender como o outro vê e interpreta o mundo ao seu redor.

Em árabe há uma letra, و, cuja pronúncia é ua. Curiosamente, é sempre transcrita para o alfabeto ocidental como w ou wa. Esta letra, sozinha, significa "e".

Assim, parece-me que, pensando com a cabeça de alguém alfabetizado em árabe, wiste faz todo o sentido, com a exceção do "i" alienígena.

Mais curioso ainda é ver que em farsi, و pronuncia-se como "va" e esta letra, sozinha, também significa "e". Isso também explica por que iranianos que aprenderam tardiamente inglês tendem a pronunciar todos os "w"s como "v"s: vere are you?, I vant vater. Ven is your flight?

Alguns indianos também tem essa pronúncia "envezada", mas não tenho idéia do por que.

Enfim.

Isto é tchicu

Isto é o tchicu...



... que vem da Índia.



Parece kiwi, mas não é (é muito melhor).

Em uma cafeteria em Deira: Chicoo Milk shake LARGE - 10 dirhams

21.5.08

Arfan, um afegão

Mais um táxi, mais um aceno. Finalmente um táxi com motorista de bigode e óculos escuros pára:

- Good afternoon, sir.
- Umm Suqeim, please.
- Sheik Zayed Road? Al Wasl?
- Sheik Zayed Road, please, I'm in a hurry, it needs to be fast...
- Ok, sir...

No rádio, sintonia no canal indiano, cantora de voz aguda. Ao chegar na rodovia, o táxi é ultrapassado por uma BMW da polícia.

- No seu país, como são os carros da polícia? São como esses?
- Não, não são BMW...
- E são como?
- Bom... são carros novos, mas não caros como esses...

Ele acena para o porta-luvas:

- Abra. Há fotos de carros de polícia aí dentro.

De fato, ali estavam duas fotos. Em uma dois rapazes com fardas policiais posam ao lado de uma motocicleta da Polícia. No outro, os mesmos 2 rapazes posam ao lado de uma caminhonete Mitsubishi:

- American car, sir! Bullet proof!
- Algum parente?

Ele tira os óculos e aponta para o policial de olhos claros, topete, farda e sandálias.

- Este aqui sou eu... - mas o tempo cobra seu preço, levou seu topete, aumentando a testa:

- Isso foi lá em 91 e 92. Afeganistão!

Boa parte dos paquistaneses e afegãos possuem olhos claros. Dizem que é um resquício da passagem do exército de Alexandre, o Grande, pela região.

- Então você fala Dari?
- Não, não. Eu falo Pachtu!
- Então é pertinho do Paquistão...
- Sim. Em uma distância como que daqui no Western Union (do outro lado da Sheik Zayed) e você está no Paquistão. Mas agora o Paquistão fechou a fronteira com cercas e arame farpado...
- 91, 92... isso já é época dos Talebãs, não é?
- sim, sim! Eles ainda têm muito poder na minha cidade. Por isso que vim para Dubai. Agora os talebãs visam Mas minha vaga está garantida: sou registrado. Quando os talebãs forem eliminados, volto para a Polícia!
- bom... pela sua opinião, vejo que você não acredita que eles são bons para o país...
- Olha, só... o Islã, não é essa coisa violenta. Você não pode sair por aí matando desse jeito em nome do Islã. O Islã é amor, é paz...
- Então você mora sozinho aqui?
- Não, minha esposa acabou de ir para a Índia, de férias... ela é indiana, de Mumbai...

Ele vai contando como é que um afegão se casa com uma indiana. Trabalhavam juntos no Spinneys: ela, supervisora de frota; ele, motorista. Até um dia em que chegou para ela e disse:

- Aprecio muito a nossa amizade. Gostaria que você pensasse a respeito. Gostaria de tê-la a meu lado.
- Preciso de um tempo para pensar.

Passada uma semana, ela troca seu turno de diurno para noturno. Ele protesta:

- Isso não é correto!
- Por favor, aguarde, aguarde. Já há pessoas na empresa desconfiadas...

Passou mais um mês até um dia em que perdeu a paciência: comprou uma flor, uma rosa, coisa de 8 a 10 dirhams. Colocou a melhor roupa e foi de manhã no supermercado e fez uma declaração mais ou menos assim, na frente de todo mundo:

- Escuta! Não me importa sua religião, língua ou sua nacionalidade. A única coisa que eu quero é ficar com você.

Ela protesta:

- Mas você já é casado no seu país!

Ai eu pergunto:

- Mas você já era casado no Afeganistão?

Ele se defende:

- Sim! Mas eu fiz tudo certinho: pedi permissão!
- E a esposa afegã? aceitou?
- Sim!!!
- Bom... neste caso, se ela aceitou, então tudo bem!
- Sim! E a indiana aceitou! Todos os colegas que estavam ali bateram palmas...

Ele conta orgulhoso das qualidades de suas esposas: a afegã, descendente de Tadjiks. "A família dela veio lá do norte, ele é diferente... mas falamos em pachtu, no problem...". A indiana, sua ex-chefe, mulher independente. "Eu não sei explicar, não sei se é a pele, o cheiro, ou o jeito: a indiana me atrai!"

O táxi sai da Sheik Zayed e se aproxima do semáforo da Al Manara Street com Al Wasl Road:


- Left, sir?
- No, straight ahead.


Uma boa oportunidade para mudar de assunto:

- E você, vem de onde?
- Brasil...
- Ah, very good football players... the best. Pelé, Ronaldo, Roberto... Já ouviu falar de Pelé?
- Sim, acho que já ouvi falar...
- Man, bola no pé de Pelé é gol! 100%! Pelé is a poet! Pelé is the best!

Chegamos. Ele não precisava falar de futebol para ganhar simpatia. No marcador está 27 DH. Tiro 30 DH. Ele procura moedas de troco. Mas 3 DH não pagam uma boa estória...

- Thank you, sir.
- What your name, again?
- Arfan! From Afganistan!


Arfan, do Afeganistão: sorriso largo de dentes abertos. Um aperto de mão. Desejo boa sorte para ele e suas esposas. Ele abre as mãos, olha para o céu e diz "Inch'Allah! God bless you, too!".

Marido quer ir pra Dubai...

Lika deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Minha querida aula de árabe II":

Olá,

Meu nome é Alice e moro em Salvador. Meu marido é italiano e professor de inglês, e
agora está com vontade de trabalhar em Dubai pois se cansou do carnavalismo diário baiano. Tá cheio de festa, festa e festa. Acontece que eu só falo 3 palavras em inglês: Num Lock, Caps Lock e Scroll Lock; estão escritas aqui no meu teclado.
Vc acha que minha vida aí será um mar de rosas? Que diabos posso eu fazer aí pra não morrer de tédio? Será que posso dar aulas de samba ou fazer um show de axé/afro em algum hotel? Porque vida de dona-de-casa-24hs seja lá em que país for já me deixa cheia de bolotas roxas.

Será que meu digníssimo vai conseguir um trabalho que dê a ele din-dim suficiente para pagar meu psiquiatra, já que vou ter depressão pós chegada a Dubai? Eu preferia ir para a Polinésia mas quem vai tirar essa idéia infâme da cabeça desse tresloucado?

Vc pode me dar umas dicas? Não sei se estou sendo pessimista mas tô vendo "hara" pela frente.

Bjs Sheik


Postado por Lika no blog Dubai F. C. em Segunda-feira, 19 Maio, 2008

Olá Lika,

Há algumas brasileiras na região na situação que você descreve: seus maridos, brasileiros ou não, trabalham por aqui, e elas não falam inglês. Muitas têm crianças para cuidar, o que preenche o tempo, outras não.

Sem inglês, fica difícil de encontrar trabalho por aqui. Torna quase impossível tirar carta de motorista (não defendo o transporte motorizado individual, mas em Dubai, é como uma carta de alforria). Sem inglês, seu círculo de amigos acaba ficando restrito à comunidade lusófona ou à italiana (não há muitos, mas há).

Sem emprego, Dubai acaba se resumindo a: praias, supermercados, salões de beleza shopping centers, compras, compras, compras... e até psiquiatras. Se você gosta de esportes, há também muito o que fazer.

O salário pagará as contas? Bom, aí já é outra estória: todos os professores de inglês que conheci são jovens e solteiros e eles não davam aulas em Dubai, mas nos outros emirados e cidades, onde a presença estrangeira não é tão grande. Salvo raras exceções, oriundos de países onde inglês é sua língua nativa. De repente, vale a pena uma viagem de férias até aqui para conferir.

Boa sorte!

Abraço de sheik,

Luís

20.5.08

Dubai World Cup: a calcinha com franjas

Ao final do evento, a amiga belga liga para a Anna:

- Estamos na área corporativa! Venham para cá!

Na entrada, uma loira de vestido relativamente curto e e penacho na cabeça já descalça vem nos entregar os crachás:

- Hi, my name is... and yours?
- Anna
- ... and you...
- Luís
- Oh! Na verdade, eu já tinha te visto antes. Eu estava comentando com minha amiga hoje à tarde... você é diferente... vocês são namorados?
- Não, somos amigos - foi o que a Anna disse.
- Ah, então não tem problema - a moça australiana se empolga e pega no meu braço - você é lindo!

Mesmo entre amigos este tipo de comentário causa constrangimento. Saída diplomática rumo ao casal belga. Fotos. O garçom aparece e assume que gosto de uísque:

- Red Label? Jack Danniel's?

Essa história de beber uísque de barriga vazia após algumas cervejas não é algo sensato. Mas não estou dirigindo, então tudo bem. Mas não quero ressaca, melhor comer. Na mesa, aperitivos: queijos, salgados, doces. Na volta, a loira me intercepta, agora com outra amiga:

- Oi, esta é minha amiga colombiana. Amiga, este é o Luís...

A colombiana diz algo ao ouvido da australiana, que responde em voz alta:

- Não! Não tem problema, eles são só amigos!
- Aaaah booom! Então não tem problema!!! - agora as duas me puxam, uma por cada braço, e me jogam no sofá. A colombiana está ao meu lado cruza os braços com o meu. A australiana senta-se na mesinha baixa (daquelas mesas de sala que as mães não deixam os filhos apoiarem o pé enquanto assistem TV) cruza as pernas e com uma das mãos, alisa minha perna. Eu, um acessório de luxo, colocado entre elas, enquanto conversam. "Ele é tímido! Que fofo!", diz uma delas. E elas tinham muito assunto para conversar:

- Cicatriz? Vou te mostrar o que é uma - então a colombiana se levanta e abre o corte do vestido longo para mostrar uma enorme cicatriz no quadril, na altura da cintura. Belas pernas, mas a cicatriz, coisa feia. Coisa para uns 20 pontos.

- Eu estava no carro com minha mãe. Foi um acidente...

O garçom chega com mais uísque. Ah, a eterna disputa darwiniana... os seres humanos tentam disfarçar, mas no fundo, até uma inocente conversa sobre cicatrizes se resume a uma medição de forças ... a australiana se levanta:

- então vou te mostrar a cicatriz que tenho.

Ela sobe o vestido até acima do umbigo. Barriguinha de quem faz ginástica. Calcinha - bem dizer, calcinha, não: tanguinha - branca com detalhes verdes que combinam com o vestido - branco de detalhes verdes. Tanguinha muito pequena para aquilo que esconde: Tanguinha com franjinhas... e eu aqui me pergunto por que uma loira tem pelos pubianos castanhos. Na altura do rim direito, uma série de marcas de cortes.

- Suas cicatrizes são lindas.

Sou interrompido com um rapaz sorridente que chega, e para o qual a colombiana se levanta e dá um longo e apertado abraço. A colombiana volta a se sentar enquanto ele diz algo à australiana e vai embora. É prudente realizar uma vistoria, e a colombiana tem um anel no dedo esquerdo:

- El es tu marido?

A esta altura, a Anna já está longe, sorriso-padrão, fingindo que não me vê, conversando com dois ou três homens. É quase meia-noite. Era o nosso trato para ir embora... a colombiana dá uma longa risada para a australiana:

- Você viu isso? Ele achou que o Fulano de Tal é meu marido! - e agora as duas riem juntas - hahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!

A australiana põe ternamente a mão em minha perna e me explica com ar didático:

- O Fulano de Tal é meu marido. O marido dela é aquele ali - e aponta para um inglês que está no balcão, e que a algum tempo olha para nós com aquele sorriso "não doeu".

Ele se aproxima sorrisa e me comprimenta. Aperto de mão longo, apertado. Longo. Apertado. Bom, eu não tenho nada com isso:

- Eu vou ali e já volto.

Aproximo-me do garçom:

- Água?
- Sim, sim. Mas tome também esse vinho do Porto.

Anna agora está sentada em uma mesa mais afastada do resto das mesas e conversa com um árabe de Omã. Mas ela já me disse que não quer nada com árabes. Ela cruza a perna esquerda sobre a direita. O rapaz, de fraque, dá os ombros para o resto do pessoal, fechando a vista.

Volto ao sofá: o marido inglês agora ocupa o meu lugar e segura firmemente a mão da garota. E segue com o mesmo sorriso... mas já é quase 1h, estou quase dormindo em pé. Como interromper uma conversa sem parecer ciumento?

- Oi, ... é ... então, Anna, já são quase 1h...
- Quando quiser ir embora, me avisa...
- Só vou ao banheiro e já volto...
- Ok.

O rapaz me olha com uma cara de reprovação. Eu me desculpo:

- Não quero interromper, mas... pegue o telefone dela, depois vocês combinam alguma coisa...

Reconheço: essa história de sugerir para trocar o telefone soou meio artificial. Ciúmes, eu? Na hora de me despedir, a australiana não se intimida. Abraçada ao marido, diz em alto e bom som:

- Nice to meet you. Você foi o cara mais atraente que conheci hoje.

Lá fora, silêncio... tento quebrar o gelo:

- É... acho que a moça foi meio inconveniente...
- Mas ela não é casada?
- É...
- Que coisa...
- É... que coisa.

E até hoje, quando lembro da calcinha com franjas, arrependo-me de não ter pego o telefone. Pensando bem, melhor assim. Ou não.

19.5.08

Dubai World Cup


Vou escrever um pouquinho sobre o Dubai World Cup, a corrida internacional de cavalos que ocorreu este ano no final de março, marcando assim o fim da estação em que se pode andar de terno à tarde... foi o evento mais luxuoso que já participei.

O local

O local faz jus ao nome: Nad-Al Xiba. Não tem nada por lá, além de areia. As gruas são da construção de Meydan, anunciada no ano passado e que ocupa a área onde antes havia um clube de Golfe. Bem maior que a atual, a previsão é que a nova pista esteja pronta para o ano que vem, inch'Allah.


A organização

Em uma cidade com um transporte público deficiente e onde cada cidadão tem um carro, a organização preparou estacionamentos gigantes no deserto ao redor de Nad Al Xiba, com micro-ônibus realizando o traslado gratuitamente até a entrada. O problema foi a fila: a organização errou ao deixar apenas dois portões para a maior parte do público pagante que se dirigia à International Village. Resultado: quem chegou cedo, como eu, perdeu apenas a chance de participar das "apostas" gratuitas e as garotas, como a Anna, amiga armênia que me acompanhou, perderam a chance de participar no "Concurso de moda". Enfim... nada grave.

Agora, quem chegou tarde... esses amargaram ao menos 1:30h na fila, e perderam a primeira e a segunda corrida. Se bem, que uma vez lá dentro, fica-se com a impressão que a competição é o de menos...

Pessoas

Árabes em trajes nacionais. Japoneses em quimonos. Escoceses em quiltes. Indianos com seus turbantes. Garotas de vestidos exóticos, chapéus que parecem algodão-doce.
É sem dúvida, o evento de gala mais esperado do ano, e todos se produzem para vir até aqui. E é acessível: 180 dirhams a entrada, coisa de 90 reais. E no Brasil, quando custaria a entrada a um evento destes? Sem contar que havia também a área gratuita...


O evento

As corridas ocorreram durante toda a tarde até o final da noite, enquanto boa parte dos presentes preferiam a agitação do Bubble lounge, dos estandes dos restaurantes e bares que vendiam toda sorte de bebidas alcoólicas.

Após a última corrida, o prêmio foi entregue ao vencedor pelo próprio sheik, seguido de apresentações artísticas e queima de fogos.

Não sou fã de cavalos, tampouco de corridas de cavalos. Mas foi uma experiência interessante.


A saída

A saída, assim como a entrada, foi um caos. Mesmo depois da meia-noite, mais de 3h após o encerramento da festa, a saída era um congestionamento só, e as pessoas disputavam a tapa um lugar nos micro-ônibus que levavam aos estacionamentos. A coisa só não foi pior graças ao bom-humor de alguns motoristas de micro-ônibus.

Tenho ainda alguns vídeos aqui, talvez depois eu os publique.

Golfo Pérsico. Ou Golfo Árabe?

Tempos atrás, ao postar um vídeo no YouTube sobre a vitória dos Emirados Árabes em um campeonato de futebol regional, o Arabian Gulf Cup (Copa do Golfo Árabe, ou Copa Árabe do Golfo, de acordo com o gosto do cliente), fui supreendido com uma avalanche de comentários grotescos ultra-nacionalistas de iranianos espalhados pelo mundo. Em meio a diversos insultos - como seu eu fosse o responsável pela escolha do nome - veio a contra-reação árabe, e o que se seguiu, foi uma discussão - golfo árabe ou golfo pérsico? - se espalhou e poluiu outros vídeos, como o inocente vídeo de uma família iraniana que encontrei em um safari pelo deserto. Fui forçado a proibir comentários aos vídeos.

Por trás da discussão, os fatos: árabes e persas ocupam há muito tempo ambas as margens do golfo, com a linha fronteiriça que os separa oscilando para para o norte e para o sul conforme as variações no equilíbrio de forças entre os povos que aqui vivem e pressões externas. Esta região também sempre foi um importante entreposto comercial entre África e Índia, com um tráfego de pequenas embarcações que persiste até hoje. Não é por outra razão, que até a descoberta do petróleo, a moeda corrente utilizada onde hoje dos Emirados Árabes era a rúpia indiana. Não é por outra razão que a feição dos povos que vivem em cidades portuárias como Bandar Abbas (Irã) e Musqat (Omã) é um misto de árabes, indianos e africanos...

A linha que separa árabes e persas foi lá para o norte com o apogeu do Islã, que deixou marcas profundas na cultura persa, que adotou - e estendeu - o alfabeto árabe, incorporou palavras árabes, até o ponto em que a própria língua persa se diferenciou da língua falada no país antes das invasões: persas frequentemente se referenciar ao dari, o dialeto persa falado no Afeganistão, como a "língua pura", oriunda de Dario, sem as alterações sofridas ao longo dos anos pelas influências externas - árabe, francesa, ...

... e vieram as pressões externas: portugueses ocuparam a ilha de Hormuz e lá deixaram um forte: Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz. Ocuparam costa de Omã (árabes de olhos verdes? Herança portuguesa). Veio o império otomano e ocupou a região da mesopotâmia. Vieram os persas, agora com apoio inglês, e expulsaram os portugueses. Vieram os árabes de Ras Al Khaiman e controlaram a passagem pelo estreito. Vieram mais uma vez os ingleses aliados aos persas e bombardearam sua esquadra...

O Golfo passa a tomar feições mais árabes com o advento do petróleo: a riqueza financia um crescimento demográfico que é política de governo até os dias atuais.

- Sheik para de enrolar. O Golfo é persa ou é árabe?

Ah, leitor... não espere uma resposta fácil. Este hábito de chamar o Golfo de Árabe remonta ao Pan-Arabismo, movimento político laico do pós-1a Grande Guerra que visava a unificação dos povos árabes a partir dos destroços do Império Otomano, que ganhou força com Gamal Abdel Nasser no Egito e com a ascensão do partido Baath no Iraque, e que embora desmoralizado pela derrota árabe na Guerra dos Seis Dias contra Israel, possui até hoje grande influência na mídia do Oriente. Leitor! Quantas mortes resumidas em um parágrafo!

Assim, ao ler um jornal árabe ou uma comunicação oficial em um país árabe no Oriente Médio, saiba que o termo Golfo Árabe não está lá à toa. É digno de nota também que a mídia inglesa, em especial, refira-se atualmente a esta região simplesmente como O Golfo.

- E você Sheik, o que pensa a respeito?

Ah, leitor. Sinceramente, o golfo é pérsico ou árabe? E o falafel, é árabe ou persa? O nome não muda o que o golfo é, assim como a origem não altera o sabor do sanduíche, que continua a ter um gosto de... falafel. Pessoalmente, gosto do lanche, desde que não o chamem de felafel: isso me lembra felácio, e já imagino um pênis enrolado no pão... que horror. E entre um pedaço e outro de sanduíche (o falafel), preparo uma saída à francesa: Je m'en fous.

18.5.08

Para tomar tchicu


Oriente Médio. Golfo... um dia qualquer nas vizinhanças do Eixo do Mal. Tomo uma decisão: vou ao banco. O objetivo: transferir dinheiro para o Brasil. Dinheiro para comprar uma fazenda, ou talvez, alguns deputados (eles adoram...). Ou talvez, as duas coisas.

Sabe leitor: deputados adoram fazendas. Então nada melhor do que colocá-los lá, em um enorme rebanho... tudo bem, não falo mais de deputados, esta espécime rara. "Você sabe com quem está falando?", já se pronunciou um deles.


O Banco fica lá em Jebel Ali Free Zone (Zona Franca da Montanha Ali), pertinho do porto de mesmo nome. De montanha mesmo, não há muito mais do que uma colina, quase uma duna, onde estão algumas antenas parabólicas enormes. Por que Ali? Mania de querer saber o por quê de tudo. Mas eu explico: Ali foi primo e genro de Maomé. Mas porque ele virou nome de montanha, aí já não sei. É como querer explicar porque o nome o profeta varia tanto: Mohamed, Muhammed, Muhammad, Ahmad, Ahmed, Mahmud, ...

A transferência internacional no banco custa 80 dirhams, via internet, 50 dirhams. Mas como é muito dinheiro (malas e malas, leitor! Não seja pobre: fazendas custam caro), não há outra opção a não ser ir pessoalmente, com a minha caravana de camelos (Sim, eu sou um endinheirado. Ana tchor flos).

Nossa que calor! Enquanto a menina conta as inúmeras notas de 1000 dirhams, aproveito para tomar água. Água fesquinha, quase nem percebi quando a garota terminou de contar:

- Óquêi, sãr. Hévagudêi.

Dever cumprido, fome: hora de comer.


Entre um banco e outro, dois restaurantes: Muhammed Khalifa Restaurant. Eat & Drink Restaurant. Ótimo. Entro no mais bonitinho: Eat & Drink: 6 mesas de quatro lugares. Todos os assentos ocupados. Todos homens. Melhor tentar o outro. Mas a bexiga está cheia, não dá pra sentar.


- Vocês têm banheiro aqui?
- Sorry, sir...

Vamos tentar algo lá fora. Vamos perguntar para esse senhor sentado no bloco de cimento:

- Hi, do you know where the bathroom is?
- Sorry?
- Bathroom, restroom.
- Arab?
- No...
- Sorry, sir. No English.
- Toilet. Tovalet. Xixi. Cocô.
- No, sir...

Vamos lá. Eu consigo. Isso aqui deve ser uma mesquita... e bingo! Um banheiro. Mas a voz no microfone indica que é horário da oração e rapidamente, uma fila de barbudos se forma na entrada do banheiro. E todos olham para mim. Na parede, uma placa:

Proibida a entrada de não-muçulmanos

De certo, não haveria problemas em fazer um xixizinho. Menos feio do que tirar o pipi e fazer ali no deserto, na frente de todos. Mas essas coisas inibem a gente, e até a vontade de xixi passa. Ótimo, já dá para sentar. Volto ao restaurante. Este aqui tem mais mesas que aquele ao lado. O garçom aparece:

- Hi, sir!
- Can I see the menu?
- Yes, sir... - ele sai e vai à prateleira e sem nenhuma dúvida, puxa um pacote de batatas-fritas, derrubando tudo o que estava na prateleira. Isso o distrai: ele volta com o pacote de batatas-fritas e começa a reorganizar a prateleira. Um outro garçom se aproxima:

- Hi, sir!
- The menu...
- No menu, sir...
- O que você tem?
- Dagaladagalagadagalagada... and chicken biryani... and dagaladagalagadagalagada... dal.

Aceito o dal, que é feito de batata. Dal e pão, feito na hora. E só: era o que ele tinha de vegetariano. Na hora de pagar, tiro uma nota de 100 dirhams.

- Sorry, sir. It's only 3 dirhams. No change?

Três dirhams e eu apenas com uma nota de 100. Constrangedor:

- Hmm... no...
- Ok. No problems, sir.

E o que era quase de graça, sai constrangedoramente de graça. Mas também não matou a fome. Outra idéia, volto ao Eat & Drink:

- Hi sir! Do you have... chickoo drink?
- Yes, sir!

Está com fome? Pare em qualquer restaurante ou cafeteria indiana e peça um Chickoo Milkshake. Tchicu é uma frutinha marrom bem doce que no Brasil é mais alongada e chamada de sapoti. É muito comum na Índia e outros países da Ásia.

Enquanto espero a bebida, observo o fluxo: os garçons alternam-se entre atender a clientela e empacotar os pedidos para viagem. O telefone toca freneticamente.

Em uma mesa com rodinhas há um balde com talheres de plástico, e sacolas plásticas onde os pacotes para viagem são preparados. Entre um pacote e outro, um garfo vai ao
chão. O outro garçom passa e dá sua contribuição para o evitar o aquecimento global: pega o garfinho do chão e - óbvio - coloca-o novamente no balde de garfinhos limpos.

- Ok, sir.
- How much?
- 12

Pronto. Passo no restaurante ao lado e com o troco, pago o Dal. Hora de tomar tchicu.

Pequenos negócios no UAE

Foi lançada recentemente uma nova publicação bimestral nos Emirados Árabes, voltada para pequenos empresários, ou para pessoas interessadas em abrir um pequeno negócio nos Emirados Árabes.

A revista se chama Your Business e discute temas como o sucesso de pequenos empreendimentos, abertura de franquias, como montar um plano de negócio, etc.

Para maiores informações, clique aqui.

Escola de futebol

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Cuidados com vestimentas":

Ola Sheik Luis , gostaria de saber a possibilidade de trabalho no pais com uma escola de futebol para crianças ,e se e possivel trabalho ai para brasileiros, que tipo de trabalho disponivel. sou eu e minha esposa. obrigado


Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Quarta-feira, 14 Maio, 2008

Rapaz,

Bom, esta informação talvez não te ajude, mas se você já estiver no mundo do futebol, talvez isso possa lhe ser de alguma valia: certa vez, encontrei em uma das festas brasileiras aqui em Dubai alguns ex-jogadores de futebol que treinavam as categorias de base de um time em Ras Al Khaiman, um emirado que fica a 80 km de Dubai. Um deles é o Edson Luiz, ex-jogador do Santos, conhecido como Éssinho.

Infelizmente, não tenho o contato deles, mas se você é da área, pode usar seus contatos para chegar até eles.

Boa sorte!

Abraço de sheik,

Luís

Engenheiros civis: aprendendo a pescar em Dubai

Felipe deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Real State Co.":

Olá Luís
Estou me formando em engenharia civil... Tenho dupla nacionalidade. tenho nacionalidade brasileira e portuguesa. estou só aguardando minha formatura e ao mesmo tempo estou concluindo meu curso de inglês.
Queria mais informações sobre dubai relacionado a área de engenharia civil, como salário, oportunidade de emprego... ai vai meu email: felipenobregalemos@hotmail.com
O blog ta d+

abçs


Postado por Felipe no blog Dubai F. C. em Domingo, 18 Maio, 2008

Fala Felipe,

Eu não dou o peixe, mas ensino a pescar: o blog tem uma sessão de empregos, onde já listei vários sites de oferta de empregos no Oriente Médio. Dê uma olhadinha lá, entre nos sites, pesquise as vagas que possam te interessar.

Em geral, há muita oportunidade para engenheiros civis e os salários variam de 10 a 30 mil dirhams. É claro que isso varia com a sua experiência... regra geral, se você é solteiro, eu não viria pra cá se salário mais benefícios não forem superiores a 15 mil dirhams. Se a empresa oferecer acomodação, considerando o dólar baixo, o crescimento acentuado do Brasil e a inflação e aluguéis nas alturas nos Emirados Árabes, com 10 mil aqui você estará no limite daquela linha de conforto onde você se perguntará se você está melhor ou pior do que no Brasil.

Ainda penso que o melhor é não vir para cá "cru": forme-se, trabalhe um pouco no Brasil, ganhe experiência, especialize-se um pouco. Depois pense em vôos mais altos. É só uma opinião até um pouco conservadora.

Dica: a Odebrecht possui uma filial aqui nos Emirados Árabes Unidos. Foi um taxista que me disse que ela foi uma das empresas contratadas pela Nakheel para construir International City, um dos muitos bairros contruídos no meio deserto para uma classe média em fuga dos estratosféricos aluguéis (dizem que um dia será "centro", mas hoje é um aglomerado de prédios no meio do nada. Há 5 anos os Greens também ficavam "no meio do nada", e hoje é uma das áreas mais bem localizadas e caras de Dubai. Tudo é uma aposta).

Voltando ao ponto, empresas brasileiras como a Odebrecht podem ser uma porta de entrada nos Emirados Árabes, especialmente se o seu inglês ou árabe não está 100% (mas não se iluda: sem inglês ou árabes, suas chances são nulas).

Você pode cadastrar seu currículo no diretamente site da Odebrecht.

Sobre a dupla cidadania: sendo cidadão português, você tem uma vantagem sobre os demais mortais brasileiros. Você pode entrar e sair livremente dos Emirados Árabes. Portugueses recebem um visto de turista automático no aeroporto e podem ficar "turistando" no país até 3 meses se não estou enganado, enquanto brasileiros precisam solicitar o visto com antecedência na embaixada ou pagar um hotel 4 estrelas (o hotel cuidará da burocracia do visto).

Lembre-se que, como em qualquer lugar do mundo, trabalhar com o visto de turista é uma atividade ilegal.

Possuir uma carta de motorista portuguesa também pode tornar o processo de obtenção de habilitação aqui mais curto e simples para você.

Boa sorte!

Abraço de sheik,

Luís

14.5.08

Elvis não morreu

Elvis deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Procurando emprego em Dubai":

Olá Sheik Luís,

Já faz algum tempo que estudo as possibilidades de ir trabalhar no Emirados Árabes Unidos, de preferência em Dubai.

Sou academico dos cursos de Gestão em Tecnologia da Informação e Analise e Desenvolvimento de Sistemas. Atuo na área de tecnologia à 4 (quatro) anos.

Posso trabalhar em diversas atividades sem problema. Qual será o procedimento para concretizar uma futura investidura em emprego.



Postado por Elvis no blog Dubai F. C. em Quinta-feira, 03 Abril, 2008

Grande Elvis,

Gostei da expressão futura investidura em emprego. Se me permite, vou estar utilizando-a em próximos posts para a sessão "Sheik para empresários".

Quanto às oportunidades em TI, eu coloquei um post bem completo sobre o assunto ontem. Basicamente, as principais vagas estão disponíveis em sites de emprego na rede. Dica: não venha para fazer "qualquer coisa" só para estar em Dubai. Venha apenas se você encontrar uma oportunidade para fazer algo que você realmente gosta.

Fazer o que gosta é o que vai te salvar no pico do verão...

Abraços de sheik,

Luís

Cotidiano

Influências sheikianas

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Revisando o ar-condicionado":

Caro sheik

tenho a leve impressão de que você tem influências machadianas ,estou certo ??
essa maleabilidade com as palavras, esses paralelos e , claro , as metáforas.
não poderia esquecer esse tom meio que sarcástico. :)
daniel, sp

Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Sexta-feira, 18 Abril, 2008

Prezado Daniel,

Você observou bem, mas pelo ângulo errado. Sua reflexão me convida a uma releitura de "Missa do Galo": toda a sensualidade velada, a sugestão no ar, a iminência daquilo que poderia (ou deveria) acontecer e simplesmente não acontece... isso me lembra um pouco Dubai...

Bingo, leitor: Machado se inspirou em mim!

Ah leitor, se você soubesse um décimo do que eu passo por aqui com minhas 15 concumbinas... dói-me reabrir Dom Casmurro e lembrar de quantas Capitus já passaram em minha vida... corno, eu? Todo amante é um corno por antecipação.

Veja bem, Daniel, essas minhas frases prontas de efeito também já foram objeto de cópia no passado. Um deles, um parente distante, enchia seus livros de frases bonitinhas que faziam a leitora sentimental chorar e o intelectual escrever um ensaio para cada uma delas: Toda saudade é uma espécie de velhice, escreveu certa vez... mas sou sheik, sou benevolente: não crio patentes. Não reclamo por plágios. Deixe esses copiadores de estilo fazerem sucesso, ocuparem minhas merecidas cadeiras na ABL. Sheiks são onipresentes, e o sucesso deles é o meu sucesso.

Calma, leitor! Assim você terá um infarto: vejo daqui a sua inquietação, esta sua sensação ruim de que o chão sumiu. Inquietação que é fruto de sua própria incompreensão sobre a natureza dos sheiks: "seria possível alguém no passado escrever sob influência daquilo que ainda não foi escrito?"

Nunca se esqueça: os sheiks são atemporais. E quando o assunto é imortalidade, passado, futuro e presente se confundem; o antes e o depois perdem o significado.

E você protesta: "Bullshit!". E você grita: "Cala a boca e responde as perguntas de emprego!" E você já relembra 68 e já começa a fazer discurso: "Dubai é um paraíso! Abaixo o sheik!"... leitor: não precisa fazer passeata. Sua reação agora me assusta. Não me processe, pois não vou revidar. Sigo o exemplo de Gandhi, e em troca, lhe dou a Verdade que lhe convém (mas não faço greve de fome: como e lambo os beiços). Admito: não sei mentir. A Verdade é que, outro dia, comprei um livro no Mall of the Emirates que tem me ajudado bastante: Write as Axe from Assis in 10 days. Recomendo! E para terminar, uma frase de efeito anônima que cai bem à ocasião:

Toda Mentira tem um fundo de Verdade.
.

Abraços do sheik,

Luís

Pôr do sol

Mercado para... brasileiros?!

Antonio Marcos deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Procurando emprego em Dubai":

Olá,

Gostaria de saber se existe muita burocracia para se coneguir trabalho em Dubai e quais são as vagas mais solicitadas.
Como está o mercado para os brasileiros?

Abraço
Marcos


Postado por Antonio Marcos no blog Dubai F. C. em Terça-feira, 22 Abril, 2008

Caro Marcos,

Burocracia para conseguir emprego no exterior é a coisa mais certa que você vai encontrar, não importa em qual país você deseja trabalhar. E nos Emirados Árabes não é diferente... a burocracia para obter um emprego é só a ponta do iceberg. Quando você chega aqui, aí é que a "festa começa": tirar carta de motorista, tentar achar um lugar para morar, etc, etc, etc...

Nos Emirados Árabes, o caminho mais simples para encontrar um emprego é através dos sites de emprego na região. Dê uma olhada no histórico da sessão "Empregos".

Quanto à pergunta "como está o mercado para brasileiros", o que eu posso lhe dizer é que não existe um mercado para brasileiros: as
oportunidades estão abertas a qualquer pessoa que fale inglês e/ou árabe, que esteja qualificado para a posição e que não tente entrar com passaporte de Israel ou carimbo deste país.

Atenciosamente,

Sheik Luís

13.5.08

Fim de tarde

Cuidados com vestimentas

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde":

Sheik,
Gostei muito dos seus comentários sobre Dubai.
Farei uma viagem de trabalho e ficarei 2 dias em Dubai.
Voce disse que precisa ter alguns cuidados com as vestimentas para andar na rua e eu gostaria de algumas dicas, se possível.
Não se recomenda calça para mulheres, precisa usar lenço, etc?
Agradeço sua atenção.
Abraço.
Cléria


Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Quinta-feira, 08 Maio, 2008

Olá Cléria,

Via de regra, você não precisa se preocupar: Dubai é a cidade árabe mais tolerante a costumes ocidentais do Golfo.

Você verá muitas garotinhas asiáticas e européias usando saias minúsculas e coladas pelas ruas e shoppings, mas na minha opinião, isso é uma atitude sensata por aqui. Não é à toa que o governo estuda uma lei para obrigar as mulheres a usarem calças ou saias longas em locais públicos...

Vista-se como você se vestiria para trabalhar no Brasil (calça ou saia longa, blusas não tão coladas ao corpo que cubra os braços e sem decotes atrevidos) e você não terá
problemas por aqui. Você verá bastante gente com roupas provocantes, mas as outras... são outras. Eu te garanto que seguindo essas regras simples você evitará problemas.

Abraço de sheik,

Luís

Sobre futebol

Prezados,

Tenho recebido muitas mensagens de gente em busca de oportunidades em Dubai. Infelizmente, o sheik aqui não pode ajudá-los, pelas razões que listo abaixo:

1) o mercado de futebol, como outros em Dubai, já está saturado. Todos hoje querem vir a Dubai. Como alguns jogadores já me disseram, para vir pra cá "precisa ser bom" e/ou ter um empresário influente por aqui;

2) eu não tenho o contato de nenhum empresário de futebol por aqui;

3) eu já tentei ajudar alguns jogadores antes, mas foi um esforço inútil;

4) para jogar no futebol profissional, existe uma idade mínima de 21 anos;

O que posso dizer é que há dezenas de brasileiros trabalhando com futebol nos Emirados Árabes: jogadores, técnicos, massagistas, preparadores físicos, ex-jogadores que hoje são professores de escola de futebol para crianças, enfim. Mas não tenho o contato deles. Em todos os casos, o fundamental é fazer contato com algum empresário disposto a te ajudar.

Não tenho contato com o pessoal do futebol, por isso, penso que para você que é do ramo, deve ser muito mais fácil de contatar alguém aqui do que eu.

Caso você consiga o contato com algum brasileiro trabalhando com futebol por aqui, não se zangue se a pessoa não responder: essas pessoas recebem muitos, mas muitos pedidos de emprego, especialmente do Brasil, e a maior parte acaba simplesmente ignorando-os, mais por uma inviabilidade de responder/ajudar a todos do que por qualquer outra razão.

Acho que é isso. No mais, considero o assunto "Futebol" esgotado por aqui. Boa sorte a todos os leitores boleiros!

Abraço de sheik,

Luís

Sheik Luis responde "express": TI

Há tempos que não escrevo para a sessão "Sheik Luís Responde" ou "Empregos". Então vamos a um conjunto de perguntas sobre a área de TI em Dubai:


Luis deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Procurando emprego em Dubai":

Olá Sheik!

Meu nome é Luis, moro em brasilia, tenho 24 anos e me formei em computação ano passado. Já trabalhei na IBM e agora estou trabalhando com programação em outra empresa.

Me interesso em ir pra Dubai, pois além da cidade me fascinar, falo árabe (fluente) pois sou filho de sirios, e meu ingles é avançado. Falta um pouco de prática somente.

Minha pergunta é a mesma do Samuel. Como está o mercado de TI em Dubai?

Qlq coisa, meu email é ...@hotmail.com

hauchi u baussi ;)


Postado por Luis no blog Dubai F. C. em Quinta-feira, 08 Maio, 2008

Olá Luís,

Belo e-mail!

Há muitos sírios em Dubai, eu mesmo cheguei a morar com duas garotas sírias. Uma delas adorava cozinhar, e o melhor, adorava me convidava para dar cabo da comida...

O fato de você falar árabe fluente pode te facilitar não apenas na obtenção de um emprego, mas na própria adaptação à cidade em si.

Dê uma olhada no histórico da sessão de empregos, já publiquei vários links para sites de emprego na região. Esses são a principal porta de entrada para quem deseja trabalhar por aqui e não possui nenhum conhecido na cidade para te indicar.

Abraço de sheik e xará,

Luís

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: quem é o Sheik?":


Sheik,

Boa noite!
Sou Analista Programador e tenho muita experiência na área. Gostaria de saber como está o mercado de TI em Dubai. Achei fantástico o que estão fazendo em Dubai e pretendo trabalharia aí.
Se vc puder dar algumas dicas, meu e-mail é ...@click21.com.br.

grato,

Samuel Haddad


Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Quarta-feira, 07 Maio, 2008

Olá Samuel,

Desculpe pela demora na resposta. Sua pergunta: como está o mercado de TI em Dubai... bem, vamos lá: o mercado está sim em crescimento, com todas as grandes empresas instaladas ou em vias de se instalar por aqui: IBM, Microsoft, Oracle, HP, ...

Salários: tudo depende da sua qualificação, experiência e nacionalidade.

Sim, nacionalidade. Essa não é uma coisa que se costuma comentar, mas é comum as empresas imporem quotas de contratação por nacionalidade, e nivelar os salários de acordo com cada país. As empresas adoram dizer que valorizam o sistema de meritocracia, mas o que se vê de fato é uma versão da lei da oferta x demanda: o salário é baseado no mínimo patamar em que alguém aceita receber pela posição.

Exemplo: hoje em dia, gracas a uma bem articulada propaganda, pessoas do mundo inteiro querem vir a Dubai, invertendo a posição em que as empresas se encontravam a 5 anos atrás, por exemplo. Cada vez mais, as empresas oferecem menos benefícios para que as pessoas venham trabalhar no país. Com a inflação (oficial) beirando os 10% a.a., cada vez mais fica mais caro viver por aqui. Em TI, caso em sua especialidade haja muitos indianos, espere uma grande concorrência e um achatamento do seu salário até mesmo para um patamar abaixo de 10 mil dirhams. Isso ocorre por pelo menos dois fatores: 1) há muitos profissionais de TI na Índia; 2) o câmbio entre UAE e Índia é de 10:1, o que significa que até mesmo um salário baixo torna-se atraente... mas vai por mim: salvo raras exceções, você não vai querer sair do Brasil para morar em Karama!

... é claro que isso não ocorre para posições mais qualificadas. Neste caso, a sua nacionalidade não importará tanto.

Para encontrar emprego: dê uma olhada no histórico da sessão de empregos, há links para diversos sites de emprego por lá. Estes são a principal forma de entrada para quem busca uma posição por aqui.

Como já disse: atente para os benefícios: vôo anual para o país, plano de saúde, auxílio de acomodação e transporte... para viver bem já no limite do aceitável, considere gastar ao menos 5 mil dirhams por um quarto por mês. Por aí você tira o que é um salário razoável...

Abraço,

Luís


Daniel deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Procurando emprego em Dubai":

Gostaria de trabalhar em Dubai luis.
Sou analista de suporte.
Estou no ultimo ano de sistemas de informação.

...@hotmail.com

Postado por Daniel no blog Dubai F. C. em Terça-feira, 15 Abril, 2008

Olá rapaz,

Penso que vale mais apenas você primeiro se formar, ganhar experiência e depois tentar algo aqui.

Exceto para cargos de gerência, os salários para o pessoal da área de operação não são lá muito generosos, especialmente se você não tem um diploma de curso superior... você terá dificuldade em pagar seu aluguel...

Se quiser tentar algo, o caminho é através dos sites de emprego daqui. Dê uma olhada na sessão de emprego do blog que há várias delas listadas por lá. Mas não diga que não avisei!

Abraço e boa sorte,

Luís

Francisco C Cavalcante deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Procurando emprego em Dubai":

Amigo, sou Brasileiro, não falo Inglês mais um amigo me disse que o paraiso na terra é DUBAI? pode me ajudar a ir para ai trabalhar Sou Analista de Sistemas, com larga experiência. Aguardo seu contato: ...@yahoo.com.br
Obrigado.

Postado por Francisco C Cavalcante no blog Dubai F. C. em Quinta-feira, 10 Abril, 2008

Olá Francisco,

Paraíso na terra é Dubai?! Bom, meu conselho é que você se informe melhor. Dubai tem coisas boas sim, mas o sentimento mais comum entre os brasileiros que chegam por aqui é frustração. Se você quer trabalhar por aqui, comece por reduzir suas expectativas... leva em média 6 meses para uma pessoa "normal" se adaptar e começar a acreditar que há coisas boas por aqui, especialmente se você chega no verão ou durante o Ramadã. Digo isso porque a turma chega aqui, não entende a cultura local e começa a achar todas as pequenas limitações do dia-a-dia um grande porre.

Ah, sobre o idioma, amigo, vou ser bem sincero: sem falar inglês ou árabe aqui eu diria que, a não ser que você venha para trabalhar em uma empresa brasileira, suas chances são praticamente nulas. Digo isso porque em geral, o recrutamento é feito pela internet e passa inevitavelmente por uma entrevista por telefone em inglês. Mesmo quem tem inglês nativo tem dificuldades no começo, devido à vasta gama de sotaques...

Abraço e boa sorte em suas escolhas,

Luís

Beto deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: quem é o Sheik?":


Boa tarde Sheik.
Achei muito interessante seu blog, e resolvi enviar um comentário. Sou brasileiro, meu nome é Alberto, Pós-graduado em Telecom, trabalho na área de Telecom e gostaria de saber como poderia trabalhar e viver em Dubai. Você poderia me aconselhar?
Um abraço,
Alberto

Postado por Beto no blog Dubai F. C. em Terça-feira, 08 Abril, 2008

Grande Alberto,

Há duas empresas fornecendo serviços de telecomunicações em Dubai: a DU e a Etisalat. Ambas publicam as vagas disponíveis em seus sites na rede.

Há muitas posições abertas na área de telecom aqui, não apenas nestas duas empresas, mas também nas empresas que fazem negócios com as operadoras: Nokia, Ericsson, HP, Motorola, ...

Se você trabalha com mediação ou billing, você poderá encontrar posições como contractor por aqui. Aliás, em qualquer parte do mundo...

Dê uma olhada na sessão Emprego para obter o link para sites de emprego na região.

Abraço de sheik,

Luís

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Recém-formados em Dubai":

Ola Luis, tudo bem?
Descobri seu blog através do site da Icaro. Trabalho na área de TI há 22 anos e nos últimos 6 focado com segurança da informação. Agradeceria se pudesse comentar um pouco sobre as possibilidade de tentar trabalho nesta área aí em Dubai.
Obrigado e um abraço
Edilson

Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Quarta-feira, 02 Abril, 2008

Olá Edilson,

Há sim mercado para quem trabalha com segurança. Digo pelo que vejo: a iniciativa mais avançada ao meu ver em "segurança da informação" é talvez os proxies bonitinhos que as operadoras de telecom possuem aqui para bloquear sites perigosos, como o do Skype.

No mais, em geral, as políticas de segurança da informação por aqui são incipientes se comparadas ao Brasil. Mesmo a segurança predial, é comum encontrar empresas que não possuem um controle efetivo de quem/o que entra e sai de seus edifícios. E o mais surpreendente: você deixa carteira, notebook, celular em cima da mesa... e ninguém rouba!

O caminho é o mesmo que sempre recomendo: buscar vagas através dos sites de emprego da região (vide sessão empregos) ou nos sites de empresas se segurança com filiais por aqui.

Abraço de sheik,

Luís

Os irmãos de Navid

Dezembro de 2007. As pessoas ainda embarcavam no avião quando o rapaz que sentaria ao meu lado vira-se rispidamente em farsi.

- Sorry, na farsi baladin...

Então ele traduz:

- Senhor, será que você pode liberar um pouco de espaço para minhas coisas também no bagageiro?!

Sinceramente, se iranianos lotam suas malas de compras em Dubai, não é culpa minha:

- Desculpe, mas essas malas não são minhas...
- Oh, sorry...

Após uma longa discussão com a aeromoça, mais calmo, ele se senta ao lado e puxa conversa:

- Oh, desculpa pela confusão...
- Sem problemas...
- Você mora em Dubai?
- Sim, e você?

Navid era o seu nome. Nome, aliás, muito comum no Irã. Ele mora há 2 anos no Reino Unido e aproveita as férias de fim-de-ano para ver a família:

- Não é feriado no Irã, mas não poderei voltar para o Noruz (ano-novo iraniano, que dura 15 dias no mês de março).

Curioso, ele pede para ver meu passaporte:

- Você pode viajar para qualquer país?
- Sim, sou sheik. Por que?
- Não é para todo país que a gente pode ir. Israel, por exemplo... anos atrás, não podíamos entrar na África do Sul. Era uma retaliação do governo contra o Apartheid...

Curioso, pergunto sobre o passado:

- E a guerra Irã x Iraque, como afetou sua família?

Pergunta arriscada, mas ele responde com naturalidade: seus dois irmãos lutaram na guerra. Eles eram jovens: tinham entre 16 e 17 anos.

- Mas tão jovens assim, na guerra?

Ele explica que a invasão do Arvand Rud (Chat Al Arab, em árabe) aconteceu apenas um ano após o início da Revolução, em um momento que as forças armadas do país encontravam-se ainda desestruturadas.

- Foi uma histeria no país: todos os jovens queriam ir para a guerra. As escolas ficaram vazias...

A guerra Irã-Iraque ficou conhecida pelo uso de Ondas Humanas: os iranianos, em maior número e com menos equipamentos, simplesmente marchavam em direção ao inimigo. Guerra curiosa, em que o Iraque de Saddam Hussein era apoiado simultaneamente por EUA e URSS. Não fosse países neutros como os Emirados Árabes, o Irã ficaria sem provisões. Assim como ainda é feito hoje, empresas vendiam seus produtos para empresas nos Emirados Árabes, que realizavam a revenda para o Irã.

Para frear as ondas humanas, as tropas de Saddam usaram armas químicas e biológicas, que minou sua base internacional de apoio.

- E o que aconteceu com seus irmãos? - outra pergunta delicada. Mas ele não tem problemas em responder:

- Meu irmão mais velho levou um tiro de fusil no ombro direito, que saiu pelas costas do lado esquerdo. Ele sobreviveu, está bem, mas até hoje tem certos problemas de desbalanceamento... e meu irmão do meio estava em combate quando foi atacado por armas químicas. Passou 5 anos na cama de um hospital. Sofria de crises periódicas de falta-de-ar. Ficara com a cara roxa... hoje após anos de tratamento está bem, os problemas foram minimizados...

Navid é enfático em afirmar que Khomeini errou: em 82, após menos de 2 anos de conflito, o Irã já havia reconquistado todo o território invadido pelo Iraque, que agora propunha um cessar-fogo. Khomeini não o aceitou: "o exército iraniano marchará sobre Karbala", teria dito.

Karbala é um importante centro de peregrinação religiosa no Iraque, cidade onde o profeta xiita Hussein (filho de Ali, que era primo e genro de Maomé) foi morto junto com sua família em batalha. Talvez a rápida recuperação do território tenham feito o imã sonhar alto com uma única nação xiita: mais de 90% do Irã e 65% do Iraque segue esta corrente do Islã. Mas Karbala fica no centro do Iraque... muitas das estimadas 1,5 milhão de mortes nessa guerra poderiam ter sido evitadas se a guerra tivesse terminado ali e não se arrastado por mais 6 anos como se arrastou...

- Muita gente jovem e boa morreu nessa guerra. Gente que poderia ajudar o país hoje. E para que? Hoje o país ajuda a reconstruir o Iraque, é um país-irmão, dizem os governantes. Tantas mortes para nada... - diria o nosso motorista-guia, alguns dias depois em Passárgada.

Talvez hoje os 290 passageiros e tripulantes do vôo IR655 estivessem vivos: o avião civil da Iran Air, que fazia a linha Bandar Abbas-Dubai, foi abatido "por engano" por um míssil lançado pela embarcação USS Vincennes em 3 de julho de 1988, em um evento até hoje não muito bem esclarecido. Um incidente que acabou por acelerar a assinatura de um cessar-fogo entre os dois países (Irã e Iraque. Os EUA nunca explicitamente admitiram o erro ou se desculparam publicamente pelo abatimento do avião, embora tenha pago indenização às famílias das vítimas).

Talvez: isso não existe em História. O avião agora chacoalha com uma turbulência. Eu afundo na poltrona, Navid ri:

- Isso não é nada! Você precisa ver as turbulências no vôo entre Londres e Nova Iorque! - este é o tipo de curiosidade que não tenho.

O avião finalmente pousa no moderno Aeroporto Iman Khomeini. Navid nos orienta na saída do aeroporto e deixa seu telefone:

- Se estiver pela cidade, é só ligar!

Merci and Hoda hafez, Navid.

12.5.08

Minha querida aula de árabe II

xúf - ver
xúfak - vejo você
bucra - amanhã

ahút - enfiar
fi - em
tizak - sua perna/bunda

AAussu - cobrir
hara - merda

magnun - louco

Enta pitichtagal eih?/Xô amalak? - qual o seu trabalho?
aiwa - correto; de acordo; isso mesmo

Exemplos:

- Xô amalak? (qual é o seu emprego)
- Ahút fi tizak! (Ponha na sua bunda/perna! - uma maneira oblíqua de dizer "vai se foder")
- Ahút fi tizak?!?!
- Aiwa! AAussu hara! (Cubra de merda! - para bom entendedor, meia palavra basta: mais uma maneira de dizer "enfia no rabo")
- Ktir magnun (muito louco). Xúfak bucra (até amanhã)!
- Xúfak! (até)

Minha querida aula de árabe I

Wala - melhor
Ferekh - frango
Gamaya/djamaya - cooperativa
Etihad - união
Meia - 100
MENA - Middle East and North Africa

Exemplos:

- Meia-meia? (100%?)
- Meia-meia! Wala ferékh al gamaya. (100%! Melhor que o frango da cooperativa)

Etihad é uma companhia aérea baseada no emirado de Abu-Dhabi.

MENA Media Guide é um guia de endereços e telefones das empresas de mídia que atuam no Oriente Próximo e Norte da África.

África do Sul: "a guerra de nossos pais"

Já passa da meia-noite e ele está lá no terraço, com uma garrafa de vinho.

- Que foi, cara?
- Nada, boss... quer um copo?

Vinho não se toma sozinho, então subo, aceito.

- Eu ainda volto lá...
- Aonde?

Tomado pelo frenesi coletivo, alistou-se ao exército para defender algo que, segundo ele, só hoje compreende de fato. O que era para ser o serviço militar tornou-se sua profissão por cinco, sete anos...

- Imagine você, tão jovem - menos de 20 anos! - comandando um batalhão...

Memórias de uma conversa com uma garota da Emirates: ela contava que a amiga sul-africana estranhou quando recebeu o convite para estudar juntas:

- Você é a primeira branca que me faz esse convite... por que quer estudar comigo?

A noite segue no terraço:

- Éramos uma força semi-especial: eu , um outro branco, e quase uma centena de owambos.

África do Sul; África Sudoeste. Da base na fronteira, incursões Angola adentro, "in the bush", destocando emboscadas.

- Você já viu a selvas africanas? Mato alto... a gente ia beirando a estrada para evitar as minas. Os veículos derrubavam coqueiros maiores que esse aí...

- E a luta era para que?

- Nossa missão era acabar com os terroristas... hoje vejo: milícias. Gente boa, mas naquela época, estavam do outro lado; os comunistas...

Guerra complexa: naquela época, forças sul-africanas realizavam operações conjuntas com a UNITA de Jonas Savimbi no sul de Angola com o interesse de evitar a formação de bases guerrilheiras da SWAPO (South West Africa People's Organization) em sua luta pela independência da atual Namíbia. Ajudavam, assim, a UNITA a se defender dos avanços das tropas governamentais do MPLA, apoiadas por URSS e Cuba.

Dias atrás, na cozinha, conversava com o rapaz mais novo:

- Eu, na guerra? Já não é do meu tempo....
- E por que Dubai?
- Eu queria conhecer o mundo, viajar um pouco também... e a moeda aqui é mais forte. E no meu país, hoje é meio difícil... tem essas questões... - ele hesita - ...há algo que não se diz: ainda há muitos ressentimentos. De brancos com negros e de negros com brancos. E isso não se comenta, mas é preconceito também: se você procura um emprego, há uma preferência por negros... revanche?

Em uma escala em Viena, a garota da Emirates pede à amiga uma foto com o parque infantil ao fundo.

- Eu não gosto de parques infantis. Lá, eu não podia brincar: eram apenas para os brancos...

Épocas de Apartheid: parques, escolas, hospitais, praias separadas. Casamentos inter-raciais proibidos.

A garrafa já está quase no fim. Ele acende um charuto.

- Ainda quero voltar lá, só para ver como estão hoje as coisas. Eu vi fotos na internet dos locais exatos onde estávamos. Dizem que está tudo em paz. Para tirar esse peso das costas...

Seu amigo tinha 19 anos também. Conversa interrompida: ele estava ao seu lado, um tiro lhe varou a testa. Nesses momentos a guerra perde seu caráter ideológico e ganha novas motivações, contornos pessoais:

- Caçamos todos eles. Derrubamos um a um, 5 dias pelo no mato, sem dormir. Não sobrou nenhum, nenhum... Jesus! Éramos os dois únicos brancos no grupo mas todos os owambos choraram... as batalhas nos uniam.

Ele continua:

- Meu amigo... por que ele e não eu? Ele teria 42, como eu... a gente era muito jovem, no meio daquela grande merda, sem saber por que. Mas hoje eu sei: a gente lutava a guerra de nossos pais.

E na cozinha o rapaz encerra o assunto:

- Meu país é lindo, cara. Mas vai levar anos para o povo esquecer toda essa coisa ruim.

A garrafa já está vazia e meu copo também.

- Ei, boss: ainda vou voltar lá. Você vai receber um e-mail. Vai saber que é pra vir junto.

Aperto firme de mão: hora de dormir. Ele ainda fica com um resto de charuto e um dedo de vinho no terraço, pensando na vida, e nas mortes, talvez.

11.5.08

Por que não escrevo: depois do almoço

Caro leitor, noto somente agora que escrevo em primeira pessoa e sinto sobre minhas costas todo o peso da responsabilidade sobre este ato: a primeira pessoa - do singular ou do plural - confere ao texto um caráter confessional, e você - leitor ignorante - pode assumir que é tudo verdade. Ou pior: que é tudo mentira. É por isso que logo agora, antes de seguir, penitencio-me indo ao Mall of the Emirates e tentando estacionar a máquina poluidora que me serve em um estacionamento apinhado de outras máquinas. Condeno-me a enfrentar a fila do caixa do Carrefour. Vou à Chata Táuer às 9h da manhã... e espero o elevador (não existe penitência pior do que ter que esperar). Penitência cumprida, sigamos em frente. Escrevo tudo em detalhes, para não haver dúvidas quanto à veracidade (ou não) dos fatos.

O almoço foi no Shu, casa de xixa em frente ao Jumeira Beach Park, que aos sábados oferece um buffet de saladas e pratos quentes por meros 39 dirhams por pessoa. E eu me pergunto o que confere ao lugar um ar simpático: seriam os livros? Eles ficam bonitos ali, embora me pareçam um pouco deslocados: ninguém vai puxar um livro de 500 páginas para uma leitura despretenciosa enquanto fuma xixa. Visão um pouco utilitarista, mas esses blocos de papel fariam mais jus à sua existência se estivessem em um local mais adequado ao seu consumo, mas o que importa é que a comida é boa. Aprovada.

O almoço acabou tarde, quase 4h:

- Moça, quer chá?
- Não é uma má idéia... vamos ao Limetree?

Café Limeira, um bom lugar para fechar a tarde.

- O que você vai beber?
- Eu gosto de Earl Grey, mas se eu tomar isso agora, não durmo de noite. Vou de Jasmin. E você?
- Ah, eu vou tomar um suco.

Minutos depois, chegam à mesa dois chás: jasmin e laranja com canela.

- Mas você não pediu suco?
- É... mudei de idéia...

Mulheres: dizem uma coisa, fazem outra. Sempre.

- Quer ir comigo ao 360? É aniversário de um amigo gay - mulheres adoram dizer que têm amigos gays. E que possuem gatos, cachorros...
- Não, obrigado. Eu preciso escrever no blog.
- Hey, come on... eles não vão te dar cantadas.
- Eu sei.

Mulheres às vezes gostam de provocar:

- Quando é que você chegou à conclusão que você não é gay?
- Como assim?
- É. Desde quando você sabe que não gosta de homens.

Preconceito: como se todo homem fosse obrigado a ser gay. Meu pai, sheik de renome, sempre dizia: morria de medo de ter filho veado. E sempre dizia: "se alguém falar que você não é homem, mostra o pinto!".

Era um dia singelo na pré-escola quando a vizinha, em plena aula, provoca:

- Se você não faz isso, você não é homem.

Entusiasmado com a idéia de colocar em prática os ensinamentos paternos, lá se foi a calça para os joelhos, para o espanto da professora:

- O que é isso???

Compreensível o espanto dela. Caro leitor, eu imagino que você já saiba: sou sheik. Sheiks possuem genitálias enormes...

- Foi meu pai que mandou.

Imagine isso em um país muçulmano? Castigo: 2h olhando para a parede... ao chegar em casa, a mãe da garota falou sobre o muro: "não faça mais isso, hein?".

- Ok, eu te deixo em casa.

A professora de ioga entrou mais uma vez no quarto, coletou o biquini que jazia pendurado na porta do banheiro, a canga pendurada na porta do armário, mas se esqueceu da toalha na cadeira. Compreensível: para mulheres, uma estória sempre termina em reticências...

... mas eu sou homem. Não me provoque, que mostro a genitália. O que relatei aqui, justifica e muito a minha distância dos teclados. E é por essas e outras que qualquer hora, vou-me embora de Dubai. E assim sendo, termino este post sem reticências: apenas um ponto final.

Sharjah: para solteiro é mais caro

E você aí no Brasil se pergunta qual é a vantagem de se morar em um país regido por uma democracia...

... certamente o que aconteceu recentemente em Sharjah não aconteceria por aí: um aumento nas tarifas de água, gás e luz sem qualquer aviso-prévio, de acordo com a reportagem do Gulf News.

E é através da mesma reportagem que surge uma informação deveras interessante: no emirado, as tarifas são diferenciadas para solteiros e famílias. Solteiros pagam uma taxa básica de eletricidade, gás e água de 200 dirhams, enquanto famílias pagam 70 dirhams.

Bela iniciativa, Sharjah! Se todos os emirados tomassem medidas semelhantes, em breve o UAE conseguiria erradicar do mapa esta doença maldita (o celibato).

10.5.08

Aulas de árabe em Dubai



Então você realmente quer aprender árabe em Dubai? Está bem, está bem, segue então uma dica do Sr. Nelson Lomba sobre curso de árabe em Dubai:


Oi, Luis.

O instituto se chama ETON e fica em knowledge Village.

O curso para iniciantes é de 30 horas e custa 1200 dirhams (incluindo o material didático – 1 livro e alguns CDs).

Há uma turma aos domingos e terças, e uma outra às segundas e quartas. As aulas comecam às 19:30 e terminam às 21:00hs. Ate agora eu só fiz uma aula, que foi bem legal. O nome da professora é Saly. Ela e egípcia e dá as aulas em inglês. O inglês dela tambem é muito bom.

O site do curso é http://www.eton.ac/index.php

Eles também têm um curso de árabe intensivo. Tem um amigo que está fazendo, são 5 dias por semana.

Abraços,

Nelson


É isso aí. Vale lembrar que a garota bonita da página não está inclusa no curso.

Nelson Lomba é especialista em "Arcaísmo Contemporâneo" e ganha a vida dando palestras e consultorias em Dubai. Com a fortuna que já fez, já comprou o seu Rolex em Karama, colaborando assim para o fim do desemprego infantil na China, e agora esbanja luxo pelas ruas de Dubai.

Grande dica, seu Nelson!

Abraço de sheik.

Por que eu não escrevo: depois do banho

Saio do banho; a garota está estendida na cama.

- Se você não lê o livro, leio eu. - e começa a ler em voz alta:

The body is like grapes, and if you use rightly you can create the wine in you. The body is going to disappear, but the wine can remain, the spirit can remain.


Deito ao lado. Garotas ficam sensuais lendo:

- E aí, o que você acha disso?
- Conclusão: beba vinho e seja eterno!
- Chato!

A negação estimula o crente a converter o incrédulo. Ela continua:

"The death of the seed will be the birth of the tree (..) But how can this be known to the poor seed which has never been anything else? It is inconceivable. That's why God is inconceivable."


Isso me traz à memória uma entrevista de Leonardo Boff ao programa Conexão Roberto D'Ávila em que ele comentava suas últimas conversas com Darcy Ribeiro, já em estágio terminal. Ele tentava mostrá-lo como seria bom o pós-morte, a Pachamama que o abraçaria cheia de amor e vida... e viu um Darcy Ribeiro reticente:

- Leonardo, isso tudo é muito bonito e confortante. Eu juro que gostaria muito de conseguir acreditar em tudo isso.

Sara continua a leitura. Seu cabelo ainda cheira a mar:

"(...) And the leap happened to Jesus: he relaxed on the cross and he said: "Thy Kingdom come. Thy will be done..."


Agora ela se vira e me pega em flagrante olhando para a protuberância que se forma na camiseta sobre os seus seios sem sutiãs. Viva o ar condicionado! Protestos:

- Hey!! Você está prestando a atenção no que eu estou lendo??
- Imagino que muitos suicidas explosivos também ficam nervosos momentos antes de apertarem o botão. E encontram tranquilidade ao pensar que o Reino está próximo...

Deadlock: esse é uma palavrinha em inglês muito usada em computação cuja melhor tradução talvez seja "beco-sem-saída". Quando isso acontece em uma conversa, é melhor mudar de assunto, arejar um pouco:

- Vamos comer?

Na saída do quarto, o companheiro de casa estava atento:

- Eu conheço esta roupa...

Obrigado, Chris. Homem sente prazer ao ver outro homem pensando que você fez sexo. Prazer territorial que não é superior ao ato em si, mas seu deleite é mais duradouro, e curiosamente, independe da ocorrência do coito. Dizem que é feio mentir. Por isso não minto, apenas confirmo os fatos, nem um tiquinho a mais, nem um tiquinho a menos. Apenas um discreto piscar-de-olhos:

- Sim, é minha - adiantei.

Hora do almoço.

Por que eu não escrevo: a aula de caiaque

A aula de caiaque começou com ela entrando no meio quarto e indo direto para a estante dos livros:

- Você já começou a ler o livro?

Sabia que ela iria perguntar: dias atrás, após um papo existencial, ela me emprestara "I say unto you", do Osho, e insiste em tentar me convencer que "existe alguma coisa depois". Tá.

- Prometo que começo hoje. Vamos pro mar.

Eu sei que você está interessado em saber o que aconteceu na água, mas confie em mim: nada de mais. Depois de alguns tombos com o bumbum à vista para uma atenta e paciente platéia de rapazes de bigode de cócoras na praia, ela desistiu e ficamos ali naquele papo de praia, sentados na areia: castelinhos de areia com o pé que o mar derruba. Olho no relógio: 13:30h. Fome:

- Ei, vamos almoçar?
- Hmm... mas eu vou ter que passar em casa tomar um banho...
- Ué, você toma banho em casa.
- Ah, mas eu não tenho roupa.
- Mas eu tenho.
- Ok.

E assim voltamos para o quarto. Para uma professora de ioga, camiseta e calça com motivações "Índia é super legal". Mas ela se esqueceu de levar para o banheiro...

... e ela sai do banheiro com a toalha enrolada no corpo:

- Está frio aqui!!

Ela põe a camisa sobre e a calça sob a toalha. Depois a retira e enrola na cabeça. Hora de eu tomar um banho... frio.

9.5.08

Por que eu não escrevo: o sábado

Para fins religiosos, o dia sempre começa no dia anterior, quando o sol se põe. E posso dizer que sim, o sábado começou um pouco na sexta à noite, quando recebi outro SMS:

Paddling 2morrow @ 8:30 w Enrique



Enrique é peruano e já vive aqui há longa data. A nossa conversa começa em portuñol e termina em espanglês. Geralmente é ele que marca as remadas coletivas, mas hoje não sei o que aconteceu: não apareceu. Talvez tenha sido sábio: o dia amanheceu com ventos e neblina forte. Isso significa mar com ondas e sem visibilidade, o que não é lá muito bom para remar.



Saí na praia com a esperança de que todos tivessem desistido, mas já vi que as duas meninas já estavam lá. Homem não pode fazer feio, fui pra água também. Cheguei atrasado e lá fui eu no meio da neblina, contra as ondas, tentar alcançar as duas, mais uma vez a Sandra e a Julia. Meninas abusadas: seguiam sem colete salva-vidas. E eu? Sou sheik, tenho 15 concumbinas para criar, não posso me arriscar assim por pouco. E lá fomos nós: 1 km fora da costa até um navio que estava atracado e retorno, surfando as ondas. Da praia, não se via o navio, e do navio, não se via a praia. Três idas e voltas, com direito a tombo em alto-mar com ondas e tudo.

Chego em casa com a sensação do dever-cumprido: "agora é só tomar um banho, almoçar e começar a atualizar o blog". Mas aí chegou um SMS:


Hey Luis! R u going 2 the beach now?


Era a Sara, a professora de ioga. Ela quer aprender a andar no caiaque. Mas justo hoje, cheio de ondas? Mas os sheiks são generosos e benevolentes: "Sim, venha". Mas isso já não cabe aqui, é assunto para outro post.

Por que eu não escrevo: a sexta-feira

E você me pergunta:

- por que é que você não escreve?
Pergunta com toda razão. Mais eu te digo, leitor: eu me esforço, mas às vezes a vida dá voltas mais rápidas do que é possível planejar. Como exemplo, cito um fim-de-semana que passou: na quinta à noite coloquei metas para o blog. Antes mesmo de dormir, já percebi que estabelecer "metas" é muita pretensão... recebo um SMS dizendo assim:


2morrow paddling @ 9.30!


E o dia amanheceu perfeito: dia de sol, sem ventos. O mar, uma piscina sem ondas. E lá vamos nós: eu, a francesa Sandra e a norte-americana Julia, direto para o The World. Nada mal: 35 minutos de ida, 30 minutos de volta. 12 km no total.



E depois? Ah, aí chegou o momento reservado para a contemplação. Celebrar o ócio: "estou em Dubai..."



Sabe, leitor, confesso uma coisa: Dubai ficou muito melhor desde que você, aí do outro lado do mundo, começou com essa estória de que aqui é o Paraíso dos Arquitetos e dos Endinheirados. Quando eu voltei pra cá, ninguém falava em Dubai. Todo mundo dizia: "você é louco? Lá só tem terroristas, eixo do mal!". Falaram tanto que comecei a até mesmo duvidar de minhas convicções quando peguei logo na primeira noite 39 graus às 10h da noite no aeroporto...

Naquela época, nos pubs cheios de homens (como em quase todo lugar em Dubai), o assunto não era outro: o paraíso é a Europa! Um que acaba de chegar na cidade falava de praias com mulheres fazendo topless, outro dizia entre um copo e outro: "lá as pessoas são civilizadas...". O taxista não entendia: "ah, mulher brasileira... por que você veio pra cá?!".

Pois é, leitor, mas o tempo passa, não é mesmo? O sheik investiu pesado em propagandas justamente nos antigos paraísos: London, Paris, Tokyo, Milan. Brazil. Quase 2 anos depois, Dubai continua cheia de homens, e no verão, continua a fazer um calor deprimente mesmo de noite, mas agora, nos antigos paraísos não se fala em outra coisa a não ser em... Dubai. Ontem mesmo ouvi um executivo da Silverjet dizendo que Dubai é a segunda destinação preferida da Inglaterra. No ano passado, foram 4 milhões de passageiros para Nova Iorque e 3 milhões para Dubai...

É por essas e outras que eu, aqui no meu sofá, apenas sorrio com um prazer muito íntimo:

"Eu tenho o que você não tem".


Foi só então que percebi a profundidade expressa nos versos que ouço na voz de Marisa Monte:

"O teu desejo é o meu maior prazer."


E passei o dia assim, sentado no sofá, saboreando meu prazer. Mas aí veio o sábado, que fica para um outro post.

Indo embora de Dubai

Então você se cansou de Dubai: está achando muito monótono andar de Rolex nas ruas como se fosse invisível ("mas é um R-O-L-E-X", você diz), e pior, cansou de ser tratado como "um qualquer de classe-média" quando anda nas ruas com seu Porsche...

... entendo. Você gosta de status, mas de repente, se deu conta que aqui os símbolos de status não lhe conferem status algum. Isso realmente deprime, não é mesmo?

Mas tudo bem: não se deprima. Eu ajudo você a sair do país, seja lá para onde você for. Você que é um endinheirado, certamente tem uma montanha de pertences que precisa ser devidamente embalada e corretamente transportada. Você precisará contratar um serviço de mudança.

Algumas empresas na região, nos pacotes de atrativos que oferecem aos seus funcionários expatriados, incluem a mudança ao término de serviço. Em geral, a coisa funciona assim: você faz uma cotação de frete por mar em 3 empresas, a companhia escolhe a mais barata.

Aqui vão então 3 dicas de empresas especializadas em mudanças:

- Everex
- Global Relocations
- Euro Movers

Em geral, as empresas agendam uma visita gratuita a sua casa para realizar a cotação do frete.

Os preços variam de empresa para empresa, e claro, de acordo com a quantidade de bugiganga que você possui e a distância do país-destino. Um container de 20 pés custa em média na casa de 8 mil dólares. Se você possui pouca coisa, há outras opções mais baratas, como compartilhar um container.

Se você possuir realmente pouca coisa (até 200 kg com baixo volume), talvez valha mais a pena enviar por frete aéreo: o custo de envio de 200 kg de Dubai à países europeus custa entre 3.000 e 5.000 dirhams (1.500 a 3.000 reais).

Obviamente, não se esqueça de fazer seguro de seus pertences: o desaparecimento ou quebra de algum de seus pertences é algo tão recorrente que é praticamente uma certeza que irá ocorrer.

É de praxe a exigência de certos documentos pelo país-destino, tais como:

- comprovante de residência no país-origem
- visto de permanência no país-destino
- documento que comprove o motivo da mudança
- lista detalhada de mercadorias com preço por cada item reconhecida pela órgão consular do país-destino no país de origem (se você vai de Dubai para o Brasil, precisará carimbar a lista de mercadorias na Embaixada brasileira em Abu Dhabi)

Certifique-se também que você solicitou um serviço de entrega porta-à-porta (door-to-door service). Esse tipo de serviço é mais caro mas vale cada centavo: se você não contratou um serviço porta-à-porta, reserve ao menos 3 dias para conseguir aprender o tenebroso processo de desembaraço de mercadorias no porto e alfândega do país-destino. E esteja preparado para lidar com gente rude!

4.5.08

Kite surf em Dubai

Ah, leitor. Então você quer fazer kite surf em Dubai? Pior, você é tão ignorante, pobre e miserável que não sabe o que é isso.

Então está bem, vou explicar: cáitessãrf é um esporte onde as pessoas brincam com o vento e com o mar. Kite é pipa, e surf... bom assumo que você não é tão ignorante assim. Aliás, kite não é lá uma palavra inglesa que ficou conhecida mundo afora após o sucesso do livro de Khaled Hosseini, sobre as criancinhas pobres com ranho no nariz do Afeganistão. Você já leu? Aliás, você sabe ler?

Voltando ao ".": a prática do cáitisãrf em Dubai é uma atividade organizada e controlada pelo Dubai Kite Club. A filiação ao clube tornou-se obrigatória por pedido da Dubai Municipality, a prefeitura de Dubai. E lembre-se: é consenso de todos de não se praticar o esporte às sextas-feiras e feriados devido à quantidade de gente na praia. No sábado, pode brincar sem medo de ser feliz, só não vale passar cerol na linha...

Mas caro, leitor, não seja (tão) ignorante, assuma a sua incapacidade de aprender sozinho: contrate um instrutor (há vários listados no site). Digo isso sem ganhar comissão, simplesmente porque já vi muito cáitisurfista de primeira viagem bancar o espertão e perder o brinquedo (que vale quase 7 mil dirhams ao todo) ao brincar em dia de shamaal ou vento forte continental. Depois fica chorando na praia, com ranho no nariz, ramela no olho...

Se você não fala inglês, vá até a praia do Kite Surf (listada no site) e procure pelo Rodrigo da Emirates. Ele está quase sempre por lá, e de repente, pode te dar algumas dicas.

O alcance da aranha e a Grande Sola de Sapato

Tiro os jornais do caminho e, d'entre uma folha e outra salta uma aranha que se põe em retirada.

Pobre aranha: ela não escolheu ser aranha. Assim, como eu, que não escolhi ser o que sou. Com uma diferença: sou "imagem e semelhança", que me dá super-poderes. Então eu posso. Ela não: é apenas aranha. Ela, na iminência do perigo, corre. Na iminência do perigo, às vezes corro também, mas neste caso, levantei o pé. Reação instintiva: sabe-se lá em que momento aprendi a ter medo de aranhas. E a minha reação ante ao perigo é destrui-lo.

Pobre aranha: ela corre inutilmente. Inutilmente, pois meu pé já vai a caminho. Mas ela faz o que pode, corre em zigue-zague, estica as pernas em sincronia rápida, faz o que está a seu alcance. Mas que pena: o que está a seu alcance... ainda é pouco. E talvez ela nem saiba...

Meu pé alcança a aranha. Morte instantânea. Em uma fração de segundo, geléia. Já não corre mais. Consolo: você, leitor que viu a cena, dirá: "ela fez o que estava ao seu alcance". Outros, mais conscientes dos desejos aracnídeos, dirão: "ela morreu fazendo o que gosta". Alguém ainda vê a questão por um outro lado do prisma: "ao menos não sofreu". Alguém, notando minha consternação perante o cadáver, põe a mão em meu ombro: "Esse é um animal ruim: vive de matar outros animais de forma cruel". Mas o fato é que ela agora já não é mais. Com um papel higiênico, limpo o azulejo, e em breve, ninguém mais se lembrará da pobre criatura...

Limpo a sola do sapato. Tiro a roupa, hora de dormir. Fecho os olhos e de repente penso que a Grande Sola de Sapato chegará para mim também. Aflição, aperto no peito. Desespero... ainda bem que sou Humano, e que para nós, nos foi reservada a Grande Gincana da Vida. Amanhã faço uma boa-ação e já garanto o "depois" pós-geléia. Pós-pó. Ufa, que alívio: durmo tranquilo, acordo, tomo café com pão-com-manteiga. Faço o trabalho desagradável com o peito cheio de esperança: hoje é melhor que ontem e amanhã será diferente. Faço o que está a meu alcance, e esqueço meus limites - 2010, 2015, ... com sorte, 2050? - enquanto a Grande Sola segue seu caminho pelo tempo.

Na cama com a python

- Hey, Bru, Cudjai ius ior cáiaq des wik?
- Xôo, bru. No problem. Jãs teikit.

Aí o canadense interrompe:

- Didiu breik dze kêidg?
- Nou, bru. It uôs lái dzat uên I bótit.

Ué... mas a jaula está vazia... tem só um toco de madeira dentro.

- En fór uá kaindov énimou es dzes kêidg for?
- Dzes kêidg es fó mai Páitzon.
- Páitzon?
- Iê, bru. Ei sneik.
- Nôooouuuuêiii. Bãt uérizit?
- Híer - e dá três tapinhas no lado da cama. - Ela dorme comigo.
- Iur kidin mi.

E rindo, ele tira de baixo da coberta uma cobra...

- Putaquipariu! Caralho! Porra! Fáákiu, bru!
- Hey, bru... no problem...

Passo a mão na cobra. O bicho é gelado:

- E o que esse animal come?
- Ai giv máaas

Sul-africanos, como ingleses, não costumam pronunciar 'érres' ao final de palavras:

- Mars? Du iu giv tchóklets tu dze snêik?
- Nôu bru! Ai sêd Máaas

E o canadense completa:

- Ei Méuss... un souris...

E o sul-africano aponta para a marca de sangue na parede: "essa foi da última vez que ela esmagou um ratinho...".