18.5.08

Para tomar tchicu


Oriente Médio. Golfo... um dia qualquer nas vizinhanças do Eixo do Mal. Tomo uma decisão: vou ao banco. O objetivo: transferir dinheiro para o Brasil. Dinheiro para comprar uma fazenda, ou talvez, alguns deputados (eles adoram...). Ou talvez, as duas coisas.

Sabe leitor: deputados adoram fazendas. Então nada melhor do que colocá-los lá, em um enorme rebanho... tudo bem, não falo mais de deputados, esta espécime rara. "Você sabe com quem está falando?", já se pronunciou um deles.


O Banco fica lá em Jebel Ali Free Zone (Zona Franca da Montanha Ali), pertinho do porto de mesmo nome. De montanha mesmo, não há muito mais do que uma colina, quase uma duna, onde estão algumas antenas parabólicas enormes. Por que Ali? Mania de querer saber o por quê de tudo. Mas eu explico: Ali foi primo e genro de Maomé. Mas porque ele virou nome de montanha, aí já não sei. É como querer explicar porque o nome o profeta varia tanto: Mohamed, Muhammed, Muhammad, Ahmad, Ahmed, Mahmud, ...

A transferência internacional no banco custa 80 dirhams, via internet, 50 dirhams. Mas como é muito dinheiro (malas e malas, leitor! Não seja pobre: fazendas custam caro), não há outra opção a não ser ir pessoalmente, com a minha caravana de camelos (Sim, eu sou um endinheirado. Ana tchor flos).

Nossa que calor! Enquanto a menina conta as inúmeras notas de 1000 dirhams, aproveito para tomar água. Água fesquinha, quase nem percebi quando a garota terminou de contar:

- Óquêi, sãr. Hévagudêi.

Dever cumprido, fome: hora de comer.


Entre um banco e outro, dois restaurantes: Muhammed Khalifa Restaurant. Eat & Drink Restaurant. Ótimo. Entro no mais bonitinho: Eat & Drink: 6 mesas de quatro lugares. Todos os assentos ocupados. Todos homens. Melhor tentar o outro. Mas a bexiga está cheia, não dá pra sentar.


- Vocês têm banheiro aqui?
- Sorry, sir...

Vamos tentar algo lá fora. Vamos perguntar para esse senhor sentado no bloco de cimento:

- Hi, do you know where the bathroom is?
- Sorry?
- Bathroom, restroom.
- Arab?
- No...
- Sorry, sir. No English.
- Toilet. Tovalet. Xixi. Cocô.
- No, sir...

Vamos lá. Eu consigo. Isso aqui deve ser uma mesquita... e bingo! Um banheiro. Mas a voz no microfone indica que é horário da oração e rapidamente, uma fila de barbudos se forma na entrada do banheiro. E todos olham para mim. Na parede, uma placa:

Proibida a entrada de não-muçulmanos

De certo, não haveria problemas em fazer um xixizinho. Menos feio do que tirar o pipi e fazer ali no deserto, na frente de todos. Mas essas coisas inibem a gente, e até a vontade de xixi passa. Ótimo, já dá para sentar. Volto ao restaurante. Este aqui tem mais mesas que aquele ao lado. O garçom aparece:

- Hi, sir!
- Can I see the menu?
- Yes, sir... - ele sai e vai à prateleira e sem nenhuma dúvida, puxa um pacote de batatas-fritas, derrubando tudo o que estava na prateleira. Isso o distrai: ele volta com o pacote de batatas-fritas e começa a reorganizar a prateleira. Um outro garçom se aproxima:

- Hi, sir!
- The menu...
- No menu, sir...
- O que você tem?
- Dagaladagalagadagalagada... and chicken biryani... and dagaladagalagadagalagada... dal.

Aceito o dal, que é feito de batata. Dal e pão, feito na hora. E só: era o que ele tinha de vegetariano. Na hora de pagar, tiro uma nota de 100 dirhams.

- Sorry, sir. It's only 3 dirhams. No change?

Três dirhams e eu apenas com uma nota de 100. Constrangedor:

- Hmm... no...
- Ok. No problems, sir.

E o que era quase de graça, sai constrangedoramente de graça. Mas também não matou a fome. Outra idéia, volto ao Eat & Drink:

- Hi sir! Do you have... chickoo drink?
- Yes, sir!

Está com fome? Pare em qualquer restaurante ou cafeteria indiana e peça um Chickoo Milkshake. Tchicu é uma frutinha marrom bem doce que no Brasil é mais alongada e chamada de sapoti. É muito comum na Índia e outros países da Ásia.

Enquanto espero a bebida, observo o fluxo: os garçons alternam-se entre atender a clientela e empacotar os pedidos para viagem. O telefone toca freneticamente.

Em uma mesa com rodinhas há um balde com talheres de plástico, e sacolas plásticas onde os pacotes para viagem são preparados. Entre um pacote e outro, um garfo vai ao
chão. O outro garçom passa e dá sua contribuição para o evitar o aquecimento global: pega o garfinho do chão e - óbvio - coloca-o novamente no balde de garfinhos limpos.

- Ok, sir.
- How much?
- 12

Pronto. Passo no restaurante ao lado e com o troco, pago o Dal. Hora de tomar tchicu.

Um comentário:

Paty disse...

Haha! Caramba! Já me aconteceu isso de não pagar pq estava sem trocado, mas depois voltei ao lugar também.
Você só esqueceu de mencionar que nas horas do "dalgadalgada" e "sorry, sir", o garçom chacoalhava a cabeça com aquele movimento que só os indianos sabem fazer. Haha! Parece que vi a cena!