21.5.08

Arfan, um afegão

Mais um táxi, mais um aceno. Finalmente um táxi com motorista de bigode e óculos escuros pára:

- Good afternoon, sir.
- Umm Suqeim, please.
- Sheik Zayed Road? Al Wasl?
- Sheik Zayed Road, please, I'm in a hurry, it needs to be fast...
- Ok, sir...

No rádio, sintonia no canal indiano, cantora de voz aguda. Ao chegar na rodovia, o táxi é ultrapassado por uma BMW da polícia.

- No seu país, como são os carros da polícia? São como esses?
- Não, não são BMW...
- E são como?
- Bom... são carros novos, mas não caros como esses...

Ele acena para o porta-luvas:

- Abra. Há fotos de carros de polícia aí dentro.

De fato, ali estavam duas fotos. Em uma dois rapazes com fardas policiais posam ao lado de uma motocicleta da Polícia. No outro, os mesmos 2 rapazes posam ao lado de uma caminhonete Mitsubishi:

- American car, sir! Bullet proof!
- Algum parente?

Ele tira os óculos e aponta para o policial de olhos claros, topete, farda e sandálias.

- Este aqui sou eu... - mas o tempo cobra seu preço, levou seu topete, aumentando a testa:

- Isso foi lá em 91 e 92. Afeganistão!

Boa parte dos paquistaneses e afegãos possuem olhos claros. Dizem que é um resquício da passagem do exército de Alexandre, o Grande, pela região.

- Então você fala Dari?
- Não, não. Eu falo Pachtu!
- Então é pertinho do Paquistão...
- Sim. Em uma distância como que daqui no Western Union (do outro lado da Sheik Zayed) e você está no Paquistão. Mas agora o Paquistão fechou a fronteira com cercas e arame farpado...
- 91, 92... isso já é época dos Talebãs, não é?
- sim, sim! Eles ainda têm muito poder na minha cidade. Por isso que vim para Dubai. Agora os talebãs visam Mas minha vaga está garantida: sou registrado. Quando os talebãs forem eliminados, volto para a Polícia!
- bom... pela sua opinião, vejo que você não acredita que eles são bons para o país...
- Olha, só... o Islã, não é essa coisa violenta. Você não pode sair por aí matando desse jeito em nome do Islã. O Islã é amor, é paz...
- Então você mora sozinho aqui?
- Não, minha esposa acabou de ir para a Índia, de férias... ela é indiana, de Mumbai...

Ele vai contando como é que um afegão se casa com uma indiana. Trabalhavam juntos no Spinneys: ela, supervisora de frota; ele, motorista. Até um dia em que chegou para ela e disse:

- Aprecio muito a nossa amizade. Gostaria que você pensasse a respeito. Gostaria de tê-la a meu lado.
- Preciso de um tempo para pensar.

Passada uma semana, ela troca seu turno de diurno para noturno. Ele protesta:

- Isso não é correto!
- Por favor, aguarde, aguarde. Já há pessoas na empresa desconfiadas...

Passou mais um mês até um dia em que perdeu a paciência: comprou uma flor, uma rosa, coisa de 8 a 10 dirhams. Colocou a melhor roupa e foi de manhã no supermercado e fez uma declaração mais ou menos assim, na frente de todo mundo:

- Escuta! Não me importa sua religião, língua ou sua nacionalidade. A única coisa que eu quero é ficar com você.

Ela protesta:

- Mas você já é casado no seu país!

Ai eu pergunto:

- Mas você já era casado no Afeganistão?

Ele se defende:

- Sim! Mas eu fiz tudo certinho: pedi permissão!
- E a esposa afegã? aceitou?
- Sim!!!
- Bom... neste caso, se ela aceitou, então tudo bem!
- Sim! E a indiana aceitou! Todos os colegas que estavam ali bateram palmas...

Ele conta orgulhoso das qualidades de suas esposas: a afegã, descendente de Tadjiks. "A família dela veio lá do norte, ele é diferente... mas falamos em pachtu, no problem...". A indiana, sua ex-chefe, mulher independente. "Eu não sei explicar, não sei se é a pele, o cheiro, ou o jeito: a indiana me atrai!"

O táxi sai da Sheik Zayed e se aproxima do semáforo da Al Manara Street com Al Wasl Road:


- Left, sir?
- No, straight ahead.


Uma boa oportunidade para mudar de assunto:

- E você, vem de onde?
- Brasil...
- Ah, very good football players... the best. Pelé, Ronaldo, Roberto... Já ouviu falar de Pelé?
- Sim, acho que já ouvi falar...
- Man, bola no pé de Pelé é gol! 100%! Pelé is a poet! Pelé is the best!

Chegamos. Ele não precisava falar de futebol para ganhar simpatia. No marcador está 27 DH. Tiro 30 DH. Ele procura moedas de troco. Mas 3 DH não pagam uma boa estória...

- Thank you, sir.
- What your name, again?
- Arfan! From Afganistan!


Arfan, do Afeganistão: sorriso largo de dentes abertos. Um aperto de mão. Desejo boa sorte para ele e suas esposas. Ele abre as mãos, olha para o céu e diz "Inch'Allah! God bless you, too!".

2 comentários:

Paty disse...

Poxa, história bem legal. Sempre que vou à Dubai e tenho problema com algum taxista, ligo para reclamar. Mas quando pego um gente boa que nem este, também ligo para a Central (aquele órgão do governo que tem o adesivo dentro do táxi) e faço elogio (além de dar uma gorjeta). Não custa nada e acho que é sempre um incentivo ao bom funcionário. Se a pessoa trabalha direitinho e ninguém reconhece o bom serviço prestado, ela acaba perdendo a vontade de continuar daquele jeito. Mas eu vivo num Mundo de Alice, então, sei lá...

Julio disse...

hahaha muito boa a história!

a parte da declaração dizendo que tinha sido autorizado pela esposa ainda foi d+. hahahaha

*Vi seu blog na info "Guia de carreiras em TI"*

Valeu