11.11.08

The visitor

Acabo de ver o filme The Visitor, filme que fala de muita coisa: música, mundo árabe, África, imigração nos EUA.

Bem verdade que desde que saí de Dubai, venho em uma fase de negação de tudo o que seja ligado à cultura árabe, mas as sutilezas desse filme me trouxeram agradáveis lembranças: o sotaque árabe ao falar inglês; as releituras que alguém criado em um cultura faz do "outro". Como no diálogo em que o personagem Tarek pergunta a Walter se ele gosta de "Chawarma", e recebe como resposta "sim, eu gosto de Charma"; Walter dizendo "Kalil" ao invés de Khalil (o sobrenome de Tarek que se pronuncia "RRRRRalil) ... ou ainda Tarek chamando sua esposa de "habibti". A legenda em francês contentou-se a mostrar "habibi" (de certo, o tradutor não falava árabe).

Já os trejeitos de Muna, a personagem de Hiam Abbass, lembrou-me e muito da elegância contida das sírias que conheci em Dubai, cristãs ou muçulmanas (pois é, nem todo sírio é muçulmano). Mais precisamente de Sandrela, com quem morei por 7 meses em uma casa de 9 quartos... ô menina generosa: ela adorava cozinhar, e eu sempre gostei de comer. E um dos maiores prazeres de quem cozinha é ver alguém saborear suas obras-de-arte: é Ramadã? Lá vinha Sandrela me convidar para um Iftar. E lá ia eu mandando brasa nos fatuches, fatáiers (esfiha aí no Brasil), tabulis, homus e muitas outras coisas cujo nome não sei. Às vezes, seus pais vinham lá de Homs para uma visita. O problema é que eles não falavam muito bem inglês. Aí rolava aquele diálogo básico:

- Sabah al kheir...
- Sabah al nur...
- Kifik?
- Miliha! Wa kifak?
- Amdulilah...
- !@#%@#%@^#$%^#$%^#$ ?
- ?! - sorrisos amarelos de ambas as partes - iála, Sandrela, volta aqui traduzir!

Poxa, deu até fome. Vou escrever para ela, perguntar se está tudo bem.

E para finalizar: depois dos eventos decorrentes do 11 de setembro e da era Bush, sempre tive um preconceito em relação aos EUA. Mas nos últimos tempos, minha curiosidade por essas esquinas do mundo como Nova Iorque vem aumentando. Quem sabe agora, na era Obama?

2 comentários:

Layla Fiusa laylaf@uol.com.br disse...

Salám monsieur ex sheik Luís,
Este comentário me lembra o quanto ri, quando pela primeira vez, aqui em Dubai, um indhu apresentou-se para mim: "I am from UK", balançando a cabeça em um ritmo cantado próprio da Índia...
Vc pode ser de onde for, carrega sua herança cultural, sobretudo através do idioma! O sotaque nos torna "caseiros". Falar uma lingua sem "acento" (eu tenho esta experiência em uma das linguas que falo), é mais ou menos perder sua identidade de origem naquela cultura.
By the way, eu morei em NYC! Tive formação escolar francesa no Brasil e fiz história na USP, em São Paulo... tudo para mim era a frança e a Europa!! Até que um mestrado nos impeliu para a "big apple". Foi uma das experiências mais legais que já vivi. Amei Manhattan, amo Manhattan! No final dos anos oitenta e inicio dos 90, a cidade recuperava sua identidade, seu "savoir fair", sua segurança... Em profunda recuperação, as "town houses" no "upper east side", renovadas, eram razoáveis em preço e transadíssimas para se morar... Passei seis meses andando todos os dias pelas ruas, entrando em lugares inusitados, museus, galerias, lojas de departamento sofisticadas, aonde mulheres, como eu (apenas eram americanas)estavam loucas por um "papo"... "you are brasilian??? ohhhh! so nice, sun... parties... carnival!!!"
O "american mellting pot" não é tão diferente do "middle east mellting pot". A maior diferença é poder estar em Paris, desde Dubai, em 4 horas e , desde NYC em 12 horas...

Layla Fiusa laylaf@uol.com.br disse...

Oi ex-sheik-luis,
Sou eu de novo,venho te tentar com New York.
Nesta época do ano, as esquinas são mais traiçoeiras que político em Brasília... No entanto tem seus encantos. Para mim o evento considerado o mais importante da América (leia-se Estados Unidos)
É o Thanksgiven. Última quinta-feira do mes de novembro, relembra a chegada e a acolhida dos ingleses pelos "natives" americanos.É quando se come perú e torta de abóbora...
Em geral, é o único momento em que as famílias realmente se reunem. Filhos que estão em todos os lugares da América, voltam a seus lares e "confessam" suas realidaes... é o momento da verdade. Significa para eles, o momento em que se está predisposto a corrigir falhas, fazer um mea-culpa, para seguir adiante.
Me causou extrema emoção quando um primo meu, em casa dos pais, diante de nós, confessou que "estava em drogas"! A tensão,a surpresa e a coragem estavem no ar...
Bem, ele aceitou ser internado em uma clínica e hoje é um excelente homen de negócios.
Enfim, a mentalidade americana é muito ampla, começa com os uguenotes e vem passando por uma "purgação"...
Não acredito que vá mudar por causa do Obama, mas acredito que a sociedade americana QUER MUDAR, e isto é grande!!!
Fundamentada em preceitos protestantes, é uma sociedade conservadora mas ao mesmo tempo atrevida por sua condição de liderança...
Obama é a "vontade de fazer diferente", resta saber se no "frigir dos ovos" eles querem mesmo mudar" !!!!
Não sou conservadora, mas tenho 54 anos ( ops... pareço 40...eheheh!!!) acompanhei e participei da História recente do Brasil e me coloco na defensiva com esta coisa de "grandes mudanças".
Mas Como diz meu gurú intelectual: "tudo na vida vale a pena quando a alma não é pequena"
Beijão e Al Salamaleikum desde Dubai, Layla Fiusa.