31.1.07

A casa do fim dos sonhos

Ela abre a porta da casa: simples, porém grande, como deve ser em cidades do interior.

- Foram meus pais que construíram há muito tempo atrás - disse ela.

Entro na sala. Uma mesa de madeira maciça na sala de estar, um aparelho de jantar com portas de vidro e espelhos no fundo, sobre o qual estão diversos retratos.

- Não há ninguém?
- Apenas minha irmã, ela deve estar no quarto. Moramos sozinhas aqui. Eu, ela e meu sobrinho.

Pelo silêncio, parece que está vazia. Um gato lento e preguiçoso aparece na porta da cozinha e me olha com desdém próprio de gatos experientes.

- Ele já tem mais de 10 anos - explica ela enquanto enche a vasilha com ração - deve estar com fome. Estava vazia...

Um retrato chama a atenção: um casal jovem sorri abraçado. Ele de terno, cabelos semi-longos e bigode. Ela bem maquiada, de vestido brilhante laranja à Jacqueline Onassis, e um enorme penteado envolto em um laço de fita da mesma cor do vestido.

- São meus pais. - responde ela da cozinha, de costas para a sala - eles se separaram há muitos anos e meu pai saiu de casa. Recentemente, minha mãe mudou-se também: foi morar com o namorado, e nós ficamos aqui.

Ela troca também a água do gato e então segue para o quarto - vou tomar um banho. Fique à vontade, pode ligar a TV.

Ligo a TV, mas olho para o gato. O gato continua onde estava, olhando a tudo com uma letargia própria de quem acordou no final-de-semana ao meio-dia sem ouvir despertador, e ficou por pelo menos uma hora em um estágio de consciência intermediário, deitado na cama de olhos abertos sem sem mexer, pensar ou sonhar.

Letargia. Talvez seja isso mesmo: o gato olha a casa com a letargia quem acabou de acordar de um sonho de 10 anos, sonhos de uma casa viva e ativa, onde ele saltava e voava por todos os cantos, fugia do chinelo do dono e era torturado por duas garotas que brigavam para carregá-lo e espremê-lo de um lado para o outro chamando-o de (bi)chaninho. E agora, silêncio, realidade. Uma tigela que se enche a cada dia. Uma outra de água, encostada na parede escura.

Letargia. Talvez não seja nada disso: indiferença é a palavra. Morte? - indaga-me ele com olhar profundamente niilista - É sabido por todos os humanos que nós, animais não-humanos, não sabemos que vamos morrer - complementa. Deus? Gatos não precisam de deuses, pois como já disse, não sabem que vão morrer, e apenas vivem - o gato vira-se e volta lentamente para a cozinha, desconfiado de que os dogmas religiosos daqui e de acolá são uma bela desculpa para que humanos cometam crimes contra gatos e outros animais - inclusive humanos - sem grandes pesos de consciência. Tentar argumentar é inútil, pois o gato não volta atrás - religião não se discute, não é mesmo? - foi seu último comentário.

Letargia, indiferença. Nem uma nem outra. Dizem que os gatos não pensam. Todos sabemos que gatos não falam, apenas miam e este, nem isso. Mas o fato é que a realidade sempre vem depois dos sonhos, e depois de anos de esperanças, tudo simplesmente se acabou, deixando apenas traços do que era em um retrato, em um quadro, em uma mesa onde todos se sentavam no horário do jantar. E a casa ficou assim, letárgica, vazia, silenciosa. Até que um perfume invade a sala:

- Vamos?
- Sim, vamos.

Ela fecha a porta novamente apagando a luz, indiferente ao gato que permanece ali, na porta da cozinha, com olhar indiferente, letárgico, ou talvez, nem isso.

4 comentários:

Carlos Eduardo Zorzin disse...

Hehehehe...
Gosto muito dos gatos.

Anônimo disse...
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Ariadne disse...

Que engraçado, parece que vc está falando da minha casa, do meu gato... vc escreve bem, menino! :)

Anônimo disse...
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