26.3.07

Patê de carne

Viro a esquina para esquerda, agora para a direita. Rua vazia, rua escura, olho então para o rádio, ligo, olha para a frente, nada. Ironia: sintonizo na Dubai Eye e não vejo o vulto a minha frente. Quando vejo já é tarde, já está diante da roda direita. Quando freio, já foi.

Não fez barulho. Não deve ter sido nada. Estou vendo coisas. Mais à frente, um casal que faz uma caminhada leva as mãos à cabeça. Abro o vidro e ouço um senhor barrigudo de meia-idade:

- Como você tem coragem de fazer isso? Você não olha para a frente?!

Olho pelo espelho e vejo uma bola felina imóvel no asfalto - eu não vi.

- Matou um pobre animal que não faz mal a ninguém... disgusting!

Ainda que sem intenção, matei um gato. Busquei naquele senhor alguma expiação, coisa como "foi por pouco, ele escapou", "passou por cima mas não matou" ou "gato tem 7 vidas, agora só 6", mas encontrei apenas acusação e o peso da culpa.

Valores de uma sociedade: quantas vacas, porcos e frangos são mortos diariamente nos frigoríficos? Ato deliberado... cruel? Uma vaca ao ser morta pelo método judeu recebe um corte no pescoço que lhe abre a artéria, e sangra até a morte. Tem mais sorte que as demais que morrem com marretadas na cabeça. Em uma granja, os frangos vão seguindo pela esteira. Na linha de produção, em um ponto se quebra o pescoço, em
outro se separam as penas, noutra as pernas, crista, e cabeça. Tudo se aproveita. Quando a faca perfura o coração do porco, dizem que grita como um ser humano. E provavelmente o senhor a minha frente come um bife ou um balde de frango no KFC sem dores de consciência. O que salva o gato de tal sina? Uma carne magra? Ou talvez o amor, esta coisa linda que une as pessoas que se merecem e os animais de estimação.

O senhor está transtornado. Impossibilidade de diálogo, subo o vidro e sigo, enquanto a mulher que o acompanha ordena ao agregado indiano que tire a bola de carne, pêlo e ossos partidos do meio da rua. Morte digna, nada se aproveita: enterro em um saco preto no ataúde de lixo.

Uma fração de segundos que muda tudo: desta vez era um gato - há muitos gatos na vizinhança. Mas poderia ser uma criança - há muitas crianças na vizinhança. E se fosse uma criança, eu seria um assassino. Por ora sou apenas um distraído insensível. Carro é uma arma.

5 comentários:

Audrey Salatti disse...

Sheik, cuidado!
Dri

Danilo disse...

Queria te enviar isto faz tempo, pelo fato de vc ser vegetariano e tal:

http://www.meat.org

Bom proveito!

PS. Toda hora que como hamburger agora lembro das imagens.

Abraço

Anônimo disse...

Luís,

Belo post. Não sei o quanto tem de literatura no seus posts. Com muita destreza abordou dois temas pra lá de caros.

Abraços,

Juliano

wscaglia disse...

ahuahuah Ótima sheik!

Dudu disse...

Ui, preciso parar de comer carne!
E acidentes acontecem! Lembre-se de que tem gente dirigindo bebada por ai e se matou, no dia seguinte nem lembra...
Distraido sim. Insensivel nao.
Right?