22.8.08

ex-Sheik Luís às vezes responde

vinicius p. benini deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: estudar em Dubai":

Olá,
Vi no google o seu blog e me interessei bastante!!
estou querendo ir morar por uma ano ou ate mesmo seis meses em dubai!!
Gostaria de saber como é que funciona a respeito de estudos(como inglês) e sobre trabalhos temporários.

obrigado
vinicius p. benini



Postado por vinicius p. benini no blog Dubai F. C. em Quarta-feira, 20 Agosto, 2008

Fala rapaz,

Beleza?

Lamento dizer, mas Dubai é um lugar meio escroto para essas coisas. Não é um lugar fácil para turistas low-budget e trabalhos temporários.

Tem trabalho temporário? Tem, nos hotéis, com alojamento e tal. Até em shopping tem. Mas mesmo aí, já vão te pedir um minimozinho de qualificação. Mas não espere guardar dinheiro. Tem que procurar nos sites dos próprios hotéis. Dá uma olhadinha nos posts iniciais de "Empregos" que há varios links para sites de hotéis por lá. Mas eu não recomendo. E imagina que eles não te pagam a acomodação: você vai penar para achar um muquifo para morar. E qual é o prazer de sair do Brasil e morar pior do que em uma favela? Ao menos em uma favela brasileira há mulheres. Com sorte, dançando funk.

Só um tapinha não dói...


O aluguel é mais caro que em Paris é não é fácil encontrar. E você vai ter que negociá-lo tudo "na tora", com pagamentos adiantados, tudo no inglês indiano. Opção barata: ou você vai morar no meio do deserto, onde você vai se arrepender de ter nascido, ou num lugarzinho tosco e fedido e cheio de homens perto dos mercados de Deira e Bur Dubai. Igualmente, você vai se arrepender...

... se ainda assim você quiser arriscar, venha. Quem sou eu para saber o que é melhor para os outros. Mas escreva em um cantinho escondido do braço com tinta indelével: "O ex-sheik avisou."

E para dar um tom apocalíptico a este post, citação bíblica:

E então haverá choro e ranger de dentes.

Ai, ai. Deu até vontade de cantar Chico:


Quero ficar no seu corpo
feito tatuagem
Que prá dar coragem
pra seguir viagem
quando a noite vem...

(...)

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...


É isso aí.

Abraço risonhos e corrosivos!

ex-sheik Luís

Iate

Dubai...
Petrodólares...
O Paraíso dos Endinheirados...

... Ferraris.
... Masserattis.
... Campos de Golfe.

Quem joga golfe é muuuito mais feliz. Não é mesmo?

... isso, minha gente. Continuem a masturbação. Para te ajudar, lá vai uma foto do iate do xeque de Dubai, no Porto Rached, em maio deste ano:



Oooooooooooh...

Ras Al Rêiman: Pão-de-Açúcar neles!

E saiu ontem em vários canais de mídia do Brasil a notícia de que empresários brasileiros lançarão um empreendimento em Ras Al Khayman.

O emprendimento, que tem a forma do Pão de Açúcar, me traz a lembrança de algumas piadas em mesa de bar. A gente brincava de lançar um empreendimento genuinamente brasileiro: O Rocinha Inn. Faríamos as montanhas no meio da cidade(isso é fácil, areia tem de sobra) e venderíamos os barracos com tetos de zinco. Uma verdadeira "experiência tropical". O empreendimento, voltado para as classes menos abastadas, rapidamente seria invadido pelas classes média e alta, em busca de preços menos escorchantes e moradias mais próximas ao centro da cidade... ah, divagações, divagações...

Antes de mais nada, parabéns aos investidores. Para quem ainda sonha em ganhar "petrodólares" por aqui (sei que muita gente se masturba com isso aí no Brasil) e tem pés no chão, tem que ser assim: seguir para os outros Emirados que pegam carona em Dubai, que já está quase no limite do viável e da especulação. Ras Al Khayman é hoje o que Dubai era há uns 5, 10 anos atrás.

Mas vamos falar um pouquinho de Ras Al Khayman: a pronúncia correta do nome é Rás (como o R de 'baralho') Al Rêiman (como no RR de 'carro'). Ras significa "cabeça", Rêiman significa "barraca, tenda".

Emirado de Cabeça da Tenda. É assim mesmo. Suspeito que "Cabeça" tenha a ver com a formação geográfica da região, da maneira como um "braço de mar". Em Dubai, o final da Ria (ou Creek) é chamado de Ras Al Khor ("Cabeça das Águas Correntes" ou algo assim, um fétido lodo-meio-mangue onde flamingos às vezes passam para se alimentar, atraídos pelo seu cheiro apetitoso).

Voltemos à Cabeça da Tenda: O Emirado de Cabeça da Tenda é mais antigo que o Emirado de Dubai. Na verdade, até o século 19, o Emirado era o mais forte da região. A tribo dos Qawassim tinha uma importante frota marítima e controlava a passagem pelo Estreito de Ormuz, com seus domínios se estendendo a algumas ilhas e cidades da costa persa. Até que os amiguinhos britânicos resolveram acabar com a graça dessa turma de miseráveis metidos a donos-do-mundo e com um eficiente bombardeio, afundou quase toda a imensa frota de barquinhos desses barbudinhos Qawassim. É, foi assim, lá pelos idos de 1820...

... o importante dessa história é que os britânicos não bombardearam a esquadra de Dubai e Abu Dhabi, e assim o fim da hegemonia dos Qawassim favoreceu o "florescimento", ou melhor, expansão desses dois emirados. Toda essa história se reflete hoje no maior alinhamento entre Dubai e Abu Dhabi, e em certas divergências de opinião entre os xeques sobre questões como o relacionamento diplomático com países como o Irã: enquanto Dubai e Abu Dhabi mantêm relações amistosas com o amiguinho barbudinho persa, Ras al Kheiman defende um endurecimento no relacionamento por conta da disputa de 3 ilhas (Dedo Menor, Dedo Maior e Abu Mússa) hoje controladas pelo Irã (e que pela sua posição estratégica, não serão devolvidas tão cedo).


Ilha de Abu Mussa, vista de um barco


Turistas apreciam a vista da Ilha de Abu Mussa


Até hoje os barquinhos de madeira, dhows, passeiam pelo Golfo (Pérsico? Árabe?)...


... alimentando um importante comércio com o Irã. Aqui, carros usados de Dubai chegando ao porto persa de Bandar Lengueh

Mas como sei que essa historinha pra camelo dormir não te interessa e o que você quer mesmo é petrodólares, é nadar em petróleo como alguns patinhos fizeram quando Saddam incendiou os poços kwaitianos, então vamos a algumas fotos do Emirado de Cabeça da Barraca". Com vocês, todo o glamúRRR e o luxo desse emirado:







É. Como você pode ver, ainda há MUITO o que desenvolver. Hoje, O Emirado de Cabeça da Tenda está mais para Beirute Pós-Guerra que Dubai Brilhante. Mas vamos, lá: Pão-de-Açúcar neles.

Notas sobre a reportagem do jornal:

1)
"...ficou tão empolgado que resolveu até a entrar como sócio com 51%..."


Vale lembrar que 51% é nada mais do que a lei no Emirado: se você quiser montar seu empreendimento, saiba que obrigatoriamente você precisará de um ou mais sócios locais que detenham 51% do capital da empresa. O que não desqualifica o interesse do xeque em inteirar sozinho os 51%...

2)
... a 40 minutos de Dubai...


Bom, aí eu digo: depende da hora em que você tentou ir pra lá, e de onde você mora em Dubai. Esse percurso pode levar tranqüilamente mais de uma hora.

Enfim: Fim.

17.8.08

5a noite brasileira com DJ Igor

Saiu até nota no Gulf News:

In Dubai

5th Brazilian Night with DJ Igor dishing out the best of Brazilian rythyms and international hits at Jimmy Dix, Movenpick Hotel.
Entry Dh35, ladies free admission.



Parabéns ao Ígor e ao Elton, que seguem firme com a baladinha brasileira. Quem sabe um dia Dubai não ganha uns 2 ou 3 forrózinhos semanais, como Paris?

Nota: nas primeiras edições da festa, lá no Golden Tulip Hotel, a entrada era gratuita, tanto para homens quanto para mulheres. Agora que a coisa cresceu, já mudou de figura: 35 dh para homem, gratuito para mulher.

Machismo? Aí eu tenho que defender os garotos. Se não é assim, a balada vira uma sauna masculina, conseqüência da desproporcional relação homem x mulher de Dubai, digna de um garimpo. Ainda mais com a promessa de presença de meninas brasileiras, que são consideradas hot.

Dubai 40 graus

O meu primeiro dia em Dubai foi também o mais quente que tenho em memória: lembro-me de que eram 10h da noite e os termômetros na saída do aeroporto marcavam 39 graus. O motorista do hotel que foi-me buscar possuía providenciais toalhinhas umidecidas guardadas em um isopor com gelo. Estávamos na primeira quinzena de agosto de 2006.

Passados 2 anos, a memória começa a fraquejar, e confesso que até eu, que vivi essa experiência nojenta, começava a duvidar de mim mesmo: "39 graus às 10h da noite... isso não existe!".

Pois bem, hoje entrei aqui no serviço meteorológico. Dubai, meia-noite: 38 graus.



Resolvi variar a fonte, e encontrei 37 graus à meia-noite e meia...



... mas a umidade do ar está abaixo dos 40%, portanto, a sensação térmica não deve ser das piores.

Muita gente não entende como é esse calor: você abre a janela à noite de olhos fechados e sente aquela brasa que esquenta o rosto, como se fosse meio-dia... aí você abre os olhos e é de noite. Hora de fechar a janela. Brisa fresca?! Esquece, isso é só lá pra final de setembro, começo de outubro, inchalah.

+++

Ultimamente não tenho postado, e sinto que quando posto, acabo postando algo desmerecedor. Mas fiquem tranqüilos: prometo postar coisas mais alegrinhas e bonitinhas, para que você aí no Brasil, Portugal ou sei lá onde realmente acredite que é o máximo morar no deserto. Afinal, é isso que você procura aqui, correto?

Beijinhos de um ex-sheik.

5.8.08

Perdeu a bagagem de mão?

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: quem é o Sheik?":

Olá

Gostaria de saber se vc pode me ajudar. Estive aí em Dubai e viajei com a Emirates. Mas na hora de passar pelo controle de passaporte, acabei esquecendo minha bagagem de mão (maleta com filmadora, máquina digital...) Meu guia que me acompanhou na viagem, foi até lá e se encontra com o achados e perdidos no aeroporto de Dubai. Mas como não falamos mto bem inglês, não estamos conseguindo que nos mandem para São Paulo no p´roximo voo da Emirates. A polícia federal me sugeriu q entrasse em contato com o Consulado do Brasil no Dubai. Vc poderia me dar alguma idéia de como proceder??
Obrigado
Ari Jr


Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Segunda-feira, 04 Agosto, 2008

Meu camarada,

A Emirates Airlines tem um escritório no Aeroporto de Guarulhos com funcionários brasileiros. O telefone do escritório não está disponível em nenhum lugar mas você pode dar uma ligadinha lá no Aeroporto pra perguntar: PABX:(11) 6445-2945.

Se eu fosse você, telefonaria no escritório deles ou até mesmo iria pessoalmente munido de seus documentos e do canhoto da passagem aérea e relatar o ocorrido. As empresas aéreas têm um procedimento padrão de recuperação de bagagem, e isso é mais ou menos organizado no Aeroporto de Dubai. Se a sua bagagem já chegou a ser localizada, então você tem grandes chances de recuperá-la.

Boa sorte!

Luis

1.8.08

Fonoaudióloga?

MENEZES, ANGELICA deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Sheik Luís responde: emprego em Dubai?":

Bom Dia Luís,
Hoje assisti uma bela reportagem sobre Dubai e fiquei encantada com a beleza e principalmente com a qualidade de vida.
Sou brasileira, formada há 8 anos em Fonoaudiologia e pós graduada em Motricidade Oral. Isso é estranho pra você? Pra muitos brasileiros também. É uma área de saúde, que lida com dificuldades de voz,linguagem, audição e muito importante na reabilitação de alterações vocais presentes muitas vezes em profissionais que fazem muito uso da voz no trabalho e também muito importante para reabilitação de alterações neurológicas envolvendo alimentação, fala, compreensão,voz etc.
Sou apaixonada pelo que faço, porém nada ouvi dizer sobre como é a área de saúde em Dubai e em outras regiões dos Emirados Árabes.
Como tenho imensa vontade de morar no exterior, conhecer outras culturas e principalmente trabalhar e aprender novas técnicas relacionadas à minha área. Estou disposta a enfrentar esse desafio de disseminar meu trabalho.
Aguardo contato para saber maiores informações na área de saúde dos Emirados Árabes.

Respeitosamente,
Angélica Menezes
Brasília,DF - Brasil



Minha querida Angélica Menezes,

Sua área tem espaço sim em Dubai. Um bom começo é procurar uma vaga em um hospital ou clínica para "sentir". Mas atenção: é bem provável que eles peçam uma certificado de qualificação de algum conselho de medicina norte-americano, europeu ou inglês (sic)...

A área de saúde está em franca expansão. O carro-chefe da área de saúde hoje é o Health Care City, um condomínio, ou vamos dizer, um conglomerado de prédios que aspira a se tornar um centro de referência médica em todo o Oriente Médio.

Veja bem: Health Care City não é uma empresa. Assim como outros condomínios (digamos assim) como Dubai Media City, Dubai Internet City, etc, o Dubai Health Care City é um condomínio temático destinado à investimentos na área de saúde. Isso significa que o governo de Dubai aluga os prédios para investidores de peso na área de saúde. Resumindo, não procure empregos no site do Dubai Health Care City, mas dos hospitais, clínicas e laboratórios que lá irão se instalar.

Um comentário à parte: é compreensível o desejo de criar aqui um centro de excelência na área de saúde. Até meados dos anos 60, não havia hospitais nos emirados que formam hoje os Emirados Árabes Unidos e até pouco tempo atrás era comum o governo de Dubai pagar para seus cidadãos tratamentos de saúde no exterior por falta de pessoal qualificado.

No mais, é isso: cuidado com as paixões, com as empolgações. As imagens que fazemos das pessoas e cidades quando em um estado de paixão raramente correspondem à realidade (seja lá o que isso venha a ser).

Se você é uma pessoa puritana, vai adorar a nova guinada moralista do governo de Dubai de prender gente na praia e nos shoppings por "vestimentas indecentes". Foram 80 na praia, e mais uns 40 nos shoppings logo no primeiro fim-de-semana. Eu achava isso tudo um saco, uma infantilidade. Dias atrás, um casal inglês foi preso de tarde na praia, só porque estavam fazendo essa coisa linda que une as pessoas, faz criancinhas e faz a economia crescer, que a gente chama de amor. Oras...

...enfim, Dubai foi uma fase importante, mas hoje, pra mim, Dubai é como a piada sobre os dois prazeres de uma mulher que faz sexo com gordo: quando ele começa e quando ele termina (e sai de cima).

É isso: os maiores prazeres de Dubai são também dois: quando a gente chega... e quando a gente vai embora.

Abraços e beijos de um ex-sheik,
exilado, feliz, contente e sem tempo (digo, para escrever)

Luís

20.6.08

Paris F. C.

E você deve estar se perguntando: acabou o Dubai F.C.?

Veja bem... não acabou, mas anda me faltando tempo para atualizar...

... falta de tempo, concordo: bela desculpa. Falta de tempo não existe, o que ocorre de fato é uma mudança de prioridades. E enquanto a prioridade não chega de volta ao Dubai F.C., fica aqui um novo endereço: Paris F.C..

É isso aí.

Beijocas de um ex-sheik,

Luís

12.6.08

12 de junho

É de manhã: moça decidida que vai ao comércio pensando no moço. Loja de lingeries: "De renda". Papelaria: "De carta". Perfumaria. Escolheu e escolheu e escolheu e estendeu o cartão: "Parcela em três vezes?"

É tarde, sol que atravessa a vidraça, ilumina a moça que desenha. Giz preto sobre a folha bege. Fantasias, versos de Adélia Prado:

Janela

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora,
monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném,
a mãe do Pedro Cisterna urinando na chuva,
por onde vi meu bem chegar de bicicleta
e dizer a meu pai: minhas intenções com sua filha
são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.


É quase noite. Banho, roupa nova, maquiagem, embalagem com um cartão. Espera...

Espera. O moço que chega suado de bicicleta vestido de dia comum. Espanto: "Tem festa hoje?".

É noite. Desencanto: louça partida. Conserto? Colam-se os cacos... mas ficam as marcas.

6.6.08

"A morte de um sheikh?!" ou "Em busca de Passárgada"

Paris, 06 de junho de 2008



(repare leitor, já começo este post arrotando caviar. O que escrevo abaixo deve ser importante...)



Caro leitor,


Lendo agora o título acima, penso que é forte e desmedido: talvez eu o mude para "O exílio de um Sheikh", pois é o que de fato ocorreu.

Sim, leitor: fugi às pressas de Dubai, apenas com alguns alforjes e um camelo. Viagem longa: da despedida em Dubai foram muitos dias de viagem até aqui chegar:



... de barco até Bandar Lengeh (Irã)...



... de ônibus até Shiraz com temperaturas acima de 45 graus ...



... de camelo atravessei planícies agrícolas, montanhas e desertos...




... até chegar em Isfahan, a cidade mais bonita da Pérsia:





E como cheguei até aqui? Longa história, leitor. Você é demasiado curioso.





Fuga, mas também um período de imersão. Imersão na hospitalidade persa.




Imersão em reflexões sobre o tempo e sobre a brevidade de nossa existência, seja como indivíduo, seja como nação, nas ruínas de Persépolis, Passárgada, Nagh-e-Rostam...





Repare no guarda tirando catota do nariz ao lado da coluna onde está escrito "Eu sou Ciro, Rei da Pérsia", em Passárgada. O guarda ali e eu aqui, tentando entender Manuel Bandeira...

Durante esse período refleti muito sobre o novo papel desse blog. Dei cabeçadas na parede. Enfiei farpas de palha sob minhas unhas. Lixei meus dentes nas pedras das ruínas. Pedalei em subidas com sol quente, em planícies com vento-contra. Fiz cocô em latrinas e limpei com o dedo.

Acalme-se, leitor. Este blog continua a ser redigido em meu exílio. Era assim na década de 70 no Brasil, né? Cantores cansavam de lutar contra o regime e se exilavam em Paris, Londres... que luxo.

Que luxo? Quem já foi rei, nunca perde a majestade. Confesso que estou ainda muito triste: estou com uma saudade enorme da quantidade de homens de Dubai, do aperto nos elevadores da Shatta Tower. Do barulho constante dos aparelhos de ar-condicionado. Mas aí tomo um café, como uma baguete, vejo meninas pedalando pelas ruas... e ela logo passa.

Não me entenda mal: minha intenção não é lutar contra o regime. Não quero mudar o mundo. Esta nova fase deste blog não é uma fase de revanche, o que importa é o amor. Dias atrás um rapaz aqui me abordou:

Dubai?! Por que é que você saiu de lá? Dubai é lindo! Dubai é um paraíso! Eu vi na TV!


Esse comentário entrou pelos meus ouvidos como um pão seco descendo pela garganta, sem água. Veja bem...

... é como eu disse: não quero mudar o mundo. Continuarei dando dicas até que elas se esgotem por si só, tornem-se antigas. A diferença é que agora o faço apenas com um pouquinho mais de liberdade, menos temores.

E o ex-sheikh aqui ficará feliz se a leitura deste blog (e de todo o histórico aqui acumulado em quase 2 anos) ajude a reduzir a distância entre as (enormes) expectativas de quem vê Dubai pela TV e de quem chega na cidade para morar. E que cada um consiga encontrar a sua Passárgada, inclusive eu.

É isso. Beijos e abraços de um ex-sheik.

Luís

22.5.08

Drinking water



Pia em uma rua, ao lado de uma mesquita...



A palavra correta seria "waste". Mas estudar o erro alheio ajuda a entender como o outro vê e interpreta o mundo ao seu redor.

Em árabe há uma letra, و, cuja pronúncia é ua. Curiosamente, é sempre transcrita para o alfabeto ocidental como w ou wa. Esta letra, sozinha, significa "e".

Assim, parece-me que, pensando com a cabeça de alguém alfabetizado em árabe, wiste faz todo o sentido, com a exceção do "i" alienígena.

Mais curioso ainda é ver que em farsi, و pronuncia-se como "va" e esta letra, sozinha, também significa "e". Isso também explica por que iranianos que aprenderam tardiamente inglês tendem a pronunciar todos os "w"s como "v"s: vere are you?, I vant vater. Ven is your flight?

Alguns indianos também tem essa pronúncia "envezada", mas não tenho idéia do por que.

Enfim.

Isto é tchicu

Isto é o tchicu...



... que vem da Índia.



Parece kiwi, mas não é (é muito melhor).

Em uma cafeteria em Deira: Chicoo Milk shake LARGE - 10 dirhams

21.5.08

Arfan, um afegão

Mais um táxi, mais um aceno. Finalmente um táxi com motorista de bigode e óculos escuros pára:

- Good afternoon, sir.
- Umm Suqeim, please.
- Sheik Zayed Road? Al Wasl?
- Sheik Zayed Road, please, I'm in a hurry, it needs to be fast...
- Ok, sir...

No rádio, sintonia no canal indiano, cantora de voz aguda. Ao chegar na rodovia, o táxi é ultrapassado por uma BMW da polícia.

- No seu país, como são os carros da polícia? São como esses?
- Não, não são BMW...
- E são como?
- Bom... são carros novos, mas não caros como esses...

Ele acena para o porta-luvas:

- Abra. Há fotos de carros de polícia aí dentro.

De fato, ali estavam duas fotos. Em uma dois rapazes com fardas policiais posam ao lado de uma motocicleta da Polícia. No outro, os mesmos 2 rapazes posam ao lado de uma caminhonete Mitsubishi:

- American car, sir! Bullet proof!
- Algum parente?

Ele tira os óculos e aponta para o policial de olhos claros, topete, farda e sandálias.

- Este aqui sou eu... - mas o tempo cobra seu preço, levou seu topete, aumentando a testa:

- Isso foi lá em 91 e 92. Afeganistão!

Boa parte dos paquistaneses e afegãos possuem olhos claros. Dizem que é um resquício da passagem do exército de Alexandre, o Grande, pela região.

- Então você fala Dari?
- Não, não. Eu falo Pachtu!
- Então é pertinho do Paquistão...
- Sim. Em uma distância como que daqui no Western Union (do outro lado da Sheik Zayed) e você está no Paquistão. Mas agora o Paquistão fechou a fronteira com cercas e arame farpado...
- 91, 92... isso já é época dos Talebãs, não é?
- sim, sim! Eles ainda têm muito poder na minha cidade. Por isso que vim para Dubai. Agora os talebãs visam Mas minha vaga está garantida: sou registrado. Quando os talebãs forem eliminados, volto para a Polícia!
- bom... pela sua opinião, vejo que você não acredita que eles são bons para o país...
- Olha, só... o Islã, não é essa coisa violenta. Você não pode sair por aí matando desse jeito em nome do Islã. O Islã é amor, é paz...
- Então você mora sozinho aqui?
- Não, minha esposa acabou de ir para a Índia, de férias... ela é indiana, de Mumbai...

Ele vai contando como é que um afegão se casa com uma indiana. Trabalhavam juntos no Spinneys: ela, supervisora de frota; ele, motorista. Até um dia em que chegou para ela e disse:

- Aprecio muito a nossa amizade. Gostaria que você pensasse a respeito. Gostaria de tê-la a meu lado.
- Preciso de um tempo para pensar.

Passada uma semana, ela troca seu turno de diurno para noturno. Ele protesta:

- Isso não é correto!
- Por favor, aguarde, aguarde. Já há pessoas na empresa desconfiadas...

Passou mais um mês até um dia em que perdeu a paciência: comprou uma flor, uma rosa, coisa de 8 a 10 dirhams. Colocou a melhor roupa e foi de manhã no supermercado e fez uma declaração mais ou menos assim, na frente de todo mundo:

- Escuta! Não me importa sua religião, língua ou sua nacionalidade. A única coisa que eu quero é ficar com você.

Ela protesta:

- Mas você já é casado no seu país!

Ai eu pergunto:

- Mas você já era casado no Afeganistão?

Ele se defende:

- Sim! Mas eu fiz tudo certinho: pedi permissão!
- E a esposa afegã? aceitou?
- Sim!!!
- Bom... neste caso, se ela aceitou, então tudo bem!
- Sim! E a indiana aceitou! Todos os colegas que estavam ali bateram palmas...

Ele conta orgulhoso das qualidades de suas esposas: a afegã, descendente de Tadjiks. "A família dela veio lá do norte, ele é diferente... mas falamos em pachtu, no problem...". A indiana, sua ex-chefe, mulher independente. "Eu não sei explicar, não sei se é a pele, o cheiro, ou o jeito: a indiana me atrai!"

O táxi sai da Sheik Zayed e se aproxima do semáforo da Al Manara Street com Al Wasl Road:


- Left, sir?
- No, straight ahead.


Uma boa oportunidade para mudar de assunto:

- E você, vem de onde?
- Brasil...
- Ah, very good football players... the best. Pelé, Ronaldo, Roberto... Já ouviu falar de Pelé?
- Sim, acho que já ouvi falar...
- Man, bola no pé de Pelé é gol! 100%! Pelé is a poet! Pelé is the best!

Chegamos. Ele não precisava falar de futebol para ganhar simpatia. No marcador está 27 DH. Tiro 30 DH. Ele procura moedas de troco. Mas 3 DH não pagam uma boa estória...

- Thank you, sir.
- What your name, again?
- Arfan! From Afganistan!


Arfan, do Afeganistão: sorriso largo de dentes abertos. Um aperto de mão. Desejo boa sorte para ele e suas esposas. Ele abre as mãos, olha para o céu e diz "Inch'Allah! God bless you, too!".

Marido quer ir pra Dubai...

Lika deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Minha querida aula de árabe II":

Olá,

Meu nome é Alice e moro em Salvador. Meu marido é italiano e professor de inglês, e
agora está com vontade de trabalhar em Dubai pois se cansou do carnavalismo diário baiano. Tá cheio de festa, festa e festa. Acontece que eu só falo 3 palavras em inglês: Num Lock, Caps Lock e Scroll Lock; estão escritas aqui no meu teclado.
Vc acha que minha vida aí será um mar de rosas? Que diabos posso eu fazer aí pra não morrer de tédio? Será que posso dar aulas de samba ou fazer um show de axé/afro em algum hotel? Porque vida de dona-de-casa-24hs seja lá em que país for já me deixa cheia de bolotas roxas.

Será que meu digníssimo vai conseguir um trabalho que dê a ele din-dim suficiente para pagar meu psiquiatra, já que vou ter depressão pós chegada a Dubai? Eu preferia ir para a Polinésia mas quem vai tirar essa idéia infâme da cabeça desse tresloucado?

Vc pode me dar umas dicas? Não sei se estou sendo pessimista mas tô vendo "hara" pela frente.

Bjs Sheik


Postado por Lika no blog Dubai F. C. em Segunda-feira, 19 Maio, 2008

Olá Lika,

Há algumas brasileiras na região na situação que você descreve: seus maridos, brasileiros ou não, trabalham por aqui, e elas não falam inglês. Muitas têm crianças para cuidar, o que preenche o tempo, outras não.

Sem inglês, fica difícil de encontrar trabalho por aqui. Torna quase impossível tirar carta de motorista (não defendo o transporte motorizado individual, mas em Dubai, é como uma carta de alforria). Sem inglês, seu círculo de amigos acaba ficando restrito à comunidade lusófona ou à italiana (não há muitos, mas há).

Sem emprego, Dubai acaba se resumindo a: praias, supermercados, salões de beleza shopping centers, compras, compras, compras... e até psiquiatras. Se você gosta de esportes, há também muito o que fazer.

O salário pagará as contas? Bom, aí já é outra estória: todos os professores de inglês que conheci são jovens e solteiros e eles não davam aulas em Dubai, mas nos outros emirados e cidades, onde a presença estrangeira não é tão grande. Salvo raras exceções, oriundos de países onde inglês é sua língua nativa. De repente, vale a pena uma viagem de férias até aqui para conferir.

Boa sorte!

Abraço de sheik,

Luís

20.5.08

Dubai World Cup: a calcinha com franjas

Ao final do evento, a amiga belga liga para a Anna:

- Estamos na área corporativa! Venham para cá!

Na entrada, uma loira de vestido relativamente curto e e penacho na cabeça já descalça vem nos entregar os crachás:

- Hi, my name is... and yours?
- Anna
- ... and you...
- Luís
- Oh! Na verdade, eu já tinha te visto antes. Eu estava comentando com minha amiga hoje à tarde... você é diferente... vocês são namorados?
- Não, somos amigos - foi o que a Anna disse.
- Ah, então não tem problema - a moça australiana se empolga e pega no meu braço - você é lindo!

Mesmo entre amigos este tipo de comentário causa constrangimento. Saída diplomática rumo ao casal belga. Fotos. O garçom aparece e assume que gosto de uísque:

- Red Label? Jack Danniel's?

Essa história de beber uísque de barriga vazia após algumas cervejas não é algo sensato. Mas não estou dirigindo, então tudo bem. Mas não quero ressaca, melhor comer. Na mesa, aperitivos: queijos, salgados, doces. Na volta, a loira me intercepta, agora com outra amiga:

- Oi, esta é minha amiga colombiana. Amiga, este é o Luís...

A colombiana diz algo ao ouvido da australiana, que responde em voz alta:

- Não! Não tem problema, eles são só amigos!
- Aaaah booom! Então não tem problema!!! - agora as duas me puxam, uma por cada braço, e me jogam no sofá. A colombiana está ao meu lado cruza os braços com o meu. A australiana senta-se na mesinha baixa (daquelas mesas de sala que as mães não deixam os filhos apoiarem o pé enquanto assistem TV) cruza as pernas e com uma das mãos, alisa minha perna. Eu, um acessório de luxo, colocado entre elas, enquanto conversam. "Ele é tímido! Que fofo!", diz uma delas. E elas tinham muito assunto para conversar:

- Cicatriz? Vou te mostrar o que é uma - então a colombiana se levanta e abre o corte do vestido longo para mostrar uma enorme cicatriz no quadril, na altura da cintura. Belas pernas, mas a cicatriz, coisa feia. Coisa para uns 20 pontos.

- Eu estava no carro com minha mãe. Foi um acidente...

O garçom chega com mais uísque. Ah, a eterna disputa darwiniana... os seres humanos tentam disfarçar, mas no fundo, até uma inocente conversa sobre cicatrizes se resume a uma medição de forças ... a australiana se levanta:

- então vou te mostrar a cicatriz que tenho.

Ela sobe o vestido até acima do umbigo. Barriguinha de quem faz ginástica. Calcinha - bem dizer, calcinha, não: tanguinha - branca com detalhes verdes que combinam com o vestido - branco de detalhes verdes. Tanguinha muito pequena para aquilo que esconde: Tanguinha com franjinhas... e eu aqui me pergunto por que uma loira tem pelos pubianos castanhos. Na altura do rim direito, uma série de marcas de cortes.

- Suas cicatrizes são lindas.

Sou interrompido com um rapaz sorridente que chega, e para o qual a colombiana se levanta e dá um longo e apertado abraço. A colombiana volta a se sentar enquanto ele diz algo à australiana e vai embora. É prudente realizar uma vistoria, e a colombiana tem um anel no dedo esquerdo:

- El es tu marido?

A esta altura, a Anna já está longe, sorriso-padrão, fingindo que não me vê, conversando com dois ou três homens. É quase meia-noite. Era o nosso trato para ir embora... a colombiana dá uma longa risada para a australiana:

- Você viu isso? Ele achou que o Fulano de Tal é meu marido! - e agora as duas riem juntas - hahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!

A australiana põe ternamente a mão em minha perna e me explica com ar didático:

- O Fulano de Tal é meu marido. O marido dela é aquele ali - e aponta para um inglês que está no balcão, e que a algum tempo olha para nós com aquele sorriso "não doeu".

Ele se aproxima sorrisa e me comprimenta. Aperto de mão longo, apertado. Longo. Apertado. Bom, eu não tenho nada com isso:

- Eu vou ali e já volto.

Aproximo-me do garçom:

- Água?
- Sim, sim. Mas tome também esse vinho do Porto.

Anna agora está sentada em uma mesa mais afastada do resto das mesas e conversa com um árabe de Omã. Mas ela já me disse que não quer nada com árabes. Ela cruza a perna esquerda sobre a direita. O rapaz, de fraque, dá os ombros para o resto do pessoal, fechando a vista.

Volto ao sofá: o marido inglês agora ocupa o meu lugar e segura firmemente a mão da garota. E segue com o mesmo sorriso... mas já é quase 1h, estou quase dormindo em pé. Como interromper uma conversa sem parecer ciumento?

- Oi, ... é ... então, Anna, já são quase 1h...
- Quando quiser ir embora, me avisa...
- Só vou ao banheiro e já volto...
- Ok.

O rapaz me olha com uma cara de reprovação. Eu me desculpo:

- Não quero interromper, mas... pegue o telefone dela, depois vocês combinam alguma coisa...

Reconheço: essa história de sugerir para trocar o telefone soou meio artificial. Ciúmes, eu? Na hora de me despedir, a australiana não se intimida. Abraçada ao marido, diz em alto e bom som:

- Nice to meet you. Você foi o cara mais atraente que conheci hoje.

Lá fora, silêncio... tento quebrar o gelo:

- É... acho que a moça foi meio inconveniente...
- Mas ela não é casada?
- É...
- Que coisa...
- É... que coisa.

E até hoje, quando lembro da calcinha com franjas, arrependo-me de não ter pego o telefone. Pensando bem, melhor assim. Ou não.