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11.3.09

O que é um Sheik?

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Fugindo da mordida do leão":

Luis,
Por favor, não encontrei um lugar melhor para colocar minha pergunta então vai aqui mesmo. Desculpe a minha ignorância mas o que é um sheik e o que ele faz? Qual a diferença para Xeque árabe?
Obrigada,
Mirella

Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Quarta-feira, 11 Março, 2009

Olá Mirella,

Um sheik é a mesma coisa que Xeque árabe. Escrevo sheik porque estou "inovando" com a língua.

Mas há uma razão para isso: sheik é a maneira como anglófonos chamam o xeque. Na verdade, nem isso: a transliteração mais correta do som dessa palavra em árabe para o inglês é shaikh.

Escrevo errado? Aí é o caso de se perguntar o que é o certo, pois a pronúncia de xeque não tem nada a ver com o som da sua palavra de origem. Em árabe, diz algo como xêrhh (esse rhh é pra imitar o som aspirado e raspado, gutural, de um 'r' carioca). Enfim, como já disse em outras oportunidades, o correto mesmo só em árabe. E para o feminino, adiciona-se um 'a' ao final: xêrhhha.

Para terminar: sheik, shaikh, , xeque, xêr em árabe é apenas um título de respeito. Você não precisa ser dono de um Emirado e das pessoas que nele vive para ser chamado como tal. Pessoas mais idosas e respeitadas por sua autoridade ou notoriedade também são chamados de sheik. A tradução mais próxima para o português dessa palavra acho que é "o fudidão".

Para designar especificamente o dono de um Emirado e das almas que nele vivem, o termo mais preciso (e nem sempre usado) é Emir (ou Amir, mais uma vez, o correto, só em árabe), que tem mais a ver com "chefe". Daí vem a palavra Emirado para designar a região onde moram seus súditos, e Amiri Guard, para a sua guarda especial que o protege.

Bom, é isso.

Abraço de ex-sheikh, xêrhh, shaikh, Cheik, xeque...

Luís

11.11.08

The visitor

Acabo de ver o filme The Visitor, filme que fala de muita coisa: música, mundo árabe, África, imigração nos EUA.

Bem verdade que desde que saí de Dubai, venho em uma fase de negação de tudo o que seja ligado à cultura árabe, mas as sutilezas desse filme me trouxeram agradáveis lembranças: o sotaque árabe ao falar inglês; as releituras que alguém criado em um cultura faz do "outro". Como no diálogo em que o personagem Tarek pergunta a Walter se ele gosta de "Chawarma", e recebe como resposta "sim, eu gosto de Charma"; Walter dizendo "Kalil" ao invés de Khalil (o sobrenome de Tarek que se pronuncia "RRRRRalil) ... ou ainda Tarek chamando sua esposa de "habibti". A legenda em francês contentou-se a mostrar "habibi" (de certo, o tradutor não falava árabe).

Já os trejeitos de Muna, a personagem de Hiam Abbass, lembrou-me e muito da elegância contida das sírias que conheci em Dubai, cristãs ou muçulmanas (pois é, nem todo sírio é muçulmano). Mais precisamente de Sandrela, com quem morei por 7 meses em uma casa de 9 quartos... ô menina generosa: ela adorava cozinhar, e eu sempre gostei de comer. E um dos maiores prazeres de quem cozinha é ver alguém saborear suas obras-de-arte: é Ramadã? Lá vinha Sandrela me convidar para um Iftar. E lá ia eu mandando brasa nos fatuches, fatáiers (esfiha aí no Brasil), tabulis, homus e muitas outras coisas cujo nome não sei. Às vezes, seus pais vinham lá de Homs para uma visita. O problema é que eles não falavam muito bem inglês. Aí rolava aquele diálogo básico:

- Sabah al kheir...
- Sabah al nur...
- Kifik?
- Miliha! Wa kifak?
- Amdulilah...
- !@#%@#%@^#$%^#$%^#$ ?
- ?! - sorrisos amarelos de ambas as partes - iála, Sandrela, volta aqui traduzir!

Poxa, deu até fome. Vou escrever para ela, perguntar se está tudo bem.

E para finalizar: depois dos eventos decorrentes do 11 de setembro e da era Bush, sempre tive um preconceito em relação aos EUA. Mas nos últimos tempos, minha curiosidade por essas esquinas do mundo como Nova Iorque vem aumentando. Quem sabe agora, na era Obama?

22.8.08

Ras Al Rêiman: Pão-de-Açúcar neles!

E saiu ontem em vários canais de mídia do Brasil a notícia de que empresários brasileiros lançarão um empreendimento em Ras Al Khayman.

O emprendimento, que tem a forma do Pão de Açúcar, me traz a lembrança de algumas piadas em mesa de bar. A gente brincava de lançar um empreendimento genuinamente brasileiro: O Rocinha Inn. Faríamos as montanhas no meio da cidade(isso é fácil, areia tem de sobra) e venderíamos os barracos com tetos de zinco. Uma verdadeira "experiência tropical". O empreendimento, voltado para as classes menos abastadas, rapidamente seria invadido pelas classes média e alta, em busca de preços menos escorchantes e moradias mais próximas ao centro da cidade... ah, divagações, divagações...

Antes de mais nada, parabéns aos investidores. Para quem ainda sonha em ganhar "petrodólares" por aqui (sei que muita gente se masturba com isso aí no Brasil) e tem pés no chão, tem que ser assim: seguir para os outros Emirados que pegam carona em Dubai, que já está quase no limite do viável e da especulação. Ras Al Khayman é hoje o que Dubai era há uns 5, 10 anos atrás.

Mas vamos falar um pouquinho de Ras Al Khayman: a pronúncia correta do nome é Rás (como o R de 'baralho') Al Rêiman (como no RR de 'carro'). Ras significa "cabeça", Rêiman significa "barraca, tenda".

Emirado de Cabeça da Tenda. É assim mesmo. Suspeito que "Cabeça" tenha a ver com a formação geográfica da região, da maneira como um "braço de mar". Em Dubai, o final da Ria (ou Creek) é chamado de Ras Al Khor ("Cabeça das Águas Correntes" ou algo assim, um fétido lodo-meio-mangue onde flamingos às vezes passam para se alimentar, atraídos pelo seu cheiro apetitoso).

Voltemos à Cabeça da Tenda: O Emirado de Cabeça da Tenda é mais antigo que o Emirado de Dubai. Na verdade, até o século 19, o Emirado era o mais forte da região. A tribo dos Qawassim tinha uma importante frota marítima e controlava a passagem pelo Estreito de Ormuz, com seus domínios se estendendo a algumas ilhas e cidades da costa persa. Até que os amiguinhos britânicos resolveram acabar com a graça dessa turma de miseráveis metidos a donos-do-mundo e com um eficiente bombardeio, afundou quase toda a imensa frota de barquinhos desses barbudinhos Qawassim. É, foi assim, lá pelos idos de 1820...

... o importante dessa história é que os britânicos não bombardearam a esquadra de Dubai e Abu Dhabi, e assim o fim da hegemonia dos Qawassim favoreceu o "florescimento", ou melhor, expansão desses dois emirados. Toda essa história se reflete hoje no maior alinhamento entre Dubai e Abu Dhabi, e em certas divergências de opinião entre os xeques sobre questões como o relacionamento diplomático com países como o Irã: enquanto Dubai e Abu Dhabi mantêm relações amistosas com o amiguinho barbudinho persa, Ras al Kheiman defende um endurecimento no relacionamento por conta da disputa de 3 ilhas (Dedo Menor, Dedo Maior e Abu Mússa) hoje controladas pelo Irã (e que pela sua posição estratégica, não serão devolvidas tão cedo).


Ilha de Abu Mussa, vista de um barco


Turistas apreciam a vista da Ilha de Abu Mussa


Até hoje os barquinhos de madeira, dhows, passeiam pelo Golfo (Pérsico? Árabe?)...


... alimentando um importante comércio com o Irã. Aqui, carros usados de Dubai chegando ao porto persa de Bandar Lengueh

Mas como sei que essa historinha pra camelo dormir não te interessa e o que você quer mesmo é petrodólares, é nadar em petróleo como alguns patinhos fizeram quando Saddam incendiou os poços kwaitianos, então vamos a algumas fotos do Emirado de Cabeça da Barraca". Com vocês, todo o glamúRRR e o luxo desse emirado:







É. Como você pode ver, ainda há MUITO o que desenvolver. Hoje, O Emirado de Cabeça da Tenda está mais para Beirute Pós-Guerra que Dubai Brilhante. Mas vamos, lá: Pão-de-Açúcar neles.

Notas sobre a reportagem do jornal:

1)
"...ficou tão empolgado que resolveu até a entrar como sócio com 51%..."


Vale lembrar que 51% é nada mais do que a lei no Emirado: se você quiser montar seu empreendimento, saiba que obrigatoriamente você precisará de um ou mais sócios locais que detenham 51% do capital da empresa. O que não desqualifica o interesse do xeque em inteirar sozinho os 51%...

2)
... a 40 minutos de Dubai...


Bom, aí eu digo: depende da hora em que você tentou ir pra lá, e de onde você mora em Dubai. Esse percurso pode levar tranqüilamente mais de uma hora.

Enfim: Fim.

22.5.08

Drinking water



Pia em uma rua, ao lado de uma mesquita...



A palavra correta seria "waste". Mas estudar o erro alheio ajuda a entender como o outro vê e interpreta o mundo ao seu redor.

Em árabe há uma letra, و, cuja pronúncia é ua. Curiosamente, é sempre transcrita para o alfabeto ocidental como w ou wa. Esta letra, sozinha, significa "e".

Assim, parece-me que, pensando com a cabeça de alguém alfabetizado em árabe, wiste faz todo o sentido, com a exceção do "i" alienígena.

Mais curioso ainda é ver que em farsi, و pronuncia-se como "va" e esta letra, sozinha, também significa "e". Isso também explica por que iranianos que aprenderam tardiamente inglês tendem a pronunciar todos os "w"s como "v"s: vere are you?, I vant vater. Ven is your flight?

Alguns indianos também tem essa pronúncia "envezada", mas não tenho idéia do por que.

Enfim.

19.5.08

Golfo Pérsico. Ou Golfo Árabe?

Tempos atrás, ao postar um vídeo no YouTube sobre a vitória dos Emirados Árabes em um campeonato de futebol regional, o Arabian Gulf Cup (Copa do Golfo Árabe, ou Copa Árabe do Golfo, de acordo com o gosto do cliente), fui supreendido com uma avalanche de comentários grotescos ultra-nacionalistas de iranianos espalhados pelo mundo. Em meio a diversos insultos - como seu eu fosse o responsável pela escolha do nome - veio a contra-reação árabe, e o que se seguiu, foi uma discussão - golfo árabe ou golfo pérsico? - se espalhou e poluiu outros vídeos, como o inocente vídeo de uma família iraniana que encontrei em um safari pelo deserto. Fui forçado a proibir comentários aos vídeos.

Por trás da discussão, os fatos: árabes e persas ocupam há muito tempo ambas as margens do golfo, com a linha fronteiriça que os separa oscilando para para o norte e para o sul conforme as variações no equilíbrio de forças entre os povos que aqui vivem e pressões externas. Esta região também sempre foi um importante entreposto comercial entre África e Índia, com um tráfego de pequenas embarcações que persiste até hoje. Não é por outra razão, que até a descoberta do petróleo, a moeda corrente utilizada onde hoje dos Emirados Árabes era a rúpia indiana. Não é por outra razão que a feição dos povos que vivem em cidades portuárias como Bandar Abbas (Irã) e Musqat (Omã) é um misto de árabes, indianos e africanos...

A linha que separa árabes e persas foi lá para o norte com o apogeu do Islã, que deixou marcas profundas na cultura persa, que adotou - e estendeu - o alfabeto árabe, incorporou palavras árabes, até o ponto em que a própria língua persa se diferenciou da língua falada no país antes das invasões: persas frequentemente se referenciar ao dari, o dialeto persa falado no Afeganistão, como a "língua pura", oriunda de Dario, sem as alterações sofridas ao longo dos anos pelas influências externas - árabe, francesa, ...

... e vieram as pressões externas: portugueses ocuparam a ilha de Hormuz e lá deixaram um forte: Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz. Ocuparam costa de Omã (árabes de olhos verdes? Herança portuguesa). Veio o império otomano e ocupou a região da mesopotâmia. Vieram os persas, agora com apoio inglês, e expulsaram os portugueses. Vieram os árabes de Ras Al Khaiman e controlaram a passagem pelo estreito. Vieram mais uma vez os ingleses aliados aos persas e bombardearam sua esquadra...

O Golfo passa a tomar feições mais árabes com o advento do petróleo: a riqueza financia um crescimento demográfico que é política de governo até os dias atuais.

- Sheik para de enrolar. O Golfo é persa ou é árabe?

Ah, leitor... não espere uma resposta fácil. Este hábito de chamar o Golfo de Árabe remonta ao Pan-Arabismo, movimento político laico do pós-1a Grande Guerra que visava a unificação dos povos árabes a partir dos destroços do Império Otomano, que ganhou força com Gamal Abdel Nasser no Egito e com a ascensão do partido Baath no Iraque, e que embora desmoralizado pela derrota árabe na Guerra dos Seis Dias contra Israel, possui até hoje grande influência na mídia do Oriente. Leitor! Quantas mortes resumidas em um parágrafo!

Assim, ao ler um jornal árabe ou uma comunicação oficial em um país árabe no Oriente Médio, saiba que o termo Golfo Árabe não está lá à toa. É digno de nota também que a mídia inglesa, em especial, refira-se atualmente a esta região simplesmente como O Golfo.

- E você Sheik, o que pensa a respeito?

Ah, leitor. Sinceramente, o golfo é pérsico ou árabe? E o falafel, é árabe ou persa? O nome não muda o que o golfo é, assim como a origem não altera o sabor do sanduíche, que continua a ter um gosto de... falafel. Pessoalmente, gosto do lanche, desde que não o chamem de felafel: isso me lembra felácio, e já imagino um pênis enrolado no pão... que horror. E entre um pedaço e outro de sanduíche (o falafel), preparo uma saída à francesa: Je m'en fous.

18.5.08

Para tomar tchicu


Oriente Médio. Golfo... um dia qualquer nas vizinhanças do Eixo do Mal. Tomo uma decisão: vou ao banco. O objetivo: transferir dinheiro para o Brasil. Dinheiro para comprar uma fazenda, ou talvez, alguns deputados (eles adoram...). Ou talvez, as duas coisas.

Sabe leitor: deputados adoram fazendas. Então nada melhor do que colocá-los lá, em um enorme rebanho... tudo bem, não falo mais de deputados, esta espécime rara. "Você sabe com quem está falando?", já se pronunciou um deles.


O Banco fica lá em Jebel Ali Free Zone (Zona Franca da Montanha Ali), pertinho do porto de mesmo nome. De montanha mesmo, não há muito mais do que uma colina, quase uma duna, onde estão algumas antenas parabólicas enormes. Por que Ali? Mania de querer saber o por quê de tudo. Mas eu explico: Ali foi primo e genro de Maomé. Mas porque ele virou nome de montanha, aí já não sei. É como querer explicar porque o nome o profeta varia tanto: Mohamed, Muhammed, Muhammad, Ahmad, Ahmed, Mahmud, ...

A transferência internacional no banco custa 80 dirhams, via internet, 50 dirhams. Mas como é muito dinheiro (malas e malas, leitor! Não seja pobre: fazendas custam caro), não há outra opção a não ser ir pessoalmente, com a minha caravana de camelos (Sim, eu sou um endinheirado. Ana tchor flos).

Nossa que calor! Enquanto a menina conta as inúmeras notas de 1000 dirhams, aproveito para tomar água. Água fesquinha, quase nem percebi quando a garota terminou de contar:

- Óquêi, sãr. Hévagudêi.

Dever cumprido, fome: hora de comer.


Entre um banco e outro, dois restaurantes: Muhammed Khalifa Restaurant. Eat & Drink Restaurant. Ótimo. Entro no mais bonitinho: Eat & Drink: 6 mesas de quatro lugares. Todos os assentos ocupados. Todos homens. Melhor tentar o outro. Mas a bexiga está cheia, não dá pra sentar.


- Vocês têm banheiro aqui?
- Sorry, sir...

Vamos tentar algo lá fora. Vamos perguntar para esse senhor sentado no bloco de cimento:

- Hi, do you know where the bathroom is?
- Sorry?
- Bathroom, restroom.
- Arab?
- No...
- Sorry, sir. No English.
- Toilet. Tovalet. Xixi. Cocô.
- No, sir...

Vamos lá. Eu consigo. Isso aqui deve ser uma mesquita... e bingo! Um banheiro. Mas a voz no microfone indica que é horário da oração e rapidamente, uma fila de barbudos se forma na entrada do banheiro. E todos olham para mim. Na parede, uma placa:

Proibida a entrada de não-muçulmanos

De certo, não haveria problemas em fazer um xixizinho. Menos feio do que tirar o pipi e fazer ali no deserto, na frente de todos. Mas essas coisas inibem a gente, e até a vontade de xixi passa. Ótimo, já dá para sentar. Volto ao restaurante. Este aqui tem mais mesas que aquele ao lado. O garçom aparece:

- Hi, sir!
- Can I see the menu?
- Yes, sir... - ele sai e vai à prateleira e sem nenhuma dúvida, puxa um pacote de batatas-fritas, derrubando tudo o que estava na prateleira. Isso o distrai: ele volta com o pacote de batatas-fritas e começa a reorganizar a prateleira. Um outro garçom se aproxima:

- Hi, sir!
- The menu...
- No menu, sir...
- O que você tem?
- Dagaladagalagadagalagada... and chicken biryani... and dagaladagalagadagalagada... dal.

Aceito o dal, que é feito de batata. Dal e pão, feito na hora. E só: era o que ele tinha de vegetariano. Na hora de pagar, tiro uma nota de 100 dirhams.

- Sorry, sir. It's only 3 dirhams. No change?

Três dirhams e eu apenas com uma nota de 100. Constrangedor:

- Hmm... no...
- Ok. No problems, sir.

E o que era quase de graça, sai constrangedoramente de graça. Mas também não matou a fome. Outra idéia, volto ao Eat & Drink:

- Hi sir! Do you have... chickoo drink?
- Yes, sir!

Está com fome? Pare em qualquer restaurante ou cafeteria indiana e peça um Chickoo Milkshake. Tchicu é uma frutinha marrom bem doce que no Brasil é mais alongada e chamada de sapoti. É muito comum na Índia e outros países da Ásia.

Enquanto espero a bebida, observo o fluxo: os garçons alternam-se entre atender a clientela e empacotar os pedidos para viagem. O telefone toca freneticamente.

Em uma mesa com rodinhas há um balde com talheres de plástico, e sacolas plásticas onde os pacotes para viagem são preparados. Entre um pacote e outro, um garfo vai ao
chão. O outro garçom passa e dá sua contribuição para o evitar o aquecimento global: pega o garfinho do chão e - óbvio - coloca-o novamente no balde de garfinhos limpos.

- Ok, sir.
- How much?
- 12

Pronto. Passo no restaurante ao lado e com o troco, pago o Dal. Hora de tomar tchicu.

12.5.08

Minha querida aula de árabe II

xúf - ver
xúfak - vejo você
bucra - amanhã

ahút - enfiar
fi - em
tizak - sua perna/bunda

AAussu - cobrir
hara - merda

magnun - louco

Enta pitichtagal eih?/Xô amalak? - qual o seu trabalho?
aiwa - correto; de acordo; isso mesmo

Exemplos:

- Xô amalak? (qual é o seu emprego)
- Ahút fi tizak! (Ponha na sua bunda/perna! - uma maneira oblíqua de dizer "vai se foder")
- Ahút fi tizak?!?!
- Aiwa! AAussu hara! (Cubra de merda! - para bom entendedor, meia palavra basta: mais uma maneira de dizer "enfia no rabo")
- Ktir magnun (muito louco). Xúfak bucra (até amanhã)!
- Xúfak! (até)

Minha querida aula de árabe I

Wala - melhor
Ferekh - frango
Gamaya/djamaya - cooperativa
Etihad - união
Meia - 100
MENA - Middle East and North Africa

Exemplos:

- Meia-meia? (100%?)
- Meia-meia! Wala ferékh al gamaya. (100%! Melhor que o frango da cooperativa)

Etihad é uma companhia aérea baseada no emirado de Abu-Dhabi.

MENA Media Guide é um guia de endereços e telefones das empresas de mídia que atuam no Oriente Próximo e Norte da África.

4.5.08

Na cama com a python

- Hey, Bru, Cudjai ius ior cáiaq des wik?
- Xôo, bru. No problem. Jãs teikit.

Aí o canadense interrompe:

- Didiu breik dze kêidg?
- Nou, bru. It uôs lái dzat uên I bótit.

Ué... mas a jaula está vazia... tem só um toco de madeira dentro.

- En fór uá kaindov énimou es dzes kêidg for?
- Dzes kêidg es fó mai Páitzon.
- Páitzon?
- Iê, bru. Ei sneik.
- Nôooouuuuêiii. Bãt uérizit?
- Híer - e dá três tapinhas no lado da cama. - Ela dorme comigo.
- Iur kidin mi.

E rindo, ele tira de baixo da coberta uma cobra...

- Putaquipariu! Caralho! Porra! Fáákiu, bru!
- Hey, bru... no problem...

Passo a mão na cobra. O bicho é gelado:

- E o que esse animal come?
- Ai giv máaas

Sul-africanos, como ingleses, não costumam pronunciar 'érres' ao final de palavras:

- Mars? Du iu giv tchóklets tu dze snêik?
- Nôu bru! Ai sêd Máaas

E o canadense completa:

- Ei Méuss... un souris...

E o sul-africano aponta para a marca de sangue na parede: "essa foi da última vez que ela esmagou um ratinho...".

Méus in dza háus

E de repente o canadense falou:

- Hey, lôk: dériz ei méus in dza haus!
- Don't uôri, bós. It's jãs...talítouãn. - retruca o sul-africano.
- Bãt... uát káindov énimou is ei méus?
- Ei méus?! It's jãstei lítou méusss... - e mostra "um tiquinho" com os dedos.
- Cúdiul spélit?
- M - O - U - S - E. Un souris - muitos canadenses também falam francês.
- Oh! A Máuz?!? Fãc. In de háus?!?!?
- Iés. Ei Méuusss. Ei Mickey.
- Uér?
- Dzér!
- Putaquipariu!!!

22.4.08

Sukuk

Sukuk - títulos (bonds) islâmicos. A grosso modo, títulos de renda (quase) fixa que respeitam (contornam?) os princípios de investimento determinados pela Sharia (lei islâmica), que proíbe a cobrança de juros. São tipicamente lastreados em produtos/riquezas físicas (ações de empresas, imóveis) que pagam dividendos ou aluguel aos detentores destes títulos.

Juros não pode e aluguel pode? No fundo, pode ser apenas uma questão de interpretação: juro não é justamente o aluguel cobrado por um dinheiro emprestado? E o aluguel de um imóvel não é o juro cobrado pelo uso de uma riqueza imobilizada? Isso tudo me confunde (às vezes, até os sheiks se confundem). Mas assim é que determina a Shariah: o aluguel de dinheiro (riqueza pura, líquida) é proibido. O aluguel de coisas tangíveis (riqueza imobilizada, coisas que se compra com dinheiro), é permitido.

Basta um passeio pelas páginas de economia dos jornais do Golfo para encontrar este termo aos montes, seja nas propagandas, seja nas próprias notícias.

Leia mais:

Sukuk no Emirates Business 24-7
Sukuk no Gulf News

Sukuk no Wikipedia

16.4.08

Você deve estar se perguntando...

... porque a foto da janela do prédio saiu tão escura. É que agora colaram uma propaganda gigante do lado de fora do prédio.



Boris Becker business tower, Michael Schumacher business avenue, Niki Lauda twin towers. E fica aqui a pergunta: uma torre com nome de homem te atrai? Qual será a relação de identidade entre um edifício com a memória de um competidor? Será que vai ter competição para entrar no elevador?

15.4.08

Minha querida aula de árabe

Ána - eu
tchôkh (kh tem som de R de carioca um pouco mais arranhado, como em pokhta, cakhta) - khr (para bom entendedor...)
fi - em
seiara - carro
chuaia - pouco
ktir- muito

Colocando em prática:

Ána tchôkh fi al seiara.
(Eu cago no carro).

Ána tchôkh chuaia.
(Eu cago pouco).

Ána tchôkh ktir.
(Eu cago muito).

13.4.08

NRI

NRIs - Non-Resident Indians. Termo utilizado pelo governo indiano para designar os cidadãos indianos não-residentes no país.

É tanta gente morando fora que a sigla pegou.

Para quem gosta de Pinto



E quem provou, bradou:

Êita pinto gostoso!

15.3.08

Almaza


Xuf! Iani, ... product of Lebanon.

6.3.08

Minha querida aulinha de árabe

Chúf (transliteração para o inglês: shoof) - veja, olhe.

Exemplo:

"Chúf: este aumento não é suficiente! Iani, não cobre a inflação de Dubai..."


Bab - porta
Shams - sol
har - quente (nos países árabes do Levante, chôb)

Exemplos:

Hoje eu vou no Resort Bab Al Shams (Porta do Sol), fica lá no meio do deserto!

27.2.08

TCN

Third Country Nationals. Denominação pejorativa (racista?) para designar todo aquele que não é árabe ou ocidental.

Exemplo:

Hoje contratamos 3 TCNs..., sorry, não-ocidentais para esta função.

16.2.08

O Camisa-Azul

Os pratos se acumulam na pia. Uma menção em abrir a torneira e alguém avisa:

- Don't bother with that: tomorrow is Blue Shirt's day.

O Camisa-Azul está quase todos os dias em casa; ele vem de Sonapur no primeiro ônibus da empresa às 6:30h, chega por volta das 8:00 h e faz biscates pelas casas vizinhas até às 9:30 h. Então troca de roupa no corredor, toma a bicicleta presa à palmeira de tâmaras e segue para seu trabalho cujo turno se inicia às 10 h: um supermercado na Al Wasl Road. Daí o apelido: o uniforme é azul. Às 19:30h ele aparece novamente, guarda a bicicleta, conversa com alguns amigos na praia e por volta das 20:30h, toma o ônibus de volta ao seu alojamento.

Pele escura, bigode:

- Are you from India?
- No sir, Sri Lanka. Sri Lanka.

Ele tem 22 anos e veio para cá há alguns anos, atraído provavelmente pela foto de uma torre azul metálica, pelo conselho de algum amigo. Não tem o pesar de quem sai de um país em guerra - talvez a desconheça - mas o ar satisfeito de quem vê oportunidades de trabalho que não há em sua terra. Ironia? Consoante à receita de sucesso em um mundo globalizado, é poliglota: fala tamil e hindi.


- Where do you live?
- Yes, sir.


Mas seu inglês é limitado. Mesmo assim, ele quase dobra sua renda de 800 dirhams com seus biscates. Ele lava o carro do Greg três vezes por semana pela manhã. Por lavar as louças semanalmente, mais 100 dirhams por mês. Passar roupa? Camisa-Azul. Sapato novo que aperta no pé? Camisa-Azul para laceá-lo. 50, 100 dirhams: perde-se a noção do pouco e do muito.

Talvez o apelido não seja apenas pelo seu uniforme, mas um ato deliberado de distanciamento e distinção de classes: aqueles que têm uma vida digna dos que realizam trabalhos ingratos. Como se fosse degradante lavar pratos; como se houvesse muita diferença entre limpar banheiros e realizar testes de software.

Este fim-de-semana, alguém lhe conferiu mais um servico: retirar uns arbutos que cresceram no quintal.


- And what is your name?

- Tanikha.

E por fim, o Camisa-Azul tem nome.

14.2.08

Valentine's Day x DSF


Valentine's Day - dia dos namorados nos países capitalistas ocidentais
DSF - não, não tem nada a ver com Dubai SiFú: Dubai Shopping Festival, que acontece todo ano em fevereiro.

Passei ontem a noite pelo Spinneys e tinha uma bancada enorme na entrada, cheia de flores. Ao lado uma plaquinha:

- bouquet de rosas colombianas: 350 DH

Mas fui atraído pela lojinha de roupas de praia, logo ao lado:

- camisa de láicra (sim, senti um prazer em aportuguesar esta palavra): de 125 DH por 35 DH

Trinta e cinco dirhams (já ia aportuguesar de novo: derrames. Melhor, abrasileirar - portugueses escreveriam dirâmes. Mas derrames fica bruto, chocante: um derramamento de dinheiro na terra dos endinheirados. Ou o efeito que causa em alguns quando as latinhas insistem em escorregar do bolso) por uma (o período entre parênteses logo atrás ficou mesmo longo, mas tudo bem. Não sou eu que vou ler mesmo) camisa de praia, que protege do raios nocivos do sol, do frio das congelantes águas do Golfo (no inverno). Do calor das águas no verão (sopa. O bom de pescar no calor é que o peixe já sai cozido).

Você diz: frescura! Sim, frescura. Nos primeiros relatos de ingleses que aportaram por aqui - os únicos registros sobre o passado na região - dão conta de pessoas paupérrimas, pele queimada e cabelo comprido que viviam em casas de barasti, as folhas das palmeiras de tâmaras. Vestimenta? Apenas um pano enrolado na cintura. As roupas tradicionais de hoje foram adotadas após a descoberta do petróleo na região, que aumentou sensivelmente a renda dos pescadores de pérolas que aqui viviam. E eles sobreviveram, com sol e tudo, apenas com um paninho enrolado na cintura, sem frescura de camisa protetora de raios solares nocivos. Naquela época a palavra nocivo provavelmente sequer existia.

Frescura? Comprei a camisa. 35 derrames: se não almoçar hoje, já está paga. Não me julgue muquirana: o jejum purifica. Voltei ao Spinneys: um buquê de rosas pelo preço de dez camisas. E rosas não protegem contra os malvados raios solares. E rosas murcham em dois dias e já se acabou. Ainda bem que concumbinas não se importam com esses tradições ocidentais, cosméticas e vãs. O que importa mesmo é o amor, esta coisa bonita que une até produtores de rosas colombianos a meninas apaixonadas em Dubai.