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21.5.08

Arfan, um afegão

Mais um táxi, mais um aceno. Finalmente um táxi com motorista de bigode e óculos escuros pára:

- Good afternoon, sir.
- Umm Suqeim, please.
- Sheik Zayed Road? Al Wasl?
- Sheik Zayed Road, please, I'm in a hurry, it needs to be fast...
- Ok, sir...

No rádio, sintonia no canal indiano, cantora de voz aguda. Ao chegar na rodovia, o táxi é ultrapassado por uma BMW da polícia.

- No seu país, como são os carros da polícia? São como esses?
- Não, não são BMW...
- E são como?
- Bom... são carros novos, mas não caros como esses...

Ele acena para o porta-luvas:

- Abra. Há fotos de carros de polícia aí dentro.

De fato, ali estavam duas fotos. Em uma dois rapazes com fardas policiais posam ao lado de uma motocicleta da Polícia. No outro, os mesmos 2 rapazes posam ao lado de uma caminhonete Mitsubishi:

- American car, sir! Bullet proof!
- Algum parente?

Ele tira os óculos e aponta para o policial de olhos claros, topete, farda e sandálias.

- Este aqui sou eu... - mas o tempo cobra seu preço, levou seu topete, aumentando a testa:

- Isso foi lá em 91 e 92. Afeganistão!

Boa parte dos paquistaneses e afegãos possuem olhos claros. Dizem que é um resquício da passagem do exército de Alexandre, o Grande, pela região.

- Então você fala Dari?
- Não, não. Eu falo Pachtu!
- Então é pertinho do Paquistão...
- Sim. Em uma distância como que daqui no Western Union (do outro lado da Sheik Zayed) e você está no Paquistão. Mas agora o Paquistão fechou a fronteira com cercas e arame farpado...
- 91, 92... isso já é época dos Talebãs, não é?
- sim, sim! Eles ainda têm muito poder na minha cidade. Por isso que vim para Dubai. Agora os talebãs visam Mas minha vaga está garantida: sou registrado. Quando os talebãs forem eliminados, volto para a Polícia!
- bom... pela sua opinião, vejo que você não acredita que eles são bons para o país...
- Olha, só... o Islã, não é essa coisa violenta. Você não pode sair por aí matando desse jeito em nome do Islã. O Islã é amor, é paz...
- Então você mora sozinho aqui?
- Não, minha esposa acabou de ir para a Índia, de férias... ela é indiana, de Mumbai...

Ele vai contando como é que um afegão se casa com uma indiana. Trabalhavam juntos no Spinneys: ela, supervisora de frota; ele, motorista. Até um dia em que chegou para ela e disse:

- Aprecio muito a nossa amizade. Gostaria que você pensasse a respeito. Gostaria de tê-la a meu lado.
- Preciso de um tempo para pensar.

Passada uma semana, ela troca seu turno de diurno para noturno. Ele protesta:

- Isso não é correto!
- Por favor, aguarde, aguarde. Já há pessoas na empresa desconfiadas...

Passou mais um mês até um dia em que perdeu a paciência: comprou uma flor, uma rosa, coisa de 8 a 10 dirhams. Colocou a melhor roupa e foi de manhã no supermercado e fez uma declaração mais ou menos assim, na frente de todo mundo:

- Escuta! Não me importa sua religião, língua ou sua nacionalidade. A única coisa que eu quero é ficar com você.

Ela protesta:

- Mas você já é casado no seu país!

Ai eu pergunto:

- Mas você já era casado no Afeganistão?

Ele se defende:

- Sim! Mas eu fiz tudo certinho: pedi permissão!
- E a esposa afegã? aceitou?
- Sim!!!
- Bom... neste caso, se ela aceitou, então tudo bem!
- Sim! E a indiana aceitou! Todos os colegas que estavam ali bateram palmas...

Ele conta orgulhoso das qualidades de suas esposas: a afegã, descendente de Tadjiks. "A família dela veio lá do norte, ele é diferente... mas falamos em pachtu, no problem...". A indiana, sua ex-chefe, mulher independente. "Eu não sei explicar, não sei se é a pele, o cheiro, ou o jeito: a indiana me atrai!"

O táxi sai da Sheik Zayed e se aproxima do semáforo da Al Manara Street com Al Wasl Road:


- Left, sir?
- No, straight ahead.


Uma boa oportunidade para mudar de assunto:

- E você, vem de onde?
- Brasil...
- Ah, very good football players... the best. Pelé, Ronaldo, Roberto... Já ouviu falar de Pelé?
- Sim, acho que já ouvi falar...
- Man, bola no pé de Pelé é gol! 100%! Pelé is a poet! Pelé is the best!

Chegamos. Ele não precisava falar de futebol para ganhar simpatia. No marcador está 27 DH. Tiro 30 DH. Ele procura moedas de troco. Mas 3 DH não pagam uma boa estória...

- Thank you, sir.
- What your name, again?
- Arfan! From Afganistan!


Arfan, do Afeganistão: sorriso largo de dentes abertos. Um aperto de mão. Desejo boa sorte para ele e suas esposas. Ele abre as mãos, olha para o céu e diz "Inch'Allah! God bless you, too!".

20.3.08

Ônibus 8A e o taxista etíope

Quinta-feira, 21h, Jumeirah Beach Road. Após 15 minutos de espera, nenhum táxi no sentido Marina. Aparece então um ônibus: 8A - Gardens.

- 1,50 DH, sir.

Problema: na carteira, só notas de 100 DH.

- Do you have change?
- No, sorry...
- So... well, cobre 5 DH, sem problemas.
- Não senhor. Eu não posso.
- Por que não? Fique com o troco. Eu estou oferecendo...

Penso que o motorista se ofendeu, achou-me arrogante. Os passageiros me olham apertando os beiços: reprovação. Eis que então a filipina na primeira poltrona estica a mão com duas moedinhas e diz quase gritando para o motorista:

- Aqui está! Pague para ele!

Eu e o motorista com semblante de orifício anal. Eu não aceitei, o motorista não aceitou.

***

O ônibus se aproxima de Media City.

- Hi! Você já tem troco?
- Não.
- Qual é o último ponto em Media City?
- Este.
- Então...
- Passe o seu ticket para ele - e aponta o novo usuário que entra no ônibus e aponta a mão com moedinhas. Eu dou o papelzinho, o rapaz aceita. O motorista diz:

- Have a good night, sir!

Eu? Semblante anal, mas sorrindo:

- Thank you. Have a good night.

***

Estendo o braço na avenida, um taxista pára. Abro a porta e pergunta:

- Você pode me levar para JBR?

JBR (leia Djêi-Bí-Árrr) é a sigla para Jumeirah Beach Residence, um complexo de prédios de luxo de frente para o mar, na Marina. Os apartamentos são de luxo, mas os maliciosos dizem: "Cohab!". Só porque são torres de 40 andares, uma ao lado da outra (umas 20). Mas quem me dera morar em um desses apartamentos...

- Yes, sir. No problem.

Perguntei na verdade por educação ao taxista: embora muitos não gostem - e recusem expressamente passageiros requisitando viagens curtas - negar uma viagem é infração passível com multa de 200 DH. Este aceitou.

- Where are you from?
- Ethiopia...

É a primeira vez que vejo um taxista da Etiópia.

- A terra onde surgiu o café!

Agora ele ficou orgulhoso, desceu o vidro da porta e abriu um sorriso que ia até a esquina. Dentes brancos e grandes, afastados um do outro, para guardar bem a boca grande:

- Yes, sir!
- How many years in Dubai?
- Five years...
- Do you miss home?
- No problems, sir: I go back home every 2 years!

Está certo, está certo. Chegamos ao Djêi-Bí-Árr. A corrida ficou em 7 DH, pago 10 DH. Cortesia, pois aceitou o que é seu dever, corrida curta.

Os 3 DH equivalem a ida e volta de ônibus de Jumeira a Media City, um trajeto cinco vezes maior que Media City à JBR.

21.3.07

Taxista em Dubai?

Dirceu perguntou:

ola sheik luis , gostaria de sua ajuda, eu e minha esposa sempre sonhamos em morar nos emirados , nao especificamente em dubai ,pois em dubai tudo deve ser mais caro, talvez ajman ou outra cidade de custo de vida mais barato, minha esposa esta tentando ser comissaria da emirates, este mes estao fazendo selecao aqui no brasil, mas caso ela consiga uma das vagas ,e nos irmos morar ai, eu ainda nao sei em que trabalhar,pensei a principio em comprar um taxi para poder trabalhar, masnao sei se isto e permitido ai, um estrangeiro trabalhar como taxista, caso seja permitido, verifica para mim por favor,o que e necessario para que eu possa trabalhar de maneira legal, como funciona o sponsor ,eu posso pagar o sponsor e trabalhar, ,e eu tenho 3 filhos eles pagariam tambem, e quanto custa um taxi, com licenca, aqui no brasil chamamos esta licenca de autonomia, e com um salario de taxista da para viver razoavelmente ai,obrigado e um grande abraco , dirceu


Grande Dirceu,

Olha, taxista aqui é uma profissão ingrata: ao menos aqui em Dubai há 2 ou 3 companhias de táxi apenas, e os funcionários vêm todos de países com uma moeda desvalorizada em relação ao dirham - Iêmen, Sudão, Índia, Paquistão, Bangladesh ... - eles trabalham de 12h a 14h por dia por um salário de 1.300 dirhams/mês. É pouco - o aluguel de um quarto em Dubai custa entre 4 e 5 mil dirhams - mas eles literalmente tiram leite de pedra: economizam e mandam dinheiro para a família, alguns voltam depois de alguns anos e compram propriedades rurais em seu país, outros montam seu próprio negócio. É o sonho de todos eles.

As histórias dos taxistas estão entre as mais tristes de Dubai. Aqui há uma limitação de visto baseada na renda: é preciso comprovar uma renda familiar superior a 4.000 dirhams/mês para obter visto para os filhos. Outro dia conversei com um taxista egípcio que está há 14 anos aqui sozinho, e manda dinheiro mensalmente para sua família que está no Cairo. Volta apenas uma vez por ano e não acompanhou o crescimento dos filhos (o mais velho está com 18 anos). Orgulha-se de nunca ter traído a esposa neste período. Outra vez peguei um outro taxista que estava chorando: ele contou que mora com a esposa aqui e tinha acabado de conversar por telefone com o filho que mora com a avó em Bangladesh. Brigaram porque o filho não entende porque eles não voltam. Eram 23h, e ele estava no volante desde às 7h da manhã...

Humilde sugestão do sheik: aguarde sua esposa vir para cá, e depois veja com ela para conseguir o visto de visita e uma passagem com desconto para você lá pelo segundo mês. Faça as coisas com calma: não traga filhos antes de se estabelecer e saber exatamente onde eles irão estudar. Quando chegar aqui, distribua seu currículo por Dubai. Falando inglês, há muita oportunidade em todas as áreas. Ou ainda, tente também entrar para a Emirates ou outra companhia aérea, como Etihad, Jazeera e AirArabia. Há muitas outras vagas além das de Cabin Crew nestas empresas.

Se você arranjar um emprego em Dubai, realmente pode viver em Ajman, Sharjah ou Ras Al Khaiman, que são bem mais baratos. Ouvi dizer que o aluguel de um apartamento em Ajman sai por volta de uns 2.000 a 3.000 dirhams/mês (na verdade, tem que pagar em 2 ou 3 cheques o aluguel anual). O legal (ou não) destes outros emirados é que eles ainda levam uma vida mais tradicional, e você terá realmente um contato maior com a cultura local.

Cara, boa sorte e força!

Abraço do Sheik.

21.1.07

O iemenita, o artilheiro e os indicadores ao ar

Depois de uma sexta-feira xoxa, com nenhuma casa noturna aberta devido ao feriado de ano-novo muçulmano (Hijiri New Year), chega um sábado frio e de céu aberto, convidativo para uma noite social. Cerveja não combina com condução, então é hora de caminhar até Al Wasl Road e esticar o braço. Um táxi pára:

- Good evening, sir!
- Good evening. Could please take me to the Number One Tower...
- Ok… around Shaikh Zayed Road...
- Yes, it is…

Senta-se no banco da frente, não gosta de ir atrás. Ir atrás cria barreiras, como se a relação taxista x passageiro fosse uma relação serviçal x senhor supremo, a qual as mulheres tipicamente fazem questão de acentuar, seja pelo tom imperativo com que determinam o destino final - vai até lá! - seja no olhar sizudo atrás de óculos degradés Dolce-Gabbana que foge para a janela, maneira talvez de descontar as opressões do dia-a-dia e de se auto-afirmar diante de um homem.

Silêncio introspectivo. O taxista acelera e vai pensando no caminho até o hotel, o passageiro desacelera e vai pensando na vida, em seus caminhos e descaminhos, quando a gritaria na rádio lhe chama a atenção:

- De quem é o jogo?

Pensou, mas não falou. Vai que é Corão recitado? Pelas feições e pelo simples fato de estar escutando uma rádio em árabe, fica claro que o motorista é da região. Utiliza-se então dos expedientes usuais, dentre eles, da tática da sopa quente, e vai comendo pelas beiradas:

- Where are you from?
- Al Arabía… emarát… Al arabía… emarát...
- Tá… Arábia... mas de que país? Você é emirati?!

Seria muito difícil ser um emirati, tão difícil quanto encontrar um saudita, omani ou alguém do Bahrein, Kwait ou Qatar taxista. São países ricos, e um árabe destes países dificilmente será taxista, com tantos benefícios, oportunidades e apoio do governo.

- Iêmen.

Bingo. Iêmen é o único país do Golfo que não possui petróleo. E portanto, é o mais pobre e instável politicamente (no quesito “politicamente”, fica atrás do Iraque, é claro). E portanto, não faz parte do GCC. E portanto, fornece de mão-de-obra barata para os demais países, mão-de-obra que fala árabe.

- Nós... de todos os países, Arábia Saudita, Kwait, ... nós todos emarát... todos Al Arabía... mesma cultura...

Hora do golpe derradeiro, enquanto o oponente está desprevenido e distraído:

- E o que você está ouvindo na rádio?
- Ah! É o jogo da Copa Árabe do Golfo! Emarats gostam muito de futebol... por toda Al Arabía...
- E quem está jogando?
- Iêmen x Emirados Árabes!
- E aí, ganhou?
- Não: Iêmen perdeu, de 2 x 1... de virada, que azar! Estávamos ganhando...

Novamente o silêncio introspectivo, enquanto o semáforo permanece fechado. O semáforo insiste em não abrir, então o taxista quica a bola:

- E você, é de onde?
- Brasiu.
- De onde?
- BrasiL.
- Aah! BrasiL... Ronaldo... – e ri. É sempre assim: um indiano ri e diz que gosta de Maradona; um japonês ri e diz "Ayrton Senna"; o sírio ri e lembra do Clube Homs, nome de sua cidade, que fica no meio da Avenida Paulista em São Paulo; as meninas russas riem também, mas porque lembram de novelas como Escrava Isaura ou Clone; o nepalês apenas ri e não diz nada... motivos distintos, mas todos riem, como o taxista que lembra com autoridade de um comentarista esportivo do nome de jogadores de futebol:

- Bebeto... Romário... Ronaldo... vai jogar na Arábia Saudita... e o Figo também!
- Mas o Figo é português...
- Eu sei...
- Eu também.
- ?! ...

O taxista franze a testa...

- mas e você, joga futebol?
- Jogo sim, quer dizer, jogava. Jogava em um time no Brasiu, Corinthians... já ouviu falar? Mas cansei dessa vida fútil: fama, dinheiro, mulheres... uma perdição... sabe? É muito chato ser famoso. Vim aqui para ter um pouco de paz.

- Ah é?... - diz ele com um ar descrente. Árabe não é bobo.
- É... - o passageiro insiste.

- E o que você faz aqui?
- Muitas coisas...

Ele desiste, e encosta ao lado da Torre Número 1. O artilheiro quando faz gol, procura os muitos braços ao ar da torcida e dos companheiros de equipe. O taxista iemenita recebe o valor da corrida, agradece, zera o taxímetro e segue pela rua. Contenta-se em encontrar dedos indicadores ao ar. De preferência, um de cada vez.

29.12.06

A música na rádio

- Você pode me levar para Jumeira 1, perto do Emirates Post?
- Sim, claro.

(silêncio)

- Então... você é da Índia, né?
- Não, Paquistão...
- Hmm... Peshawar?
- Não, Islamabad.
- ah bom... então você fala Urdu, né?
- Sim, urdu. A língua nacional de todos os paquistaneses. Algumas regiões falam outros idiomas, mas todos falam urdu...

(silêncio. Apenas se ouve a música na rádio)

- Então... esta música que você está ouvindo, está em urdu ou em árabe?
- Isto não é música. É o Sagrado Corão recitado.
- Ups... tá frio hoje, né?

27.12.06

Táxi persa

- Boa tarde!
- Você pode me levar para o Number One Tower?
- sim claro...

(silêncio)

- Então... de onde você é?
- Irã.
- Bacana. Há quanto tempo por aqui?
- Desde 1985...
- hmm... 85? Na época da guerra, né?
- sim.
- Você chegou a lutar na guerra?
- Sim, lutei... mas fugi.
- Mas e como é que...
- Está vendo aquele prédio ali? E aquele outro ali? Eram os únicos que haviam em Dubai quando cheguei.
- Mas e a g...
- Está vendo esse bairro ao lado? Moram aqui muitos locais. E há muita gente do Baluchistão... Dubai era uma cidade muito calma e muito barata quando cheguei...

Um táxi para Goa


- Good evening, thanks for stopping.
- Hi, good evening! You're welcome.
- Could you please take me to Crowne Plaza Hotel?
- Yes! Of course...

(silêncio)

- Hey... where're you from?
- I'm from India..
- Oh, nice. Which part of India? Kerala?
- No! Goa!
- Ah, Goa... hey! Goa? So you speak Portuguese?
- Yes. Pois sim! Claro! Mas d'onde tu es?
- Brasiu!
- Ah, pois sim, Brasil. Então, mas que bom falar português. Fazia muito que não praticava a minha língua... sabes que eu falava muito com minha mãe, pelo telefone. É, falava muito com ela pelo telefone. Mas desde que ela faleceu lá em Goa...

(silêncio desconfortável)

- ...mas você nasceu em Goa mesmo?
- Nasci nu Moçambique, mas fui para Goa muito pequeno, com 3 anos... e pur acaso não tenho u passaporte du Moçambique, que minha mãezinha perdeu. Só tenho o da India. Se tinha u de Moçambique é hoje que ia bem: viajaria por todo o mundo sem precisar de visto...
- Mas você se considera indiano ou moçambicano?
- Ah... eu sou du Moçambique, é. Sou moçambicano, sou moçambicano...

Toda a sorte do mundo para o taxista moçambicano Félix Fernandes, de Goa, que há 17 anos está em Dubai.

6.10.06

Enjôos, táxi e cinema Pashtu

Sexta-feira, 10:50h. Acordo, ainda meio enjoado pela noite de ontem que passo a descrever em minutos e faço um plano para o dia: tomar banho, limpar o quarto, arrumar o acesso à internet, ir no supermercado, no IKEA... ligo no 800-9090, descubro que o ônibus número 12 segue até Al Barsha, perto do Carrefour, e que para ir até o IKEA, preciso pegar 2 ônibus: até a estação de Bur Dubai, e de lá, o ônibus 44 até o Dubai Festival City. Ônibus existe, mas talvez eu leve o dia todo para me locomover...


Na caixa de som, silenciam sons de cítaras e vozes que variam de entonação, Marisa Monte passa a cantar: “ tempos tento encontrar um bom momento / alguma ocasião propícia...”. Imerso em uma cultura diferente, voltar-se para si mesmo às vezes é uma boa fuga, especialmente em uma sexta-feira, o nosso domingo.


Descubro que mesmo durante o Ramadã, alguns bares têm permissão de vender álcool, desde que não toquem música ao vivo. Um deles é um pub, o Double Decker. Estou em Jumeira 1, os demais brasileiros e portugueses estão no Hotel Number One, de frente para a Sheik Zayed Road, à metade do caminho para o recinto. Então eu vou em um táxi, eles em outro.


Depois que minha conexão com a internet caiu ontem à noite, tentei inutilmente reconectá-la. Provavelmente a inglesa saiu e desligou tudo. Isso não pode ficar assim... noto que já estou atrasado: já são 23:20h. Fecho tudo, troco de roupa e caminho até a Al Urouba Road, onde pego um táxi. Taxista paquistanês, que me passa uma impressão de má vontade, só ganha pelo outro paquistanês que me trouxe na volta, às 3h da manhã. Este último, após as duas perguntas iniciais de praxe (“De onde você é? E de que cidade?”) mudou de assunto. Ganhou um silêncio que perdurou até o final da viagem, e perdeu a gorjeta. Taxista para ganhar gorjeta precisa ser prestativo, de um país bem distante, falar idiomas de nomes impronunciáveis e ter uma boa história, feliz ou triste, para contar. Não possuindo estas qualidades, tem que ao menos ter boas perguntas para fazer. Preenchidas estas condições, pode até errar o caminho ou levar o dobro do tempo para chegar. Felizmente, este não foi o caso – errar o caminho – do primeiro taxista. Voltemos, então, à nossa conversa, enquanto o tráfego parou próximo à rotatória sobre o túnel da Sheik Zayed que nos leva próximo à Burj Dubai, a torre mais alta do mundo, ainda em construção, perto da qual se localiza o Double Decker.


Ele se chama Mamoud Ali, ou algo assim. Acho graça: lembra Wood Allen. O nosso Wood Allen paquistanês já está há 30 anos em Dubai e há 13 horas trabalhando, sem previsão de parada... meu humor também não seria dos melhores nestas condições. Ele vem de Peshawar. Então Urdu é sua língua materna, não? – pergunto. Na verdade – explica ele – minha língua materna é o Pushtu. Urdu utilizamos para nos comunicar com as pessoas das demais províncias do país, que falam outros idiomas. Urdu é a língua de unidade nacional”, conclui.


Pushtu. “É a mesma coisa que Pashtu?”. Claro – responde ele. É incrível como aqui nenhum conhecimento adquirido se perde, e aos poucos vão se encaixando, mesmo que muitos dias depois, como em um intrincado quebra-cabeças: semanas atrás, quando ainda estava no hotel, assisti em um canal franco-alemão chamado ARTE (muito bom, com programação ora em alemão legendado em francês, ora em francês legendado em alemão, http://www.arte.tv/) justamente um documentário sobre a forte tradição do cinema Pashtu. Coincidência ou não, o nosso Wood Allen vem desta mesma região.


Os filmes desta parte do mundo são caracterizados pela simplicidade, improviso e apelo desmedido para a violência e insinuações sexuais. Neste contexto, o longo cano da espingarda do mocinho que salvou a mocinha vira objeto fálico a ser cultuado e delicadamente alisado pela garota prostrada de joelhos a sua frente em sinal de gratidão, até que o rapaz aponta a arma para o alto e atira...


“Mocinha” é modo de dizer: ela não possui em nada o estereotipo das garotas de Hollywood, tem formas roliças, cabelo desgrenhado e maquiagem borrada. Olhos grandes, boca grande e lábios enormes pintados de batom vermelho, e as roupas não são de grife.


O documentário ainda conta que com a implantação das leis islâmicas no país, a exibição destes filmes foi proibida, mas ainda assim, esta cultura resiste: nos cinemas, há códigos que todos sabem. Em determinadas sessões para homens, um filme qualquer passa no cinema por 15 minutos, e em seguida, inicia-se o filme proibido para o deleite da platéia...


Mamoud comenta que é fácil comprar DVDs dos filmes de seu país, mas não disse onde. E passou a falar com orgulho de sua terra, talvez idealizada em sua memória após tanto tempo de Dubai: ele fala de montanhas verdes, rios e terras férteis e de uma brisa fresca que bate no final da tarde quando o sol se põe. “Aqui é só deserto, nada mais”.


O táxi pára, a corrida fica em 9 dirhams, pago 10. É uma merreca de gorjeta, mas é 10%, está de bom tamanho. Por aqui, quase meio-dia e o álbum de Marisa Monte acabou: “Vai sabe...”. Não há mais nada a dizer sobre o senhor Mamoud Ali, Wood Allen paquistanês há 30 anos em Dubai e trabalhando há 13 horas, que fala pushtu, urdu e inglês.

9.9.06

Táxi Futebol Clube

Vídeos, vídeos, vídeos!

Vídeos de algumas conversas com taxistas andando por Dubai:


Lamento, mas não consegui colocar legendas. Alguém conhece algum programa que faz isso? Sugestões são bem-vindas!

26.8.06

Táxi de Bangladesh

Voltando pra casa, pego um taxista de Bangladesh. Está desde 1983 em Dubai, há 5 anos trabalhando como taxista. Viu a cidade levantar-se literalmente do pó.

Seu nome é Wahad, que eu seu país significa wind, wing ou win, isso não ficou claro pelo sotaque. Se a última opção é a correta, ele faz por merecer: mora com a esposa na periferia de Dubai e mantém seus 5 filhos morando com a avó em Bangladesh. Seus filhos enviam mensagens indignados, perguntando quando é que eles vão visitá-los e o senhor quase chora enquanto acelera fundo na Sheik Zayed Road: é muito difícil. 70% da receita do táxi fica com a companhia, então ele trabalha 14h por dia para fechar as contas... talvez volte no final do ano para o país natal.

Desço do táxi, um aperto firme de mão, votos de sucesso. Nenhum esforço será em vão, senhor Wahad.

Táxi egípcio

Esse me f*deu a vida, mas tudo bem. Dubai Media City, Shata Tower, 10h da manhã. Eu de calça e camisa social, sapato. Preciso ir no RH, que fica Dubai Media City, prédio 14, 2º. Andar. Saio na rua, e quase não consigo respirar com esse calor de 40 graus e umidade de 90 %. A pele, o rosto, as costas, tudo queima. A turminha dos sabichões que acha que é igual ao calor do Rio de Janeiro, já aviso: não é. Aqui parece que o calor é uma entidade que ocupa lugar no espaço e te empurra para baixo. Primeiro táxi que apareceu, entrei.

- Please, take me to the building 14

- Sorry, I’m a new taxi driver. I don’t know the city

- No problems, let’s go anyway, I won’t find another taxi under this sun

Liguei pro Ghisi:

- Cara, onde é que fica esse prédio?
- É fácil: vire à direita, ande 2, depois vire à esquerda, depois à direita, depois à...

Pronto, já vi que tudo. Vamos lá, sr. Taxista-egípcio-que-não-conhece-Dubai, vamos conhecer a cidade. Repeti as indicações, e então ele me sai com esssa:

- Sorry, weak English. I’m new here.

Pronto, só me faltava essa: o cara não conhece a cidade e não fala inglês. Tentei o francês, nada: só árabe e weak English. Merda. Na falta de uma maneira comum de comunicação, apelemos para o meio mais primário de comunicação: dedo pra cá, dedo pra lá. Quando vi, estávamos no estacionamento da CNN e da Reuteurs. Caxamba, mas não é aqui. Peguei um mapa e agora foi a minha vez: confundi Internet City com Media City. Que merda, em ambos os condomínios tem o prédio de número 14 no mapa... mas aparentemente, na Internet City o prédio 14 ainda está em construção.

O egípcio desistiu e disse: por favor, você pode descer e pegar outro táxi. Aceitei.O preço era de 10 dhs. Mostrei uma nota de 100 dhs, negativo: sem troco. Desci do carro, fui até a banca e ao restaurante: sem troco. O taxista parou outros taxistas que também estavam sem troco. Meu amigo-taxista-egípcio-que-não-fala-inglês-e-que-não-conhece-Dubai, é você mesmo que vai me levar até lá. Voltamos pelo caminho, parei a 1 quadra do prédio e o rapaz do valet trocou meu dinheiro. Paguei 15 dhs por uma corrida de 5h e ainda andei 5 minutos num sol de 44 graus. Cheguei empapado no RH. Na volta, eu me revoltei e fui à pé. É muito perto, nunca mais pego táxi.

Táxi paquistanês

Este custou um pouco mais caro que o táxi padrão do hotel, 20 dhs. Como de praxe, perguntei quantos anos ele está em Dubai: 6 anos, viu muitos prédios serem construídos... veio de Peshawar e seu idioma natal é Pushtu, ou algo parecido com isso.