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18.10.06

Mulheres de preto

Eu já falei pra vocês das visitas que recebo por vezes das mulheres de preto, que me convidam para um chá. Muitos não acreditam. Então, para os incrédulos, desta vez, documentei tudo: tirei fotos.


3.10.06

O mariner americano e as mulheres de preto

Por fim, Jo-Anne me pergunta se havia como hackear um e-mail. “Como assim?” - perguntei. É incrível como as pessoas fantasiam coisas a respeito da internet. Ela me mostrou então um e-mail, o último que seu namorado, um mariner norte-americano, enviou diretamente do campo de batalhas no Iraque havia 2 semanas.

- Caramba! Mas ele pode morrer lá!! - eu e minha boca grande...
- 7 anos... é por isso que não casei ainda...

Silêncio. Ela se fechou em seu mundo e não quis mais conversar. Sentou na outra ponta do sofá e ficou olhando para um pedaço de guardanapo, que insistia em amassar e desamassar, dobrar e desdobrar, com as duas mãos. As mulheres de preto chegaram, mas desta vez, o chá não é para mim.

Aprendi uma lição: mesmo as pessoas mais fortes têm seu ponto fraco, saudade aguda guardada em uma caixinha de Pandora, lá no sótão do peito, basta uma palavra para abri-la e inundar a Casa. E quando se vê, fortaleza é criança órfã, com medo do escuro ou do gato que passou pela janela da vida.

Tentei consertar - calma, está tudo bem, amanhã ele te manda um e-mail, você vai ver... - não mandou.

Deixa a internet pra lá. Peguei minhas coisas e saí do quarto, de mansinho.

3.9.06

Noites de hotel – 3: a festa das mulheres de preto

Dica: comece a ler pelo Noites de hotel - 1

Dubai, Coral Boutique Hotel, quarto 403. Hoje é sábado (o domingo árabe), são 23h. Saboreio novamente o chá feito pela senhora gorda auxiliada pela sua horda de amigas de preto. Hoje foi mais um dia de aula, o assunto “como fazer negócios com árabes”.


Acordo cedo, antes de lavar o rosto, envio uma mensagem ao sr. Fanzil. “Sr. Fanzil, estou com o dinheiro e quero me mudar hoje”. Por volta do meio-dia, ele me liga: “Ok, vamos marcar um encontro. Fica marcado para as 18:30h. Eu te ligo antes de sair daqui”. Noto algo interessante por aqui: no cartão das pessoas, não é incomum as pessoas não colocarem e-mail. Tudo aqui se resolve por telefone ou no tête-à-tête. E tudo muda tão rapidamente que o e-mail é praticamente inútil: é preciso ligar de hora em hora para confirmar o compromisso firmado para o final do dia.


Subo ao terraço: uma névoa cobre a cidade, quase não vejo a Burj Al Arab e a sensação de calor é ainda maior. Encontro uma senhora brasileira, gerente do spa do hotel, que está aqui há 4 anos e meio. Ela fala duas frases em português e já volta ao inglês. Conta que ficou aqui 4 anos sem voltar para o Brasil. “Tenha calma, com o tempo a tristeza passa”, diz ela.


Pausa para o almoço com o Ghisi e com a Ana, no Ibn Batuta Mall. Qualquer hora conto que foi esse filho Batuta. Shopping center de igual tamanho ou maior que o Mall of Emirates. Na vitrine, promoções: um terno risca de giz por 100 dhs, na Pierre Cardin, 3 camisas manga longa por 80 dh. Compulsão... resistência. Eu já tenho camisa. E por que um terno para um calor de 45 graus? Prefiro um traje típico local. Pensando melhor, eu não quero nada. Voto de pobreza contra o consumismo puro e simples.


17:30h. Volto correndo para casa. Eu marquei às 18:30h e não posso me atrasar. No caminho, um taxista de Bangladesh que está aqui há 19 anos dá-me conselhos com seu inglês da maneira que pode: “Vant money, or vant tings? I’m here money. Vant money, no luxury cars. Vant luxury cars, no money. Vant night, no money. Vant money, no night. Vant apartment? No money. Vant money? Room Sharjah 5 friends.
I’m here money. I send money family Bangladesh. Return each 2 years”. Para se levar uma vida com o padrão mínimo de classe média brasileira sem confortos aqui, é preciso um salário de pelo menos 8 mil dh. Os rendimentos do taxista aqui devem girar em torno de no máximo 3.000 dh/mês. E ele ainda manda dinheiro para a família em Bangladesh... penso nas bicicletas que quero comprar, nas camisas da Pierre Cardin, nos lençóis de fio egípcio, no celular com palm top, câmera, wi-fi e GPS, ... um sentimento de culpa enorme me corrói por dentro. Êita mundo injusto.

19:30h. Já estou em casa, já enviei mensagem ao senhor Fanzil. Nada. Agora ele me liga e diz: “você vai ficar por aí? Preciso resolver uns problemas e te ligo logo em seguida.” Uma das senhoras de preto dança sapateando sobre a mesa da sala, enquanto as outras batem palma no ritmo e fazem um barulho ensurdecedor com a língua. Resigno a lhe responder: “Ok, take your time”. Esta é uma das frases mais ouvidas por aqui, junto com a expressão “Inch’Allah” (se Deus quiser). Abro o livro que ganhei e ele é certeiro:


“Paciência e flexibilidade, mais do que qualquer competência técnica, são as primeiras qualidades necessárias a quem deseja trabalhar ou fazer negócios com países do Golfo.”


Ele vai mais além:


“Muitos árabes atrasarão ao máximo a resolução de certos assuntos até que o humor, momento e o lugar conduzam a ele. (...) O efeito, em termos ocidentais, é que um atraso grosseiro pode perdurar até que chegue o momento correto.”


20:30h. Peço conselhos à inglesa por SMS. Ela responde: “Ele é um loser. Ligue insistentemente para ele. Não pague pela cama.” É sempre bom ter um amigo negociante por perto para pedir conselhos. Eu me sinto uma criança de 5 anos de tão inocente. Volto a ligar para o sr. Fanzil, que simplesmente não atende o telefone. Envio mensagens, nada.


22:30h. Ainda nada. O telefone toca, é o Anderson, o brasileiro. Ele pede desculpas por não ter saído comigo no dia anterior, e pergunta insistentemente se estou bem - quem está por aqui, sabe como é que é. “Vamos à Peppermint?”. Inch Allah eu irei. A algazarra das senhoras de preto e de dentes podres aqui na sala não me deixa pensar. Uma delas, a senhora Indignação, chora de tanto rir. Começo a entender as coisas, mas talvez já seja tarde. É preciso fazer um teatro, ligar insistentemente, mostrar descontentamento, para que a pessoa entenda que o momento inadiável de resolver o assunto chegou.


Subo ao terraço para a espairecer, e converso com o funcionário Rachid. A conversa em inglês corre com dificuldade, então pergunto de onde é. Marrocos. Ele fala francês também e a conversa agora transcorre um pouco mais solta, embora sua língua materna seja mesmo o árabe. Rachid está fora de seu país desde 81, e conta com ar duro o último encontro com a família, há 1 ano. “Há novos membros na família que não conheço, e não reconheci meus irmãos...” Ploch! A gorda maior de todas pula na piscina de roupa e tudo, enquanto as demais senhoras dançam de pé sobre o muro, fazendo coreografia. Senhor Rachid, por favor, vamos falar de coisas mais amenas. Descubro então que o ônibus que vai ao centro passa de hora em hora ao lado do hotel, e custa 2,5 dh, contra 30 dh de uma viagem de táxi, e que a água do mar hoje estava a 45 graus. “Não dava para entrar, eu testemunhei!”, disse ele.


23h, voltamos ao momento presente. Talvez seja tarde já. O sr. Fanzil decididamente não virá, e lançou por água abaixo todo o meu planejamento de pegar a chave da casa as 18:30h, dar uma olhada no quarto, e quem sabe, tomar um chá em algum estabelecimento perto da praia, encontrar um acesso à internet e me teletransportar daqui para outro lugar. Agora quem está sobre a mesa sou eu, e as senhoras de preto fazem uma ciranda a minha volta, rodando em círculos de mãos dadas cantando: “otário, otário, otário...”


Desisto de sair, tomo um banho, deito na cama. Idéia: ligar para o exterior. Consulto as tarifas, surpreendentemente o preço é barato. Ligo uma, duas, três vezes. Não atende. A senhora Solidão, a gorda que está aqui ao lado, tem uma reação surpreendente: começa a crescer, crescer, crescer, e já ocupa todo o volume do quarto e me amassa contra o colchão. Mais uma idéia: escrever. Abro o notebook e fuzilo as teclas. Já não penso mais em nada, apenas escrevo. Aos poucos a gorda volta ao seu tamanho normal.

3h. A senhora Solidão foi vencida pelo sr. Cansaço, que está de pé sobre minhas mãos e apoiado sobre minhas pálpebras. Por fim, ele fecha o computador, deixa-o na escrivaninha ao lado, e apaga a a luz.

Noites de hotel – 2 ou balada solitária em Dubai

Troco de roupa. Em homenagem às senhoras, roupa preta. Tomo meu sapato preto, meu único sapato, ainda branco de pó que vou cuidadosamente tirando com uma escova-de-dentes velha. Lustro com um pano com grande zêlo. Hoje eu não quero ser barrado pois seria o fim. A mulher de dedos gordos continua me observando agaixada sobre a cabeceira da cama:

- Aonde vai?

- Não interessa.

- Vou junto.

- Sua vadia.


Garganta com nó, ansiedade, respiração difícil. Pego um táxi. De onde? Paquistão. Quanto tempo aqui? 2 anos. O taxista não quer conversa, a gorda velha (o vestido esconde, mas ela é gorda) me olha novamente e solta uma enorme gargalhada, deixando a mostra seus dentes podres e exalando um bafo sufocante.


Comparação proibida para quem mora fora: achar que sua terra natal é melhor do que a que te recebe. Quando vejo, já comparei: no quesito balada, São Paulo deixa Dubai no chinelo. Em Dubai, só conheço a sofisticada Vila Olímpia, ou os bares de shisha. Como não fumo, fico ainda mais restrito. São Paulo possui a Vila Olímpia, a Vila Madalena, os bares de Moema, Itaim, os forrós para rico ou pobre, os bares de rock no Bixiga, os botecos na esquina, as baladas alternativas na Augusta, as festas de aniversário relâmpago no terraço de algum apartamento ou em alguma casa em Pompéia que alguém avisa de última hora por uma mensagem no celular, os pubs, as casas de samba e choro. Ah, as casas de samba... ainda que eu fosse sempre apenas no Ó do Borogodó ou mais recentemente no Teatro Mars, a opção existia. A gorda não contém seu riso e cozinha meu fígado com um maçarico: “isso, otário, continue assim”.


Chegamos ao Al Madinat. O táxi ficou por 11 dirham. Taxista não gosta de corrida curta. O problema é dele. O Al Madinat é um complexo turístico ao lado do famoso hotel Burj Al Arab que imita uma cidade árabe medieval (medinas são para o mundo árabe tal qual os feudos ou burgos são para as cidades européias). A cidade é enorme e compreende um zouk (mercado),um Teatro mais de uma casa noturna, um parque aquático e um hotel 5 estrelas, com jardins e lagos artificiais de proporções descomunais. Sigo então para a Trilogy.


Logo na entrada, os Porsches e Rolls Royces me adiantam que estou talvez no lugar mais luxuoso de Dubai. A hostess me aborda:


- Are you alone?
- Yes, I’m lonely, babe.

Sou liberado. A entrada custa 60 dh. Entro. A Vila Olímpia é aqui: uma casa noturna de 2 andares, 3 ambientes, com mezaninos com vista para a pista principal no centro da casa. Os tapetes que cobrem o chão e as cortinas não me deixam esquecer que estou em um lugar muito luxuoso. Estou in, dentro do circuito fashion internacional New York, London, Paris, Tóquio, Barcelona. A música é o dance, padrão internacional pasteurizado de música em casas noturnas deste gênero. As pessoas fazem as mesmas caretas e os homens de gel no cabelo e óculos degradês rebolam e balançam as mãos do mesmo jeito que em qualquer casa noturna similar em qualquer lugar do mundo. Ando, ninguém conhecido. Ao meu lado apenas a senhora gorda e velha e de dentes podres que insiste em sussurrar em meu ouvido com seu bafo de chá de boldo com fel.


Uma observação: aqui não há emiratis, com seus trajes tradicionais, tampouco mulheres de preto cobrindo o rosto, além da senhora gorda e fedida ao meu lado: é um local estritamente para turistas e expatriados. O local é caro, mesmo para padrões europeus. A suspeita se confirma quando peço uma cerveja: uma Heineken Long Neck custou 30 dh. A minha volta, turistas europeus fashion em roupas e penteados exóticos esbaldam-se em bebidas igualmente exóticas. Garotas magras de mini-saias olham sorridentes para os rapazes exóticos que bebem bebidas caras. Prostitutas? Sinto, a princípio, medo: se existe um lugar para um terrorista suicida resolver se explodir, este lugar é aqui. Felizmente, uma rápida observação do contexto político local mostra que esse não é o caso aqui: os árabes locais vivem muito bem aqui, e são os principais beneficiados da presença de tantos estrangeiros, seja por controlarem os rentáveis negócios imobiliários, os negócios turísticos, e tudo o mais que o expatriado necessite. Uma bomba aqui seria a sua ruína.


Caminho de um lado para outro. A casa aos poucos vai se enchendo. A proporção é de 3 homens para cada mulher. As mulheres que chegam, em geral, chegam acompanhadas. Olho para o relógio, o tempo não passa. Olho no celular, ele não toca. Agonia, aperto no peito. Ninguém conversa comigo. Encosto em um canto, e de repente, alguém me aborda:


- Perdão, senhor, você sabe se aquelas cadeiras ali estão livres para o uso ou é necessário reservá-las?


Só entendo a pergunta quando noto que o uniforme de todos os funcionários da casa também são pretos. Neste instante, a senhora gorda ao meu lado passa o dedo indicador entre os dedos do pé direito suado em contato com sua surrada sandália de couro e de um só golpe o enfia diretamente em minha garganta. Enjôos.


Olho no celular, ninguém me ligou. São 11:30h. Ando, subo, desço e torno a subir a escada. O tempo não passa. 0h, olho no celular. Para minha penúria, uma chamada perdida de um número não identificado. A senhora de preto agora pula sobre meus ombros e o fardo torna-se insuportável. Vou me embora. Desço então a escada, a caminho da saída.


Às vezes o acaso faz com que certas pessoas tenham seus momentos de iluminação, e sem saber, salvam o dia de alguém que mal conhecem. Na escada passa por mim um casal, e ouço um grito: ‘Hei, pá! Estás sozinho? Então venha ter com a gente, ó pá!” É um português e uma portuguesa, consultores Siebel (qualquer hora explico o que é isso) que sentam logo a minha frente na empresa. Nunca nos conversamos, eu nem sei seus nomes, mas mesmo sem me conhecer, chamaram-me para ir com eles. Tchau, velha gorda.


Alívio na noite morna de Dubai. Agora sinto-me em São Paulo ou Aveiro. Converso em português. Mesmo sem nada falar, compartilhamos alguns valores e um imaginário, o que traz uma sensação de conforto inigualável. Tento disfarçar a minha alegria... pergunto então seus nomes: Olindo, que já está há 1 mês aqui, e Sofia (pronuncia-se ‘S’fííía”), que como eu, está há 2 semanas. Eles são de Lisboa. O Olindo já é mais experimentado, já trabalhou por um ano e meio em Ryadh, Arábia Saudita. “Oh pá, pur acaso, gustei muitu.”. Lá, se você entra em crise, não há pra onde correr: não há vida noturna, não se vende bebidas alcoólicas, nada.


Olindo compra uma água. A garrafa parece um vidro de perfume, 500 ml custaram-lhe 15 dh. “Na semana passada, paguei 130 dh para entrar. Isso tem a ver com o DJ que toca na casa”. Que horror.


2h da manhã. Vamos embora. Na saída, outro casal português aparece, vindo de outra balada localizada também no Al Madinat. O local é maravilhoso, e o Olindo bem o define: “É o lugar perfeito para se passar a Lua de Mel dos sonhos”. Perfeito. Lua-de-mel sim, sair sozinho para conhecer gente, não.


Olindo deixa-me no hotel, agradeço insistentemente pela companhia. A velha gorda já deve estar lá em cima me esperando, mas possivelmente vai me deixar dormir.

Noites de hotel – 1

Quinta-feira, fim da segunda semana de trabalho, semana em que a euforia da chegada e a “Lua de Mel” começa a dar lugar à vida cotidiana. Começa, de fato, a vida no estrangeiro.


19h. Chego ao hotel. O centro da cidade está a 20 km daqui, então o roteiro pós trabalho é: hotel – Mall of the Emirates – hotel. Faço a janta, ligo a TV: na BBC e na CNN breaking news. No Discovery Channel, o leão mata suas habituais zebrinhas. As zebrinhas morrem sem saber que viraram estrelas de TV. Em um canal árabe, vejo um jogo de futebol árabe, tão ruim que me faz lembrar os jogos da Inter de Limeira. Em um canal de música (árabe), uma garota (árabe) canta uma música triste (em árabe) com imagens de crianças feridas e o Líbano destruído ao fundo... bola pra cima, vamos lá, mostre-me algo mais animado, você consegue. Encontro outro canal de esportes: uma emocionante corrida de carruagens de cavalo com obstáculos. No canal seguinte, uma animada partida de golf. O canal seguinte é justamente o que eu preciso, um Fala que Eu te Escuto muçulmano: as pessoas ligam e um barbudo formula respostas divinas... em árabe. Desligo a TV.


Abro a janela, janto olhando os carros passando na Sheik Zayed Road, o bochorno noturno invade o recinto. Olho para a sala e no sofá estão sentadas algumas senhoras de preto,com vestido longo até o pé. Elas me olham e riem sarcasticamente: são as frustrações da semana. A mais da esquerda, a diarréia que me acompanha há 3 dias (desconfio da água destilada vendida nos supermercados e restaurantes), a do meio, a dificuldade para fechar negócio com o árabe, a da outra ponta, a internet censurada, a dificuldade de comunicação. Na cadeira em frente, está o meu celular que pifou, na outra, o novo celular, o mais sem-vergonha que encontrei pra vender. Ainda há outras, pelo tamanho se vê que são menores, e se escondem pelos demais cantos e móveis do sala, outras insistem em subir em meus ombros, puxam meus cabelos até caírem.


Volto à pia, lavo a louça. Volto à sala, peço licença às senhoras e sento. O que fazer? Silêncio. Apenas os risos das senhoras Frustrações. Vou à mesa e busco referências: um livro, um perfume, uma foto; um classificados de jornal. Ansiedade. Idéia: o telefone! Tento um, dois, três números em vão. Penso em internet: não, não dá. Nesta hora, batem na porta, é mais uma senhora de preto, a maior de todas, convidada das demais, freqüentadora assídua das casas de idosos, que me faz agora uma visita. Ela me dá um abraço apertado: é a solidão. Ela segue para o fogão, esquenta água e me faz um chá. Chá de boldo com fel.


Vou ao banheiro – agora é a senhora Solidão que me acompanha – tomo banho, ponho pijama, telefono novamente, em vão. Outro abraço apertado, abraço azedo, abraço amargo. Deito na cama, tento ler, em vão. Será que aqui há CVV Samaritanos? São 10h, apago a luz. Ouço o coro de risos. A Solidão agora me observa de cima pra baixo, agaixada, em cima do canto esquerdo da cabeceira da cama. Fecho os olhos. Cadeiras se arrastam no quarto ao lado, carros passam na Sheik Zayed Road: a vida prossegue lá fora. São 10:02h. Respiro fundo, o ar entra apertado no peito. São 10:03h. Algo cai sobre o meu rosto: abro os olhos, é esta senhora de mãos e dedos gordos e unhas grandes pintadas de preto que abre a mão e joga sobre mim areia do deserto e susurra “você está só... você está só... você está só”. São 10:04h. Acendo a luz: pra mim chega.