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22.1.09

Índia: déjà vue

Um achado que me fez lembrar de algumas coisas:



A repudiação permanente da noção de relações humanas. Oferece-se tudo, compromete-se a tudo, proclama-se todas as competências quando não se sabe nada. Assim, obrigam-nos de cara a negar no outro a qualidade humana que reside na boa fé, no senso de contrato e na capacidade de assumir uma obrigação. Os rickshaw boys propõem de te conduzir a qualquer lugar, quando eles são mais ignorantes que você sobre o itinerário. Como então não se importar e - qualquer escrúpulo que a gente tenha em montar em sua veículo e se deixar levar por eles - não os tratá-los como bichos porque eles te forçam a considerá-los como tais por esta desrazão que é a deles?


Claude Lévi-Strauss, Tristes Tropiques, 1950, no capítulo "Multidão", sobre a Índia. Um cenário não muito diferente do que vi em 2007. Longe de ser uma verdade absoluta ou de propagar preconceitos, esse texto representa bem o choque dos ocidentais ao chegar às grandes cidades do país.

3.7.07

Masala Chai


Caro este ônibus de Ajmer para Udaipur: duzentas e tantas rúpias.

Caro? Vinte e poucos dirhams, dez e poucos reais, quatro e poucos euros, duas e poucas libras esterlinas.

Caro! Pagara 150 rúpias em um ônibus que sairia diretamente de Pushkar e que perdera por conta de uma purificante noite de vômitos e diarréia. Este sai de Ajmer. Ah, mas tem ar condicionado...

Caro: ônibus sujo, com marcas pretas de mão pelo revestimento bege do ônibus. O ônibus cheira mal. Fecho a janela, mas com a trepidação, a janela vai se abrindo aos poucos e deixando entrar o ar quente... mais adiante, o ar condicionado deixaria de funcionar e o jeito mesmo seria abrir a janela.

Ônibus caro, público seleto: ele segue com a metade da capacidade ocupada, passageiros em sua maioria de uma nova classe média da Índia. Classe média que assiste TV e consome eletrodomésticos vendidos por atores de Bollywood. Atrás de mim um rapaz fala ao telefone. “... zero-five-four...”, a nova classe média diz os números em inglês, e quando termina a ligação, “Thank you”.

Na rodoviária, o motorista pressiona, liga o motor e sai andando com a porta aberta. Os últimos passageiros entram com o ônibus em movimento. "Estamos atrasados", provavelmente disse em hindi o auxiliar do motorista. Auxiliar, ao menos é o que diz a autoridade que lhe dá o seu caderno de notas e o longo bigode. De fato, atrasados estamos: o ônibus deveria sair às duas, são duas e meia.

Autoridade: antes de deixar a cidade e sair estrada afora, o auxiliar abre a porta que separa a cabine do motorista, diz algo e assim o ônibus pára. Na calçada, um fogão e panelas grandes. Sobre elas, pendurada por uma linha ao galho da árvore, um papel que gira com um desenho da moeda de 1 rúpia. O rapaz apressa-se para abrir mais sacos de leite sobre uma das panelas, complementar o tempero que ferve na outra panela. E então, retira de um balde com água vários copos de vidro e os enfileira sobre a mesa improvisada.

Masala Chai, uma rúpia, 10 fils de dirham, 5 centavos de real, 2 cêntimos de euro. Quantas libras esterlinas? Um rapaz se apressa para pagar e ops! Lá se vai a moedinha de uma rúpia para dentro do caldeirão. Não tem problema! O rapaz segue girando o leite e começa a encher os copos com a mistura de chá, leite e moeda.

O ritual segue por cerca de quinze minutos. Pressa? Não há problema: a parada para o chá, tal qual as paradas para o xixi nas plantações ao lado da estrada, já está previstas no tempo total.

Por fim, o senhor bebe o último gole. Limpa o bigode com o lábio inferior, olha para o fundo do copo para, talvez, ter certeza. Coloca o copo sobre a mesa e diz a todos: "vamos!". O motorista, que descansa com os pés sobre o painel do ônibus retoma sua posição de trabalho e liga o motor: hora de seguir viagem.


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Expensive this bus from Ajmer to Udaipur: two hundreds e so rupies.

Expensive? Twenty some dirham, ten and some real, four and some euros, two and few pounds.

Expensive! I had paid 150 rupies for a bus that would leave directly from Pushkar, lost thanks to a purifying night of vomits and diarrhea. This leaves from Ajmer. Oh, but this one has air conditioning…
Expensive: dirty bus, with dark marks of hands across the beige covering of bus. It stinks. I close the window, but with the trepidation, it slides slowly letting the hot air to come in… finally, the air conditioning stopped working and the only thing to do was to let it opened indeed.

Expensive bus, selected public: it goes with half of its capacity, the majority of the passengers from a new middle class in India. Middle class that watches TV and consumes appliances sold by actors from Bollywood. Behind me, a guy talk in the mobile. “zero-five-four…” he says the numbers in English, and to end the call, “Thank you”.

At the bus station, the drivers pushes, turns on the engine and start moving with the doors opened. “We are late”, probably said in hindi the driver’s assistant. Assistant, at least is what is said by the authority given by his notebook and long mustache. In fact, late we are: the bus should have left at 2 pm, it is 2.30 pm.

Authority: before leaving the city and get the road, the assistant open the door that separates the driver’s cabinet, says something and the bus stops. In the pavement, a stove and big pans. Over there, hung by a thin thread tight to a branch of a tree, a piece of paper spins showing a 1-rupie coin. The guy hurried to open more milk plastic bags onto one of these pans and to add more spices to the water that boils in the other. And then, takes from a bucket with water several glasses and put them on the improvised table

Masala Chai, one rupie, 10 fils of dirham, 5 cents of real, 2 cents of euro. How many pounds? One hurry himself to pay and oops! There goes the 1-rupie coin into the milk. No problem! The guy just keeps twisting the milk with a spoon and start filling the glasses with this mixture of tea, milk and coin.

This ritual lasts about fifteen minutes. Hurry? There is no problem: the stop for tea, as the stops for passing water along the road, is already predicted in the total time of the trip.

The man sips his last sip, cleans the mustache with the lower lip, and looks again to the bottom of the glass, maybe to be sure. He leaves the glass on the table a says to everyone: “let’s go!”. The driver, who relaxes with the feet over the bus panel retakes his work position and turns the engine on: time to continue the trip.

28.6.07

Rito de passagem: casamento hindu



Havíamos chegado às 5h da manhã de ônibus de Udaipur e ficáramos no teto da pensão até as 6h para ver o sol nascer e a cidade acordar nos terraços. Não há ar condicionado, as pessoas dormem no terraço das casas e acordam com os primeiros raios de sol. Às nove horas da manhã, um batuque insistente e um burburinho entram pela janela do quarto.


Nos dias que se sucederam, foi possível notar que o batuque se espalhava por toda a cidade: estávamos às vésperas de um casamento coletivo hindu na cidade, Jodhpur. Mais de 50 casais... nos dias que antecediam o evento, os noivos, vestidos à carater, eram levados pelos vizinhos e parentes em uma passeata pelas pequenas vielas da cidade várias vezes ao dia. Eles na frente, o resto atrás, com seus tambores e fogos de artifício.

O casal da foto estava de saída, ao lado da pousada, na entrada do caminho para o castelo mughal.



Assim que a foto foi tirada, o rapaz ao lado, irmão ou primo da vítima, pede: "Agora só eu e ele!". Pois não.

24.4.07

SUVs

Eles são grandes, ocupam espaço e consomem mais do que os outros meios de transporte. Ainda assim, as pessoas que os utilizam não os trocam por nada: argumentam que vêem o mundo de cima, e que impõem respeito. E são todo-terreno: atravessam terrenos alagados, íngremes, montanhosos, pedregosos. Com eles, nunca há mal-tempo.

Atenção!! Eu não estou falando de SUVs...



Elefante na rua, Udaipur, Rajastão, Índia.

23.4.07

Atoladinha


Se esta foto tivesse sido tirada em Dubai, seria indecente, imoral e ilegal. Mas foi tirada na Índia, então tudo bem.

100% vegetariano

Autorickshaws


Jodhpur, Rajastão, Índia.

Rodoviária


Rodoviária, Jodhpur, Rajastão, Índia.

16.4.07

Taj Mahal


750 rupias para estrangeiros, 10 rupias para indianos.

Eu odeio rickshaws




Eu tenho muita coisa pra dizer, mas a dor de barriga e o calor tiram a inspiracao de qualquer um. Estou em Pushkar, uma cidade neo-zen-hippie-induista "rickshaw free". Verdadeiro contraste em comparacao a Agra... muito louca a cidade: sao proibidas bebidas alcoolicas, carne e ovo. Mas tem uns senhores barbudos chegando aos trapos na cidade que bebem um tal de bhang, uma bebida sagrada feita de folhas de Cannabis Sativa com flores... por falar em flores, cidade fica em torno de um lago, um lago sagrado. Todo mundo entra tomar banho no lago poluido, mas antes, compram umas bencaos de umas 'autoridades da fe'. Enfim...

Ontem almocei e jantei com um simpatico casal, o italiano Roberto e a espanhola Alicia: estao desde janeiro viajando por aqui. Hoje vou seguir a recomendacao de um uruguaio e vou para Udaipur, segundo ele, a cidade mais bonita da India... vamos ver.

Ainda bem que existe Lonely Planet: aqui ninguem rouba, mas todo mundo quer passar a perna no estrangeiro viajante, jogando os precos lah em cima. E os indianos aqui tambem possuem uma fascinacao por estrangeiros semelhante ao que se passa no Brasil: todo mundo quer conversar, ainda que a maioria mesmo seja para te vender algo a um preco escorchante.

Os macacos daqui sao diferentes - tem a cara preta - e sao uns ladroes: hoje la no alto de um morro, em um templo, um deles me roubou um pacote de bolacha.

Ah, os rickshaws: eu odeio rickshaws. Os caras falam que vao te levar para algum lugar e te levam para umas tres lojas antes de te deixar em um ponto final. Golpe velho...

13.4.07

Primeiras impressoes




To sem acentos por aqui.
...
O aeroporto de Delhi parece a rodoviaria do Rio de Janeiro.
...
Um bando de macacos cruzando a auto-estrada? Foi isso mesmo que eu vi?!
...
(ainda na estrada) Olha, uma carroca... puxada por um camelo?!
...
Olha soh, as lindas plantacoes de arroz basmathi que sao exportadas para Dubai... ih, olha ali o cara de cocoras ali no meio! Nao faz issooooooo...
...
Olha outro cara fazendo coco no acostamento!
...
Agra: uma favela de 1.3 milhoes de habitantes cercada de palacios.
...
Sera que alguem pode me dar uma informacao correta?
...
O limpo sai caro.
...
Em um dos palacios, um macaquinho nao para de chorar. Um macaco adulto pega carinhosamente o bebezinho, deita-o no chao, e ...pisa no seu pescoco. Foi salvo no ultimo minuto por outro macaco que o puxou pro colo.

12.4.07

O preço das coisas


Que semana...

- 8 fotos tamanho passaporte: 30 dirhams;
- guia Lonely Planet: 117 dirhams;
- visto: 150 dirhams e algumas horas em filas;
- serviço expresso para entregar o passaporte com o visto em mãos: 10 dirhams;
- passagem aérea: 1440 dirhams.

É isso: o Sheik se ausenta por alguns dias para negociar camelos, elefantes e macacos com seus amigos marajás.