Chego no edifício e não vou para o vigésimo sexto: uma conversa informal face-a-face é mais eficiente que e-mails e por vezes a melhor alternativa para esclarecer as razões de tantas demandas. Certas coisas não se explica por e-mail. O elevador para no trigésimo terceiro. Três lances de escada e lá estou no trigésimo andar.
Lá estão os 4 DBAs: um deles é nepalês. Você liga para o número dele e em vez dos toques normais de telefone, toca uma canção nepalesa. E é desse mesmo celular que ele reclama: ficou sem sinal no final-de-semana, quando não conseguiram contactá-lo às 3h da manhã. Entendo bem como são essas coisas, mas não reclamo: o que é melhor do que um celular que não funciona às 3h da manhã de sexta? É a tecnologia proporcionando o bem-estar do cidadão. Não troco o meu por nada. Logo a frente, está o outro, indiano - um pouco afoito, bem verdade, talvez inexperiência. Na ponta está o chefe, que nasceu no Iraque, passou a infância em Dubai e o resto dos anos na Nova Zelândia até decidir voltar a Dubai 'pelo lifestyle': em sua agenda estão os nomes da meninas mais bonitas (ou nem tanto) de Dubai, e você pode encontrá-lo em todas as aulas de salsa da cidade (obviamente não agora, durante o Ramadã). Ele estará em algum sofá recitando para alguma moça bonita alguns dos poemas que escreve em árabe, poemas que em tempos idos eram uma arma de guerra. Ou ainda são?
E por fim, o DBA argelino. Faltou explicar o que é DBA: Data Base Administrator. Eu e mais alguns ocidentais insensatos estivemos enfrentando um descompasso de produtividade nos últimos dias: o banco de dados de testes que estamos montando estourava de tamanho. Tentávamos ligar para o DBA às 13h, mas já era tarde: ele já havia ido embora. Insensatez sim: é Ramadã, ele acordou antes do sol raiar para beber água e fazer uma refeição, e iniciava o jejum de comida e água e "atividade sexual" que duraria até o final do dia. Comento que julgo a experiência do jejum durante o Ramadã válida e única. Ele completa: "melhor ainda quando o lado físico encontra o espiritual". Aí eu mudo de assunto. Ele seguiu a regra: chegou às 7h no trabalho, trabalhou 6h e foi embora. E quem vai dizer que está errado? Eu admiro a generosidade das nações islâmicas, que assumem os custos de uma queda de produtividade da economia para oferecer um mês aos seus conterrâneos no qual a prioridade oficial não é o trabalho: é a família, é a reflexão sobre a condição humana, é o momento presente. O futuro? Inchallah. No ocidente (no qual se incluem algumas nações do oriente), o Natal é um dia. No Brasil, o Carnaval dura quando muito, uma semana... não dá para comparar Carnaval com Ramadã, mas se fosse hoje criar uma nação, uma religião e um calendário, incluiria um mês de jejum, e um mês ou dois de orgias (puras e pesadas), pois julgo que ambos acrescentam algo à existência humana, e em excesso a degradam também.
Voltemos ao DBA. "- Ça va? - ça va...", tenho mais afinidade com o argelino, talvez porque falamos uma segunda língua em comum. Talvez porque ele também - conforme me contou outro dia no café antes do ramadã - teve e ainda tem grandes dificuldades para compreender os diferentes sotaques do inglês, sua terceira língua, e agora, forçosamente a mais usada. Explico para ele a nossa situação, ele concorda e firmamos um compromisso. Está feito, agora voltamos a conversar sobre o Ramadã: ele comenta para a minha surpresa que é a primeira vez em que ele passa um "Ramadã multicultural".
- Na Argélia, 95% da população é muçulmana, e não há estrangeiros. É muito diferente!
É muito diferente. Que gozado, esse foi meu comentário quando cheguei por aqui: eu nunca havia vivido em um ambiente majoritariamente muçulmano durante Ramadã e Natal e Carnaval. Eu achei tudo "muito árabe", ele "muito ocidental"... tudo uma questão de ponto-de-vista.
E a conversa segue outro rumo. Ele olha as fotos de seus filhos sobre a mesa - temos quase a mesma idade, ele têm 2 filhos e eu ainda sou adolescente - e comenta sobre as belezas naturais da Argélia: 'lá tem DE-SER-TO" - e completa com desdém - "não é como esse desertinho daqui". Ele usa roupas simples, e quando o assunto é o seu maior desejo de aquisição, ele sorri e diz: "eu queria ter um cavalo". Uma esposa, dois filhos, um cavalo. Desejos bem distintos do gosto por roupas e carros caros que fazem parte de um certo lifestyle que atrai muita gente - inclusive seu chefe - mas não supreende: cavalos fazem parte do imaginário árabe.
Volto ao vigésimo sexto. Em vinte minutos, um e-mail do DBA dizendo que já estava tudo OK. Depois do almoço, mais um problema de espaço: o DBA já não está mais lá. Tudo bem, amanhã resolvemos isso. Inchallah.
Mostrando postagens com marcador Ramadã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ramadã. Mostrar todas as postagens
25.9.07
16.9.07
13.9.07
Ramadã Carím
Ramadan Kareem!
Ramadan Mubarak a todos!
E começa nesta quinta-feira o Ramadã, mês do calendário lunar que no Ocidente, só encontra paralelo no Ocidente nos festejos dos dias que antecedem o Natal e Ano-Novo.
Andei recebendo nestes últimos dias diversos e-mails de amigos muçulmanos, como o e-mail abaixo:

Pela cidade, é possível ver diversas tendas montadas ao lado de mesquitas, em terrenos vazios ao lado de casas de famílias influentes (ou nem tanto), onde famílias e freqüentadores de mesquitas se reunirão ao final do dia para o Iftar, jantar de desjejum. Depois tento tirar alguma foto. Por hora, é só.
Ramadan Kareem!
Ramadan Mubarak a todos!
E começa nesta quinta-feira o Ramadã, mês do calendário lunar que no Ocidente, só encontra paralelo no Ocidente nos festejos dos dias que antecedem o Natal e Ano-Novo.
Andei recebendo nestes últimos dias diversos e-mails de amigos muçulmanos, como o e-mail abaixo:
Ramadan Kareem to you and all your loved ones, may GOD brings it back always with so much Blessings, Happiness and Prosperity.

Pela cidade, é possível ver diversas tendas montadas ao lado de mesquitas, em terrenos vazios ao lado de casas de famílias influentes (ou nem tanto), onde famílias e freqüentadores de mesquitas se reunirão ao final do dia para o Iftar, jantar de desjejum. Depois tento tirar alguma foto. Por hora, é só.
Ramadan Kareem!
3.10.06
28.9.06
O que muda com o Ramadã
- Todos os muçulmanos passam a jejuar (sem comer, beber, fumar ou fazer sexo) desde o momento em que o sol nasce até o momento em que o sol se põe;
- As pessoas se saúdam com as frases “Ramadan Kareem!” e “Ramadan Mubarak!”
- Os mais empolgados mandam e-mails religiosos enormes para toda a empresa, enaltecendo as virtudes do Profeta (PBUH);
- As noites passam a ser de festas. Amigos convidam amigos para o Iftar – a refeição de quebra do jejum – em suas casas. Hotéis também passam a oferecer pacotes para o Iftar;
- Todas as baladas ficam fechadas. É proibido qualquer tipo de música ao vivo. Venda de álcool também é proibida;
- Já que não há “Baladas”, a “balada” passa a ser nas casas de shisha: amigos se reúnem para passar horas fumando shisha.
- Para quem não é muçulmano, a princípio o ambiente durante o dia fica hostil: recomendação expressa na empresa para não se comer, beber água, fumar ou fazer sexo em público e no recinto do trabalho. Resta uma cozinha de 2 m quadrados para que todos bebam suas águas e façam suas refeições. Sexo ali também não é permitido. Restaurantes fecham, e os que ficam abertos, ficam de portas fechadas, com cortinas grossas fechando as janelas;
- Recomenda-se mais discrição no vestuário: não sair de bermudas ou camisas regatas, e para mulheres, cobrir os ombros e vestir vestidos mais longos. Aqui o povo ainda releva, mas dizem que na Arábia Saudita “o bicho pega”;
- É engraçado e constrangedor comer nessas condições: um rapaz aqui definiu bem a situação, quando no final-de-semana foram a um fast-food: só se vendia comida para viagem. Eles comeram então dentro do carro, perto da praia. “Parecia que a gente estava usando drogas escondido! Comendo e olhando pros lados pra ver se alguém via”
- A jornada de trabalho se reduz de 8h para 6h. Na empresa, saiu uma circular bem peculiar: “a jornada de trabalho reduz-se para 6h, mas pedimos atenção para o fato que os prazos se mantêm...” Simpático, não? Continuo trabalhando mais de 8h...
- As pessoas se saúdam com as frases “Ramadan Kareem!” e “Ramadan Mubarak!”
- Os mais empolgados mandam e-mails religiosos enormes para toda a empresa, enaltecendo as virtudes do Profeta (PBUH);
- As noites passam a ser de festas. Amigos convidam amigos para o Iftar – a refeição de quebra do jejum – em suas casas. Hotéis também passam a oferecer pacotes para o Iftar;
- Todas as baladas ficam fechadas. É proibido qualquer tipo de música ao vivo. Venda de álcool também é proibida;
- Já que não há “Baladas”, a “balada” passa a ser nas casas de shisha: amigos se reúnem para passar horas fumando shisha.
- Para quem não é muçulmano, a princípio o ambiente durante o dia fica hostil: recomendação expressa na empresa para não se comer, beber água, fumar ou fazer sexo em público e no recinto do trabalho. Resta uma cozinha de 2 m quadrados para que todos bebam suas águas e façam suas refeições. Sexo ali também não é permitido. Restaurantes fecham, e os que ficam abertos, ficam de portas fechadas, com cortinas grossas fechando as janelas;
- Recomenda-se mais discrição no vestuário: não sair de bermudas ou camisas regatas, e para mulheres, cobrir os ombros e vestir vestidos mais longos. Aqui o povo ainda releva, mas dizem que na Arábia Saudita “o bicho pega”;
- É engraçado e constrangedor comer nessas condições: um rapaz aqui definiu bem a situação, quando no final-de-semana foram a um fast-food: só se vendia comida para viagem. Eles comeram então dentro do carro, perto da praia. “Parecia que a gente estava usando drogas escondido! Comendo e olhando pros lados pra ver se alguém via”
- A jornada de trabalho se reduz de 8h para 6h. Na empresa, saiu uma circular bem peculiar: “a jornada de trabalho reduz-se para 6h, mas pedimos atenção para o fato que os prazos se mantêm...” Simpático, não? Continuo trabalhando mais de 8h...
27.9.06
O mais difícil do jejum...
... é ficar sem água. A boca vai ficando pastosa ao longo do dia. Parece que a língua vai grudar no céu da boca.
26.9.06
O jejum e o Ramadã
Jejuar durante o Ramadã, assim como as 5 orações diárias, é um dos 5 pilares do islamismo, levado a cabo com naturalidade, orgulho e alegria por aqui.
O jejum - de água e comida - inicia-se após uma refeição rápida antes do sol nascer, por volta das 4:45h, e só termina quando o sol se põe, por volta das 18:15h. Então, é hábito reunir-se para o Iftar, a refeição de quebra do jejum. Não é incomum as pessoas saírem às ruas, nesta hora, soltando fogos de artifício. A imagem das pessoas sentadas no chão do lado de fora das mesquitas compartilhando a refeição é algo que guardo pra mim.
Ramadã, apesar das restrições, é tempo de alegria e festa. É tempo em que toda a sociedade se organiza em torno de um objetivo comum. Como carnaval, como Copa do Mundo, para brasileiros. Tempo de reunir a família e os amigos, como Natal. Tempo de comer comida diferente, que vende no supermercado e que não sei o nome. Leio no jornal que Ramadã é tempo de exercício da paciência. Que bom, eu preciso disso mesmo.
Ainda não entendo esta relação com a lua, que neste mês, destaca-se crescente no céu, o símbolo do Islã. Sou leigo no assunto. As sociedades pré-colombianas nas Américas tinham uma relação semelhante com o sol, não é?
Estar na festa e não participar não tem graça: vou tentar seguir ao jejum e observar, observar.
O jejum - de água e comida - inicia-se após uma refeição rápida antes do sol nascer, por volta das 4:45h, e só termina quando o sol se põe, por volta das 18:15h. Então, é hábito reunir-se para o Iftar, a refeição de quebra do jejum. Não é incomum as pessoas saírem às ruas, nesta hora, soltando fogos de artifício. A imagem das pessoas sentadas no chão do lado de fora das mesquitas compartilhando a refeição é algo que guardo pra mim.
Ramadã, apesar das restrições, é tempo de alegria e festa. É tempo em que toda a sociedade se organiza em torno de um objetivo comum. Como carnaval, como Copa do Mundo, para brasileiros. Tempo de reunir a família e os amigos, como Natal. Tempo de comer comida diferente, que vende no supermercado e que não sei o nome. Leio no jornal que Ramadã é tempo de exercício da paciência. Que bom, eu preciso disso mesmo.
Ainda não entendo esta relação com a lua, que neste mês, destaca-se crescente no céu, o símbolo do Islã. Sou leigo no assunto. As sociedades pré-colombianas nas Américas tinham uma relação semelhante com o sol, não é?
Estar na festa e não participar não tem graça: vou tentar seguir ao jejum e observar, observar.
30.8.06
O Ramadan
Almoçando hoje com o tunisiano Absalam, que é muçulmano, recebi um pouco mais de informaç&oatilde;es sobre o Ramadan que se aproxima:
- a data de início será no final do próximo mes;
- durante este período, os restaurantes não abrirão, e é considerado falta de respeito comer ou beber (qualquer líquido) em público durante o dia;
- durante este período, as pessoas trabalham apenas 6h;
Vamos ver como será aqui em Dubai, um lugar a parte no mundo árabe.
Assinar:
Postagens (Atom)