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13.5.08

Os irmãos de Navid

Dezembro de 2007. As pessoas ainda embarcavam no avião quando o rapaz que sentaria ao meu lado vira-se rispidamente em farsi.

- Sorry, na farsi baladin...

Então ele traduz:

- Senhor, será que você pode liberar um pouco de espaço para minhas coisas também no bagageiro?!

Sinceramente, se iranianos lotam suas malas de compras em Dubai, não é culpa minha:

- Desculpe, mas essas malas não são minhas...
- Oh, sorry...

Após uma longa discussão com a aeromoça, mais calmo, ele se senta ao lado e puxa conversa:

- Oh, desculpa pela confusão...
- Sem problemas...
- Você mora em Dubai?
- Sim, e você?

Navid era o seu nome. Nome, aliás, muito comum no Irã. Ele mora há 2 anos no Reino Unido e aproveita as férias de fim-de-ano para ver a família:

- Não é feriado no Irã, mas não poderei voltar para o Noruz (ano-novo iraniano, que dura 15 dias no mês de março).

Curioso, ele pede para ver meu passaporte:

- Você pode viajar para qualquer país?
- Sim, sou sheik. Por que?
- Não é para todo país que a gente pode ir. Israel, por exemplo... anos atrás, não podíamos entrar na África do Sul. Era uma retaliação do governo contra o Apartheid...

Curioso, pergunto sobre o passado:

- E a guerra Irã x Iraque, como afetou sua família?

Pergunta arriscada, mas ele responde com naturalidade: seus dois irmãos lutaram na guerra. Eles eram jovens: tinham entre 16 e 17 anos.

- Mas tão jovens assim, na guerra?

Ele explica que a invasão do Arvand Rud (Chat Al Arab, em árabe) aconteceu apenas um ano após o início da Revolução, em um momento que as forças armadas do país encontravam-se ainda desestruturadas.

- Foi uma histeria no país: todos os jovens queriam ir para a guerra. As escolas ficaram vazias...

A guerra Irã-Iraque ficou conhecida pelo uso de Ondas Humanas: os iranianos, em maior número e com menos equipamentos, simplesmente marchavam em direção ao inimigo. Guerra curiosa, em que o Iraque de Saddam Hussein era apoiado simultaneamente por EUA e URSS. Não fosse países neutros como os Emirados Árabes, o Irã ficaria sem provisões. Assim como ainda é feito hoje, empresas vendiam seus produtos para empresas nos Emirados Árabes, que realizavam a revenda para o Irã.

Para frear as ondas humanas, as tropas de Saddam usaram armas químicas e biológicas, que minou sua base internacional de apoio.

- E o que aconteceu com seus irmãos? - outra pergunta delicada. Mas ele não tem problemas em responder:

- Meu irmão mais velho levou um tiro de fusil no ombro direito, que saiu pelas costas do lado esquerdo. Ele sobreviveu, está bem, mas até hoje tem certos problemas de desbalanceamento... e meu irmão do meio estava em combate quando foi atacado por armas químicas. Passou 5 anos na cama de um hospital. Sofria de crises periódicas de falta-de-ar. Ficara com a cara roxa... hoje após anos de tratamento está bem, os problemas foram minimizados...

Navid é enfático em afirmar que Khomeini errou: em 82, após menos de 2 anos de conflito, o Irã já havia reconquistado todo o território invadido pelo Iraque, que agora propunha um cessar-fogo. Khomeini não o aceitou: "o exército iraniano marchará sobre Karbala", teria dito.

Karbala é um importante centro de peregrinação religiosa no Iraque, cidade onde o profeta xiita Hussein (filho de Ali, que era primo e genro de Maomé) foi morto junto com sua família em batalha. Talvez a rápida recuperação do território tenham feito o imã sonhar alto com uma única nação xiita: mais de 90% do Irã e 65% do Iraque segue esta corrente do Islã. Mas Karbala fica no centro do Iraque... muitas das estimadas 1,5 milhão de mortes nessa guerra poderiam ter sido evitadas se a guerra tivesse terminado ali e não se arrastado por mais 6 anos como se arrastou...

- Muita gente jovem e boa morreu nessa guerra. Gente que poderia ajudar o país hoje. E para que? Hoje o país ajuda a reconstruir o Iraque, é um país-irmão, dizem os governantes. Tantas mortes para nada... - diria o nosso motorista-guia, alguns dias depois em Passárgada.

Talvez hoje os 290 passageiros e tripulantes do vôo IR655 estivessem vivos: o avião civil da Iran Air, que fazia a linha Bandar Abbas-Dubai, foi abatido "por engano" por um míssil lançado pela embarcação USS Vincennes em 3 de julho de 1988, em um evento até hoje não muito bem esclarecido. Um incidente que acabou por acelerar a assinatura de um cessar-fogo entre os dois países (Irã e Iraque. Os EUA nunca explicitamente admitiram o erro ou se desculparam publicamente pelo abatimento do avião, embora tenha pago indenização às famílias das vítimas).

Talvez: isso não existe em História. O avião agora chacoalha com uma turbulência. Eu afundo na poltrona, Navid ri:

- Isso não é nada! Você precisa ver as turbulências no vôo entre Londres e Nova Iorque! - este é o tipo de curiosidade que não tenho.

O avião finalmente pousa no moderno Aeroporto Iman Khomeini. Navid nos orienta na saída do aeroporto e deixa seu telefone:

- Se estiver pela cidade, é só ligar!

Merci and Hoda hafez, Navid.

20.3.08

No ruz Mubarak!

E eu já ia me esquecendo: este ano o Aniversário do Profeta coincidiu com o tão esperado No Ruz, o Ano-Novo no calendário persa!

Pra ser mais exato, o Ano-Novo iraniano começou hoje às 9:48 h da manhã, de acordo com uma amiga iraniana aqui, a Golnaz.

Uma curiosidade sobre este calendário, com origem no Zoroastrismo, é que ele é considerado mais preciso que o calendário Gregoriano - usado no Ocidente - e as celebrações estão ligadas aos fenômenos da natureza, às mudanças de estações do ano. O Ano-Novo coincide justamente com a chegada da primavera. E a noite antes da última quarta-feira do ano persa, ou seja, na terça à noite (Chaharshanbeh sori, algo como "festa da quarta-feira") é comemorada com fogueira e um jantar especial: é o Festival do Fogo, a comemoração da vitória da Luz sobre as Trevas (sim, o velho papo da luta do Bem contra o Mal).

Embora o Irã seja um país majoritariamente muçulmano xiita, essa ligação com o fogo é uma clara influência do Zoroastrismo, em cujos templos são mantidas fogueiras permanentemente alimentadas. São os Atachkadeh (fogo eterno).

O Noruz marca também o início do período semelhante ao carnaval brasileiro, em que o Irã pára e todo o país viaja e festeja. Não adianta tentar encontrar acomodações pelo país nesta época: vai ver muito difícil conseguir e caro (para os padrões do país).

Com a quantidade de iranianos em Dubai, um evento desses em geral não passa despercebido. Então, se você ver um pessoal acendendo fogueiras por aí e fazendo festa, sim, grandes chances de serem iranianos!

Noruz mubarak!

27.1.08

Uma boa ação

Em uma pousada no interior remoto de um país onde não se aceita cartões de crédito internacionais, o menino de olhos verdes conta o dinheiro restante. Após dias de observação, o gerente da pousada intercepta o rapaz em um momento oportuno: "quer ajudar uma família?"

Em um canto mais reservado, explica: ajudar uma família que não pode ter filhos. Tudo em sigilo, em um país onde as liberdades individuais não incluem este tipo de boa ação. A recompensa: um acerto financeiro entre as despesas de estada, talvez uma extensão da duração da viagem por mais alguns dias e países.

Mesmo sem conhecer a família, aceita a empresa; durante uma semana, fornece o material necessário até a confirmação do fato consumado. Felicidade ingênua de quem não pensa muito em implicações de um ato, que se explica na felicidade alheia. Ajudando uma família anônima que começa a ganhar rosto na cozinha do hotel. Moça que carrega peso até ser interrompida: "mulher grávida não carrega peso!".

Dias depois, o gerente da pousada lhe pergunta: "quer conhecer a família que você ajudou?" - sim é a resposta. Seguiram então até um dos quartos, e lá está a família do próprio gerente. "Muito obrigado!" - completou.

E veja como são as coisas: quando bebo café turco, vejo apenas a própria borra escorregando de um lado para outro no fundo da xícara. Nada mais.

Mistério.

A vidente turca

Água quente diretamente sobre café e cardamomo: café turco é assim, ou assim o é o café que se consome por estas paragens.

Depois de bebido, sobra no fundo da chaleira (ou cafeteira?) um barro marrom escuro: a borra do café. Segundo as turcas, é ali que está escrito o futuro.

E foi assim que o viajante recebeu notícias do próximo país ao sair da Turquia:

"eu vejo em seu caminho uma mulher grávida. Isso não lhe causará
problema algum, a não ser que você a procure algum dia. Neste caso, estes serão os maiores de sua vida."


E o viajante seguiu viagem.

24.1.08

Baianas, Las originales



Silk Road Hotel, Yazd, Iran. Uma noite qualquer de dezembro em um país do Eixo do Mal. Turistas amedrontados com a iminente guerra nuclear e possível vitória da Malvadeza contra o Bem, refugiam-se em um quarto subterrâneo.

Em meio às preces para o Papai Noel, trocas de informações:

- Ei, seu chinelo é parecido com o meu.

Todo turista que se preza possui um par de chinelas (sim, chinelos é mais bonitinho, mas chinelas passa um ar mais praiano) de borracha, conhecidas em um determinado país da América do Sul como Havaianas, as Legítimas. Chinelo prático: seca rapidamente após o banho (nenhum turista é louco de tomar banho descalço em banheiros coletivos).

- Ei! Que porra é essa?!

E já vem a briga: é original? Não é?

- É original, sim! Minha irmã comprou pra mim no Brasil, lá no Rio de Janeiro! - argumenta o austríaco Chris, para o delírio dos brasucas de plantão.

Enfim, não importa: o importante é proteger o pé.

Baianas, Las originales: viva a globalização. Tem até uma bandeirinha do Brasil, para não deixar dúvidas quanto à procedência. Assim, sim.


(Eduardo, Luís, Chris, Arthur, não necessariamente nesta ordem).

16.1.08

Não é por aí

O leitor do post anterior pode pensar que o Sheik é um defensor do eixo do mal.

Longe de defender ou atacar o regime instalado por terras persas, o sheik pensa que isso é um assunto persa, a ser resolvido por persas, e não pela polícia do mundo. Aliás, toda tentativa de intervenção externa no Irã no recente passado deste país - com boas ou más intenções - revelou-se um desastre.

Inclusive hoje, parece-me que a própria intransigência nas negociações acerca dos reatores nucleares iranianos - questão considerada soberana por qualquer iraniano - e coisas como o embargo é o que tem alimentado ressentimentos nacionalistas na população que terminam por se traduzir em um apoio ao governo atual, impedindo assim que outros assuntos venham à pauta, que o país avance. Algo tão improdutivo para o país quanto o embate PT x PSDB no Brasil. Em Teerã, por exemplo, o dono de um hotel ficou indignado ao descobrir que o domínio de seu website - fundamental para atrair turistas - havia sido cancelado: "Eu tenho cara de terrorista?".

O clima bélico não é bom para o povo, mas é bom para governos: bom para o governo iraniano, que encontra assim sustentação com o mote da "ameaça externa", bom para os governo dos EUA e França, que lucram com vendas de armas e reatores nucleares para os países vizinhos. Bom para o governo russo, que aumenta seu controle sobre o Mar Cáspio em troca de apoio político e militar.

No mais, há pontos em comum entre o governo norte-americano e o governo persa: ambos possuem grande suporte em áreas rurais e nos setores mais conservadores de seus respectivos países. Ambos têm o suporte de religiosos fervorosos - cristãos ou muçulmanos. Ambos discursam sobre o bem e o mal (que bom se tudo fosse tão simples). O apoio a ambos é menor em áreas urbanas, em grupos com maior escolaridade e entre jovens.

26.12.07

Ira - primeiras impressoes

- o teclado nao tem acento;

- o melhor do Ira? O povo, que possui um obsessiva hospitalidade e curiosidade com os estrangeiros;

- encontro por aqui um austriaco: ele veio de bicicleta de seu pais ate aqui;

- esse austriaco e a primeira pessoa que conheco que atravessou (pedalando) a regiao autonoma de Nagorno-Karabagh (ou Alto Karabah, ou simplesmente Artsakh, como a chamam os armenios que ai vivem. Mais informacoes aqui). O Artsakh eh uma regiao cuja independencia nao foi reconhecida por nenhum pais desde a guerra com o Azerbaijao. Entre o Artsakh e a Armenia ha uma faixa de "terra de ninguem" patrulhada pelo exercito russo. Segundo ele, uma "terra de gente alegre cercada de minas terrestres";

- por intermedio do austriaco, encontrei com o Arthur, que ha mais de 2 anos viajam pelo mundo de bicicleta. Veja o site dele aqui. Um cara muito simpatico e de muitas historias;

- Hi! O ano ainda nao acabou e ja coloquei mais um post. Mas tudo bem, se eu for esperar o ano novo iraniano, soh em 21 de marco;

- depois organizo melhor isso, posto algumas fotos.