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12.6.08

12 de junho

É de manhã: moça decidida que vai ao comércio pensando no moço. Loja de lingeries: "De renda". Papelaria: "De carta". Perfumaria. Escolheu e escolheu e escolheu e estendeu o cartão: "Parcela em três vezes?"

É tarde, sol que atravessa a vidraça, ilumina a moça que desenha. Giz preto sobre a folha bege. Fantasias, versos de Adélia Prado:

Janela

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora,
monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném,
a mãe do Pedro Cisterna urinando na chuva,
por onde vi meu bem chegar de bicicleta
e dizer a meu pai: minhas intenções com sua filha
são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.


É quase noite. Banho, roupa nova, maquiagem, embalagem com um cartão. Espera...

Espera. O moço que chega suado de bicicleta vestido de dia comum. Espanto: "Tem festa hoje?".

É noite. Desencanto: louça partida. Conserto? Colam-se os cacos... mas ficam as marcas.

12.5.08

África do Sul: "a guerra de nossos pais"

Já passa da meia-noite e ele está lá no terraço, com uma garrafa de vinho.

- Que foi, cara?
- Nada, boss... quer um copo?

Vinho não se toma sozinho, então subo, aceito.

- Eu ainda volto lá...
- Aonde?

Tomado pelo frenesi coletivo, alistou-se ao exército para defender algo que, segundo ele, só hoje compreende de fato. O que era para ser o serviço militar tornou-se sua profissão por cinco, sete anos...

- Imagine você, tão jovem - menos de 20 anos! - comandando um batalhão...

Memórias de uma conversa com uma garota da Emirates: ela contava que a amiga sul-africana estranhou quando recebeu o convite para estudar juntas:

- Você é a primeira branca que me faz esse convite... por que quer estudar comigo?

A noite segue no terraço:

- Éramos uma força semi-especial: eu , um outro branco, e quase uma centena de owambos.

África do Sul; África Sudoeste. Da base na fronteira, incursões Angola adentro, "in the bush", destocando emboscadas.

- Você já viu a selvas africanas? Mato alto... a gente ia beirando a estrada para evitar as minas. Os veículos derrubavam coqueiros maiores que esse aí...

- E a luta era para que?

- Nossa missão era acabar com os terroristas... hoje vejo: milícias. Gente boa, mas naquela época, estavam do outro lado; os comunistas...

Guerra complexa: naquela época, forças sul-africanas realizavam operações conjuntas com a UNITA de Jonas Savimbi no sul de Angola com o interesse de evitar a formação de bases guerrilheiras da SWAPO (South West Africa People's Organization) em sua luta pela independência da atual Namíbia. Ajudavam, assim, a UNITA a se defender dos avanços das tropas governamentais do MPLA, apoiadas por URSS e Cuba.

Dias atrás, na cozinha, conversava com o rapaz mais novo:

- Eu, na guerra? Já não é do meu tempo....
- E por que Dubai?
- Eu queria conhecer o mundo, viajar um pouco também... e a moeda aqui é mais forte. E no meu país, hoje é meio difícil... tem essas questões... - ele hesita - ...há algo que não se diz: ainda há muitos ressentimentos. De brancos com negros e de negros com brancos. E isso não se comenta, mas é preconceito também: se você procura um emprego, há uma preferência por negros... revanche?

Em uma escala em Viena, a garota da Emirates pede à amiga uma foto com o parque infantil ao fundo.

- Eu não gosto de parques infantis. Lá, eu não podia brincar: eram apenas para os brancos...

Épocas de Apartheid: parques, escolas, hospitais, praias separadas. Casamentos inter-raciais proibidos.

A garrafa já está quase no fim. Ele acende um charuto.

- Ainda quero voltar lá, só para ver como estão hoje as coisas. Eu vi fotos na internet dos locais exatos onde estávamos. Dizem que está tudo em paz. Para tirar esse peso das costas...

Seu amigo tinha 19 anos também. Conversa interrompida: ele estava ao seu lado, um tiro lhe varou a testa. Nesses momentos a guerra perde seu caráter ideológico e ganha novas motivações, contornos pessoais:

- Caçamos todos eles. Derrubamos um a um, 5 dias pelo no mato, sem dormir. Não sobrou nenhum, nenhum... Jesus! Éramos os dois únicos brancos no grupo mas todos os owambos choraram... as batalhas nos uniam.

Ele continua:

- Meu amigo... por que ele e não eu? Ele teria 42, como eu... a gente era muito jovem, no meio daquela grande merda, sem saber por que. Mas hoje eu sei: a gente lutava a guerra de nossos pais.

E na cozinha o rapaz encerra o assunto:

- Meu país é lindo, cara. Mas vai levar anos para o povo esquecer toda essa coisa ruim.

A garrafa já está vazia e meu copo também.

- Ei, boss: ainda vou voltar lá. Você vai receber um e-mail. Vai saber que é pra vir junto.

Aperto firme de mão: hora de dormir. Ele ainda fica com um resto de charuto e um dedo de vinho no terraço, pensando na vida, e nas mortes, talvez.

1.2.08

O pobre e o rico

Eles moravam juntos em um apartamento perto da Paulista. O pobre tinha o estranho costume de economizar em tudo. O rico, de gastar e, obviamente, de caçoar do pobre – "economia porca", dizia ele. Mas o pobre economizava: dizia que tudo andava muito caro na metrópole – a comida, o transporte, roupas. Certa vez, constatou que a carne estava cara. Não teve dúvidas: virou vegetariano. Mas voltou logo aos hábitos carnívoros ao constatar que, para compensar o déficit de proteínas, vegetarianos consomem um volume maior de alimentos. Em um restaurante por-quilo, isso pesa no prato, e claro, no bolso. Teve então outra boa idéia: comprou uma lancheira, daquelas do batman, super-homem ou coisa assim. Vendeu os tíckets-refeição e passou a levar um lanche para o almoço.

Almoço resolvido, hora de atacar o jantar: comprou um videogame. Dizia que, assim, começava a jogar e se esquecia de jantar. Mais economia!

Um dia o pobre foi comprar chinelos. Perguntou para o caixa: “por que é que o 41 é mais caro que o 40?” - por que é maior, disse o caixa. Comprou o número menor que o pé.

Um belo dia o local do trabalho mudou-se para longe: 10 km de casa. O pobre que, como o rico, ia à pé ao trabalho, sentiu o peso da distância: seriam forçados a andar de ônibus. Ele fez então as contas: gastaria no ano algo em torno de 400 reais com transporte. Tomou uma atitude saudável: comprou um tênis e uma mochila: iria de ônibus e voltaria correndo. Economizaria assim no transporte e na academia. Genial!

Do rico, não há muito o que dizer a não ser o fato que ele complementava o pobre: iam juntos (de ônibus) ao trabalho, jogavam videogame juntos, trabalhavam juntos. Certa vez, saiu do banheiro com uma cara de nojo e uma massaroca de papel higiênico na ponta dos dedos e foi até a mesa do pobre. Foi abrindo as folhas e lá estava o cartão magnético do Vale Transporte, que entregou para o pobre: "que horrooooooorr!".

O tempo passou, ambos mudaram de emprego. O pobre casou e comprou um apartamento; o rico comprou um carro.

Lembrei deles dias atrás quando entrei no elevador: a minha frente um senhor com uma camisa social. No bolso lia-se em um detalhe marcado por furos no tecido: “Microsoft”. Ele provavelmente ganhara a camisa com a marca bordada e a descosturou para “aproveitar a camisa”. Se o rico estivesse aqui, com certeza deixaria seu parecer: “coisa de pooooobre!”.

10.12.07

Carta ao estranho íntimo

Mais um ano.

Tenho pensado ultimamente sobre a passagem do tempo: lembranças de um referencial qualquer congelado no tempo, saudades de pessoas e locais que não existem mais como eram porque tudo muda. Vem-me ao acaso a memória de uma família de amigos descentes de japoneses no Brasil: meu amigo aprendeu japonês com o pai, e quando foi para o Japão, todos riam dele, porque falava um japonês antigo, e guardava costumes que ninguém mais lembrava ou achava importante... o Japão de seus pais e avós já não existia mais.

Tudo muda? Voltei ao Brasil, na Avenida Paulista tinha dois ou três prédios novos. Reencontrei um cara legal: Todomundo. Supresa: Todomundo estava igual, só um pouco mais velho e com uma mania de lembrar de fatos dos quais não participei. O Brasil parece o mesmo.

Tudo muda: na esquina depois do MASP, a senhora louca de guarda-chuvas não estava mais lá.

Na volta à Dubai passei por Milão. Em frente à estação de trem, passou um furgão de floricultura. Advinha o nome... assim como hoje, pensei em alguém que provavelmente não é mais você (assim espero, pois a princípio, toda mudança acrescenta algo de bom). Espero que esteja tudo bem, que esteja feliz e em paz.

Abraço,

.

Estranho íntimo

Estranho: sabe-se muito pouco de sua vida, de seu passado, de seu dia-a-dia. Íntimo: mesmo em tão pouco tempo, nunca antes conhecera alguém tão bem na intimidade, tão amigo, tão si mesmo.

O estranho íntimo nunca é, sempre está: constante mutação de forma, figura, personalidade, sorriso, lugar. Busca contínua. Dele não se foge: está inevitavelmente em todo lugar, em toda conversa, em tudo o que se vê. Entidade que vaga no éter e vez em quando pousa por aí, incorpora-se em algo que se torna tão caro... e por isso, tão estranho.

Conversas ao telefone. Conversas por e-mail. Conversas. Monólogos do quotidiano. Perguntas? Respostas fugazes, previsíveis, uma outra pergunta. Compreensão? E por isso, tão íntimo. Intimidade que se imagina ter. Será?

Ah, estranho íntimo... alguém que não existe, projeção de um ideal de felicidade, sempre inalcançável: porque nenhum ideal é 100% realizável. Porque nunca ninguém é sempre 100% feliz.

24.10.07

O velho da fundição, o irmão e o barbeiro

Ele andava agitado naqueles dias: voltara ao porão da casa e mais uma vez o transformou em uma oficina. Voltara a trabalhar a madeira: caixas de porta-jóias, mosaicos de madeira, porta-retratos. Algo ínfimo para quem construíra a própria casa, os próprios armários, a própria cama, o próprio rádio e vitrola - um móvel enorme na sala! - a cama dos outros quartos, os armários das casas dos filhos, a cadeira de balanço e outra em miniatura para a neta, gaiolas e alçapões para os netos... sem contar as incontáveis máquinas de beneficiamento de arroz e laranja que fizera na fundição, da qual pouco restara.

Acordava sempre cedo e descia ao porão com o velho pijama rasgado. Ele possuía outros novos, guardados na caixa, que ganhara de presente em algum aniversário ou dia dos pais, mas por alguma razão ou nenhuma, andava com o rasgado. Para desespero das filhas. "Como é que pode o senhor andar com esse pijama rasgado?". Elas não entendiam. O que os outros iriam pensar? Mas podia sim, tanto é que assim o fazia e seguia vivendo. Todo velho tem suas manias.

Por esses mesmos dias que voltara a moldar madeira, lembranças agudas lhe fizeram fechar o porão e seguir até casa de seu irmão mais velho. Assim como fome, assim como sono, assim como sede, sentiu NECESSIDADE de conversar com alguém tão familiar.

Há tempos já não se falavam. Brigas de velhice, que talvez não fizessem mais diferença: há algum tempo que seu irmão já não ouvia, já não falava, e passava o dia sentado com olhar distante. Não era o que dizia sua companheira, que com carinho e otimismo lavava suas roupas, fazia sua comida, e o levava para passear. E que o tratava como se realmente estivesse ali, presente, e contava fatos da vida cotidiana que contrastavam com sua figura estática e inerte. Mesmo assim, sentou-se ao seu lado e apertou sua mão. Deu-se por satisfeito: era o fim das brigas. Achou que não haveria algum mal em pedir ao irmão para ver uma de suas grandes relíquias: a caixa de ferramentas do pai. Seu irmão não falava, mas naquele momento respondeu:

- Não peça pra mim. Peça pro pai... - E foi as únicas coisas e talvez as últimas que lhe disse.

E quem lhe dera pedir ao pai... de volta à solidão da casa vazia, tinha todo o tempo do mundo para ruminar o que ouvira: dava-se conta de que já vivera mais em orfandade que junto de seus pais. E ainda sentia por vezes a mesma lembrança e saudade ardente que lhe fechava a garganta, travava o peito e tornava a respiração difícil, como se fosse uma criança de oito anos com pesadelo à noite ou medo do escuro.

Seguiu trabalhando com veemência a madeira. Encafifou-se com a idéia de que não poderia perder mais tempo. Quando seu neto anunciou o casamento, tratou logo de comprar um forno microondas. Ligou para ele e deu a ordem:

- Léque, venha buscar seu presente!
- Ô vô, valeu! Amanhã, eu vou. Eu passo amanhã sem falta.
- Amanhã não: é hoje! Você vem buscar hoje!

O tempo do hoje. O velho da fundição era turrão: uma ordem era uma ordem. Mas já fazia tempo que a idade lhe tirara a autoridade de quem educava os filhos com vara de marmelo, em um tempo em que faculdade era coisa de homem, em que filhas tornavam-se professoras. E assim se fez: o filho homem virou engenheiro, as filhas, professoras... e o neto não desacatou: foi buscar o forno no mesmo dia.

Naquela véspera de Páscoa, seguiu correndo atrás do tempo até entregar a cesta-básica que entregava todo mês ao moço da cadeira de rodas. Ficou contente: "dever cumprido", disse ele ao fechar o portão. Hora do merecido chá da tarde: suco de laranja com bolo de chocolate. "Agora eu vou fazer a barba e tomar um banho para ver minhas netas!"

O primeiro a chegar foi um dos netos, que avisou os tios, que avisou as filhas, que foram todos para a Casa. O genro ligou para a funerária, as filhas tampavam os olhos com as mãos e gritavam "não é verdade! Fala que não é verdade!". Os netos olhavam para o chão. E os vizinhos que já invadiam a casa assistiam à cena com um deleite de quem assiste a um capítulo de novela, e se perguntavam uns aos outros com sorriso no rosto: "A casa é grande, né? Quem vai ficar com a herança?". Dias depois comentariam sentados em cadeiras na porta de suas casas no final-de-tarde a estranha curiosidade de dois irmãos e o barbeiro que os servia falecerem na mesma semana, como o movimento sincronizado de uma ceifadeira em uma grande colheita.

Sobre a cômoda da sala, duas caixas de bombom, dois coelhos de pelúcia. Não deu tempo.

O texto de hoje é dedicado a uma amiga de Limeira que passa por um desses momentos tristes. Abraço amigo do sheik.

8.7.07

Malpensa

Quatro horas passadas de vôo. O rapaz ao lado não expressa nenhuma reação. A não ser pedir o jornal com gestos para ler. Longos vôos são, quase sempre, momentos de reflexão, ao menos para passageiros que viajam sós, sem um interlocutor para conversar: há tempo para ler, para dormir, para ouvir música, ou simplesmente apara exercitar o silêncio, passando e repassando passagens da vida, imaginar conjecturas e reações em uma rua em que jamais esteve e que se cria na mente. Tudo é tão real e não surpreendentemente o futuro mostra que este lugar tão real não existe: vê-se a rua, vê-e a cafeteria, cria-se e ouve-se variantes de um sotaque de um idioma que não se domina mas que estranhamente se compreende (pode-se muita coisa quando se é o diretor da peça ruminada em pensamentos). Por fim, o comissário de vôo aparece:

- Acqua?
- Vino.
- Rosso ò bianco?
- Rosso.

O rapaz ao lado pede um suco. A comida chega. Não há por que não quebrar o silêncio:

- Dove è?
- What?
- Aren't you Italian?
- No, no... Algeria.
- Al Djazair...
- Yes. Al Djazair...
- Mais... tu vives à Dubai?
- Oh, tu parles français? Oui, c'est plus facile comme ça...

A solidão do avião é boa, mas conversar é bom também, e o tempo, literalmente, voa.

- Et l'Algerie, ça va maintenaint? C'est un endroit sécour pour voyager?
- Oui! Il y a dix ans déjà que tout est sécour là-bas. Il n'y a pas de souci.
- Mais... même pour les touristes?
- Oui, bien sûr, c'est tranqüile... et alors, presque tout le monde parle français, il n'y a aucun problème.
- Et le Kasbah? Est-ce que les touristes peuvent y rentrer?
- Oui, oui, c'est surtout un endroit touristique maintenaint...
- Tu sais, j'ai vu en film italian sur l'Algérie, "la bataille d'Argel"...
- C'est génial ce film, très connu en Argérie, surtout parce que tout ce que se passe là-bas est réelment passé. C'est la vérité...
- Et qu'est-ce que tu pense des autres pays d'Afrique? Tunisie, Maroc...
- Le Maroc, c'est magnifique... ouais... très grand, une vraie culture, très forte... et très libre. Tu peux tout faire, iani, sauf parler de la famille royal... ça peut te rendre des problème...
- Mais en Algérie, c'est le même, non?
- Si, en Algérie tu peux dire tout-ce que tu veux, en? En fait, je crois que c'est l'unique pays où tu peux dire tout-ce que tu veux...
- Chu asmak?
- Salim. Enchenté. - e põe a mão direita sobre o peito. - Et toi?
- Luís. Enchenté aussi.

O comissário de bordo passa e diz algo em italiano:

- Sorry?
- After we land, just wait in the airplane.
- Sorry...
- Ok, no problem, no problem... - e segue seu caminho.

O rapaz pergunta:

- Qu'est-ce qu'il a dit?
- Il a dit que il faut que tu attend dans l'avion quand on arrive. Peut-être que tu sais pourquoi...
- Oui, c'est à cause de mon visa... c'est notre destin. Nous algeriens, les marroquins... on a toujours de problèmes en Europe. Toujours de papiers... et toi, tu n'as pas besoin de visa?
- Non, heureusement...

O avião pousa:

- Bon, merci pour tout. Bon voyage!
- Merci, à toi aussi. Bonne chance!

Na saída, a comissária se despede:

- Arrivederci!

Ao lado da direita da escada, um ônibus, para onde todos se dirigem. Quase todos. Do lado direito, aproxima-se um veículo azul, de onde sai um rapaz de camisa azul, pistola em um cinturão branco. No veículo e na camisa está escrito: "POLIZIA". Salim está acostumado: desce sorrindo a escada carregando o carrinho de bebê de um casal que vem atrás. Abre o carrinho, despede-se. Entrega os papéis ao oficial e entra no furgão, que sai em alta velocidade pelo lado oposto do aeroporto.

17.6.07

A última fronteira

Na entrada do edifício, o rapaz de bigode recebe de braços esticados para carregar as sacolas de compras:

- O senhor trouxe o visto?
- Sim! Conversei hoje com meu amigo de Jebel Ali, aqui está.
- Muito obrigado, sir!

No apartamento, ele deixa as compras na entrada e se despede:

- Mais alguma coisa?
- Hmm... não. Muito obrigado!
- Boa noite.
- Boa noite.

Ele retira o ragol, a hattra e a pequena touca da cabeça, deixa-as sobre o sofá e agora retorna ao motivo inicial da visita:

- Venha ver os quartos.

Apresenta uma das duas suítes:

- Essa está alugada por 10.

Segue então para os dois quartos que compartilham um banheiro:

- E este é o quarto que seria para você. Todo mobiliado! Veja bem: não é qualquer imóvel. Tudo decorado com o que há de melhor, e com bom gosto. Ao menos na minha opinião. Fui eu mesmo que decorei!

Papéis de parede de listras verdes e detalhes florais. Cama grande com adornos barrocos. Na parede um quadro de vaso. Cortinas na mesma cor da coberta: tecido verde metálico semi-brilhante. Um luxo. De fato, gosto não se discute.

- E então, gostou?
- Sim, muito, mas veja bem... eu tenho a minha mobília...
- Ah! Mas isso é fácil de resolver. Eu posso comprar e colocá-la em algum de meus outros imóveis.
- Mas a questão do preço...
- Bom, isso é negociável. Você tem algum dia da semana livre?
- O que é esta porta?
- Este é o quarto de empregadas que te falei. Esse é 3 mil, mas a porta está trancada hoje... mas podemos negociar, se você trabalhar para mim. Preciso de alguém para ajudar a controlar a contabilidade de meus negócios, e vejo que você tem boa índole, é de confiança.
- E como seria este trabalho?
- Sente-se. - Ele vai até a cozinha e volta com uma latinha de suco de goiaba e continua:
- Gostou da vista? Olha essa decoração! Essa é a parte da casa que mais gosto.

Sofá com adornos combinando com uma mesa de centro com adornos que não combinam com a TV de plasma, mas ficariam bem com um gramofone. No chão, jaz a pele de um felino, com a boca grande e olhos bem abertos. Na parede, um quadro de cavalo, na outra, um outro grande quadro com paisagens bucólicas de uma Europa medieval.

- Mas qual é o tipo de trabalho que você oferece?
- Eu preciso de um ajudante para meus negócios. Você é do Brasil, né? Uma de minhas idéias e começar a importar coisas do Brasil. Coisas que haja por lá e que não haja cá.
- O que, por exemplo?
- Você é que pode me dizer! Você é de lá, deve saber. Mas entenda as possibilidades financeiras por trás disso: o Brasil é hoje a última fronteira para os árabes. China? Todo mundo já está saturado de coisas chinesas. Índia? A Índia é aqui. Europa? Estados Unidos? Eles pegam um avião nas férias e pronto, já conhece tudo. Mas o Brasil não! Eles não conhecem nada do país, e tem muita curiosidade em conhecer. Quando você volta para o Brasil? Seria perfeito! Você poderia me guiar pelo país e me mostrar coisas que poderíamos trazer para cá.
- O que por exemplo?
- Vou dar um exemplo: nós poderíamos trazer comprar uma fazenda, e criar animais que hajam por lá, e que não hajam cá.
- Vacas?
- Não! Macacos, por exemplo.
- Criar macacos?! Em uma fazenda?!
- Sim!
- Veja bem... não dá.
- Por que não?
- Olha... uma fazenda de macacos? Não daria certo. Macacos são animais nômades e territorialistas, não dá para criar uma fazenda, como gado. Eles precisam de uma floresta e de uma grande área para viver.
- Ah, então a gente pode pegá-los na mata e trazer para cá.
- Veja bem... tráfico de animais é crime. Não dá para trazê-los.
- Como não? A gente pode colocá-los dentro da mala de mão, bem apertadinho, e trazer.
- Olha, não funciona isso. Isso dá cadeia. Não dá.
- E aqueles papagaios gigantes?
- Arara? É animal silvestre também. Não dá.
- Ah, que pena... - ele bebe um pouquinho mais de suco pensativo e torna ao assunto - então a gente pode comprar uma fazenda e criar outros animais. Há uma série de outros animais que há por lá e que não há por aqui. Lhamas, por exemplo...
- Lhamas não são do Brasil... são dos Andes, Bolívia, Peru...
- Ah... mas a gente pode comprá-los na Bolívia e criá-los na fazenda no Brasil, não pode?
- Olha... acho que o bicho não vai se adaptar. Mas enfim...
- Tá. Então pense em alguma coisa. Há artistas no Brasil? A gente poderia alugar um apartamento como esse e organizar uma noite brasileira, com exposição de obras de arte. No meio da noite, entrariam um grupo daquelas pessoas que dançam para fazer uma exibição. As pessoas querem ver isso, e elas pagarão o preço. Se for por exemplo, 100 dh, iríamos encher o apartamento.
- Poderíamos trazer artesanatos.
- Isso. E músicos? Dançarinos? Poderíamos organizar um show noturno. Traríamos os artistas e eles receberiam um salário e mais uma porcentagem nas vendas. Assim, ele ganha e nós também. Poderíamos deixá-los em uma casa em Ras Al Khaiman com diversas facilidades durante o dia: jet ski, campo de golfe, e à noite, eles trabalham.
- É uma boa idéia.
- E como é o mercado de iates no Brasil? O preço é melhor que aqui? Poderíamos comprar iates lá no Brasil e vendê-los por aqui.
- Iates? Não tenho a menor idéia.
- Pesquise para mim, por favor.
- Sim...
- Poderíamos comprar um grande iate, e montar dentro dele um restaurante típico brasileiro, com banda e dançarinos... as pessoas pagariam para viajar nele, seria um sucesso. E espero que a legislação brasileira não seja tão chata quanto à alemã. Eu quase comprei um navio do exército alemão da época da segunda guerra, mas o governo alemão barrou. Que gente complicada! Imagine o navio ali embaixo (apontando para a Marina), com um restaurante dentro... seria fanstástico!
- Sim, sim... pois é, já está tarde.
- Ok. Mas pense nisso.

A caminho do elevador, uma última reflexão:

- Escute: veja o mundo de possibilidades a sua volta. Veja esses apartamentos: poderíamos alugar dois deles, você contrataria as garotas do Brasil... faríamos um clube privê.
- Ok. Boa noite.
- Ok. Pense nisso. Aguardo seu telefonema amanhã.
- Ok. Boa noite.
- Boa noite.

No dia seguinte, não telefonou.

12.6.07

Domingo de Páscoa


Dia de trabalho, 22h. Ligar o ar condicionado, acender as luzes. O ponteiro indica: assim não se chega em casa. Ligar o rádio e assim ser assim lembrado pelo radialista filipino de que se trata de um dia especial.

Será que chega ao posto? Chegou.

- Full?
- Full.

Ah sim, é um dia especial. Mas como transformar às 22h um dia que fora comum em um dia especial? Logo à frente, um letreiro: “Burger King”. Dia especial: famílias ocidentais reunidas, comendo batatas fritas e bebendo refrigerantes. Dia comum: famílias jantando em uma lanchonete de posto de gasolina.

O telefone toca: “Estamos todos reunidos! Feliz dia especial!”. Hora de desligar o telefone, desligar o carro, desligar o rádio: jantar especial.

- Good evening, sir! Which lunch do you want? Big-ultra burger? Extra ultra large French fries? Super-size coke?
- Beans burger and small bottle of water, please.
- Anything else, sir?
- No, thanks.

Um senhor ao lado de bigode, vestido em sua candura, hatra e ragol, sugere:

- Olha, a opção mais barata é você pedir dois do número 3 e com isso ganha mais duas batatas-fritas e um refrigerante! Isso não está no cardápio!

- Obrigado!

- Hei, você é brasileiro, não é?

- ?! Sim, mas... como você descobriu?

- Pelo sotaque. Eu visitava muito o Brasil enquanto estudava nos Estados Unidos... e meu irmão ainda está lá.

Ele diz um nome. Nome familiar. Coincidências de um mundo ultra-conectado. “Você está com pressa? Vamos jantar juntos.”

Dia especial: jantar com um desconhecido que traz notícias da terra natal, que vai contando enquanto se curva sobre a mesa para não sujar a candura impecavelmente branca:

- Eu gosto muito do Brasil. Quando estive por lá da última vez, viajei por todo o país: Amazônia, Pantanal, Foz do Iguaçu... Fortaleza, Recife, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro...

- Que bacana!

- Oh, Brasil! A Amazônia, que natureza! Rio de Janeiro! Boas lembranças... que lugar maravilhoso, tudo é colorido. E as mulheres? Como as mulheres são simpáticas! Você está andando no calçadão de Copacabana e elas já vêm conversar. Iani, são simpáticas e baratas: por menos de 100 dólares e elas já vinham com a gente. Serviço completo...much muchcla.

- Pois é...

- ... Rio de Janeiro, olha... que lugar. E as drogas? Como são baratas e puras! Um rapaz chegou e me ofereceu cocaína. Olha... quatro dias sem dormir...

- Sério?

- Sim! Fiquei até preocupado. Eu queria dormir mas não conseguia. Eu tremia...

Este tema é tabu não apenas nesta parte do globo e é sabido da existência de uma inteligência nos Emirados, os CIDs. Eles andam a paisana e, segundo dizem, “jogam verde para colher maduro”. Seria este o caso? Seria prudente não emitir comentários a respeito das histórias e apenas repetir:

- Sério?

- Sim. Mas você sabe, né? Nos EUA, é muito perigoso usar cocaína.

- Ah é? Por que?

- Porque lá eles misturam com muitas outras coisas, não faz bem para a saúde. No Brasil é mais barato e é puríssima! Deve vir direto ali da Colômbia.

Silêncio na mesa. Ele então resolve mudar de assunto:

- E você sabe quem está procurando lugar para morar?

- Sim. Eu. O que você tem para oferecer?

- Tenho vários imóveis, mas o que tenho a oferecer é um quarto em um apartamento de alto-padrão.

- Quanto?

- Qual é o seu orçamento?

- Até quatro.

- Hmm... os quartos são luxuosos, todos mobiliados... mês passado, aluguei um por dez.

- É, está fora...

- ... mas eu tenho um menor, que era o quarto de empregada. Esse eu posso fazer mais barato. Você tem tempo-livre?

- Não muito. Por que?

- Eu preciso de um contador, alguém independente, de confiança, que me ajude a gerenciar meus negócios. Creio que você tem este perfil. Se você trabalhar em tempo-parcial para mim, posso abater do preço do aluguel. Em todo caso, não custa nada olhar o apartamento, quer ver?

- Sim. Quando?

- Agora!

- Mas... são quase 0h...

- Não há problema. Vamos lá.

No caminho para os carros, ele ainda diz antes de seguir com seu 4x4 V8 pela Shaikh Zayed Road:

- Este carro é seu? Preciso de um carro menor, para economizar combustível. Quer vender?

12.4.07

Café Sarajevo

Essa vai em homenagem ao sr. Anônimo. Besteira antiga, besteira pensada. Então pode, né?

Café Sarajevo

Era uma noite quente de inverno. Após uma semana de trabalho, nada mais merecido do que uma baladinha para alegrar os corações em plena quinta-feira. Aproveitando-se da presença de amigo ilustre, que deixou as várzeas do interior para trabalhar na capital, a opção feita pelo anfitrião foi a de se fazer um programa prosaico e
democrático, visando conhecer uma faceta da cidade que vai além dos clichês de carros percorrendo grandes distâncias atrás do "el dorado": saíram a pé pela Rua Augusta.

O destino não foi nenhum prostíbulo, embora tal opção não fosse mais do que apenas mais uma opção de diversão e de prazer para aliviar as grandes dores existenciais. Entraram então por uma porta de ferro que dava acesso a uma escadaria iluminada e laranja. Na calçada, uma família terminava de limpar e desmontar seu négocio: uma venda de yakissoba que alimenta os famintos usuários de transporte coletivo.
Verdadeira chantagem vender comida em frente a um ponto de ônibus.

Após as escadas, um ambiente eclético: no hall de entrada, músicos tocam jazz. Nos demais ambientes, uma sala com internet café, um sebo e um ambiente com som eletrônico e motivos indianos. Espaço com nome de terra devastada, em lembrança aos duros tempos de fundação, quando o local sofria intenso bombardeio dos prédios vizinhos, contrariados com o barulho. Restava uma sala, com luzes vermelhas e velas, ainda fechada. E assim, a porta se abre e uma moça coberta de panos brancos
convida a todos para entrar.

Não havia motivos para que os dois amigos se recusassem a entrar e a se sentar nos bordos da sala, e assim o fizeram. Neste instante, desta maneira também o fez uma jovem garota, cabelos escuros e curtos e despenteados, pele oleosa, blusa azul. Seu corpo até possuía certa elegância que ela preferia esconder sob uma calça larga. E como seriam os pés de tal garota? Seriam eles macios e sedosos? Estariam suas unhas devidamente cortadas, quiçá pintadas para o deleite de um hipotético apreciador? Impossível saber, estavam escondidos sob másculos e desproporcionais coturnos. Não há mais o que descrever deste ser humano, além de dizer que ela possuía um piercing no nariz.

A garota sentou-se no outro lado da sala. Sugou o canudo que trazia o líquido gazeificado da lata a sua boca fitando os dois mancebos a sua frente. Mudou de idéia: "Posso me sentar aqui?" Perguntou já sentando-se entre os rapazes, que não tiveram muita escolha. Ao sentar, sua mão repousou sobre a perna de um dos indivíduos.

Milhares de coisas passam na cabeça de um homem quando uma mulher repousa sua mão sobre sua coxa. Milhares de outras coisas mais se passam quando isto ocorre em público por uma autora desconhecida. A mão que caminha vagarosamente sobre a coxa, os olhares de desejo das pessoas a sua volta, o estio sexual, tudo isso contribui para que o pênis do pobre mortal não resista a uma vigorosa ereção. A moça, em
retribuição, deslizou sua mão e iniciou uma massagem na referida área sobre a calça olhando no fundo de seus olhos, para o delírio dos espectadores - espalhados pelos cantos da sala - e para desespero da atriz que iniciara a pouco um desafiador monólogo.

A garota excitou o rapaz. O objeto direto da oração ficou confuso: o que fazer? Olhar nos olhos da garota e se entregar ao mundo dos prazeres em público ou manter a compostura, assistir a peça como se nada estivesse lhe acometido? Os olhos dos demais espectadores ardiam a sua frente. Todos queriam estar ali. Outros simplesmente ignoravam o espetáculo, como o rapaz ao lado que, impassível, seguia sério assistindo à peça que se desenrolava no centro da sala. Alguns riam alto, outros apontavam o dedo. Ele não sabia o que fazer.

Aproveitando-se da hesitação alheia, a garota sentiu-se livre para atacar: arcou seu corpo sobre o outro e passou a devorar, lavar com a língua o ouvido esquerdo do rapaz. Com uma mão massageava a roupa, com a outra, segurava a cabeça e com o corpo pendia sobre o rapaz, que tombava sobre o vizinho. Então ela disse: "Você tem medo?". E a peça continuava... "Medo, eu?" Pensou o rapaz. Ele nunca havia
pensado sobre essa perspectiva. De qualquer forma ela poderia ter razão, pois ele cada vez mais evitava lhe fitar, embora não tivesse a energia necessária para interromper suas ações. A essa altura, a mão da garota já estava em contato direto e ativo com sua genitália. Por alguns instantes, o rapaz viajou em pensamentos, interrompidos bruscamente, quando a garota decidiu apertar, entre os dedos polegar
e indicador, vigorosamente um de seus testículos.

O rapaz, perplexo, olhava agora a todos no recinto. Apesar da dor, limitou-se a cercear seus instintos mais profundos e animais de gritar e vomitar. Seu ato talvez fosse mais castrador do que o da própria garota. Por sua cabeça, imagens de filhos correndo nos gramados do Ibirapuera, de propagação de seu código genético, de
perpetuação da espécie desmoronavam a cada beliscão...

Tomou coragem. Iniciou uma contenda com a garota para tirar audaciosa mão de seu falo. Agora ela já não chupava seu ouvido, mas mordia. E insistia: "Você está com medo?" ele ainda tentou explicar aquele misto de sensações desconfortáveis que sentia, mas não adiantou. A sua frente, agora, ele tinha uma dezena de pessoas talvez condoídas com tamanha tragédia que fingiam não lhe ver. A contenda seguiu em um mundo paralelo ao da peça, até que tão inesperada quanto as demais ações, esses dois mundo se encontram:

- Quem é Paulo? Alguém conhece o Paulo?
- Eu conheço, eu conheço...

Silêncio. A atriz e a garota interagem por alguns instantes até a atriz seguir para o outro canto da sala. Um misto de revolta juntou-se agora a sua dor sexual. Tudo teria sido previamente calculado? Seria ele apenas um fantoche, facilmente manipulado? Seria a moral da peça a desmoralização dos desejos mais primitivos de um pobre espectador? Sentiu agora sentimentos negativos de intensidade tão grande ou maior do que aqueles que sentiu no início da peça. Sentiu raiva. Sentiu-se um traste. "Eu sou um filho-da-puta! Eu sou um otário!" bradou em pensamentos.

Mais uma vez, a garota atira-se sobre ele. Mas ele agora é pedra, já não reage. Massagens já não surtem efeito. Seu olhar é fixo para a peça. "Por que você não me beija?" Indagou a garota. Agora a garota beija a boca cerrada de alguém que olha para o infinito. Em um último ato, deitou-se sobre seu colo. E desfecha uma suprema mordida em seu abdômen.

"Ai...". Um grito abafado ecoou na sala. Alguém de botas pretas se levanta e abandona o recinto. Todos apenas observam a cena e se entreolham. A garota não seria mais vista no bar. A atriz continua com impávida concentração em suas elucubrações. Por fim, a peça chega a seu fim em meio a aplausos. Era a "Valsa no. 6", de Nelson
Rodrigues, encenada em partes toda quinta a meia-noite. E então, a atriz pergunta ao público: "Por que as risadas?"

A noite continuou, com jazz, techno e samba. Em um comportamento típico das grandes cidades, todos voltaram ao seu anonimato habitual, todos se olhando com a discrição e reserva de quem não se conhece ou não quer ser incomodado. Comentários sobre a cena, apenas entre amigos. Um dos dois rapazes levou um empurrão nada amistoso em um
canto do bar e voltou para a casa com pontadas na barriga; sintomas de uma diarréia anunciada. O outro ficou um pouco mais, apesar das dores no escroto.

SL 11/09/2004

14.2.07

Quarta-feira de cinzas

6h da manhã. Na ponte que separa a cidade das dunas, os músicos encerram assim mais um ciclo de sonhos, e agora todos ali se entreolham e dizem: mais um carnaval que passou. Lá no mar, aponta o sol iluminando a praia, apressando os casais que se conheceram na noite anterior e correram para as dunas fazer o sexo mais marcante de suas vidas: olhando o sol nascer. O rapaz agora fecha a bermuda, a garota recoloca no lugar o sutiã, põe novamente a calcinha e abaixa a saia, e seguem juntos abraçados de volta para a cidade, com uma pequena pausa para um rápido banho de mar. E assim - músicos exaltos, casais em tórridas e infrutíferas paixões, rapazes e garotas bêbados, a turista européia com o pescador do vilarejo que também fornece as drogas para turistas, todos voltam caminhando pelo mesmo caminho, todos com o mesmo destino: a padaria.

A padaria é pequena e não está preparada para o afluxo anual de turistas, sempre e apenas nesta época do ano. Então alguns entram na fila enquanto o pão não sai do forno, outros aguardam do lado de fora, fumando um cigarro ou tomando a última cerveja antes do café-da-manhã. A fila cresce, e entre mosquitos e um calor crescente, acontecem ali as últimas interações do Carnaval.

- Bin Laden! Bin Laden! É o Bin Laden! - um rapaz dá tapas insistentes nas costas do rapaz ao seu lado e agora tira a câmera - eu quero tirar uma foto ao lado do Bin Laden! E tira a foto.

Aníbal, apesar do aspecto agressivo passado por seu corpo sem camisa coberto de tatuagens, transmite afeição ao dar uma gostosa e sincera gargalhada apenas por ver alguém diferente ao seu lado. Sua cabeça de cabelos grisalhos e ralos não escondem a sua idade e suas histórias que agora ele começa a contar sem que alguém lhe peça e sem se dar conta de que falava em um tom de voz desnecessariamente alto e incompatível com o pequeno ambiente:

- Está vendo o carro ali fora? - e aponta para uma pequena caminhonete com uma moto cross sobre ela - cheguei às 4h de Arraial. Vim direto! Rapaz, que carnaval... estávamos em 10 em uma casa. Quanta loucura... tinha de tudo, de tudo mesmo, entende? Tinha até uma coisa que se dá para cavalos... 4 dias seguidos, ninguém dormiu. Eu fui o que mais dormiu: 2h por dia. E amanhã eu trabalho... - ele acende um cigarro e olha para a cozinha e após uma pausa, continua:

- esquema tranqüilo. O dono da casa é juiz, ninguém mexe com ele por lá. Muita mulher cara... era só falar que tinha, que elas vinham... comi oito neste carnaval, cara! Mas tudo seguro, com camisinha. Sem camisinha é bom, mas agora eu tenho minha filha... eu ainda quero vê-la crescer.... decidi de última hora que viria para cá, pra abaixar a adrenalina antes de voltar para casa. Sou advogado e trabalho em BH. Ainda tenho 7 horas de chão! Vou direto...

Ao lado, aproxima-se o pescador: negro mestiço de olhos puxados, braços fortes, braço de pescador. Ele senta em um banquinho e coloca seu peixe sobre seu colo: a garota de pele clara, que dobra sua cabeça sobre seu ombro, e fica cantando uma música baixinho em um idioma que ninguém ao redor entende, com o olhar oscilando entre aberto e fechado. Alguém no entorno inicia uma conversa, sob o olhar atento e firme do pescador:

- Where are you from?
- What? I'm ... from... hummm... I love this place. I love this place. I'm from here. I'm sure of it. I don't wanna go home.
- e volta a beijar o pescoço de seu protetor que curioso pergunta:

- o que ela disse?
- ela disse que gosta desse lugar.

Aníbal volta a falar interrompendo o diálogo:

- Mas você precisa conhecer a minha filha. Espera um pouco, vou pegar uma foto dela - e segue então para seu carro.

- E você, é daonde? Fica aqui até quando?

O rapaz considerou não ser uma boa idéia dizer muito de si a alguém que não lhe inspirava confiança e desconversou, enquanto a menina de pele clara lhe olha com olhos grandes e sorri:

- Não sou gringo não... ainda não sei quando volto...
- Olha a minha filha. Não é uma menina linda? Tem 7 anos... olha, a boneca da foto, dei pra ela neste natal... - ele fica ali parado por alguns instantes olhando a foto, com a mesma gostosa e cativante gargalhada, agora com olhar marejado e fixo para a foto. Ele pega então Bin Laden pelo braço com força:

- Olha! Ela é a coisa mais importante da minha vida! Eu faço qualquer coisa por essa menina, mas a mãe dela não me deixa vê-la! Filha-da-puta! Filha-da-puta! - e agora Aníbal abraça Bin Laden e chora um choro alto entre soluços que deixa todos no recinto estupefatos, em silêncio absoluto.

- Aníbal, seu café e seu pão. Come, vai te fazer bem. Vai lhe dar forças, e se Deus quiser, com a graça de Virgem Maria eu tenho certeza que vai tudo dar certo! Deus não falha!
- Obrigado, seu Ermelino, obrigado...

Seu Ermelino é dono da padaria. Com mais de 70 anos, ainda trabalha por teimosia e não entende o que acontece a sua volta, mas sente uma vontade enorme de ajudar o rapaz tatuado que chora a sua frente com saudades da filha. Ele levantou às 3h, tomou a massa que descansava sobre a pia - preparou mais massa do que habitual - e ficou até às dando forma a cada um dos pãezinhos que ia colocando sobre a forma para ir ao forno, enquanto sua mulher, sua filha e seus netos corriam para limpar a varanda e preparar o café - bastante café - e ferver o leite antes de abrirem. Ele volta para a cozinha e traz o segundo pão com queijo pedido por Aníbal.

Aníbal termina o café:

- Cara... eu preciso fumar um pra relaxar. Não vou conseguir assim...
- Por que você não vai mais tarde? Durma um pouco...
- Não cara, eu me conheço. É só um pra abaixar a poeira e já dá.
- Pega esse aqui - diz o Seu Ermelino, tirando um cigarro de palha.
- Não, Seu Ermelino... desse não dá. Eu vou pegar o meu mesmo. Obrigado!

Ele vai até o carro, tira um cigarro, acende, inspira e passa para outro que inspira e passa, que passa para outro que inspira e passa que passa para alguém que recusa e apenas repassa para alguém que inspira e passa...

- Bin Laden, você é um cara legal. Eu não posso mais com isso aqui. Fica pra você - e Aníbal deixa sobre o balcão uma pequena sacola transparente com um punhado de um pó branco.
- Cara... valeu, mas...

Seu Ermelino acompanha a conversa do outro lado do balcão e se interessa:

- É açúcar? Pode deixar aqui a gente não desperdiça nada...
- Seu Ermelino... não é açúcar...

Neste momento, o rapaz que apenas escutava a conversa tira o seu peixe do colo e se dirige ao balcão determinado:

- Pode deixar que eu cuido disso.

Tomou a pequena sacola, enrolou e colocou no bolso da bermuda, e voltou a se sentar, com a garota em seu colo.

- 7:30h, gente! Eu tenho que ir! - agora ele grita: - eu vou a BH e vou ver minha filha! 7h de viagem! Hoje eu vejo minha filha!

Todos da padaria, sem exceção, despedem-se de Aníbal, que entra no carro e sai em um desajeitado zigue-zague levantando poeira, enquantos todos ficam ali, do lado de fora do recinto, a abanar os braços.

Por fim, Bin Laden volta ao seu refúgio no Afeganistão, o pescador sai calmamente com sua gringa que caminha mordiscando seu pescoço, e Seu Ermelino atende a garota de 5 anos, descalça e de short e camiseta desbotada que aparece na porta:

- Bom dia Seu Ermelino! Meu pai pediu 6 pão, um pacote de Derbi, uma garrafa de leite e outra de Cavalinho!
- Aqui está, minha filha. São 5 reais.
- Ah... mas eu só tenho 3...
- Não tem problema minha filha. Então deixa a de Cavalinho e pede pro seu pai vir buscar mais tarde.

Do outro lado da rua, jovens de mochila nas costas amontoam-se na calçada aguardando a partida do ônibus. A menina volta para sua casa, não sem antes parar e abraçar o cachorro vira-latas esparramado na porta olhando a rua.

Diálogos e visitas que se repetem todos os dias. Após o fim das festas, o vilarejo volta aos poucos a sua paz usual.

1.2.07

O sorriso do palhaço e os arrependimentos eternos

Era uma tarde corriqueira de um dia de semana de uma pacata cidade do interior. Tempos de vida simples: ganhava-se pouco, mas as necessidades iam pouco além do estritamente necessário para viver. Os únicos luxos que a família dava-se o direito de manter era um aparelho de TV branco-e-preto e um telefone, pesado, cinza e grande, que repousava sobre uma pequena cômoda ao lado da TV, sobre uma toalha bordada à mão.

Algumas quadras dali, uma moça toma um chá, após o encerramento do atendimento aos clientes. Os dedos doem após uma tarde passando para letra de forma coisas que poderiam ser escritas a mão, mas que a formalidade daqueles tempos exigiam que fossem datilografadas em uma máquina Olivetti com o objetivo prático de que as pessoas não perdessem tempo em entender a escrita alheia. Ela nem imaginava que anos a frente aquele maravilha do mundo moderno desapareceria da face da terra substituída por uma máquina que já fazia a correção ortográfica e possuía teclas mágicas com nomes backspace e delete.

Pensou nos motivos que continuava a trabalhar em um emprego que não lhe agradava, na faculdade que não fez "porque é coisa de homens" e lembrou automaticamente das crianças que estavam quadras dali e na outra que estava em seu ventre agora. Tomou então o pesado telefone e ligou:

- Oi! Já vou chegar.

Muitos luxos tecnológicos servem para isso: para brincar de ditar o futuro, ou para se saber o que de fato já se sabe. E assim, temos relógios para saber que está tarde, termômetros para saber que está quente o suficiente para fazer suar, telefones para dizer "vou atrasar", quando na verdade atrasado já se está.

5:30h, já passa da hora. Ela fecha sua bolsa, guarda o caderno e as canetas na gaveta, coloca a capa de plástico sobre a máquina de escrever e vai embora. No caminho, passa em frente à padaria, sente então o vapor quente que sai pela porta, vapor de pão que acabou de sair. Entra, compra pão e pequenas rosquinhas doces. No caixa, viu algo que lhe fez lembrar novamente das crianças: um lápis, que na ponta possuía um palhaço encaixado. Não era nada de especial, mas imaginou os dois ali sentados na mesa com os pequenos braços esticados sobre a mesa, a fazer desenhos incompreensíveis e a conversar com o pequeno boneco encaixado na ponta do lápis. Levou 2, um para cada um.

Já são quase 6h. Os dois garotos já perguntam pela terceira vez que hora ele ou ela vão chegar. Após muita insistência, a empregada os deixa ir brincar na garagem, mas somente após confirmar que o portão de grades está fechado. "É perigoso", dizia. E eles ficavam ali, jogando bola, e paravam vez ou outra para sentir o cheiro de gasolina queimada que os carros que passavam do lado de fora deixavam no ar - e que consideravam cheiroso - ou para checar, mais uma vez, se um deles apontava na esquina.

E por fim ela chega, e segue para o quarto com as duas crianças atrás.

- Eu tenho uma surpresa - e tira da bolsa então um lápis para cada um, e fica parada, esperando a reação que imaginou na fila do caixa.

Um deles olha para o lápis, olha para ela: viu olhos grandes de expectativa, uma profunda olheira e cabelos desarmados pelo vento e por um dia de trabalho. Profusão de sentimentos que culminam em um único gesto: partiu o lápis ao meio e lançou-lhe ao chão. Puxou a coberta da cama e saiu correndo do quarto gritando de raiva... galo de briga não arreda pé: foi para o quintal e ficou lá, de braços cruzados e boca cerrada, aguardando a punição, de certo umas palmadas, que misteriosamente não vieram.

Curioso, caminhou até a cozinha, e da cozinha até a sala de jantar e viu então ela sentada no sofá, silenciosa, a trabalhar em um bordado. Ela fura minuciosamente o tecido com a agulha, indo buscá-la do outro lado, e furando mais uma vez, formando no tecido figuras incompreensíveis. Chega mais perto, e enfim a punição:

- Por que? - diz isso olhando nos olhos. Ela chorava.

Voltou para o quarto e recolheu os 2 pedaços de madeira. Tentou juntá-los, mas por alguma razão, eles não se juntavam mais. Queria voltar o tempo, mas mesmo que andasse de costas, o tempo simplesmente não voltava. Apenas o palhaço continuava ali a sorrir.

Lembraria deste sorriso anos mais tarde, tão distante em anos e léguas dali, quando o mesmo palhaço sorriu para ele, preso a um lápis à venda em uma banca de jornais. Comprou um, mas não o partiu ao meio. Desta vez, não teve a chance de dizer obrigado. Concebeu então que na vida não há segundas chances, e que certos arrependimentos são eternos.

31.1.07

A casa do fim dos sonhos

Ela abre a porta da casa: simples, porém grande, como deve ser em cidades do interior.

- Foram meus pais que construíram há muito tempo atrás - disse ela.

Entro na sala. Uma mesa de madeira maciça na sala de estar, um aparelho de jantar com portas de vidro e espelhos no fundo, sobre o qual estão diversos retratos.

- Não há ninguém?
- Apenas minha irmã, ela deve estar no quarto. Moramos sozinhas aqui. Eu, ela e meu sobrinho.

Pelo silêncio, parece que está vazia. Um gato lento e preguiçoso aparece na porta da cozinha e me olha com desdém próprio de gatos experientes.

- Ele já tem mais de 10 anos - explica ela enquanto enche a vasilha com ração - deve estar com fome. Estava vazia...

Um retrato chama a atenção: um casal jovem sorri abraçado. Ele de terno, cabelos semi-longos e bigode. Ela bem maquiada, de vestido brilhante laranja à Jacqueline Onassis, e um enorme penteado envolto em um laço de fita da mesma cor do vestido.

- São meus pais. - responde ela da cozinha, de costas para a sala - eles se separaram há muitos anos e meu pai saiu de casa. Recentemente, minha mãe mudou-se também: foi morar com o namorado, e nós ficamos aqui.

Ela troca também a água do gato e então segue para o quarto - vou tomar um banho. Fique à vontade, pode ligar a TV.

Ligo a TV, mas olho para o gato. O gato continua onde estava, olhando a tudo com uma letargia própria de quem acordou no final-de-semana ao meio-dia sem ouvir despertador, e ficou por pelo menos uma hora em um estágio de consciência intermediário, deitado na cama de olhos abertos sem sem mexer, pensar ou sonhar.

Letargia. Talvez seja isso mesmo: o gato olha a casa com a letargia quem acabou de acordar de um sonho de 10 anos, sonhos de uma casa viva e ativa, onde ele saltava e voava por todos os cantos, fugia do chinelo do dono e era torturado por duas garotas que brigavam para carregá-lo e espremê-lo de um lado para o outro chamando-o de (bi)chaninho. E agora, silêncio, realidade. Uma tigela que se enche a cada dia. Uma outra de água, encostada na parede escura.

Letargia. Talvez não seja nada disso: indiferença é a palavra. Morte? - indaga-me ele com olhar profundamente niilista - É sabido por todos os humanos que nós, animais não-humanos, não sabemos que vamos morrer - complementa. Deus? Gatos não precisam de deuses, pois como já disse, não sabem que vão morrer, e apenas vivem - o gato vira-se e volta lentamente para a cozinha, desconfiado de que os dogmas religiosos daqui e de acolá são uma bela desculpa para que humanos cometam crimes contra gatos e outros animais - inclusive humanos - sem grandes pesos de consciência. Tentar argumentar é inútil, pois o gato não volta atrás - religião não se discute, não é mesmo? - foi seu último comentário.

Letargia, indiferença. Nem uma nem outra. Dizem que os gatos não pensam. Todos sabemos que gatos não falam, apenas miam e este, nem isso. Mas o fato é que a realidade sempre vem depois dos sonhos, e depois de anos de esperanças, tudo simplesmente se acabou, deixando apenas traços do que era em um retrato, em um quadro, em uma mesa onde todos se sentavam no horário do jantar. E a casa ficou assim, letárgica, vazia, silenciosa. Até que um perfume invade a sala:

- Vamos?
- Sim, vamos.

Ela fecha a porta novamente apagando a luz, indiferente ao gato que permanece ali, na porta da cozinha, com olhar indiferente, letárgico, ou talvez, nem isso.