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19.7.07

Antes da alvorada

Seguia por uma estrada fria, sinuosa e úmida que após uma série de infinitas curvas apresentava agora uma casa aqui, outra acolá e por fim, séries de moradias encostadas umas as outras acotovelando-se à margem da estrada após a ponte sobre o riacho: chegara ao povoado.

Reconheceu de imediato aquele senhor e aquela senhora de feições tão familiares, mas que jamais vira antes. Um fato insólito os colocava agora frente-à-frente; talvez eles nem saibam quem ele é, talvez ela jamais tenha contado.

- É por ali. Estamos indo para lá também – diz o senhor que agora o guia pelo vilarejo atravessando a outra rua, virando à esquerda e à direita, subindo a suave colina asfaltada, passando o grande portão de pedras beges e adentrando a grande e antiga edificação onde um senhor de vestimentas aristocráticas os aguarda do outro lado de uma mesa retangular de madeira maciça. Ele explica os termos da proposta de renovação do contrato:

- Madame et… Messieurs, je vous demande de lire attentivement le contrat et de le signer à la dernier page en trois vois. Basiquement, il s’agit de une réaccommodation des actifs que compose le…

Entra silenciosamente na sala uma garota. Após tanto tempo, meses que pareciam anos, anos que pareciam décadas, foi vê-la assim, em sonhos: linda, serena, elegante, de jaqueta jeans fechada com um cachecol vermelho enrolado no pescoço. Ela vem em silêncio e o observa com uma gravidade que ele não compreende totalmente. Ele também está surpreso e a acompanha com os olhos até o momento em que senta do outro lado da mesa, ao lado de seus pais. Franja dourada sobre a testa, olhos verde-azulados – ou seriam azul-esverdeados? – grandes e abertos apontados para o fundo de seus olhos.

- … et je vous demande aussi de faire attention que vous serez demandés de faire une nouvelle invertion complementaire pour que les…

- Excusez-moi, Monsieur. Je ne suis pas d’accord. En fait, mon désire est de sortir de l’association.

Um rapaz adentra o recinto. Ele vem de calça jeans, blusa bege e cachecol verde e possui cabelos castanhos-claros e curtos e ligeiramente ralos com uma entrada do lado esquerdo e outra do lado direito. Possui também olhos verde-azulados, ou azul-esverdeados e um longo bigode, que desce contorna a boca e desce pelas laterais do queixo. Ele sorri, senta ao lado dela, envolve-lhe com os braços e lhe dá um beijo na boca. O rapaz lhe olha, sorri e comprimenta com um movimento de cabeça.

- Bon, en étant votre désire, donc, je vous démande de remplir ce formulaire ici avant partir.

Ela ainda o mira, ainda que inibida pela presença do rapaz que a enlaça. Ele começa a preencher o formulário enquanto o outro diz:
- Vamos?

O casal jovem se levanta e sai andando, conversando baixinho. Ela ainda olha para trás uma, duas, três vezes, até ser interceptada por um longo beijo. Fez menção de lançar ainda um último olhar ao virar a esquina, mas não terminou o movimento e olhou apenas o outro lado da rua. Seguiam agora em busca de mais intimidade para troca de confissões, fluidos e carinhos que lhes energizavam com o sentimento de vida pulsante e os distanciavam, ainda que por alguns instantes, da morte.

O senhor a sua frente aceitou a proposição, assinou rapidamente as três vias do documento e deixou o recinto com sua senhora. “Que força é essa que une as pessoas por tanto tempo?” perguntava-se ele enquanto seguia preenchendo aqueles velhos formulários. Sentia-se incapaz de se apaixonar novamente. Terminou pacientemente, saiu caminhando, virou a mesma rua à esquerda, a mesma rua à direita. Tardes frias, noite que chega com frio sobre as ruas vazias.

Sons de música saem agora de uma taverna logo a frente como a fumaça da chaminé, que também envolve seus sentidos. Ele entra e pede uma bebida quente. Talvez seja esta a casa dos rapazes solitários: aos seus lados, muitos rapazes de idade entre 20 e 30 anos, de expressões sérias e roupas pretas que caminham com um ar pusilânime. Os rapazes entram e saem descalços de uma sala quente. Eles ficam sentados nesta sala por um quarto de hora até que os pés inchem e em seguida sobem para a sala de onde emana a música. Nesta ampla sala, eles dançam conforme a tradição, homens tristes de braços atados pela ponta de dois dedos, batidas firmes de pés inchados sobre o chão de madeira, entremeadas por flexões sincronizadas dos joelhos direitos, olhares graves mirando o infinito perdidos em pensamento. Passos da tradição, dores hereditárias.

***

Faz frio dentro da casa de alto pé direito. A chuva molha os terreiros e inibe os galos de cantar. Silêncio. Valério se levanta e segue para a sala. Busca na escuridão desesperadamente um pedaço de papel e qualquer coisa que escreva. Senta e, sobre a mesa, sem acender a luz, eterniza em palavras imagens e sentimentos tão reais que viveu em sonho antes que a luz e as imagens da realidade ofusquem-nas da memória. Risca, rabisca, se esforça para ver o que escreveu. Discorda, faz setas de um lado para o outro do papel indicando a ordem mais adequada dos parágrafos, até ver cansado os primeiros raios do sol entrando pela janela.

(Continua)

11.6.07

Olinda

Sexta-feira, noite em que se iniciam os primeiros festejos. A cozinha está arrumada: pratos lavados e secos, talheres organizadamente dispostos na gaveta, colheres na baia de colheres, facas na baia de facas, garfos dispostos perpendicularmente. Sobre a mesa de 4 lugares, apenas o baralho sob a luz da luminária. É fevereiro, e apenas o alto pé-direito da casa impede que o calor, natural desta época, seja insuportável.

O telefone toca, toca e toca mais uma vez. E mais uma vez, cai na secretária eletrônica. "Vamos pra rua, cara! Pára de graça que estamos vendo as luzes acesas." São os velhos amigos. abaixou o volume. Há anos é sempre assim: quando ainda jovem, despedia de seus pais, que ficavam na mesa da sala jogando cartas. Ele dizia: "Vamos pra rua!", eles respondiam, "ih, filho, já foi o nosso tempo". Ele saía enquanto eles ficavam ali, concentrados em suas cartas, com gargalhadas esparsas cortando a noite. Antes de sair, olhava intrigado para as duas criaturas e ainda se perguntava como é que alguém poderia ser feliz jogando cartas em pleno carnaval. Despedia-se e saía: os mesmos amigos já estavam à porta.

Valério embaralha mais uma vez o maço de cartas. Tentava assim controlar o forte instinto de sair e buscar qualquer outra forma de excitação visual, sonora ou gustativa que o distraísse e por fim o fizesse esquecer de suas dúvidas e anseios que
mais horas menos horas, voltariam com mais força em outro momento. Decidiu que aquele era o momento para uma auto-avaliação. Por que o medo de ficar só? Por que esta ansiedade em buscar uma atividade qualquer? "É preciso se suportar", pensou.

Ouviu os recados na secretária: "Ei, cara, não enrola...", "vem logo que o bloco já vai sair". E por fim, a última: "... oi, bem... sei que é dia de festa... talvez nem esteja aí...(suspiro)... liguei apenas para te enviar um beijo. Te amo".

Fora os amigos, sobrou pouco daquele tempo: fotos na estante e dores sufocantes abafadas em um canto qualquer do sótão da memória, e que por vezes vinham à tona para, mais uma vez, serem empurradas e comprimidas e amassadas no buraco do esquecimento. Deixa o baralho na mesa e procura repouso no sofá, ainda é coberto pelas mesmas cobertas que sua mãe fazia toda noite em frente à TV, mesmo com a insistência do oculista de que isto lhe fazia "mal para a vista", e viu diante de si a gaveta que há anos não abria. Tomou coragem: abriu. Lá estava o velho estojo de madeira que distriu o velho por anos a fio: toda tarde, ele abria a janela, sentava em seu parapeito e abria o estojo. Com a pequena faca, limpava o bocal do cachimbo raspando a lâmina em minuciosos movimentos circulares, até que não restasse nada no orifício. Abria então o pequeno saco do estojo e tornava a cobrir o buraco com fumo, que comprimia com a lâmina da mesma faca. Acendia o cachimbo e olhava a cidade, e ficava ali parado, indiferente às reclamações da mãe, que basfemava contra a fumaça que invadia a sala. Valério fecha os olhos e respira fundo: ainda sente no cachimbo o mesmo cheiro de pus das feridas letais que apareceram primeiro no céu da boca, depois nos lábios, depois um inchaço no pescoço, a perda do apetite, a febre intermitente... o médico disse: "Sinto muito. Deixe-o continuar a fumar, se assim o quiser".

Ainda restava um pouco de fumo. Controlou sua aversão e acendeu o cachimbo, e fumou, mas não abriu a janela: limitou-se a observar a fumaça subindo lentamente. Sentimentos opostos: a saudade do pai e o horror do cheiro de morte certa. Deu mais um trago (sem puxar para os pulmões) e deixou mais uma vez a fumaça no ar.

O telefone toca mais uma vez. Hesita. Secretária outra vez. Suspiros. Correu, atendeu o telefone. Tarde demais, a ligação já caiu. Parou sobre a cômoda e ouviu mais uma vez o penúltimo recado: "te amo". Olhou os retratos sobre a cômoda: "Então por que partiu?". Sentimentos opostos: saudade, um pedaço que falta; ódio, imperdoável rejeição. Perguntou-se então a si mesmo por que razão a deixara partir para tão longe e sentiu-se impotente diante da realidade: ele mesmo deixara um bom emprego atrás de um sonho que até o momento não se concretizava... e ela não fizera qualquer objeção ou comentário, embora nitidamente reprovasse a sua atitude. E agora, ela apenas seguira seu sonho ao se mudar para um país distante. Lembrou da alegria em sua face ao dizer eufórica que conseguira um trabalho em uma loja em um centro comercial de luxo no Oriente Médio. E a gente? "Depois a gente vê", disse ela.

O barulho dos blocos se aproxima, ele abre a janela e junto com a brisa fresca da meia-noite entra também o barulho surdo dos tambores e das vozes que cantam uma velha música de Alceu Valença. Valério senta-se ao seu sopé e se junta ao coro:

Olinda
Tens a paz dos Mosteiros da Índia
Tu és linda
Pra mim és ainda
Minha mulher
Calada
O silêncio rompe a madrugada
Já não somos aflitos nem nada
Minha mulher
Tu voltas
Entre frutas, verão e tu voltas
Abriremos janelas e portas
Minha mulher


(Continua).