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4.5.08

O alcance da aranha e a Grande Sola de Sapato

Tiro os jornais do caminho e, d'entre uma folha e outra salta uma aranha que se põe em retirada.

Pobre aranha: ela não escolheu ser aranha. Assim, como eu, que não escolhi ser o que sou. Com uma diferença: sou "imagem e semelhança", que me dá super-poderes. Então eu posso. Ela não: é apenas aranha. Ela, na iminência do perigo, corre. Na iminência do perigo, às vezes corro também, mas neste caso, levantei o pé. Reação instintiva: sabe-se lá em que momento aprendi a ter medo de aranhas. E a minha reação ante ao perigo é destrui-lo.

Pobre aranha: ela corre inutilmente. Inutilmente, pois meu pé já vai a caminho. Mas ela faz o que pode, corre em zigue-zague, estica as pernas em sincronia rápida, faz o que está a seu alcance. Mas que pena: o que está a seu alcance... ainda é pouco. E talvez ela nem saiba...

Meu pé alcança a aranha. Morte instantânea. Em uma fração de segundo, geléia. Já não corre mais. Consolo: você, leitor que viu a cena, dirá: "ela fez o que estava ao seu alcance". Outros, mais conscientes dos desejos aracnídeos, dirão: "ela morreu fazendo o que gosta". Alguém ainda vê a questão por um outro lado do prisma: "ao menos não sofreu". Alguém, notando minha consternação perante o cadáver, põe a mão em meu ombro: "Esse é um animal ruim: vive de matar outros animais de forma cruel". Mas o fato é que ela agora já não é mais. Com um papel higiênico, limpo o azulejo, e em breve, ninguém mais se lembrará da pobre criatura...

Limpo a sola do sapato. Tiro a roupa, hora de dormir. Fecho os olhos e de repente penso que a Grande Sola de Sapato chegará para mim também. Aflição, aperto no peito. Desespero... ainda bem que sou Humano, e que para nós, nos foi reservada a Grande Gincana da Vida. Amanhã faço uma boa-ação e já garanto o "depois" pós-geléia. Pós-pó. Ufa, que alívio: durmo tranquilo, acordo, tomo café com pão-com-manteiga. Faço o trabalho desagradável com o peito cheio de esperança: hoje é melhor que ontem e amanhã será diferente. Faço o que está a meu alcance, e esqueço meus limites - 2010, 2015, ... com sorte, 2050? - enquanto a Grande Sola segue seu caminho pelo tempo.

16.2.08

O Camisa-Azul

Os pratos se acumulam na pia. Uma menção em abrir a torneira e alguém avisa:

- Don't bother with that: tomorrow is Blue Shirt's day.

O Camisa-Azul está quase todos os dias em casa; ele vem de Sonapur no primeiro ônibus da empresa às 6:30h, chega por volta das 8:00 h e faz biscates pelas casas vizinhas até às 9:30 h. Então troca de roupa no corredor, toma a bicicleta presa à palmeira de tâmaras e segue para seu trabalho cujo turno se inicia às 10 h: um supermercado na Al Wasl Road. Daí o apelido: o uniforme é azul. Às 19:30h ele aparece novamente, guarda a bicicleta, conversa com alguns amigos na praia e por volta das 20:30h, toma o ônibus de volta ao seu alojamento.

Pele escura, bigode:

- Are you from India?
- No sir, Sri Lanka. Sri Lanka.

Ele tem 22 anos e veio para cá há alguns anos, atraído provavelmente pela foto de uma torre azul metálica, pelo conselho de algum amigo. Não tem o pesar de quem sai de um país em guerra - talvez a desconheça - mas o ar satisfeito de quem vê oportunidades de trabalho que não há em sua terra. Ironia? Consoante à receita de sucesso em um mundo globalizado, é poliglota: fala tamil e hindi.


- Where do you live?
- Yes, sir.


Mas seu inglês é limitado. Mesmo assim, ele quase dobra sua renda de 800 dirhams com seus biscates. Ele lava o carro do Greg três vezes por semana pela manhã. Por lavar as louças semanalmente, mais 100 dirhams por mês. Passar roupa? Camisa-Azul. Sapato novo que aperta no pé? Camisa-Azul para laceá-lo. 50, 100 dirhams: perde-se a noção do pouco e do muito.

Talvez o apelido não seja apenas pelo seu uniforme, mas um ato deliberado de distanciamento e distinção de classes: aqueles que têm uma vida digna dos que realizam trabalhos ingratos. Como se fosse degradante lavar pratos; como se houvesse muita diferença entre limpar banheiros e realizar testes de software.

Este fim-de-semana, alguém lhe conferiu mais um servico: retirar uns arbutos que cresceram no quintal.


- And what is your name?

- Tanikha.

E por fim, o Camisa-Azul tem nome.

1.7.07

Para aprender uma língua

O rapaz se aproxima:

- Hey, tío! Sabes hacer caipirinha?
- Si, como no?
- Entonces, venga a la cocina. Las chicas necesitan de unha axuda tuxa...

Na mesa da cozinha, gelo, açúcar, limão amarelo. Não é o ideal, mas vamos lá.

- Sabes, tengo un amigo que se va allá ahora...
- Donde? A turismo?
- No, para vivir... cerca de Vigo.
- ah... mujer, no? Allá ellas son muy duras, tío...

Terminada a caipirinha, uma das garotas agradece:

- Muito obrigado!
- De nada. Mas você fala português?
- Pardon...
- Portugais... tu parles?
- Non, non, seulement ça: "mui-to o-bri-ga-do"... pero hablo español. Es muy cerca, no?

E saiu com a bebida. Mais tarde, com o copo quase vazio, ela se aproxima:

- Muy buena la caipirinha. Muy fuerte...
- Si, con cachaça no se brinca.
- Me parece como la vodka pero tiene un gusto más fuerte. Y me gusta el azucar al fondo...
- Pero es donde?
- J'suis française. En fait, franco-libanaise: ma mère est libanaise... - e segue tomando a caipirinha.
- Merci ktir...
- Ouais! Très libanais ça...
- Donc tu es déjà allée au Liban...
- Oui, oui, presque tout les années, on'y va pour les vacances. Cette année on n'a pas pu, à cause des derniers événements...
- Je comprend. Et tu parles arab aussi...
- Bien sûr, mais je ne l'écris pas bien. Enta kifak?
- Ça va, ça va... mais tu es de quel partie de la France?
- Bon, eee... en fait, la France n'a jamais été ma maison.
- Non?
- Non. Moi, j'suis née au Iraq. Après j'suis passée pour Qatar, Kwait, Bahrein, Oman, Chine, 2 ans en France pour mes études... y ahora Dubai.

Passou quase a vida toda no Oriente Médio. Como aprendera espanhol? O rapaz que se aproxima com outra caipirinha talvez tenha a resposta:

- Venga, querida - deu lhe um beijo e lhe disse com voz baixa, alisando suas pernas - vamos al terrazo con la xente.
- Si, mi amor.

27.4.07

Giovana e a janela

5:30h da manhã. Giovana, como faz diariamente há 50 anos desde que se mudou para cá, abre a janela da sala. Retorna, vai à cozinha, prepara o café. Come um pedaço do bolo que fez na tarde anterior e volta à cadeira de balanço com sua caneca fumegante.

Ela olha os retratos na parede: hoje ninguém mais faz estas pinturas de marido-e-mulher - ele de terno e gravata, ela de vestido e penteado - como este de seus pais. Os porta-retratos dispostos em diagonal sobre a cômoda... ela toma o café e lembra da noite que aos poucos se esvai com a claridade que entra pela janela: não foi nada boa. Há sonhos que por vezes a perseguem, como entidades, como coisas vivas, por semanas a fio, até por fim desaparecerem ou serem subistituídas por outros sonhos. Mais recentemente, os mais comuns são os sonhos-lembranças: ela revive durante a noite passagens que vivera há 10, 20, 50, 70 anos atrás. O sonho desta noite foi especial neste sentido, sonho metalinguístico: reviveu uma noite de sonho-pesadelo que vivera aos 7 anos de idade, e que a perseguia insistentemente durante a infância. Filha caçula de outros tantos irmãos, era a única com acesso livre ao quarto dos pais:

- oi, Vaninha... o que aconteceu? - a mãe no sonho-lembrança ainda tinha os mesmos cabelos castanhos sem tintura e recolheu a filha para dentro da coberta naquela noite fria. Todas as amigas lhe chamavam na infância de Gi, mas dentro de Casa ela era a Vaninha. Ninguém mais a chamava assim, ninguém mais a chama assim.

Ela não conseguia explicar o sonho que a perseguia e que persegue todos os filhos caçulas: acordara em uma manhã e abrira a janela: manhã de sol silenciosa. Foi a sala, foi a cozinha, foi ao jardim. Ninguém. Dava-se conta de sua nova realidade: pai, mãe, os irmãos mais velhos. Tios, tias, primos. Avós. Todos eram mais velhos, todos já haviam partido. Restara ela, caçula, como a única portadora das memórias da família, única testemunha ocular de momentos vividos, das festas de aniversário com refrigerantes e brigadeiros. Histórias que ninguém queria ouvir. Foi até a janela e gritou alto, e mais alto e mais alto: ninguém. Apenas um silêncio insistente em dizer 'você está sozinha'...

- deita aqui, calma que o papai está aqui. Está tudo bem... - seu pai no sonho-lembrança já tinha cabelos brancos, mas ainda era forte, antes da doença que nunca curava e que apenas o envelhecia chegar.

No dia seguinte, brincou com o irmão mais velho - que já era gente grande - a brincadeira que preferia: pulava de surpresa da janela em suas costas, pendurava em seu pescoço quando ele chegava da escola. Ele nem se importava. Apertou com os braços o seu pescoço e sentiu que aquilo era real. Realidade confortante. À época, seu irmão mais velho causava-lhe assombro: ele era forte, dava duas voltas no quarteirão correndo, e falava muitas coisas que ela não entendia.

Giovana levanta agora da cadeira, deixa ao lado a caneca vazia e vai até a cômoda. É incrível como memórias e sonhos são tão reais. Em sua estante, não possui nenhuma foto do irmão mais velho tão jovem como estava naquele dia pós sonho-pesadelo dos 7 anos de idade. Apenas uma foto em seu aniversário de 40 anos, já com seus 2 filhos e tão parecido com o pai. A esta altura, já não corria mais em volta do quarteirão.

Giovana vai até a janela: fecha os olhos e então o vê novamente passando, flutuando pela janela nas alturas do décimo andar como se ali a frente passasse a mesma rua. Achava interessante como o sonho-pesadelo, 90 anos depois havia se tornado realidade, e nem por isso lhe fazia chorar. Talvez essa seja a maior diferença entre os sonhos-pesadelos para os sonhos-lembranças. Pensava agora em seus avós, em seus pais, em seus irmãos, em seus tios, em seus primos que já haviam partido. Mas pensava também em seu falecido marido, em seus filhos que enfrentam agora os primeiros percalços da idade avançada, em seus netos e bisnetos. Tantas histórias, tantos brigadeiros e refrigerantes que talvez nem valha a pena contar.

Já passa do meio-dia. O velho telefone sobre a cômoda como de praxe não tocou. Quantos pensavam nela? Abriu a porta uma vez, antes da campainha tocar: hoje é terça, dia do gás. O rapaz entrou, trocou o botijão agradeceu com um sorriso a gorjeta e saiu.

É final de tarde, o sol se põe fazendo uma curva na janela até se esconder atrás de outro edifício. Ela se despede de seu irmão: é hora de fechar a janela.

26.3.07

Patê de carne

Viro a esquina para esquerda, agora para a direita. Rua vazia, rua escura, olho então para o rádio, ligo, olha para a frente, nada. Ironia: sintonizo na Dubai Eye e não vejo o vulto a minha frente. Quando vejo já é tarde, já está diante da roda direita. Quando freio, já foi.

Não fez barulho. Não deve ter sido nada. Estou vendo coisas. Mais à frente, um casal que faz uma caminhada leva as mãos à cabeça. Abro o vidro e ouço um senhor barrigudo de meia-idade:

- Como você tem coragem de fazer isso? Você não olha para a frente?!

Olho pelo espelho e vejo uma bola felina imóvel no asfalto - eu não vi.

- Matou um pobre animal que não faz mal a ninguém... disgusting!

Ainda que sem intenção, matei um gato. Busquei naquele senhor alguma expiação, coisa como "foi por pouco, ele escapou", "passou por cima mas não matou" ou "gato tem 7 vidas, agora só 6", mas encontrei apenas acusação e o peso da culpa.

Valores de uma sociedade: quantas vacas, porcos e frangos são mortos diariamente nos frigoríficos? Ato deliberado... cruel? Uma vaca ao ser morta pelo método judeu recebe um corte no pescoço que lhe abre a artéria, e sangra até a morte. Tem mais sorte que as demais que morrem com marretadas na cabeça. Em uma granja, os frangos vão seguindo pela esteira. Na linha de produção, em um ponto se quebra o pescoço, em
outro se separam as penas, noutra as pernas, crista, e cabeça. Tudo se aproveita. Quando a faca perfura o coração do porco, dizem que grita como um ser humano. E provavelmente o senhor a minha frente come um bife ou um balde de frango no KFC sem dores de consciência. O que salva o gato de tal sina? Uma carne magra? Ou talvez o amor, esta coisa linda que une as pessoas que se merecem e os animais de estimação.

O senhor está transtornado. Impossibilidade de diálogo, subo o vidro e sigo, enquanto a mulher que o acompanha ordena ao agregado indiano que tire a bola de carne, pêlo e ossos partidos do meio da rua. Morte digna, nada se aproveita: enterro em um saco preto no ataúde de lixo.

Uma fração de segundos que muda tudo: desta vez era um gato - há muitos gatos na vizinhança. Mas poderia ser uma criança - há muitas crianças na vizinhança. E se fosse uma criança, eu seria um assassino. Por ora sou apenas um distraído insensível. Carro é uma arma.

25.3.07

Ainda no zôo: os macaquinhos e a verdade

É verdade? É mentira? Isto aconteceu mesmo? "O sheik é boca-suja", "estava me enamorando do sheik, mas preciso repensar"...

Para que não haja dúvidas ou polêmicas, 3 versões. Liberdade de escolha! Cada um escolhe a que lhe convir. O importante é que apenas a verdade - absoluta, indelével, pura e bonita - prevalesça.

***
(1) Os macaquinhos dourados


Mostrou os dentes: a sua frente, outros dois pequeninos e um grandão. Não se intimidaram e avançaram. Em um pulo o macaquinho dourado se pendurou na corda. Outro pequenino saltou e puxou seu rabo, mas ele escapou. Subiu como uma bala e atravessou pela passagem para a jaula ao lado onde um macacão dourado calmamente tirava pulgas de uma macaca dourada. O macaquinho entrou debaixo de suas pernas, e ficou ali. O macacão olhou para trás com indiferença, mas o grandão resolveu não arriscar. Mas os pequeninos sim: corriam, mordiam o macaquinho e fugiam. Até que o macaquinho dourado correu atrás. Atrás dele veio o grandão. O macaquinho fugiu e voltou para a outra cela e quando estava no ar, entre uma corda e outra, o grandão com um tapa o jogou para o chão. Lá embaixo os dois pequeninos o esperavam: pularam por cima. O macaquinho gritou alto e defendeu-se valentemente: puxou com os braços e pernas e mordeu, mas foi imobilizado.

O grandão que apenas olhava a cena, aproxima-se. Posiciona-se, escolhe a região da mordida, abre a boca e...

Correria na jaula: um senhor de bigodes se aproxima e com uma bacia e vai jogando uvas pelos buracos da grade. Os macaquinhos agora só pensam em comer uvas.

A fome do macacão é outra: levantou o rabo da macaca tirou uma, duas, três pulgas, e ficou ali sentado, calmo, mascando pulgas, enquanto os outros macaquinhos comiam uvas.

O público bateu palmas e a menina de preto que ria disse:

- Esses macaquinhos...

***
(2) Os macaquinhos dourados


O macaquinho dourado mostrou os dentes: a sua frente, outros dois pequeninos e um grandão. Não se intimidaram e avançaram. Em um pulo o macaquinho dourado se pendurou na corda. Outro pequenino saltou e puxou seu rabo, mas ele escapou. Subiu como uma bala e atravessou pela passagem para a jaula ao lado onde um macacão dourado calmamente tirava pulgas de uma macaca dourada. O macaquinho entrou debaixo de suas pernas, e ficou ali. O macacão olhou para trás com indiferença, mas o grandão resolveu não arriscar. Mas os pequeninos sim: corriam, mordiam o macaquinho e fugiam. Até que o macaquinho dourado correu atrás. Atrás dele veio o grandão. O macaquinho fugiu e voltou para a outra cela e quando estava no ar, entre uma corda e outra, o grandão com um tapa o jogou para o chão. Lá embaixo os dois pequeninos o esperavam: pularam por cima. O macaquinho gritou alto e defendeu-se valentemente: puxou com os braços e pernas e mordeu, mas foi imobilizado.

O grandão que apenas olhava a cena, aproximou-se calmamente. Levantou o rabo do macaquinho imobilizado, examinou com os olhos, lambeu o orifício rosado a sua frente. Posicionou-se e executou. O macaquinho gritou, o público riu. Uma, duas, três. Coisa rápida. Por fim, afastou-se. Lambeu novamente o orifício, lambeu sua genitália e ficou ali sentado, calmo, mascando uma gosma branca pegajosa, enquanto os três macaquinhos corriam para o outro lado da jaula.

O público bateu palmas e a menina de preto que ria disse:

- Esses macaquinhos...

***
(3) Os macaquinhos dourados


O macaquinho dourado mostrou os dentes: a sua frente, outros dois pequeninos e um grandão. Não se intimidaram e avançaram. Em um pulo o macaquinho dourado se pendurou na corda. Outro pequenino saltou e puxou seu rabo, mas ele escapou. Subiu como uma bala e atravessou pela passagem para a jaula ao lado onde um macacão dourado calmamente tirava pulgas de uma macaca dourada. O macaquinho entrou debaixo de suas pernas, e ficou ali. O macacão olhou para trás com indiferença, mas o grandão resolveu não arriscar. Mas os pequeninos sim: corriam, mordiam o macaquinho e fugiam. Até que o macaquinho dourado correu atrás. Atrás dele veio o grandão. O macaquinho fugiu e voltou para a outra cela e quando estava no ar, entre uma corda e outra, o grandão com um tapa o jogou para o chão. Lá embaixo os dois pequeninos o esperavam: pularam por cima. O macaquinho gritou alto e defendeu-se valentemente: puxou com os braços e pernas e mordeu, mas foi imobilizado. Um dos pequeninos levanta o rabo do macaquinho dourado e cotuca com o dedo seu ânus.

O grandão que apenas olhava a cena, aproxima-se e empurra o pequenino. Levantou o rabo do macaquinho imobilizado, examinou com os olhos, lambeu o orifício rosado a sua frente. Posiciona-se e…

Correria na jaula: um senhor de bigodes se aproxima e com uma bacia e vai jogando uvas pelos buracos da grade. Os macaquinhos – pequeninos ou não – esquecem-se do papel de dominadores e dominados e executam encenam a peça do cativador e seus cativos.

A fome do macacão é outra: levantou o rabo da macaca que não se opôs às lambidas do parceiro em sua genitália. Ele então se posicionou e executou. Uma, duas, três. Coisa rápida. Por fim, afastou-se. Lambeu novamente ambas as genitálias e ficou ali sentado, calmo, mascando uma gosma branca pegajosa, enquanto os outros macaquinhos comiam uvas.

O público bateu palmas e a menina de preto que ria disse:

- Esses macaquinhos...

Dubai Zoo

Fica na Jumeira Beach Road, a 1km do Mercato.

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Arabian Wolf


Lobo Árabe: animal nômade que perambula pelas vastas planícies do deserto”. Assim diz a placa. Aqui em uma jaula de 4m x 10m os 4 animais ficam correndo em círculos, em um movimento contínuo atrás de algo que não conseguem encontrar.

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A hiena


A hiena também é um animal que nômade que vive em bandos pelas vastas planícies da África. Aqui ela vaga só, e anda incessantemente em círculos em uma jaula de 2m x 3m.

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Numerados


E uma placa informa o visitante: "todos os nossos gorilas são numerados".

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Homem-macaco


O gorila aparentava tédio, raspando com um pedaço de pedra a sola do pé de costas para o público. Os rapazes chegam e começam a gritar atrás dele. Nem bola deu. O funcionário aparece do lado de fora, ele o reconhece e vai até a grade: ganha bananas. Segue então até o outro canto, encosta na parede olhando para o público e vai mastigando as bananas, com casca e tudo. O público se aglomera: parece gente! Dois rapazes gritam. Continuou mastigando a banana, indiferente. Tiveram então uma brilhante idéia: abrem uma garrafa d'água e lavam o gorila.

Gorila nervoso: correu gritando pela cela, com um golpe jogou o pneu de caminhão lá do outro lado e foi até o seu reservatório de água... voltou calmamente e encostou na grade. Olhou para os dois rapazes mais próximos. Lança então um poderoso jato de água de sua boca lavando o rapaz a sua frente. O rapaz com a garrafa na mão fica apenas de longe rindo dos rapazes que olhavam para suas vestes molhadas.

Do outro lado, uma babá de olhos puxados mostra a cena ao bebê loiro, ensinando-o a bater palmas dizendo:

- Ma-ca-co es-tú-pi-do!
Ma-ca-co es-tú-pi-do!
Ma-ca-co es-tú-pi-do!...

21.1.07

O casamento mais longo do Líbano

Ibrahim liga para seu irmão:

- E aí, tudo preparado?
- Sim, saio daqui amanhã à noite. E você?
- Eu saio daqui depois de amanhã.
- E a tia, você tem notícias da tia?
- Já foi com o tio. Já está quase todo mundo lá. Falei com o pai ontem...
- E sua conexão é onde?
- Londres.
- Ok, então a gente se vê lá em casa.

“Lá em casa”, disse ele. Família acostumada às distâncias, um em cada canto do mundo, mas que não perde os velhos costumes e os velhos códigos: casa é sempre a mesma casa lá em Beirute, com família reunida, pai, mãe, tios, tias, primos, primas e irmã. E irmã: como o tempo passou... ela, que era a caçula da família, disse o destino que seria a primeira a se casar. E toca a chamar toda a família. Não é pedido, é uma ordem. Que venham das Américas, da Síria, do Golfo ou da Europa, pois em casamento árabe, seja cristão ou muçulmano, não se faz cerimônia: preparam-se os quartos, estiram-se os tapetes, montam-se as tendas, ilumina-se a casa com centenas de luzes a dizer a todos que em festa se está.

Dois dias se passam. Ibrahim lê os telejornais e só aguarda o telefonema do irmão. Ele sabe que ele vai ligar:

- Cara... to aqui em Londres... o vôo foi cancelado.
- Tô sabendo... o meu também... mas vamos aguardar. Não há de ser nada, em 3 dias a gente estará lá. Você tem como procurar um hotel? Vamos ter paciência, não é a primeira vez que isso acontece. Arranja um hotel e fica tranqüilo...
- Já ligou em casa?
- Sim, sim, está todo mundo bem por lá, só falta a gente...

No dia seguinte, forças israelenses explodiram o aeroporto da capital, ninguém entra, ninguém sai. Eles ainda assim encaram a situação com naturalidade de um carioca que segue sua vida apesar da violência cotidiana:

- Vamos aguardar, dizia um ao outro... mas o tempo passou. Ao final da segunda semana, o irmão não teve alternativas a não ser voltar ao Brasil, e Ibrahim, de ficar onde estava.

Por força do destino, a família, tão acostumada às distâncias, permaneceu ali, unida, por 3 semanas, até que cada uma das visitas seguiu seu rumo, seguindo para aeroportos da Jordânia ou da Síria, exceto os 2 filhos, que perderam aquele que foi o casamento mais longo do Líbano.

31.10.06

O senhor solene, o guarda-chuva, o transeunte desconhecido e o veículo que passa

Manhã escura européia, às vésperas do fim do horário de verão. 9h da manhã com luz de 6h em Dubai, um sol baixo no horizonte e uma chuva fina e fria que vem e vai. Um senhor bem arrumado e prevenido carrega o seu guarda-chuva que escorrega entre o braço e as costelas e cai no momento em que atravessa a rua diante dos pés de outra pessoa que caminha no sentido oposto, interrompendo sua marcha.

Ambos se deparam: impasse no meio da rua. Ambos fazem menção a se abaixar, mas o senhor bem arrumado e prevenido dispara uma seqüência de procedimentos que aturdem ao seu parceiro de circunstância: olhando nos olhos, abaixa e toma o guarda-chuva, colocando-o entre as pernas. Corrige a posição da gola de sua camisa, acerta a gravata, ajeita o terno verde e os óculos, toma o guarda-chuva e o coloca em seu devido lugar – debaixo do braço, como uma baguete. Posiciona-se hirto diante do espectador estupefato, pende a cabeça para a frente e diz levantando as sobrancelhas com a solenidade de quem ensaiou por horas o que dizer:

- Pardon, monsieur!

Um veículo se aproxima da faixa de pedestres, reduz a velocidade e aguarda o desenlace da situação. Cumprimentos subentendidos entre cabeças que pendem mais uma vez para a frente e para o lado com um sorriso gentil e uma despedida não menos solene com a voz grave de quem acordou há pouco:

- Bonne journée.

O senhor solene segue seu caminho, talvez com o contentamento único de quem recupera algo perdido e que não possuiria se não houvesse derrubado seu guarda-chuva - que não portaria se não houvesse reparado na chuva fina que ia e vinha ao sair de casa - diante do transeunte desconhecido. Este, por sua vez, continua também sua marcha, ainda aturdido por tamanha solenidade, perguntando-se inutilmente se o guarda-chuva caíra por acidente ou se fora lançado propositalmente ao chão: mesmo que a resposta a sua infrutífera paranóia pareça mais do que óbvia para um leitor menos atento aos detalhes, ele, desconfiado, nunca a saberá, pois perdeu a chance de perguntar ao protagonista que nunca mais verá. Oportunidade que se esvaiu no tempo, como a folha seca desprendida de uma árvore que o vento levou para longe até se perder no horizonte, misturada e confudida a tantas outras folhas secas, ou como a gota de chuva que caiu momentos antes e deixou de existir, tornando-se parte de um todo maior que era apenas uma poça d’água ao lado do guarda-chuva caído ao chão.

E o veículo apenas segue em frente pela manhã escura européia de fim de horário de verão, como haveria de ser.

10.9.06

Era uma vez...

... um rapaz que foi trabalhar em um país muito distante. Quando lá chegou, foi convidado para um "evento de apresentação da empresa". Ele ficou muito feliz, pois no último emprego, ele havia ficado muito triste, pois havia perdido um treinamento de Liderança, mas havia sido por uma boa razão.

O evento ia bem, como todo evento de apresentação de empresas deveria de ser, com direito a bolachinhas exóticas amanteigadas, chás do Ceilão (outro país distante), e pães da Conchinchina, quando finalmente apresenta-se uma mulher muito animada e sedutora e começa a dizer coisas muito bonitas: "você sempre pode se auto-motivar!". Nossa, mas como eu nunca pensei nisso antes? - constatou animado o rapaz, diante de um mundo de possibilidades que se abria a sua frente.

A mulher se apresentou, e melhor a empresa: era uma filial de uma companhia de capital misto sem fins filantrópicos, controlada majoritariamente por uma seita proveniente da Índia que expandia seus negócios neste país distante. A seita tinha um nome muito esquisito, que se escrevia com um alfabeto muito diferente. Aportuguesando-o, fica mais ou menos assim: "Éhrre-Agah" (não tente entender: na Índia há muitos idiomas, e muitos nomes impronunciáveis). Então ela apresentou slides e fotos de nuvens, e de um céu muito bonito, com um azul muito azul. E mostrou pessoas muito sorridentes: adultos, crianças e muitas mulheres, coisa rara por esse país. Todos tinham dentes muito brancos, como nenhuma escova ou tratamento dental proporcionaria. "Eu preciso ser feliz como essas pessoas!", pensou o rapaz.

Neste momento, ficou triste e entediado. Justamente neste momento, começou a pausa para o café. "Ei, senhor, você está bem? Você está com sono? Você está com fome?", perguntou uma garota, que apesar de solícita, não tinha o sorriso branco da foto. Era uma monitora da seita. A seita inventou uma coisa muito legal: carreira! Você começa como monitor, e um dia consegue chegar ao posto supremo de todos os postos: apresentador! Mas só sobe na carreira quem é ambicioso e segue atentamente as regras: não descuidar um só instante, observar, não deixar que as ovelhas - como são chamados os novos recrutas - se percam do rebanho. A fórmula é simples: demonstrar atenção, e criar um constrangimento para que a pessoa decida por ela mesma a aceitar as regras. E assim, foi com o rapaz, que logo voltou para dentro da sala, já conformado com seus dentes amarelos e sua desmotivação de ovelha nova despelada.

"Será que eu consigo me motivar?", penso ele, já dentro da sala, ansioso e curioso. A resposta estava por vir, pois começava o melhor momento da apresentação, o momento mágico da Revelação. A senhora animada e sedutora, ainda tomando seu Earl Grey do Ceilão, apresentou metodicamente o método, um mantra a ser proferido, o caminho único para se alcançar o êxtase:

- Vocês devem ficar de pé, respirar 4 vezes profundamente. Então, diga em voz alta, grite, olhando para cima: "Yes! Yes! Yes! Yes!". Vamos todos juntos!

E assim, a turba ruidosa começou a recitá-lo em uníssono, com as mãos cerradas, sorriso no rosto, e olhares para o céu:

- Yes! Yes! Yes! Yes!

Foi o delírio. O rapaz pensou em desistir, mas voltou atrás ao cruzar o olhar desaprovador da monitora. A senhora animada e sedutora deixou então sua chávena já vazia sobre a mesa ao lado e concluiu, mostrando racionalmente à turba ainda entorpecida por tantas revelações o porquê das coisas serem desta forma:

- Seguir este mantra é o único caminho para felicidade e realização suprema, o caminho para o único deus que existe: o deus Motivation.

- Ooooooooooooooooh.... - surpreendeu-se o rebanho com tão estrondosa revelação.

Alguém lá do fundo de súbito levantou a mão e fez uma pergunta que desencadeou olhares desaprovadores de todos os monitores e a ira da senhora animada e sedutora: "Senhora, este mantra é o mesmo que brain washing?"

A senhora não se rebaixou a dar uma explicação tão óbvia. "Como alguém tão estúpido poderia não ver uma coisa tão clara dessas? É claro que este tal de brain washing é mais uma invenção de céticos ianques dispostos a roubar o nosso mercado e a dispersar as ovelhas do caminho da verdade, a única que existe. Pior que eles, só aqueles que vendem a panacéia da reprogramação cerebral", pensou o nosso rapaz, em sintonia com os demais da sala.

Notem que nosso rapaz já pensa como um monitor, e mesmo sem receber ordens, tomou a liberdade de se juntar àqueles que expulsaram este herege da sala, a socos e pontapés. Mas o maior castigo que lhe foi imposto foi mesmo não poder ver a Prova Real, a solução da Equação Sagrada, o Segredo Supremo do Universo. Ele chorou desesperadamente do lado de fora do recinto, enquanto os demais saboreavam a cereja do bolo, ainda mais cereja e saborosa ao se saber que havia alguém do lado de fora desejando-a inutilmente, e ela estava ali, diante de seus olhos, tão tenra e luzidia... a senhora sacou uma flecha grossa e com fina ponta de aço e desafiou a sala:

- Vocês acreditam que é possível quebrar esta flecha apoiando este bico pontiagudo no seu gogó?
- Nããããããããããããããããão!
- Então toma!

A mulher se transformou. Fechou os olhos e abaixou a cabeça em silêncio. Respirou fundo 4 vezes, e rugiu de maneira imponente: "YYYYYYYYYYYYYYYeeeeeeeeeeesssssss!". Quando se viu, lá estava a flecha partida ao chão, nem uma marca no pescoço. Era a prova maior da existência e eficácia do Senhor Supremo Motivation.

O rebanho não se conteve. Alguns choraram, outros rolaram no chão em êxtase, outros ainda andaram de joelhos delirando. Mas não era o fim, a senhora queria mais:

- Vocês também podem quebrar a flecha! Não só podem como o farão AGORA!

Não houve tempo para a turba se manifestar: os monitores já alinhavam as ovelhas, para a Prova Real coletiva. O nosso rapaz desacreditou, sentiu pavor, mas achou melhor não ousar fugir: "os monitores são muito bravos, e só querem nosso bem", pensou. Contentou-se então com o último lugar na fila.

Chegou então o Momento. Respirou fundo 4 vezes. Proferiu o mantra, com os punhos cerrados e olhar para o céu (minto, para o teto da sala, mas viu ali o céu azul com lindas nuvens que havia visto na apresentação). Olhou para a flecha de ponta fina, representação da vida e da morte. Sentiu um súbito calor no peito, que foi subindo, subindo, subindo, e se concentrando em seu pescoço. O resto do rebanho, seus amigos companheiros, não o abandonou e vibrava junto: "Yes! Você consegue!!", "Yes! Você pode!". Prendeu a respiração e sem tirar o olho de seu alvo, destroçou-o com uma força que depois descreveu como "descomunal e milagrosa": o deus Motivation havia lhe dado as mãos e ele agora chorava confuso e comovido. Precisara sair de seu país para terras tão distantes para finalmente encontrar o que queria: a Verdade Suprema.

Êxtase geral. A senhora sedutora agora gritava e pulava nua pela sala, seguida por seus febris séquitos. Alguém rabiscou na parede: "Éhrre-Agah, o único caminho". Homens abraçados e suados (sim, fazia muito calor) gritavam: "Hei, hei, hei! Motivation é nosso Rei!!!".

Todos deixaram a sala lívidos e prontos para conquistar o mundo, e mal notaram o corpo maltrapilho que jazia no canto da porta. É o fardo que cabe aos incrédulos: desprezo, morte e esquecimento.

3.9.06

Noites de hotel – 3: a festa das mulheres de preto

Dica: comece a ler pelo Noites de hotel - 1

Dubai, Coral Boutique Hotel, quarto 403. Hoje é sábado (o domingo árabe), são 23h. Saboreio novamente o chá feito pela senhora gorda auxiliada pela sua horda de amigas de preto. Hoje foi mais um dia de aula, o assunto “como fazer negócios com árabes”.


Acordo cedo, antes de lavar o rosto, envio uma mensagem ao sr. Fanzil. “Sr. Fanzil, estou com o dinheiro e quero me mudar hoje”. Por volta do meio-dia, ele me liga: “Ok, vamos marcar um encontro. Fica marcado para as 18:30h. Eu te ligo antes de sair daqui”. Noto algo interessante por aqui: no cartão das pessoas, não é incomum as pessoas não colocarem e-mail. Tudo aqui se resolve por telefone ou no tête-à-tête. E tudo muda tão rapidamente que o e-mail é praticamente inútil: é preciso ligar de hora em hora para confirmar o compromisso firmado para o final do dia.


Subo ao terraço: uma névoa cobre a cidade, quase não vejo a Burj Al Arab e a sensação de calor é ainda maior. Encontro uma senhora brasileira, gerente do spa do hotel, que está aqui há 4 anos e meio. Ela fala duas frases em português e já volta ao inglês. Conta que ficou aqui 4 anos sem voltar para o Brasil. “Tenha calma, com o tempo a tristeza passa”, diz ela.


Pausa para o almoço com o Ghisi e com a Ana, no Ibn Batuta Mall. Qualquer hora conto que foi esse filho Batuta. Shopping center de igual tamanho ou maior que o Mall of Emirates. Na vitrine, promoções: um terno risca de giz por 100 dhs, na Pierre Cardin, 3 camisas manga longa por 80 dh. Compulsão... resistência. Eu já tenho camisa. E por que um terno para um calor de 45 graus? Prefiro um traje típico local. Pensando melhor, eu não quero nada. Voto de pobreza contra o consumismo puro e simples.


17:30h. Volto correndo para casa. Eu marquei às 18:30h e não posso me atrasar. No caminho, um taxista de Bangladesh que está aqui há 19 anos dá-me conselhos com seu inglês da maneira que pode: “Vant money, or vant tings? I’m here money. Vant money, no luxury cars. Vant luxury cars, no money. Vant night, no money. Vant money, no night. Vant apartment? No money. Vant money? Room Sharjah 5 friends.
I’m here money. I send money family Bangladesh. Return each 2 years”. Para se levar uma vida com o padrão mínimo de classe média brasileira sem confortos aqui, é preciso um salário de pelo menos 8 mil dh. Os rendimentos do taxista aqui devem girar em torno de no máximo 3.000 dh/mês. E ele ainda manda dinheiro para a família em Bangladesh... penso nas bicicletas que quero comprar, nas camisas da Pierre Cardin, nos lençóis de fio egípcio, no celular com palm top, câmera, wi-fi e GPS, ... um sentimento de culpa enorme me corrói por dentro. Êita mundo injusto.

19:30h. Já estou em casa, já enviei mensagem ao senhor Fanzil. Nada. Agora ele me liga e diz: “você vai ficar por aí? Preciso resolver uns problemas e te ligo logo em seguida.” Uma das senhoras de preto dança sapateando sobre a mesa da sala, enquanto as outras batem palma no ritmo e fazem um barulho ensurdecedor com a língua. Resigno a lhe responder: “Ok, take your time”. Esta é uma das frases mais ouvidas por aqui, junto com a expressão “Inch’Allah” (se Deus quiser). Abro o livro que ganhei e ele é certeiro:


“Paciência e flexibilidade, mais do que qualquer competência técnica, são as primeiras qualidades necessárias a quem deseja trabalhar ou fazer negócios com países do Golfo.”


Ele vai mais além:


“Muitos árabes atrasarão ao máximo a resolução de certos assuntos até que o humor, momento e o lugar conduzam a ele. (...) O efeito, em termos ocidentais, é que um atraso grosseiro pode perdurar até que chegue o momento correto.”


20:30h. Peço conselhos à inglesa por SMS. Ela responde: “Ele é um loser. Ligue insistentemente para ele. Não pague pela cama.” É sempre bom ter um amigo negociante por perto para pedir conselhos. Eu me sinto uma criança de 5 anos de tão inocente. Volto a ligar para o sr. Fanzil, que simplesmente não atende o telefone. Envio mensagens, nada.


22:30h. Ainda nada. O telefone toca, é o Anderson, o brasileiro. Ele pede desculpas por não ter saído comigo no dia anterior, e pergunta insistentemente se estou bem - quem está por aqui, sabe como é que é. “Vamos à Peppermint?”. Inch Allah eu irei. A algazarra das senhoras de preto e de dentes podres aqui na sala não me deixa pensar. Uma delas, a senhora Indignação, chora de tanto rir. Começo a entender as coisas, mas talvez já seja tarde. É preciso fazer um teatro, ligar insistentemente, mostrar descontentamento, para que a pessoa entenda que o momento inadiável de resolver o assunto chegou.


Subo ao terraço para a espairecer, e converso com o funcionário Rachid. A conversa em inglês corre com dificuldade, então pergunto de onde é. Marrocos. Ele fala francês também e a conversa agora transcorre um pouco mais solta, embora sua língua materna seja mesmo o árabe. Rachid está fora de seu país desde 81, e conta com ar duro o último encontro com a família, há 1 ano. “Há novos membros na família que não conheço, e não reconheci meus irmãos...” Ploch! A gorda maior de todas pula na piscina de roupa e tudo, enquanto as demais senhoras dançam de pé sobre o muro, fazendo coreografia. Senhor Rachid, por favor, vamos falar de coisas mais amenas. Descubro então que o ônibus que vai ao centro passa de hora em hora ao lado do hotel, e custa 2,5 dh, contra 30 dh de uma viagem de táxi, e que a água do mar hoje estava a 45 graus. “Não dava para entrar, eu testemunhei!”, disse ele.


23h, voltamos ao momento presente. Talvez seja tarde já. O sr. Fanzil decididamente não virá, e lançou por água abaixo todo o meu planejamento de pegar a chave da casa as 18:30h, dar uma olhada no quarto, e quem sabe, tomar um chá em algum estabelecimento perto da praia, encontrar um acesso à internet e me teletransportar daqui para outro lugar. Agora quem está sobre a mesa sou eu, e as senhoras de preto fazem uma ciranda a minha volta, rodando em círculos de mãos dadas cantando: “otário, otário, otário...”


Desisto de sair, tomo um banho, deito na cama. Idéia: ligar para o exterior. Consulto as tarifas, surpreendentemente o preço é barato. Ligo uma, duas, três vezes. Não atende. A senhora Solidão, a gorda que está aqui ao lado, tem uma reação surpreendente: começa a crescer, crescer, crescer, e já ocupa todo o volume do quarto e me amassa contra o colchão. Mais uma idéia: escrever. Abro o notebook e fuzilo as teclas. Já não penso mais em nada, apenas escrevo. Aos poucos a gorda volta ao seu tamanho normal.

3h. A senhora Solidão foi vencida pelo sr. Cansaço, que está de pé sobre minhas mãos e apoiado sobre minhas pálpebras. Por fim, ele fecha o computador, deixa-o na escrivaninha ao lado, e apaga a a luz.

Noites de hotel – 2 ou balada solitária em Dubai

Troco de roupa. Em homenagem às senhoras, roupa preta. Tomo meu sapato preto, meu único sapato, ainda branco de pó que vou cuidadosamente tirando com uma escova-de-dentes velha. Lustro com um pano com grande zêlo. Hoje eu não quero ser barrado pois seria o fim. A mulher de dedos gordos continua me observando agaixada sobre a cabeceira da cama:

- Aonde vai?

- Não interessa.

- Vou junto.

- Sua vadia.


Garganta com nó, ansiedade, respiração difícil. Pego um táxi. De onde? Paquistão. Quanto tempo aqui? 2 anos. O taxista não quer conversa, a gorda velha (o vestido esconde, mas ela é gorda) me olha novamente e solta uma enorme gargalhada, deixando a mostra seus dentes podres e exalando um bafo sufocante.


Comparação proibida para quem mora fora: achar que sua terra natal é melhor do que a que te recebe. Quando vejo, já comparei: no quesito balada, São Paulo deixa Dubai no chinelo. Em Dubai, só conheço a sofisticada Vila Olímpia, ou os bares de shisha. Como não fumo, fico ainda mais restrito. São Paulo possui a Vila Olímpia, a Vila Madalena, os bares de Moema, Itaim, os forrós para rico ou pobre, os bares de rock no Bixiga, os botecos na esquina, as baladas alternativas na Augusta, as festas de aniversário relâmpago no terraço de algum apartamento ou em alguma casa em Pompéia que alguém avisa de última hora por uma mensagem no celular, os pubs, as casas de samba e choro. Ah, as casas de samba... ainda que eu fosse sempre apenas no Ó do Borogodó ou mais recentemente no Teatro Mars, a opção existia. A gorda não contém seu riso e cozinha meu fígado com um maçarico: “isso, otário, continue assim”.


Chegamos ao Al Madinat. O táxi ficou por 11 dirham. Taxista não gosta de corrida curta. O problema é dele. O Al Madinat é um complexo turístico ao lado do famoso hotel Burj Al Arab que imita uma cidade árabe medieval (medinas são para o mundo árabe tal qual os feudos ou burgos são para as cidades européias). A cidade é enorme e compreende um zouk (mercado),um Teatro mais de uma casa noturna, um parque aquático e um hotel 5 estrelas, com jardins e lagos artificiais de proporções descomunais. Sigo então para a Trilogy.


Logo na entrada, os Porsches e Rolls Royces me adiantam que estou talvez no lugar mais luxuoso de Dubai. A hostess me aborda:


- Are you alone?
- Yes, I’m lonely, babe.

Sou liberado. A entrada custa 60 dh. Entro. A Vila Olímpia é aqui: uma casa noturna de 2 andares, 3 ambientes, com mezaninos com vista para a pista principal no centro da casa. Os tapetes que cobrem o chão e as cortinas não me deixam esquecer que estou em um lugar muito luxuoso. Estou in, dentro do circuito fashion internacional New York, London, Paris, Tóquio, Barcelona. A música é o dance, padrão internacional pasteurizado de música em casas noturnas deste gênero. As pessoas fazem as mesmas caretas e os homens de gel no cabelo e óculos degradês rebolam e balançam as mãos do mesmo jeito que em qualquer casa noturna similar em qualquer lugar do mundo. Ando, ninguém conhecido. Ao meu lado apenas a senhora gorda e velha e de dentes podres que insiste em sussurrar em meu ouvido com seu bafo de chá de boldo com fel.


Uma observação: aqui não há emiratis, com seus trajes tradicionais, tampouco mulheres de preto cobrindo o rosto, além da senhora gorda e fedida ao meu lado: é um local estritamente para turistas e expatriados. O local é caro, mesmo para padrões europeus. A suspeita se confirma quando peço uma cerveja: uma Heineken Long Neck custou 30 dh. A minha volta, turistas europeus fashion em roupas e penteados exóticos esbaldam-se em bebidas igualmente exóticas. Garotas magras de mini-saias olham sorridentes para os rapazes exóticos que bebem bebidas caras. Prostitutas? Sinto, a princípio, medo: se existe um lugar para um terrorista suicida resolver se explodir, este lugar é aqui. Felizmente, uma rápida observação do contexto político local mostra que esse não é o caso aqui: os árabes locais vivem muito bem aqui, e são os principais beneficiados da presença de tantos estrangeiros, seja por controlarem os rentáveis negócios imobiliários, os negócios turísticos, e tudo o mais que o expatriado necessite. Uma bomba aqui seria a sua ruína.


Caminho de um lado para outro. A casa aos poucos vai se enchendo. A proporção é de 3 homens para cada mulher. As mulheres que chegam, em geral, chegam acompanhadas. Olho para o relógio, o tempo não passa. Olho no celular, ele não toca. Agonia, aperto no peito. Ninguém conversa comigo. Encosto em um canto, e de repente, alguém me aborda:


- Perdão, senhor, você sabe se aquelas cadeiras ali estão livres para o uso ou é necessário reservá-las?


Só entendo a pergunta quando noto que o uniforme de todos os funcionários da casa também são pretos. Neste instante, a senhora gorda ao meu lado passa o dedo indicador entre os dedos do pé direito suado em contato com sua surrada sandália de couro e de um só golpe o enfia diretamente em minha garganta. Enjôos.


Olho no celular, ninguém me ligou. São 11:30h. Ando, subo, desço e torno a subir a escada. O tempo não passa. 0h, olho no celular. Para minha penúria, uma chamada perdida de um número não identificado. A senhora de preto agora pula sobre meus ombros e o fardo torna-se insuportável. Vou me embora. Desço então a escada, a caminho da saída.


Às vezes o acaso faz com que certas pessoas tenham seus momentos de iluminação, e sem saber, salvam o dia de alguém que mal conhecem. Na escada passa por mim um casal, e ouço um grito: ‘Hei, pá! Estás sozinho? Então venha ter com a gente, ó pá!” É um português e uma portuguesa, consultores Siebel (qualquer hora explico o que é isso) que sentam logo a minha frente na empresa. Nunca nos conversamos, eu nem sei seus nomes, mas mesmo sem me conhecer, chamaram-me para ir com eles. Tchau, velha gorda.


Alívio na noite morna de Dubai. Agora sinto-me em São Paulo ou Aveiro. Converso em português. Mesmo sem nada falar, compartilhamos alguns valores e um imaginário, o que traz uma sensação de conforto inigualável. Tento disfarçar a minha alegria... pergunto então seus nomes: Olindo, que já está há 1 mês aqui, e Sofia (pronuncia-se ‘S’fííía”), que como eu, está há 2 semanas. Eles são de Lisboa. O Olindo já é mais experimentado, já trabalhou por um ano e meio em Ryadh, Arábia Saudita. “Oh pá, pur acaso, gustei muitu.”. Lá, se você entra em crise, não há pra onde correr: não há vida noturna, não se vende bebidas alcoólicas, nada.


Olindo compra uma água. A garrafa parece um vidro de perfume, 500 ml custaram-lhe 15 dh. “Na semana passada, paguei 130 dh para entrar. Isso tem a ver com o DJ que toca na casa”. Que horror.


2h da manhã. Vamos embora. Na saída, outro casal português aparece, vindo de outra balada localizada também no Al Madinat. O local é maravilhoso, e o Olindo bem o define: “É o lugar perfeito para se passar a Lua de Mel dos sonhos”. Perfeito. Lua-de-mel sim, sair sozinho para conhecer gente, não.


Olindo deixa-me no hotel, agradeço insistentemente pela companhia. A velha gorda já deve estar lá em cima me esperando, mas possivelmente vai me deixar dormir.

Noites de hotel – 1

Quinta-feira, fim da segunda semana de trabalho, semana em que a euforia da chegada e a “Lua de Mel” começa a dar lugar à vida cotidiana. Começa, de fato, a vida no estrangeiro.


19h. Chego ao hotel. O centro da cidade está a 20 km daqui, então o roteiro pós trabalho é: hotel – Mall of the Emirates – hotel. Faço a janta, ligo a TV: na BBC e na CNN breaking news. No Discovery Channel, o leão mata suas habituais zebrinhas. As zebrinhas morrem sem saber que viraram estrelas de TV. Em um canal árabe, vejo um jogo de futebol árabe, tão ruim que me faz lembrar os jogos da Inter de Limeira. Em um canal de música (árabe), uma garota (árabe) canta uma música triste (em árabe) com imagens de crianças feridas e o Líbano destruído ao fundo... bola pra cima, vamos lá, mostre-me algo mais animado, você consegue. Encontro outro canal de esportes: uma emocionante corrida de carruagens de cavalo com obstáculos. No canal seguinte, uma animada partida de golf. O canal seguinte é justamente o que eu preciso, um Fala que Eu te Escuto muçulmano: as pessoas ligam e um barbudo formula respostas divinas... em árabe. Desligo a TV.


Abro a janela, janto olhando os carros passando na Sheik Zayed Road, o bochorno noturno invade o recinto. Olho para a sala e no sofá estão sentadas algumas senhoras de preto,com vestido longo até o pé. Elas me olham e riem sarcasticamente: são as frustrações da semana. A mais da esquerda, a diarréia que me acompanha há 3 dias (desconfio da água destilada vendida nos supermercados e restaurantes), a do meio, a dificuldade para fechar negócio com o árabe, a da outra ponta, a internet censurada, a dificuldade de comunicação. Na cadeira em frente, está o meu celular que pifou, na outra, o novo celular, o mais sem-vergonha que encontrei pra vender. Ainda há outras, pelo tamanho se vê que são menores, e se escondem pelos demais cantos e móveis do sala, outras insistem em subir em meus ombros, puxam meus cabelos até caírem.


Volto à pia, lavo a louça. Volto à sala, peço licença às senhoras e sento. O que fazer? Silêncio. Apenas os risos das senhoras Frustrações. Vou à mesa e busco referências: um livro, um perfume, uma foto; um classificados de jornal. Ansiedade. Idéia: o telefone! Tento um, dois, três números em vão. Penso em internet: não, não dá. Nesta hora, batem na porta, é mais uma senhora de preto, a maior de todas, convidada das demais, freqüentadora assídua das casas de idosos, que me faz agora uma visita. Ela me dá um abraço apertado: é a solidão. Ela segue para o fogão, esquenta água e me faz um chá. Chá de boldo com fel.


Vou ao banheiro – agora é a senhora Solidão que me acompanha – tomo banho, ponho pijama, telefono novamente, em vão. Outro abraço apertado, abraço azedo, abraço amargo. Deito na cama, tento ler, em vão. Será que aqui há CVV Samaritanos? São 10h, apago a luz. Ouço o coro de risos. A Solidão agora me observa de cima pra baixo, agaixada, em cima do canto esquerdo da cabeceira da cama. Fecho os olhos. Cadeiras se arrastam no quarto ao lado, carros passam na Sheik Zayed Road: a vida prossegue lá fora. São 10:02h. Respiro fundo, o ar entra apertado no peito. São 10:03h. Algo cai sobre o meu rosto: abro os olhos, é esta senhora de mãos e dedos gordos e unhas grandes pintadas de preto que abre a mão e joga sobre mim areia do deserto e susurra “você está só... você está só... você está só”. São 10:04h. Acendo a luz: pra mim chega.

19.8.06

Café-da-manhã, despedidas e excretas

9h. O Hebert já partiu com as coisas. Estava ali embaixo do prédio e me perguntei: e agora, o que tenho que fazer? Está um tempo fresco, em torno de 18 graus. Lembrei que ainda não havia tomado café. Não é qualquer café: é o último café em São Paulo, ao menos por alguns dias... sigo mais uma vez pensando com a cabeça de um doente terminal que diante da morte começa a se perguntar o que deseja ou não fazer antes de seu momento derradeiro (não é o meu caso, espero eu). Decidi: vou tomar café na padaria.


A padaria aqui do lado do prédio está lotada de gente: certamente há muitas pessoas que como eu pensaram em tomar seu café-da-manhã na padaria ao lado de sua casa como se fosse o último, de modo que todas as cadeiras estavam lotadas. Todos espremidos um ao lado do outro no balcão. Segui então pela Augusta, até encontrar, quase na Paulista, um bar-padaria com um lugar para sentar, um bom café e um pãozinho com manteiga na chapa.


Barriga cheia, meus pensamentos retornaram à pauta do dia: despedir-me de São Paulo. Entranho, normalmente, a gente se despede de gente, mas senti uma vontade de fazer um ato simbólico: despedir-me de uma rua. Segui então até a Paulista, olhei-a atentamente de um lado a outro. Olhei alguns detalhes do Conjunto Nacional. Vento frio, eu sem blusa. Dei-me por satisfeito e retornei à Frei Caneca. Andava distraído ainda no primeiro quarteirão quando um rapaz de cabelo escondido em um boné surrado, calça jeans surrada e tênis All Star surrado chamou-me a atenção. Neste exato momento, ele me olhou com olhar desafiador. Cometeu um grave erro: não viu o enorme obstáculo a sua frente e pisou uma montanha de cocô de cachorro. Certamente não era qualquer cachorro: cocô de cachorro bem alimentado, de grande porte. Ou era de fila, dog alemão, ou era humano. Era muito grande. Tão grande que quando o sujeito a alcançou com seu pé esquerdo, patinou. Seu corpo esquivou para o lado esquerdo, ele ainda tentou se recuperar, mas patinou outra vez, tamanha era o volume fecal que se acumulava sob seu pé.


Nestes casos, a regra social é clara: ao se ver alguém pisando na merda, deve-se manter a compostura, olhar piedosamente para o sujeito, com cara de dor no coração e dizer “quer alguma ajuda?”. Ou ainda, ignorar este fato corriqueiro, como se pisar numa enorme montanha de cocô fosse algo tão corriqueiro quanto uma pequena moeda caída ao chão.


Eu ainda tentei disfarçar, mas o rapaz, assim que escorregou, olhou bem para o meu olho, como quem diz: “vai rir?”. Mantive-me sério, mas uma força estranha tomou conta de mim. Começou com uma contração involuntária nas bochechas, que se estendeu para as sobrancelhas, as veias saltaram à testa. Tanto esforço para me conter que acabou saindo tudo pelo nariz: uma enorme calda espessa e pegajosa balançava agora pendurada em minha narina. O rapaz agora ria feliz, enquanto ainda raspava seu pé esquerdo na calçada.


Com o dedo indicador esquerdo, tirei aquela gosma bege (sim, eu havia acabado de tomar café com leite) de meu nariz e a lancei nos ares. Ela foi girando, girando, girando, até se pendurar novamente em uma árvore à minha frente. Limpei precariamente meu dedo sujo em minha camiseta. O rapaz olhou-me aliviado e disse: “estamos quites!”, e seguiu seu rumo. Consenti e segui meu caminho. Um quarteirão adiante, olhei para trás. O rapaz já não me olhava mais e seguia em frente, ainda raspando o pé esquerdo no chão a cada passo. Agradeci então ao cão e/ou humano que por força maior defecou na rua, propiciando-me tão agradável momento. Quites uma ova! Antes meu minha camiseta suja de ranho a meu tênis branco sujo de merda.