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11.11.08

Assunto: boas notícias

Ei, escute-me!
Eu soube ontem...
Os criminosos foram julgados e condenados a 7 anos de prisão!

Nosso promotor uma vez nos disse que pediram prisão perpétua, mas essa foi decisão do juiz... não é o bastante para nós, mas finalmente chegou a um final. Estou feliz pelo que a polícia, promotoria, cônsul, e você fizeram!
Obrigado por cuidar da gente naqueles dias!
Nós gostaríamos de dizer em voz alta de novo e de novo, Obrigado!



Garcia Marquez diz em um de seus textos que, "escrevendo, expulsa seus demônios". Pois bem: durante muito tempo essa estória me incomodou e essa mensagem fecha um de seus ciclos.

Verdade? Mentira? Como sempre, isso não vem ao caso: o importante são os sentimentos que ela proporciona. Como nas novelas, como nos filmes: "qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência".

Imagine se Simenon fosse interpelado por cada crime solucionado por seu Comissário Maigret, só porque se passam em Paris? Ou Agatha Christie? Paro por aqui. Você pensa demais, leitor, e se eu continuar, você vai achar que eu sou arrogante, arvorado a ser o que não sou.

Arvorado a ser o que não sou não é coisa de minha índole: por ora, sou apenas um humilde ex-sheik. Vamos, leitor, acredite: leia até o fim cause I wanna be a paperback writer. Sigamos em frente, que até eu já estou impaciente. Afinal, quem matou Odete Roithman?

10.11.08

Happy new year

"Quando eu morrer, vou direto pro céu". Repito-me renitente a máxima quando a mente, tal qual um promotor público obcecado pela auto-promoção, lança voraz baldes de culpa sobre mim. Auto-engano ou salvação?

Foi com a melhor das intenções que passei meus contatos para Yoko. Ela dissera que dentro de um mês, passaria por Dubai e queria um contato para tirar dúvidas. Foi logo depois da celebração do Ano-Novo: meia-dúzia de estrangeiros reunidos na cozinha do Hotel, tentando se aquecer. Silêncio na cidade: segundo o calendário iraniano, o Ano-Novo - Nou Ruz - coincide com o início da primavera, de modo que em 31 de dezembro é um dia qualquer e 1o de janeiro não é feriado. Não: alguns comemoram. A dica dos iranianos é de procurar por festas no bairro armênio, que comemoram estas datas, Natal, Ano-Novo... mas estava muito frio para isso.

Na mesa, variedades de pistache e sementes de girassol em vários tamanhos e formas cuja casca os iranianos quebram girando a semente entre os dentes frontais, restando na língua apenas o miolo; anos de dedicação a este hábito moldam os dentes, conferem agilidade automática e precisão incompreensíveis para quem vem de fora: iranianos se divertem com o estrangeiro que, no afã de quebrar a casca, despedaça a semente na boca e por fim aceita a derrota, mastigando casca e miolo.

Na mesa, refrigerante de cola iraniano. Saiba você: o ser humano tem necessidade de beber refrigerante. Não qualquer refrigerante: refrigerante de cola. Não qualquer refrigerante de cola: refrigerante de cola em embalagem vermelha. Algo que se pareça com Coca-Cola. Se possivel a genuína. Mas esta nao existe no Irã...

Coca-cola, Zara, Adidas. Necessidade de consumir marcas. Devido ao embargo, ou talvez pela nao-proteção da propriedade intelectual, as grandes marcas não entram oficialmente no Irã, mas proliferam-se em falsificações vendidas no Grande Bazar. As genuínas sao vendidas nos elegantes centros comerciais em pequenas butiques, onde ainda se vê Papais Noéis e enfeites natalinos com a inscrição: "Christmas Mubarak!". Seus proprietários viajam a Dubai ou à Europa, enchem as malas e retornam ao pais com as novas concepções de liberdade, nobreza e confiabilidade.



Adibas, Abibas, Abidas. Azidas; são várias as marcas nas roupas e tênis de três listras dos jovens no metro de Teerã, mas a massa lembra ainda um Brasil de uma cidade do interior de uma distante década de 60, 70, 80: pessoas com seu único sapato, com sua calça social de um alfaiate, com sua única pasta de trabalho, onde guardam seus pertences.
Alguns lerão esta busca doentia das marcas como uma "busca provinciana do progresso", outros mais idealistas como "poluição capitalista"; atitude blasé: leituras feitas do alto da arrogância da liberdade e do excesso de acesso; as marcas são dispensáveis apenas para quem não precisa. Elas estão lá, disponíveis do outro lado do vidro; voce pode, mas não quer. Assisto a este teatro do metro quase me esquecendo de meu tênis All Star velho e rasgado que uso com descaso, fingindo não lembrar da exclusividade que desejo que me aporte.



Roupas de marca, refrigerantes de cola, pistaches e outras sementes sobre a mesa; é meia-noite de 31 de dezembro em Teerã e agora o grupo de estrangeiros se abraça e faz poses e sorrisos para infindáveis flashs de cameras digitais: felicidade é cada um com a sua. "Happy new year!". A esperança no futuro é uma das coisas mais curiosas no ser humano, principalmente quando olhamos para tudo o que se sucedeu com uma distância de quase um ano. Fico uma impressão de uma comemoração equivocada. Mais sensato seria: "Congratulations, we survived until here!".

Já passa da 1h da manhã, todos deixam a cozinha e se aglomeram no corredor ao lado do aquecedor a gás. Alguns fumam e o rapaz da portaria vem de tempos em tempos pedir que se fale mais baixo - há pessoas dormindo. Em meio a promessas de envio de fotos que jamais serão cumpridas, trocamos e-mails. Cada e-mail, uma intenção; sementes de uma árvore de possibilidades de eventos futuros que se realizarão ou não, segundo a próximas interações da vontade de cada um com a Fortuna.

Alguns psicólogos defendem que a Razão pode sim controlar a Vontade e que isso nos distingue dos demais animais; outros mais céticos julgam que a Vontade é a senhora do destino. Neste caso, a Razão seria apenas uma sofisticada maquina justificadora, advogada da Vontade, ocupando-se em manter o Conjunto convicto de que "está correto". Seriamos mesmo racionais ?

Sim: entregar-lhe o e-mail trouxe à tona um certo frenesi sobre as várias probabilidades que se abriam diante de uma garota atraente. Afinal, quais são seus reais interesses? Não: entreguei o e-mail embuído de um sentimento altruísta - ajudar por ajudar e um dia ser ajudado. Ilusões pudicas de um mundo melhor onde pessoas viajam pelo mundo trocando experiências e cortesias. "Quando eu morrer, vou direto pro céu", já dizia minha avó.

9.11.08

Dúvida

Não sei se continuo essa estória. Tambem não sei porque tive essa genial idéia de começá-la em 1a pessoa. A 1a pessoa é uma merda: personifica, dá um rosto e personalidade ao protagonista. Talvez eu rasgue tudo, recomece: "Era uma vez ..."

Concordo com você: a leitura é essencialmente idiossincrásica. Mas você exagera! Mal lê o texto e já se apressa às inferências. Você lê "a, b, c, ..." e , afoito, adianta-se: "...é D!". "Quem matou Odette Roithman?", "Será que Helena vai ficar com Augusto?" Você não consegue viver sem a novela. E agora me olha com este ar agoniado de criança que não ganha pirulito - "Será?!".

Entendo sua ansiedade. Foi assim nas semanas em que esperei Capitu voltar de férias. "Será? Será? Será?!?!". Uma mensagem: "Está tudo bem". Hoje vejo que sim, estava ótimo! Ah, leitor! Voce paga agora pelo que nao fez. Vingança! Ódio babado pelo canto da boca.

Noite de diarréia aguda na noite paulistana. Estava no Ó-do-Borogodó. Noite de iluminação; na parede do banheiro a frase que liberta:

A maior sensação de poder que o ser humano pode ter é fazer esperar.


Sofra, leitor. Ninguém mandou não ter vida própria! Faz sol, os animaisinhos se acasalam na floresta e você nesta busca pela Verdade Suprema, "mordendo corrente". Um consolo para ti? A espera é justamente uma das percepções mais agudas do tempo presente. Nesta agonia, VIVO se está; tempo que escorre milimetricamente e sem pressa entre os dedos enquanto o Desfecho libertador se aproxima: o Ultimo Suspiro, o resultado do Exame, o Sim ou o Não da Pessoa Amada, o efeito da droga que neutraliza a Dor do cálculo...

Depois de "a, b, c ...", "... c, d, c"; "... f, j, k". Ou quem sabe, o seu "... D!". Por ora, nada. Sádico, eu? Isso já começa a ficar repetitivo; você sabe bem o que disse minha avó.

30.10.08

Mashad hotel

Passava das 17:30h ao entrar na estação de Rueil-Malmaison. Estação sobre o nível da rua, caminho aberto ao vento úmido. Envelope lacrado em maos; fazia frio. Não: frio estava em Tehran naquela manhã de dezembro de 2007.

Frio: na fonte da praça Iman Khomeini, a água formava estalactites sobre os cabos de aço que sustentavam bandeirinhas decorativas de alguma data especial. No Irã, trabalha-se 6 dias por semana, mas há muitos feriados para compensar. É o que dizem (digo isso apenas para justificar as bandeirinhas congeladas, mas temo que isso não explique nada. Mania de querer explicar tudo).



Não é a melhor área de Tehran: a parte rica fica ao norte, na encosta da montanha, em direção à Darvand, onde neva. Bairros onde vivem a classe média e alta iraniana, comerciantes armênios, algo muito semelhante à Oscar Freire (oh, São Paulo: saudosismo irracional; por vezes me pego a chamar-te de minha. Oh, identidade, essa ilusão: nunca foste, nunca serás). Ali, seguindo da praça pela rua Amir Kabir, é a região das "auto-pecas": pneus, correntes de pneus para neve e tapetes de carro se acotovelam na calçada sobre os pedestres. Entre estas lojas, um ponto de encontro de estrangeiros que seguem o roteiro "low-budget" do guia Lonely Planet: o Mashad Hotel.

No início da noite, na recepção, um pequeno corredor com um banco longo de cada lado, os turistas se espremiam e fumavam para se aquecer, enquanto o gerente do Hotel blasfemava: o site do hotel, principal meio de contato com estrangeiros, havia sido bloqueado por conta do embargo norte-americano.

- E o que é que eu tenho a ver com isso? Eu tenho cara de terrorista? Deixem-me trabalhar! - justo ou não, nao julgo (o que por si só, já é um julgamento).

Ambiente "internacional": dentre os turistas, um holandês que viera de bicicleta. Um ciclista belga que se acidentou na Turquia e seguira de trem, mas que agora se encontrava sem dinheiro, apenas com cartões de crédito (que não são aceitos no Irã). Um garoto neo-zelandês que terminara seus estudos e tirara um ano para realizar sua Grande Viagem antes de iniciar seus estudos superiores. E uma oriental. Chamemo-la de Yoko. Dentro do hotel, terra franca; não usava véu. E fumava entre os homens.

- Sao 4.500 tomans por dia - informa o gerente, acendendo a luz do quarto. O equivalente a 4,5 dólares. Sao 5 camas: duas de cada lado perpendiculares à rua, e uma à parede oposta à janela. Do lado de lá, o coreano que dorme cobre o rosto. Do lado de cá, roupas de mulher. Eduardo escolhe a cama do lado de lá; fico do lado de cá. Misericórdia ao coreano, apagamos a luz e na luz-de-porta aberta, abrimos as malas. Neste ínterim, entra a dona das roupas.

- Brasileiros?
- Sim.

Ela se empolga e começa a falar palavras em português: morara antes com uma brasileira.

- E como é Dubai?

Pergunta dificil, resposta longa. Ela senta perto na cama porque a voz é baixa (o coreano dorme). O banheiro é coletivo e o Eduardo vai e volta do banho. Por fim, o novo ocupante da quinta cama chega. Eles falam a mesma língua e o interesse dela agora muda: seguem fumar e conversar lá fora. Hora de dormir.

26.9.08

Paris

Fim de tarde de uma segunda-feira chuvosa. A mulher procura meu nome nos arquivos.

- Voilà! - e me entrega o envelope.
- O resultado já foi enviado para o doutor?
- Sim, monsieur...

Era um exame de sangue simples de rotina. Na última hora, pedi que adicionasse os testes de HIV.

- Sem problemas! Adiciono também o teste de Hepatite C, d'accord?

O trato era esse: em caso de qualquer anomalia, ele entraria em contato. Mas 17h era ainda muito cedo. Em vez de abrir o envelope, preferi seguir até o metro com o envelope na mão.

RER A, destino Boissy. Carro de 2 andares. Escolho o banco mais ao fundo do andar mais alto. O dia não era dos melhores: no dia anterior, terminara um relacionamento com a mais recente "mulher da minha vida". Isso dói, mas não era a causa do tormento: há muito que já não usávamos preservativo. Ela estava tranqüila, convencida com minhas respostas. Eu não: omiti fatos, aleguei que não havia risco e não a protegi de minhas dúvidas. Agora, envelope na mão, tinha ali uma resposta com um potencial devastador que extrapolava a minha existência... eis aí uma boa definição de remorso: quando se constata que o seu destino, como uma nau descontrolada, acerta em cheio o barquinho alheio, muitas vezes tão especial. Eu sentia remorso do que não acontecera, e isso me tirava a fome, travava a respiração e trazia um estranho calafrio nos ombros. Em meio ao turbilhão, pensava em todas as hipóteses e em algo que me confortasse e me trouxesse dignidade caso o pior caso se confirmasse.

Deixemos o envelope devidamente fechado. Ainda não é hora de abri-lo. Voltemos a onde tudo isso começa: Teerã, dezembro de 2007.

Assim dizia minha avó

Manhãs de domingo de sol. Porta da copa aberta, vento entrando. A família dividida entre o lado de cá e o lado de lá da mesa. O avô, próximo da TV, fala de futebol.

- Quando eu morrer, vou direto pro céu.

A família se olha com olhos grandes e por fim, a própria avó ri do absurdo que dissera.

Sim, disse absurdo. Creio que, no fundo, todos em minha família são incrédulos também. Mas têm tanto medo da morte - o tempo que pára, a ausência de luz e de som, ausência até mesmo do próprio nada - daí esses olhares de olhos grandes que tanto dizem.

E você se pergunta o porquê agora de lembrança de fato tão corriqueiro. Relato-o por constatar nas palavras de minha avó algo tão humano; esta necessidade de, no íntimo de nossos processos mentais, justificar-nos e de sempre nos perdoar. Tal avó, tal neto: se ela, que jamais andou de avião, encontrara ao fim da vida uma razão justa para se outorgar um lugar ao céu, também busco eu em cada ato aquilo que melhor me convém. Cada linha escrita é a razão que corre atrás de meus desejos, providencialmente para que nenhum ato seja vão.

Caro leitor, deixe então que estas linhas corram soltas, como o purgante que purifica o corpo. O importante é que, ao final, eu também esteja convencido da máxima de minha avó.

24.9.08

Cyclone

Dubai, meados de setembro de 2006. Véspera de Ramadã. No trabalho, o grupo marca o encontro: Cyclone. "É um dos poucos bares abertos que venderá álcool", alguém avisa.

A entrada não é barata: 75 dirhams. Entrando no recinto, um choque: pela primeira vez em Dubai, um local com mais mulheres do que homem. Tudo bem organizado: aproximadamente 50 chinesas à esquerda. À direita, em menor número, européias, russas, árabes. São mais caras. No extremo canto direito, um palco. "Está desativado", disse o garçom. "Durante o Ramadã, não é permitido música ao vivo".

Que saborosa surpresa: em véspera de Ramadã, um dos poucos bares a vender cerveja é um prostíbulo! E não estamos no meio do deserto: o Cyclone fica ao lado do American Hospital, centro de Dubai. Aliás, ficava: o estabelecimento foi fechado pela prefeitura em meados de 2007, quando a caça às bruxas, ops, prostitutas, começou. Mas isso não vem ao caso, pois ainda estamos em 2006, e o garçom traz pipocas gratuitas para acompanhar nossas cervejas à 30 dirhams a long neck.

Sob o vidro grosso do balcão, um papel com uma frase: "Não viemos no mesmo navio, mas estamos no mesmo barco". Frase que expressa bem o sentimento do grupo: "que merda estou fazendo aqui?". Após a primeira cerveja, o Vítor reclama: "então, minha namorada começou com uma estória de que não sabe se quer continuar...". Uma história que se repete, e que geralmente termina com o mesmo fim.

No pátio à esquerda, o taxista de turbante, o economista asiático, os loiros europeus de terno. Risos, cervejas. Em cada riso, o mesmo sentimento revanchista: "Você me rejeita? Então eu pago!!!". O jeito masculino de resolver as coisas.

Eu sei leitor: você ri. Ri porque acha que se dá muita importância a isso. Isso porque você está aí no Brasil ou em Portugal, onde você leva uma vida normal: mesmo que nada aconteça, sempre tem o charme da mulher do café, a promessa da garota da banca de jornal... vivemos todos de esperança. Mas até isso tiram de você quando se vai a Dubai. A realidade de um um país com uma proporção de 4 homens para cada mulher é seca. Dubai é um garimpo de luxo. E convenhamos, se você é solteiro em Dubai e não trabalha na Emirates, você tem grandes chances de estar em maus lençóis...

Saímos do balcão, aproximamo-nos do setor chinês. As garotas se aproximam. Salto alto, saias curtas, e muita maquiagem. "Hi, you ale beautiful!". Carinhos, cafunés. Carinho... como é bom ser bem tratado por mulheres. Tentamos manter conversa:

- Where are you from?
- Beijing.

Interessante. Ela e todas as outras 49 chinesas do recinto são de Beijing. Coincidência ou simplesmente o mesmo agente? Tentamos aprofundar o assunto:

- And what's your name?
- Beijing.

Difícil, inglês calamitoso. Na dúvida, a resposta é sempre "Beijing". O Vítor já emenda com sua grande presença de espírito:

- Aí galera, ela quer beijim! Ela quer Beijim!

As garotas riam. Mas o tempo passa e elas não têm tempo a perder:

- You want massage? Massage?
- How much?
- 700 dollars.

O preço inicial assusta. Mas esse é o preço das russas. Todos sabem que esse preço pode ser reduzido a algo entre 300 e 600 dirhams com uma boa conversa. Com um pouco mais de procura, pega-se esse preço com serviço de "delivery".

Os 2 ingleses de terno saem abraçados com 5 chinesas. Necessidade de auto-afirmação. Mas a gente só está ali para uma cerveja, então compramos uma ficha de bilhar e ficamos ali, "fazendo hora": um dá a tacada, enquanto o outro protege a caçapa para a bola não cair, e assim, prolongar o jogo.

São 2:30h: a luz aumenta de intensidade, e os seguranças fecham o cerco. Hora de fechar o "bar". Todos pra rua, sem exceção. Os seguranças empurram sem nenhum respeito as garotas que fazem uma "cera" para sair. Os mais jovens tentam ali suas últimas fichas para ganhar um desconto.

Oras, leitor. Veja como o seu pensamento é mesquinho: eu aqui fazendo um relato de interesse antropológico e você aí só quer saber daquilo que não lhe concerne: se eu dei ou não uma "metidinha". Oras, leitor, como você é vulgar, baixo, vil. É por isso que a nossa relação é de amor e ódio. Eu te odeio, leitor. Leitor, eu te amo. E o amor presume fidelidade. E só por esta razão e nenhuma outra, que naquela noite de descobertas de véspera de Ramadã em 2006, mantive-me casto.

Mas leitor, meu amor, meu ódio: mantenha-se atento. Atento, pois pensando bem, agora ficou claro: a história não começou aqui, embora explique muita coisa. Voltemos ao futuro, em que o Cyclone já não existe mais, varrido do mapa pelas políticas moralistas do Governo de Dubai. Futuro que já é pretérito no momento deste relato.

22.9.08

Eu não sei

Sinceramente, eu não sei como começar essa história. Embora saiba exatamente como ela termina, não sei exatamente onde ela começa. 2006? 2007? Pouco importa.

Pouco importa, leitor, eu sei.Independente do fim, você não a lerá, pois este - já aviso de antemão - não é um texto sobre empregos em Dubai. Pouco importa o que está escrito: você quer a resposta rápida, personalizada, por e-mail ou telefone, um emprego sob-medida em Dubai. Pouco importa o resto: você está cego pelo brilho do Burj Al Arab e prefere quebrar a cara.

Pouco importa o resto: escrevo assim mesmo. Simplesmente porque preciso botar pra fora esta história que me incomodou e que ainda me incomoda (não, não é cocô na porta).

Decidido: voltemos a 2006. Com vocês, um pouquinho de realidade.