16.2.08

O Camisa-Azul

Os pratos se acumulam na pia. Uma menção em abrir a torneira e alguém avisa:

- Don't bother with that: tomorrow is Blue Shirt's day.

O Camisa-Azul está quase todos os dias em casa; ele vem de Sonapur no primeiro ônibus da empresa às 6:30h, chega por volta das 8:00 h e faz biscates pelas casas vizinhas até às 9:30 h. Então troca de roupa no corredor, toma a bicicleta presa à palmeira de tâmaras e segue para seu trabalho cujo turno se inicia às 10 h: um supermercado na Al Wasl Road. Daí o apelido: o uniforme é azul. Às 19:30h ele aparece novamente, guarda a bicicleta, conversa com alguns amigos na praia e por volta das 20:30h, toma o ônibus de volta ao seu alojamento.

Pele escura, bigode:

- Are you from India?
- No sir, Sri Lanka. Sri Lanka.

Ele tem 22 anos e veio para cá há alguns anos, atraído provavelmente pela foto de uma torre azul metálica, pelo conselho de algum amigo. Não tem o pesar de quem sai de um país em guerra - talvez a desconheça - mas o ar satisfeito de quem vê oportunidades de trabalho que não há em sua terra. Ironia? Consoante à receita de sucesso em um mundo globalizado, é poliglota: fala tamil e hindi.


- Where do you live?
- Yes, sir.


Mas seu inglês é limitado. Mesmo assim, ele quase dobra sua renda de 800 dirhams com seus biscates. Ele lava o carro do Greg três vezes por semana pela manhã. Por lavar as louças semanalmente, mais 100 dirhams por mês. Passar roupa? Camisa-Azul. Sapato novo que aperta no pé? Camisa-Azul para laceá-lo. 50, 100 dirhams: perde-se a noção do pouco e do muito.

Talvez o apelido não seja apenas pelo seu uniforme, mas um ato deliberado de distanciamento e distinção de classes: aqueles que têm uma vida digna dos que realizam trabalhos ingratos. Como se fosse degradante lavar pratos; como se houvesse muita diferença entre limpar banheiros e realizar testes de software.

Este fim-de-semana, alguém lhe conferiu mais um servico: retirar uns arbutos que cresceram no quintal.


- And what is your name?

- Tanikha.

E por fim, o Camisa-Azul tem nome.

15.2.08

Belly dancers em Dubai

Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Recomendações para mulheres":

Prezado sheik:

Estou muito preocupado pois uma de minhas filhas é dançarina (dança do ventre)e se inscreveu num site que contrata belly dancers brasileiras para trabalhar nos Emirados Árabes, ganhando 2600 dólares. Ela está cheia de sonhos, "investindo" quase tudo que ganha em seu trabalho para cumprir as exigências deles.
Por favor, como é a vida aí para essas meninas? É seguro?.
Agradeço tudo o que puder me dizer.
Parabéns pelo BLOG!
Abraços.


Postado por Anônimo no blog Dubai F. C. em Sexta-feira, 15 Fevereiro, 2008

Olá Anônimo,

É sempre um prazer recebê-lo por aqui. Quanto a sua filha, vamos por etapas:

1) Como é a vida das dançarinas de dança-do-ventre aqui?

Olha só, há mais brasileiras dançarinas-do-ventre por aqui. O mercado de trabalho nesta área é profissional e funciona mais ou menos assim: em geral, as garotas fecham um contrato com um hotel ou resort por um perído de 3 a 6 meses, e recebem passagem aérea e acomodação. Há garotas que fecham contrato para dançar nos acampamentos turísticos do deserto.

Como assim acampamento no deserto? Funciona assim: há diversas operadoras de passeios de 4x4 pelo deserto. Praticamente todos eles terminam nestes acampamentos turísticos, na verdade uma construção semelhante a uma fazenda de criação de camelos onde o turista pode realizar passeios de camelo, andar de quadriciclo, escorregar nas dunas, tomar café ou chá árabe, comer tâmaras, fumar xixa, tirar fotos com roupas típicas... tudo isso termina com um portentoso jantar animado por apresentações de dança-do-ventre.

Ufa. Espero que tenha entendido. Vamos ao próximo tópico.

2) O salário é bom? Se o caso acima é o de sua filha - passagem aérea e acomodação inclusas - estamos falando de um salário de 10 mil dirhams limpinhos e dobradinhos no bolso de sua filha dançarina. É um bom salário, levando em conta que a maior despesa para o residente em Dubai é o aluguel.

3) É seguro? Caro Anônimo, é como eu já disse no post anterior: se a sua filha seguir as recomendações que ali deixei, ela evitará os problemas mais sérios. Se ela já trabalha no Brasil como dançarina-do-ventre, certamente já está habituada a lidar com o assédio masculino e tirará de letra. Dubai é a cidade mais aberta do mundo árabe, mas ainda tem muito homem que não sabe respeitar mulher... enfim, a maldade está nos corações, e não na cidade em si.

Ah, e sua filha chegar sozinha, outra dica de ouro é: tentar se embrenhar na comunidade de brasileiros aqui. Conhecer um grupo que fala a sua língua ajuda bastante na adaptação, principalmente no início, quando o encanto inicial cai por terra (e olha que cai rapidinho).

Dubai - como muitos outros lugares - é como um maracujá: é preciso saber degustá-la. Os afoitos (todos nós) mordem a fruta; ficam com um gosto azedo amarrado na boca e falam pra todo mundo que é a pior fruta que já comeram. Mas quem lê a receita em um dia de sol e brisa fresca, abre a fruta, raspa a poupa com uma colher, mistura leite condensado e aguardente, gelo, bate o pilão, hmmm... apologias politicamente incorretas à parte, esse sujeito terá uma impressão completamente distinta da fruta.

É isso aí,

Beijos azedos do Sheik,
sabor maracujá.

Aviso - Cartão Dubaimlm

Caríssimos,

Eu bem sei a tentação que é a possibilidade de um lucro fácil, sem trabalhar. Mas o sheik abomina ações de espertinhos, principalmente quando esta ação tenha como objetivo lesar o próximo.

É a última vez que aviso:

TODO E QUALQUER COMENTÁRIO COM LINKS PARA ESSA M... DE CARTÃO DUBAIMLM SERÃO SUMARIAMENTE APAGADOS.

O Sheik não tem interesse em correntes, pirâmides que não sejam egípcias ou pré-colombianas, marketing de rede e coisas do gênero. E tem raiva de quem tem.

Fui claro?

Beijocas de sheik.

14.2.08

Valentine's Day x DSF


Valentine's Day - dia dos namorados nos países capitalistas ocidentais
DSF - não, não tem nada a ver com Dubai SiFú: Dubai Shopping Festival, que acontece todo ano em fevereiro.

Passei ontem a noite pelo Spinneys e tinha uma bancada enorme na entrada, cheia de flores. Ao lado uma plaquinha:

- bouquet de rosas colombianas: 350 DH

Mas fui atraído pela lojinha de roupas de praia, logo ao lado:

- camisa de láicra (sim, senti um prazer em aportuguesar esta palavra): de 125 DH por 35 DH

Trinta e cinco dirhams (já ia aportuguesar de novo: derrames. Melhor, abrasileirar - portugueses escreveriam dirâmes. Mas derrames fica bruto, chocante: um derramamento de dinheiro na terra dos endinheirados. Ou o efeito que causa em alguns quando as latinhas insistem em escorregar do bolso) por uma (o período entre parênteses logo atrás ficou mesmo longo, mas tudo bem. Não sou eu que vou ler mesmo) camisa de praia, que protege do raios nocivos do sol, do frio das congelantes águas do Golfo (no inverno). Do calor das águas no verão (sopa. O bom de pescar no calor é que o peixe já sai cozido).

Você diz: frescura! Sim, frescura. Nos primeiros relatos de ingleses que aportaram por aqui - os únicos registros sobre o passado na região - dão conta de pessoas paupérrimas, pele queimada e cabelo comprido que viviam em casas de barasti, as folhas das palmeiras de tâmaras. Vestimenta? Apenas um pano enrolado na cintura. As roupas tradicionais de hoje foram adotadas após a descoberta do petróleo na região, que aumentou sensivelmente a renda dos pescadores de pérolas que aqui viviam. E eles sobreviveram, com sol e tudo, apenas com um paninho enrolado na cintura, sem frescura de camisa protetora de raios solares nocivos. Naquela época a palavra nocivo provavelmente sequer existia.

Frescura? Comprei a camisa. 35 derrames: se não almoçar hoje, já está paga. Não me julgue muquirana: o jejum purifica. Voltei ao Spinneys: um buquê de rosas pelo preço de dez camisas. E rosas não protegem contra os malvados raios solares. E rosas murcham em dois dias e já se acabou. Ainda bem que concumbinas não se importam com esses tradições ocidentais, cosméticas e vãs. O que importa mesmo é o amor, esta coisa bonita que une até produtores de rosas colombianos a meninas apaixonadas em Dubai.

12.2.08

Enquanto isso na Shata Tower...

E a Chata Táuer, a melhor torre de Dubai, não pára de melhorar: primeiro, quitutes de manhã (croissants para quem chega antes das 8h, donuts para quem chega depois). Agora, a indispensável máquina de engraxar.

E assim, um a um, engenheiros chegando das trincheiras do deserto se aglomeram em volta da máquina para limpar suas patas. Como friorentos se aglomeram ao redor da fogueira em dias gelados:



Sensacional.

Made in Dubai


Dubai: aqui se faz, aqui se paga.

Vem aí...


Dubai International Jazz Festival, 21/02 - 01/03. Foto tirada esta tarde em Dubai Media City.

11.2.08

Dicas de ouro do sheik: você sabia?

Caro leitor!

Anote esta que, se não é fundamental para se conseguir um emprego em Dubai, é essencial para uma experiência terrena plena:


Ao furar uma banana com a ponta do indicador, ela se divide em três (grande dica, Arthur!).

Depois desta, está na hora do sheik "fazer naninha". Em breve, respostas a (enorme) lista de recados recebidos.

Apertos de mão sabor banana Chiquita (das Filipinas) do Sheik.

Sheik ensina: você sabia?


O Burj Al Arab é mais alto que a Torre Eiffel.
E se algum francês chorar, diga "désolé".

Diálogos com a Neuza

Um amigo indiano vai casar. Casamento tradicional em Agra, esposa escolhida pelo pai. Escrevo para meu irmão e ele responde: "Tomara que o pai dele tenha bom gosto". Acho graça e comento com a Neuza. Ela tem a própria opinião:

- Eu não gosto de casamento arranjado.
- Por que? Tão cômodo... - (é prazeroso provocar).
- Meus pais tiveram um casamento arranjado. Hoje eles vivem na mesma casa, mas totalmente isolados um do outro, cada um em seu quarto. Só conversam estritamente o necessário. Meu pai viaja nos fins-de-semana para a casa de minha avó e só fica em casa uns 3 dias na semana.
- Ah bom. E você mora com eles?
- Não, eu moro com amigos, em outra cidade.
- E sua irmã?
- Também, com as amigas dela.

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Essa é uma homenagem do Sheik à Tradição, à Família e à Propriedade.

9.2.08

Neuzas em Dubai

E uma amiga Neuza que conheci no Irã apareceu por aqui com sua irmã. Então vamos ao vocabulário:

wakai - jovem
akai - vermelho
neko - gato
lakuda - camelo
ksô - merda
Lolô - Laurent (leia Lorrã)
Clis - Chris

wakai lakuda - jovem camelo
akai ksô - merda vermelha
wakai lakuda nô akaí ksô! - merda vermelha do jovem camelo!

kotso samá! (diga isso ao acabar de comer, com as mãos juntas) - satisfeito!

É isso aí, uma homenagem do Sheik ao centenário da imigração japonesa ao Brasil.

Saionará!

7.2.08

Feliz Ano-Novo!

É Ano-Novo no calendário chinês. Esta data é comemorada - obviamente - na China, e também em outros lugares menos elementares, como a Malásia.

E por aqui, os malaios comemoram assim: comendo uma mandarina, ou tangerina, ou mexirica, como é conhecida em terras tupiniquins. Dizem que na China essa fruta simboliza ouro, então o ritual supersticioso é praticado para atrair riquezas no ano que se inicia. É o que resta para quem não comemorou a tradicional festa e trabalhou em feriado de seu país (mas, até aí, é carnaval no Brasil, e nem uma carroça de mexirica me consola).

O que importa mesmo é que ganhei uma mandarina, ou tangerina, ou mexirica, e por superstição, consolo ou tradição, pelo sim, pelo não, já começo a degustá-la, mais por fome que por ambição financeira (já estamos no Paraíso dos endinheirados, esqueceu?). Se ajudar a encher os cofres do sheik, tanto melhor...



Feliz ano-novo (chinês) a todos!

4.2.08

Na trave


Dubai, a terra do futebol.

Camisas



3 camisas sociais: 95 dirhams (R$ 42,50)

1.2.08

O pobre e o rico

Eles moravam juntos em um apartamento perto da Paulista. O pobre tinha o estranho costume de economizar em tudo. O rico, de gastar e, obviamente, de caçoar do pobre – "economia porca", dizia ele. Mas o pobre economizava: dizia que tudo andava muito caro na metrópole – a comida, o transporte, roupas. Certa vez, constatou que a carne estava cara. Não teve dúvidas: virou vegetariano. Mas voltou logo aos hábitos carnívoros ao constatar que, para compensar o déficit de proteínas, vegetarianos consomem um volume maior de alimentos. Em um restaurante por-quilo, isso pesa no prato, e claro, no bolso. Teve então outra boa idéia: comprou uma lancheira, daquelas do batman, super-homem ou coisa assim. Vendeu os tíckets-refeição e passou a levar um lanche para o almoço.

Almoço resolvido, hora de atacar o jantar: comprou um videogame. Dizia que, assim, começava a jogar e se esquecia de jantar. Mais economia!

Um dia o pobre foi comprar chinelos. Perguntou para o caixa: “por que é que o 41 é mais caro que o 40?” - por que é maior, disse o caixa. Comprou o número menor que o pé.

Um belo dia o local do trabalho mudou-se para longe: 10 km de casa. O pobre que, como o rico, ia à pé ao trabalho, sentiu o peso da distância: seriam forçados a andar de ônibus. Ele fez então as contas: gastaria no ano algo em torno de 400 reais com transporte. Tomou uma atitude saudável: comprou um tênis e uma mochila: iria de ônibus e voltaria correndo. Economizaria assim no transporte e na academia. Genial!

Do rico, não há muito o que dizer a não ser o fato que ele complementava o pobre: iam juntos (de ônibus) ao trabalho, jogavam videogame juntos, trabalhavam juntos. Certa vez, saiu do banheiro com uma cara de nojo e uma massaroca de papel higiênico na ponta dos dedos e foi até a mesa do pobre. Foi abrindo as folhas e lá estava o cartão magnético do Vale Transporte, que entregou para o pobre: "que horrooooooorr!".

O tempo passou, ambos mudaram de emprego. O pobre casou e comprou um apartamento; o rico comprou um carro.

Lembrei deles dias atrás quando entrei no elevador: a minha frente um senhor com uma camisa social. No bolso lia-se em um detalhe marcado por furos no tecido: “Microsoft”. Ele provavelmente ganhara a camisa com a marca bordada e a descosturou para “aproveitar a camisa”. Se o rico estivesse aqui, com certeza deixaria seu parecer: “coisa de pooooobre!”.