Ao escrever no post anterior eu falei de "vans e ônibus porta-escravos", lembrei de mais uma: há alguns meses, o governo do UAE promoveu uma grande campanha de anistia a trabalhadores ilegais. Com isso, dezenas de milhares de trabalhadores ilegais - a maioria paquistaneses e indianos - receberam a chance para legalizar sua situação e voltar para seu país de origem.
Foi um esforço tremendo: companhias aéreas oferecendo vôos adicionais a preços mais cômodos, instituições de caridade levantando fundos para pagar passagens aéreas para os mais necessitados. Teve até vôo gratuito. Por fim, dada a impossibilidade de processar o visto de tanta gente, o processo foi estendido até 3 de novembro.
Durante este período, eu estava me perguntando de que maneira essa anistia afetaria a minha vida. Não foi necessário esperar muito:
1) Nos últimos dias da anistia, o funcionário sri-lanquês (sri-lankers? sri-jonsters?! Sri-lankators???!) da imobiliária que coletava o meu aluguel e o dos demais inquilinos subalocados (ilegalmente) em várias das casas geridas por ela aproveitou a anistia e resolveu para seu país. Não avisou ninguém e levou consigo 25 mil dirhams em dinheiro-vivo coletado dos inquilinos e não repassados à imobiliária. Obviamente, a imobiliária não teve como dar queixa na polícia;
2) De quebra, levou consigo sua esposa e outros funcionários, que juntos coordenavam a limpeza das casas alugadas. Resumo: agora eles precisaram contratar serviços de uma empresa especializada de limpeza. Eles prometem limpeza 2x por semana, na prática, ela está ocorrendo 2x por mês;
3) o serviço de entrega de um restaurante perto de casa ficou suspenso por algumas semanas. A justificativa: "estamos resolvendo uma questão de visto do nosso entregador";
4) está chegando a época de renovar o meu aluguel. Tudo indica que o aumento será de pelo menos 17% após 6 meses. A justificativa: "o dono da casa quer aumento", "a manutenção ficou mais cara", ... compreensível, né? Afinal, 3.000 reais em média de aluguel de cada morador de cada casa é realmente uma quantia insuficiente para pagar visto e salário de fome para o sujeito da limpeza e manter o sagrado lucro.
É isso pessoal. Trabalho quase-escravo ilegal sustentando lucros astronômicos é também Dubai, Dubai Futebol Clube.
5.11.07
Dubai on the rocks
De volta ao rock, algumas notas curtas sobre o que tem mudado por aqui nos últimos tempos:
Chuva
No último sábado, caiu a primeira chuva pós-verão. Não foi suficiente para molhar ou alagar, mas é um indicador claro da mudança de estação. Logo mais em um mês, já estará frio, e pouca gente vai se aventurar a entrar no mar.
Mapa de Dubai no Google Maps

O Google disponibilizou um mapa das ruas de Dubai. Através dele, é possível realizar pesquisas (ainda incipientes) de estabelecimentos comerciais, e buscar direções.
Imagem: Google Maps.
Salik, um "sucesso"
E entrou há já 3 ou 4 meses em operação o Salik, o "inteligente" pedágio de Dubai, com dois pontos de cobrança na Sheik Zayed: Ponte Garhoud e após o Mall of the Emirates. Segundo a RTA, o Salik é "um sucesso". Como tudo em Dubai, claro.
Realmente, é um sucesso: conseguiu a façanha de transferir o tráfego pesado da Sheik Zayed Road, uma auto-estrada com 6 faixas, para as vias locais nas redondezas do pedágio, como Al Wasl Road, Jumeira Beach Road e Al Soufouh Road.
Agora, a maior parte dos veículos que se dirigem do centro de Dubai para Media City, Marina e Jebel Ali - e principalmente os veículos pesados: caminhões com destino ao porto de Jebel Ali, vans e ônibus porta-escravos - desviam na altura do Mall of the Emirates para a via local, a Al Sofouh Road, para evitar a tarifa de 4 dirhams.
Com isso, o que já era difícil - trafegar de bicicleta por esta via - tornou-se uma aventura extremamente perigosa.
Obrigado, RTA! Sucesso!
Imagem: Google Maps.
Postos de gasolina x Cartões de crédito
Há aproximadamente dois meses, todas as redes de postos de gasolina de Dubai passaram a cobrar uma tarifa de 1,65% sobre todo pagamento efetuado com cartões de crédito. A queda de braço entre os postos de gasolina e operadoras de cartão de crédito se agravou e agora nenhum cartão de crédito é mais aceito. Pagamento em postos de gasolina, só em ca$h.
Vale lembrar que em Dubai não há sistemas de pagamento eletrônico on line como o redeshop no Brasil, por exemplo, em que você efetua pagamentos diretamente com o cartão da sua conta corrente. Desta forma, os cartões de crédito é uma das únicas formas de efetuar compra sem a necessidade de carregar dinheiro em espécie ou os arcaicos talões de cheque.
Chuva
No último sábado, caiu a primeira chuva pós-verão. Não foi suficiente para molhar ou alagar, mas é um indicador claro da mudança de estação. Logo mais em um mês, já estará frio, e pouca gente vai se aventurar a entrar no mar.
Mapa de Dubai no Google Maps
O Google disponibilizou um mapa das ruas de Dubai. Através dele, é possível realizar pesquisas (ainda incipientes) de estabelecimentos comerciais, e buscar direções.
Imagem: Google Maps.
Salik, um "sucesso"
E entrou há já 3 ou 4 meses em operação o Salik, o "inteligente" pedágio de Dubai, com dois pontos de cobrança na Sheik Zayed: Ponte Garhoud e após o Mall of the Emirates. Segundo a RTA, o Salik é "um sucesso". Como tudo em Dubai, claro.
Agora, a maior parte dos veículos que se dirigem do centro de Dubai para Media City, Marina e Jebel Ali - e principalmente os veículos pesados: caminhões com destino ao porto de Jebel Ali, vans e ônibus porta-escravos - desviam na altura do Mall of the Emirates para a via local, a Al Sofouh Road, para evitar a tarifa de 4 dirhams.
Com isso, o que já era difícil - trafegar de bicicleta por esta via - tornou-se uma aventura extremamente perigosa.
Obrigado, RTA! Sucesso!
Imagem: Google Maps.
Postos de gasolina x Cartões de crédito
Há aproximadamente dois meses, todas as redes de postos de gasolina de Dubai passaram a cobrar uma tarifa de 1,65% sobre todo pagamento efetuado com cartões de crédito. A queda de braço entre os postos de gasolina e operadoras de cartão de crédito se agravou e agora nenhum cartão de crédito é mais aceito. Pagamento em postos de gasolina, só em ca$h.
Vale lembrar que em Dubai não há sistemas de pagamento eletrônico on line como o redeshop no Brasil, por exemplo, em que você efetua pagamentos diretamente com o cartão da sua conta corrente. Desta forma, os cartões de crédito é uma das únicas formas de efetuar compra sem a necessidade de carregar dinheiro em espécie ou os arcaicos talões de cheque.
4.11.07
Garimpo Airways
A mulher anuncia o início do check-in. Apesar do avião ter poltronas numeradas, todos se amontoam na fila para "chegar primeiro".
Já na aeronave, três rapazes na mesma fileira: um na janela esquerda, um no corredor, outro na janela direita.
O da ponta entretém-se com seu nariz: seu dedo esquerdo passeia narina adentro. Ele não tem pressa e agora contempla a enorme catota semi-transparente que pende em seu indicador em riste. Sem cerimônias, faz uma catapulta com o polegar e ops! Lá está a catota enfeitando a aeronave, pendurada próxima à janela.
O rapaz ao lado do corredor marca presença: faz calor e seus pés deslizam no líquido intersticial entre o pé e a sandália, misto de suor, queijo e anõezinhos mortos. Ele tira o pé da sandália e o enxuga no carpete do avião. Estica o pé e mexe os artelhos. Êita coisa boa! Ele está gripado. O excesso de secreção em suas vias respiratórias o incomoda. Ao menos, sua alimentação está garantida: durante todo o vôo, roncos e puxadas profundas para depois se ouvir o barulho dos músculos da garganta forçando o líquido espesso estômago adentro - glut! Às vezes o muco irrita a garganta e vem aquela vontade incontrolável de tossir. Ainda bem que tem um espaço grande no corredor. Espaço suficiente para tossir sem a mão na frente, propisciando aos que estão ao lado o peculiar prazer de respirar ar com cheiro de entranhas pútrefas.
A aeromoça passa com uma bandeja de balas e lenços higiênicos: enche-se a mão de balas. Não é todo dia que se tem o privilégio de chupar balas. A aeromoça segue seu caminho e o rapaz ao lado da janela a chama: quer mais uma toalhinha higiênica, talvez para mandar de lembrança para a namorada com um bilhetinho "Princesa, aqui é só sucesso: andei de avião!".
O avião se estabiliza no ar. Hora de usar o banheiro do avião. Chique! Tem sabão líquido. Eau de toilet. Nobre. Hora de voltar a poltrona para que? Hora da merenda!
Todos comem toda a comida, direitinho. Pedem um extra para a aeromoça. Afinal, o trabalho no garimpo é extenuante, toda energia é bem-vinda. Ah! Que gostoso, né? Tem até um palito-de-dente. Para o rapaz da janela à direita, palitar é insuficiente: sempre tem aquele fiapo enroscado ali naquele cantinho. Nada que uma boa puxadinha de saliva não resolva. E o avião vira uma sinfonia de sons aspirados, de líquidos e ar correndo entre os dentes. Glixi. Rixi. Riiiixi. Viiiixi... Pupts! (expulsando o fiapo da boca).
Ao final do vôo, o rapaz do outro lado do corredor estranha a sacola presa em frente a minha poltrona. De quem será esta sacola? Será que "alguém" esqueceu? Ele estica a mão e a puxa para cima, para fora da bolsa que guarda também instruções de emergência e revistas. Olhar para o rapaz é insuficiente. Com um sorriso cínico, puxo a sacola, enrolo-a novamente e volto a colocá-la onde estava.
Ele está realmente inquieto. Não vai dormir de noite se não souber o que é aquilo. Pende o corpo, estica o braço através do corredor e tira a sacola da bolsa a minha frente. Olha dentro dela e pergunta com um ar de espanto: "WHAT IS THIS?"
"MY chocolate". Compreensível: esses produtos industrializados - sacola plástica, chocolate - não chegam ao garimpo. "Excuse-me" - Puxo a sacola e a amarro em minha bolsa de mão para não deixar dúvidas.
Por fim, o avião pousa no garimpo levantando poeira. Todos se acotovelam para sair da aeronave. De volta ao lar. Que alívio! Chega dessa coisa sombria e sofisticada chamada civilização.
Já na aeronave, três rapazes na mesma fileira: um na janela esquerda, um no corredor, outro na janela direita.
O da ponta entretém-se com seu nariz: seu dedo esquerdo passeia narina adentro. Ele não tem pressa e agora contempla a enorme catota semi-transparente que pende em seu indicador em riste. Sem cerimônias, faz uma catapulta com o polegar e ops! Lá está a catota enfeitando a aeronave, pendurada próxima à janela.
O rapaz ao lado do corredor marca presença: faz calor e seus pés deslizam no líquido intersticial entre o pé e a sandália, misto de suor, queijo e anõezinhos mortos. Ele tira o pé da sandália e o enxuga no carpete do avião. Estica o pé e mexe os artelhos. Êita coisa boa! Ele está gripado. O excesso de secreção em suas vias respiratórias o incomoda. Ao menos, sua alimentação está garantida: durante todo o vôo, roncos e puxadas profundas para depois se ouvir o barulho dos músculos da garganta forçando o líquido espesso estômago adentro - glut! Às vezes o muco irrita a garganta e vem aquela vontade incontrolável de tossir. Ainda bem que tem um espaço grande no corredor. Espaço suficiente para tossir sem a mão na frente, propisciando aos que estão ao lado o peculiar prazer de respirar ar com cheiro de entranhas pútrefas.
A aeromoça passa com uma bandeja de balas e lenços higiênicos: enche-se a mão de balas. Não é todo dia que se tem o privilégio de chupar balas. A aeromoça segue seu caminho e o rapaz ao lado da janela a chama: quer mais uma toalhinha higiênica, talvez para mandar de lembrança para a namorada com um bilhetinho "Princesa, aqui é só sucesso: andei de avião!".
O avião se estabiliza no ar. Hora de usar o banheiro do avião. Chique! Tem sabão líquido. Eau de toilet. Nobre. Hora de voltar a poltrona para que? Hora da merenda!
Todos comem toda a comida, direitinho. Pedem um extra para a aeromoça. Afinal, o trabalho no garimpo é extenuante, toda energia é bem-vinda. Ah! Que gostoso, né? Tem até um palito-de-dente. Para o rapaz da janela à direita, palitar é insuficiente: sempre tem aquele fiapo enroscado ali naquele cantinho. Nada que uma boa puxadinha de saliva não resolva. E o avião vira uma sinfonia de sons aspirados, de líquidos e ar correndo entre os dentes. Glixi. Rixi. Riiiixi. Viiiixi... Pupts! (expulsando o fiapo da boca).
Ao final do vôo, o rapaz do outro lado do corredor estranha a sacola presa em frente a minha poltrona. De quem será esta sacola? Será que "alguém" esqueceu? Ele estica a mão e a puxa para cima, para fora da bolsa que guarda também instruções de emergência e revistas. Olhar para o rapaz é insuficiente. Com um sorriso cínico, puxo a sacola, enrolo-a novamente e volto a colocá-la onde estava.
Ele está realmente inquieto. Não vai dormir de noite se não souber o que é aquilo. Pende o corpo, estica o braço através do corredor e tira a sacola da bolsa a minha frente. Olha dentro dela e pergunta com um ar de espanto: "WHAT IS THIS?"
"MY chocolate". Compreensível: esses produtos industrializados - sacola plástica, chocolate - não chegam ao garimpo. "Excuse-me" - Puxo a sacola e a amarro em minha bolsa de mão para não deixar dúvidas.
Por fim, o avião pousa no garimpo levantando poeira. Todos se acotovelam para sair da aeronave. De volta ao lar. Que alívio! Chega dessa coisa sombria e sofisticada chamada civilização.
3.11.07
Burrocracia 2
Bom pessoal,
Apos um cochilo, fiquei entediado dessa coisa de aeroporto e vim de novo aqui na internet gratuita do aeroporto. Descobri algumas coisas:
1 - brasileiros nao tem mesmo visto automatico para o Qatar;
2 - residentes no GCC tem visto automatico MAS realmente depende da profissao (e do cara que esta na alfandega no momento). Para evitar problemas, o melhor jeito e mesmo aplicar online antes de vir pra ca;
Mas eu fiquei realmente encafifado: eu desconfio que o cara da alfandega de fato NAO CONHECE o processo direito e deu uma resposta qualquer.
Resolvi arriscar de novo, agora atraves dos tunisianos que trabalham na Qatar Airways. Povo simpatico, enquanto alguns perguntavam se as praias do Rio sao melhores que as de Dubai (pergunta dificil), um pegou meu passaporte e foi la esclarecer em arabe para depois me explicar em frances: de fato, e realmente possivel para residentes no GCC obter o visto na entrada, MAS realmente depende da profissao.
Ate onde consegui esclarecer, engenheiros esta na lista de visto automatico. MAS... no meu visto alguem escreveu que em vez de engenheiro, sou um "tatuir" (desenvolvedor, em arabe). Generico, nao?
Ta explicado. Ao menos os tunisianos quebraram meu galho e anteciparam meu voo. So tenho a agradecer: Chocran Barsha!
Apos um cochilo, fiquei entediado dessa coisa de aeroporto e vim de novo aqui na internet gratuita do aeroporto. Descobri algumas coisas:
1 - brasileiros nao tem mesmo visto automatico para o Qatar;
2 - residentes no GCC tem visto automatico MAS realmente depende da profissao (e do cara que esta na alfandega no momento). Para evitar problemas, o melhor jeito e mesmo aplicar online antes de vir pra ca;
Mas eu fiquei realmente encafifado: eu desconfio que o cara da alfandega de fato NAO CONHECE o processo direito e deu uma resposta qualquer.
Resolvi arriscar de novo, agora atraves dos tunisianos que trabalham na Qatar Airways. Povo simpatico, enquanto alguns perguntavam se as praias do Rio sao melhores que as de Dubai (pergunta dificil), um pegou meu passaporte e foi la esclarecer em arabe para depois me explicar em frances: de fato, e realmente possivel para residentes no GCC obter o visto na entrada, MAS realmente depende da profissao.
Ate onde consegui esclarecer, engenheiros esta na lista de visto automatico. MAS... no meu visto alguem escreveu que em vez de engenheiro, sou um "tatuir" (desenvolvedor, em arabe). Generico, nao?
Ta explicado. Ao menos os tunisianos quebraram meu galho e anteciparam meu voo. So tenho a agradecer: Chocran Barsha!
Burrocracia
Post quentinho e sem acentos direto do aeroporto de Doha :-) :
- Hey sir, is it transfer or immigration?
- Immigration.
- This queue, please.
Na hora de mostrar o passaporte, parecia tudo tranquilo:
- Brazilian?
- Yes.
- Qatar Airways?
- Yes.
- Credit Card?
- Yes.
- It's 55 riyals.
- Ok.
Mas ai ela comeca a folhear o passaporte e chama outro rapaz:
- Voce e residente em Dubai, certo?
- Yes.
- Sorry, sir. You cannot enter.
- Why?
- You are UAE resident. But this visa is not valid. Only for managers, doctors and students. Sorry, sir.
- ?!?! Sorry. This is my UAE visa. I can buy the local visa. No problem.
- Sorry sir. It's only for managers. You cannot.
Vou ao banheiro, e volto. Deve ter ocorrido um mal-entendido. Falo com o funcionario paquistanes ("Ah, eu conheco o Brasil! Rio e SP! Proximo mes, a Qatar Airways tera voo direto ao Brasil..." ), ele tenta e volta mais uma vez:
- Sorry. Brasileiros entram sem problemas, o cara ali deve estar mal-humorado...
Sem problemas. Sao 7h da manha, meu voo para Dubai esta marcado para as 18h. Com sorte eu consigo antecipar meu voo para as 13h. Mas isso, so vou saber a partir das 11h... ainda bem que trouxe livros. :-)
- Hey sir, is it transfer or immigration?
- Immigration.
- This queue, please.
Na hora de mostrar o passaporte, parecia tudo tranquilo:
- Brazilian?
- Yes.
- Qatar Airways?
- Yes.
- Credit Card?
- Yes.
- It's 55 riyals.
- Ok.
Mas ai ela comeca a folhear o passaporte e chama outro rapaz:
- Voce e residente em Dubai, certo?
- Yes.
- Sorry, sir. You cannot enter.
- Why?
- You are UAE resident. But this visa is not valid. Only for managers, doctors and students. Sorry, sir.
- ?!?! Sorry. This is my UAE visa. I can buy the local visa. No problem.
- Sorry sir. It's only for managers. You cannot.
Vou ao banheiro, e volto. Deve ter ocorrido um mal-entendido. Falo com o funcionario paquistanes ("Ah, eu conheco o Brasil! Rio e SP! Proximo mes, a Qatar Airways tera voo direto ao Brasil..." ), ele tenta e volta mais uma vez:
- Sorry. Brasileiros entram sem problemas, o cara ali deve estar mal-humorado...
Sem problemas. Sao 7h da manha, meu voo para Dubai esta marcado para as 18h. Com sorte eu consigo antecipar meu voo para as 13h. Mas isso, so vou saber a partir das 11h... ainda bem que trouxe livros. :-)
2.11.07
Printemps
Ao final de contas, esta história de comprar sutiã revela-se uma boa cantada. Nesta loja enorme, um andar apenas de lingeries. E apenas um homem por ali. A frente duas garotas. Uma delas uma morena maravilhosa: magra, olhos negros, corpo magro com belas curvas, cabelo castanho com uma excêntrica franginha:
- Bonjour monsieur... - e já começa sorrindo.
Cara de "cachorro sem dono", com uma naturalidade forçada de quem compra um cachorro-quente. Mas a voz engasga:
- Je veux, un... comme que... elle m'a demandé... - e por fim, sai o pedido - un sutien-gorge balconé et... tigré.
- Ahahahahahahhaha...
Ela então apresenta os mesmos sutiãs das mesmas tonalidades. O preço ainda é salgado. "Autrement nous avons ceci, mais il est... zébré!". E tome risos.
Por fim, ela volta às suas atividades, e fica olhando de lado e rindo. Conta para amiga, ficam as duas rindo. Faltou pedir o telefone. "Quer ganhar um sutiã... tigré et balconé?".
Por fim, o tão desejado sutiã: é balconé, mas não é tigré. É meio oncinha albina, mas passa. A atendente é uma senhora que não desperta qualquer desejo sexual, e profissional, de modo que tudo se desenrola em poucos minutos. Pronto, feito. E o melhor: bem mais barato. Mas jamais compraria uma cueca desse preço...
- Bonjour monsieur... - e já começa sorrindo.
Cara de "cachorro sem dono", com uma naturalidade forçada de quem compra um cachorro-quente. Mas a voz engasga:
- Je veux, un... comme que... elle m'a demandé... - e por fim, sai o pedido - un sutien-gorge balconé et... tigré.
- Ahahahahahahhaha...
Ela então apresenta os mesmos sutiãs das mesmas tonalidades. O preço ainda é salgado. "Autrement nous avons ceci, mais il est... zébré!". E tome risos.
Por fim, ela volta às suas atividades, e fica olhando de lado e rindo. Conta para amiga, ficam as duas rindo. Faltou pedir o telefone. "Quer ganhar um sutiã... tigré et balconé?".
Por fim, o tão desejado sutiã: é balconé, mas não é tigré. É meio oncinha albina, mas passa. A atendente é uma senhora que não desperta qualquer desejo sexual, e profissional, de modo que tudo se desenrola em poucos minutos. Pronto, feito. E o melhor: bem mais barato. Mas jamais compraria uma cueca desse preço...
Café-crème et crèpe
Alguns quarteirões após a saída da loja, os braços ainda tremem. Um sutiã, 80 €?! Não pode ser. 80 € são 400 dirhams. 200 reais. Deve ter sido algum trote. Lembrancinha desse preço?
Deve haver algum jeito. A frente, uma galeria. Mais calcinhas. Dentro da loja, a mulher responde de maneira hostil "procure em um sex shop". Tá bom, tá bom. Mais tarde encontraria de fato algo parecido em um sex shop de Pigalle, mas a calcinha tinha um rasgo no meio. Não é bem isso o que ela quer...
Faz frio, a fome aperta. Hora do café. Uma porta aberta e apenas uma senhora dos seus quarenta anos atrás do balcão.
- Bonjour, monsieur.
- Bonjour. Je veux un café-crème et un crèpe au chocolat.
- À emporter ou à la table?
Diferença marcante: "à table" significa um adicional no preço. Literalmente, paga-se pra sentar. Mas tudo bem. Talvez renda uma informação importante:
- Excusez-moi, madame.
- Oui.
- Peut-être que vous pourriez m'aider...
- Oui...
- Je cherche... bon, une amie m'a démandé...
- Oui...
- Un soutien gorgé... balconé et tigré.
- Hahahahahahahahahahahahah...
É incrível como o formalismo nessas horas cai por terra. Hahahah. Não tem graça. Ela indicou voltar aos lados da Galeria La Fayette. "Ou va a um sex shop, hahahahahah...". E o preço? "Il y en a de tout. De 20 € à bien plus que 100 €...". Que horror.
Deve haver algum jeito. A frente, uma galeria. Mais calcinhas. Dentro da loja, a mulher responde de maneira hostil "procure em um sex shop". Tá bom, tá bom. Mais tarde encontraria de fato algo parecido em um sex shop de Pigalle, mas a calcinha tinha um rasgo no meio. Não é bem isso o que ela quer...
Faz frio, a fome aperta. Hora do café. Uma porta aberta e apenas uma senhora dos seus quarenta anos atrás do balcão.
- Bonjour, monsieur.
- Bonjour. Je veux un café-crème et un crèpe au chocolat.
- À emporter ou à la table?
Diferença marcante: "à table" significa um adicional no preço. Literalmente, paga-se pra sentar. Mas tudo bem. Talvez renda uma informação importante:
- Excusez-moi, madame.
- Oui.
- Peut-être que vous pourriez m'aider...
- Oui...
- Je cherche... bon, une amie m'a démandé...
- Oui...
- Un soutien gorgé... balconé et tigré.
- Hahahahahahahahahahahahah...
É incrível como o formalismo nessas horas cai por terra. Hahahah. Não tem graça. Ela indicou voltar aos lados da Galeria La Fayette. "Ou va a um sex shop, hahahahahah...". E o preço? "Il y en a de tout. De 20 € à bien plus que 100 €...". Que horror.
Le soutien tigré
Não foi uma boa idéia fazer aquela pergunta: "Quer alguma coisa?". Mas não havia muita alternativa, afinal, da outra vez que ela viajou, trouxe quase exatamente o que lhe foi pedido. E não cobrou. Reciprocidade é a moeda e tudo tem seu preço. E agora já é tarde demais para reclamar...
- Bonjour, monsieur!
Uma loira de olhos verdes, rosto perfeitamente maquiado, 1,68m, cintura fina, peitos e bumbum sob medida, aguarda uma resposta:
- Bon e... je veux... je veux... un soutien.
- Ah, vous voulez un soutien-gorge? Ok. Quel modèle?
- Bon e... elle veux un avec un patron, allons dire, tigré.
- (Riso espontâneos) Tigré?! - agora todas as atendentes da loja riem.
Ela então me mostra um modelo marrom com listas douradas e pretas. E pergunta qual é o tamanho.
- C'est 34C.
- Mais qu'est ce que c'est 34C? C'est la mésure italienne? Anglaise?
- Probablement anglaise.
- Oui, voilà. Et comme culotte, c'est quel taille? - neste momento a atendente olha no meu olho com o queixo suavemente inclinado para baixo, olhos nos olhos, de baixo para cima. Com uma mão, segura os sutiãs sobre seu peito, e com a outra, a calcinha sobre sua cintura. Inevitável não pensar nela sem roupa, só de calcinha e sutiã de tigresa. Na sua testa lia-se "sexo, sexo"...
- La même taille que toi.
Pronto, pegou mal. A garota agora faz uma cara de desgosto, do tipo "quem lhe deu a liberdade?". A regra é: em negócios, até que o interlocutor solicite ("vous preferez vouvoir ou tutoir?"), o formalismo pede que se utilize o pronome "vous".
- Ça veut dire, la même taille que vous.
- Bon, cela marche vraiement bien.
Faltava alguma coisa, seria melhor confirmar. Não deve fazer muita diferença, mas deve ser melhor confirmar:
- Bon e... est-ce que cela a le balcony design?
Ela pensa um pouco olhando para o teto ("balcony design...") e "Ah! Balconé?"
- Oui.
"Então esse não serve" e segue para o outro lado da loja. Agora ela apresenta um sutiã balconé em duas variações: transparente e com enchimento, com manchinhas de onça bem discretas.
- Excusez-moi, mais... cela n'est pas exactement tigré. Cela est pantéré.
- Bon...e ... dans ce cas, nous avons aussi ceci - mostra agora um sutiã preto com listras brancas e um babado embaixo - mais c'est zébré - e começa a rir de novo.
Ao analisar o tecido, por acaso, uma discreta etiquetinha mostra algo desimportante, o preço. O que? Um sutiã, 80 €? E a calcinha, 50 €?!?!
- Bon, madame, je vous remercie de votre attention, mais... c'est mieux que je confirme avec elle.
- Bon, mais... voilà, mais cela est un Chantelle... si elle ne l'aime pas comme lingerie, bon et... quoi. Je ne sais pas.
Questão de gentileza
O rapaz chega em casa após o trabalho. Toma aquele banho de banheiro cheio de contentamento: dever cumprido. De repente, lembra-se: é já quase fim-de-semana. Sentiu-se obrigado a sair.
Chega a um bar, senta-se no balcão. Uma pint, por favor. Chega o amendoim para acompanhar, inicia ao acaso uma conversa com o rapaz ao lado. Conversa de homem, conversa de bar. Cerveja, futebol, política, previsão do tempo, amendoim, mulheres. Mulheres: por fim, o desconhecido, contente que ficou com a atenção dispensada, sentiu-se no dever de retribuir:
- Minha esposa está ali. - acenou para ela, ela respondeu com um sorriso.
- E?
- Gostei de conversar com você, você é um cara legal. Se você quiser, você pode possuir minha esposa. Seria-me um prazer.
- Como assim?
- Sério, tranqüilo, vai lá. Conversa com ela, o banheiro está ali.
Considerou que seria falta de educação recusar o convite feito com tanta insistência. Por uma questão de gentileza, foi lá conversar com a moça. Não sentiu um "clima", e após conversar sobre o tempo, deu um aceno para os dois e se mandou. Au revoir.
Dever cumprido
O rapaz sai do metrô, voltando do trabalho. Relaxamento provocado pelo sentimento de dever cumprido, caminha lentamente aberto às novidades das vitrines.
Sex shop. Não se sabe se aí entrou por curiosidade ou por uma vontade crescente de fazer xixi, mas o fato é que entrou na loja, olhou alguns produtos e perguntou ao balconista:
- Bon soir, monsieur! Le toilet?
- Au dessous, monsieur.
O rapaz desce as escadas e segue direto para o banheiro. Dever cumprido, volta novamente aberto às novidades do entorno. Ao atravessar as cabines de vídeo (pelo custo de 2 €, tem-se uma cabine à disposição para assistir a um filme com privacidade), um rapaz abre a porta e lhe aborda:
- Excusez-moi, monsieur...
Há muitos homossexuais na cidade. Ele segue seu caminho para a escada:
- Pardon, ça ne m'intéresse pas.
Mas o rapaz insiste - je ne suis pas homossexuel! - e explica seu intento: sua esposa está na cabine e seu desejo é vê-la sendo possuída por outro homem.
Ah bom. Se não era nada homossexual, considerou que talvez pudesse auxiliar de alguma maneira.
Entrou na cabine. A esposa já estava nua. Nada mal. Abaixou a calça, mostrou o pipi. Recebeu carícias, mamou, foi mamado. Por fim, dada a ausência de preservativos, considerou sentato terminar a estória por ali: levantou-se e espalhou seu código genético sobre a moça.
Dever cumprido. Relaxado, agora o rapaz volta a notar as novidades do entorno: um marido que possui vorazmente sua esposa, corpo com corpo, genitália com genitália, sem se importar com o código genético alheio que agora lambuza ambos os corpos.
- Bon soir! - o rapaz sobe a calça e sai da cabine.
Ao chegar na saída, é interceptado pelo balconista: roubara ele alguma coisa? Já fazia meia-hora que ele havia descido. O rapaz apenas responde enxugando o suor das têmporas e levando uma das mãos à barriga:
- Caca!
E assim segue seu caminho para casa após o trabalho, ciente do dever cumprido.
1.11.07
Immeuble Le Linéa
L'entrée
- Bonjour monsieur, avez-vous une pièce d'identité.
- Oui - sobre o balcão, a carteira de motorista.
- Bon, et... mais c'est arabe?!
- Oui. Mais c'est moi au photo, non?
- Oui... d'accord... pas de soucis. Vous pouvez attendre quelques minutes qu'ils vous appelleront.
- D'accord.
++++
Elle est arabe
- Bonjour monsieur! - uma bonita morena de olhos pretos, nariz adunco e pele clara faz o chamado.
Tem algo de familiar nesta garota... árabe? Mais adiante, o crachá tira a dúvida: Monia Ali. É árabe.
+++++
L'accent
- Excusez-moi? Est-ce que... - perguntas em meio a um treinamento qualquer.
O rapaz ao lado olha surpreso e pergunta baixinho:
- Tu es portugais?
- Non brésilien. Mais... comment tu le sais?
- Ih, pá. Sou filho de português, pá!
+++++
Marijo
Do outro lado do balcão, uma senhora já idosa recolhe as xícaras e lava as louças.
- Excusez-moi, madame!
- Oui?
- 2 cafés expresso s'il vous plait.
- Voulez-vous avec de la crème ou pas?
- Non, simple. Merci...
Pergunta ao português:
- Você notou?
- O que?
- A pronúncia do "R". Ela não é francesa.
- O, pá, deve ser romena, ou espanhola. O que você acha?
- Sei, lá. Portuguesa, talvez. Tem tanto português por aqui...
- Les cafés messieurs...
- Merci. E vous, vous êtes d'oú madame?
- Moi? Je suis du Brasil.
Maria José, ou "Marijo", como todos a chamam, está há 16 anos em Paris. Deixou o emprego de psicóloga em Furnas para se casar com o namorado francês e morar na França, e nunca mais exerceu sua profissão. "Meu marido era muito ciumento", dizia ela. Há dois anos ele morreu e agora ela vive de uma pensão do Estado, e trabalha no café para complementar a renda.
- Você pensa em voltar para o Brasil?
- Olha... a vida aqui é difícil, longe da família... fico muito sozinha. Mas como será minha vida como idosa no Brasil?
Hora de partir, desejar boa sorte. Cada um segue seu caminho, e Marijo segue lavando as xícaras.
Parisiennes
Por ora, algumas estorinhas sobre a segunda maior cidade portuguesa na Europa: Paris.
Estima-se que a população portuguesa no entorno da cidade-luz (Île-de-France?) seja de 1 milhão de habitantes. Superior à população do Porto, a segunda maior cidade portuguesa, que conta com cerca de 800 mil habitantes.
Estima-se que a população portuguesa no entorno da cidade-luz (Île-de-France?) seja de 1 milhão de habitantes. Superior à população do Porto, a segunda maior cidade portuguesa, que conta com cerca de 800 mil habitantes.
Falcon City Of Wonders
Eles farão um Taj Mahal maior que o Taj Mahal da Índia.
Eles farão uma Torre Eiffel mais alta que a torre de Paris.
Eles farão uma pirâmide. Um farol de Alexandria.
Eles farão uma Veneza.
Em volta, construirão uma Muralha da China.
Não que eu queira falar mal de Dubai: há empreendimentos opulentos dignos de nota e mérito por sua excentricidade e originalidade, tais como a Palm, o Burj Al Arab, Burj Dubai. Como o aeroporto de Jebel Ali, que terá capacidade para suportar o pouso de 6 aviões de grande porte simultaneamente. Mas não entendo o propósito deste empreendimento chamado Falcon City of Wonders, um bairro no meio do deserto que visto do céu terá o formato de um falcão.
A pergunta é simples: se você quiser ver a Torre Eiffel ou o Taj Mahal, você preferiria ver o original ou vir a Dubai, só pra porque é maior e estão no mesmo lugar? Veja as fotos dos originais abaixo, é você que decide...

Eles farão uma Torre Eiffel mais alta que a torre de Paris.
Eles farão uma pirâmide. Um farol de Alexandria.
Eles farão uma Veneza.
Em volta, construirão uma Muralha da China.
Não que eu queira falar mal de Dubai: há empreendimentos opulentos dignos de nota e mérito por sua excentricidade e originalidade, tais como a Palm, o Burj Al Arab, Burj Dubai. Como o aeroporto de Jebel Ali, que terá capacidade para suportar o pouso de 6 aviões de grande porte simultaneamente. Mas não entendo o propósito deste empreendimento chamado Falcon City of Wonders, um bairro no meio do deserto que visto do céu terá o formato de um falcão.
A pergunta é simples: se você quiser ver a Torre Eiffel ou o Taj Mahal, você preferiria ver o original ou vir a Dubai, só pra porque é maior e estão no mesmo lugar? Veja as fotos dos originais abaixo, é você que decide...
Enquanto isso, em Honolulu...
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