11.1.08

O homem religioso, as axilas, e o chulé

Era uma vez um rapaz muito religioso e muito gordo. Ele não conseguia controlar o seu desejo de comer. E comia de tudo: cebola, cabritos, doces, coisas apimentadas. Fazia calor no local de trabalho, o que facilitava a transformação de tudo aquilo que decompunha em seu estômago (cebola, cabritos, doces, coisas apimentadas) em odor, que exalava fortemente por suas axilas. Seu odor variava com a sua alimentação: por vezes, doce, por vezes sufocantemente acre. Mas invariavelmente pesado nos meses de verão, quando suas glândulas sudoríparas trabalhavam a todo vapor, deixam para trás um enorme rastro de anõesinhos mortos.

O rapaz não era muito afeito a certos luxos ocidentais, dentre eles o desnecessário gasto diário de água para deixar suas partes do corpo com cheiros inumanos: lavanda, rosas, creme de aveia. Talvez porque em sua terra natal tal hábito fosse, mais do que um luxo, algo inadmissível: no deserto, a água destinada a um banho pode ser a diferença entre ter ou não água por vários dias.

Seus colegas de trabalho não tinham o menor interesse em compreender sua razões e já arquitetavam planos para forçá-lo a adaptar-se aos hábitos de uma cidade que, apesar de desértica, garantia água-doce a seus habitantes através de usinas de dessalinização. “Viva o progresso! Viva o cheiro de lavanda!”, diziam seus amigos que reclamavam de seu odor. “Carniça pura!”, diziam alguns, “Se ele passar espátula nas axilas, sai um creme!” diziam outros. Outros com imaginação mais fértil diziam que perto dele o ar era tão pesado que se poderia cortá-lo com faca. Arquitetaram assim um plano que colocariam em prática tão logo ele voltasse de suas orações.

O rapaz era muito religioso, já disse: religiosamente realizava suas orações. Atento a outras modernidades, possuía no celular um iman eletrônico, que o avisava cantando em alto e bom tom para ele e todos os coleguinhas de trabalho o horário das orações. “Alahu al akbar!”.

Ele religiosamente se levantava e seguia para o banheiro. Estrategicamente, utilizava sapatos mocassim, sem cadarço, que facilitava o ritual: lavava o rosto, lavava mãos e antebraços. Por fim sacava o sapato, as meias e lavava ali mesmo, na pia, os próprios pés. Lavava cuidadosamente entre os artelhos, por vezes com o próprio sabão líquido disponível. Isto feito, secava-os com as próprias meias os pés e seguia para a sala destinada às orações, com os tapetes já dispostos na direção de Meca.

Logo ao voltar, um amigo lhe dá despretenciosos tapinhas nas costas: “E aí, camarada? Enta kifãk?”. Ele não entendeu muito bem, mas seguiu trabalhando. Os colegas riam, ele ria também. Por fim, desligou o computador e seguiu para casa. Foi então que a esposa retirou desconcertada um pedaço de papel colado em suas costas: “Sou fedido, e daí?”

A partir deste dia, o rapaz religioso passou a ter mais atenção com a aparência e com a higiene pessoal, tomando banho e trocando de roupa com mais freqüência (ao menos uma vez por semana).

Moral da história: quem lava o pé, não tem chulé.

3 comentários:

iglou disse...

Caraca, fiquei imaginando um obeso se contorcendo no banheiro pra lavar o pé na pia... Ainda bem que só eu vi essa cena!

Eduardo disse...

Que nojo.

Isra disse...

Olah,

nao precisa tirar a meia e lavar o pe na pia. Ele poderia so passar a mao molhada 3 vezes q eh valido. Ele tbm deve saber q n pode descuidar da aparencia nem do odor. Na tradicao islamica Muhammad dizia q se vc cheira alho, cebola ou qualquer outro odor, nao fique na mesquita. E tbm cuidar da aparencia e usar roupas agradaveis. Vou cutucar: homem eh preguicoso de natureza e qdo nao tem vaidade nenhuma ou alguem para pegar no peh, pode acabar ficando desleixado como esse aih.
Tem mulher q tbm so se arruma p sair, mas em casa eh um terror..