26.8.07

Prosopopéia (i)midiática

A polícia não desmantela um cativeiro: ela o "explode".

Não é o índice da bolsa que sofre uma redução: é a própria bolsa, em carne e osso, que "desaba".

O dólar não fica mais caro: é ele próprio, assustado com a "crise" (crise?), que "dispara".

O fantástico, o incrível, prosopopéias e adjetivos sensacionalistas talvez sempre tenham permeado os noticiários, fórmula extensivamente empregada nos tablóides populares. O que é novo (ou nem tão novo assim) é a mesma fórmula ser aplicada nos grandes jornais, supostamente para um público mais seleto. Basta uma volta pelas páginas dos grandes jornais no Brasil e exterior para enumerar os diversos godzilas do momento: a bolsa, o furacão, o dólar, o mercado, o terror, a violência, o aquecimento global, o mensalão, o impeachment, PCC, CV, Ciccarelli fazendo sexo na praia...

Uma possível explicação para o fato desta espiral do medo estar tão em voga seria uma constatação mercadológica básica: as pessoas buscam o extraordinário, o medo, o pavor, talvez como uma fuga da monotonia do cotidiano. Deixemos às explicações para a origem desta necessidade de cada indivíduo para os psicólogos. O fato é que onde há demanda, há uma possibilidade de ganho, principalmente para o primeiro a chegar.

Oras, oras, oras. Por que tudo tem que necessariamente ter explicação? Tem muita gente na própria mídia com explicações até mais sofisticadas para a disseminação deste vírus do imediatismo na mídia das quais particularmente uma me atrai: o fenômeno da conversão das empresas de comunicação em sociedades anônimas. Em outras palavras, a transformação das antes empresas familiares em empresas de capital aberto, agora com a necessidade de apresentar resultados (lucros) aos seus acionistas. Esqueça essa história de análises aprofundadas, o importante agora é emocionar o público.

Lucro. Você precisa apresentar re-sul-ta-dos. Qual é a sua opinião sobre um determinado tema? Façamos uma pesquisa de mer-ca-do: o que as pessoas querem ouvir? Um outro empresário chega: ele quer 'plantar' uma notícia boa sobre sua empresa. Quanto ele está disposto a pagar? Hmmm... o jornal publicou uma foto de um filho de um ex-presidente com uma jornalista, e agora subtamente os empresários não querem mais anunciar... o que fazer? Está chegando o final do trimestre, precisa-se atingir as metas. O que fazer? Oh, o que fazer??

... (suspense, tambores ao fundo...) ...

BREAKING NEWS! A bolsa DESABOU UUUUUM PORCENTOOOO! O MERCADO ESTÁ DE MAU-HUMOOOOR! (trompetes apocalípticos cuspindo fogo).

No dia seguinte, a primeira página sai impressa com uma tarja preta, com fotos preto-e-branco de criancinhas comendo lixo do Mc Donalds na Praça da Sé. Ao lado, outra foto de um jovem de gravata chorando (se um homem de gravata está chorando é porque o problema é realmente sério). A legenda explica tudo: "É a maior queda de 1% em 10 anos". E o editorial ridiculariza o ministro da fazenda por dizer que não há motivos para pânico, contrapondo a opinião de 3 especialistas e cobra providências urgentes. Planeta Terra sitiado.

Enfim, esta hipótese, apesar de um tanto simplista, parece-me razoável.

3 comentários:

Edson disse...

Oi Sheik Luís,

Você poderia me responder quanto custa uma passagem daqui do Brasil para Dubai?

Se puder também me responder, você sabe porque Dubai possui tantos Mercedes-Benz Classe G, porque gostam tanto? Achei curioso isso.

Abraços.

Serigrafia Mocambicana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fábio Gonçalves disse...

Pois é, Luisão...

É a mercantilização da realidade.

Até o Estado hoje opera nessa lógica, como se os cidadãos fossem clientes. A Polícia Federal faz grandes operações para ser notícia e mostrar trabalho.

Amizades e relacionamentos amorosos também. Enquanto um tem interesse no outro, ótimo, depois tchau. Lei da oferta e da procura... Se a mulher encontra um macho mais poderoso ou o homem consegue uma mulher mais bonita, acabou.

E quem vai dizer que está errado?

Abraço!