24.10.07

O velho da fundição, o irmão e o barbeiro

Ele andava agitado naqueles dias: voltara ao porão da casa e mais uma vez o transformou em uma oficina. Voltara a trabalhar a madeira: caixas de porta-jóias, mosaicos de madeira, porta-retratos. Algo ínfimo para quem construíra a própria casa, os próprios armários, a própria cama, o próprio rádio e vitrola - um móvel enorme na sala! - a cama dos outros quartos, os armários das casas dos filhos, a cadeira de balanço e outra em miniatura para a neta, gaiolas e alçapões para os netos... sem contar as incontáveis máquinas de beneficiamento de arroz e laranja que fizera na fundição, da qual pouco restara.

Acordava sempre cedo e descia ao porão com o velho pijama rasgado. Ele possuía outros novos, guardados na caixa, que ganhara de presente em algum aniversário ou dia dos pais, mas por alguma razão ou nenhuma, andava com o rasgado. Para desespero das filhas. "Como é que pode o senhor andar com esse pijama rasgado?". Elas não entendiam. O que os outros iriam pensar? Mas podia sim, tanto é que assim o fazia e seguia vivendo. Todo velho tem suas manias.

Por esses mesmos dias que voltara a moldar madeira, lembranças agudas lhe fizeram fechar o porão e seguir até casa de seu irmão mais velho. Assim como fome, assim como sono, assim como sede, sentiu NECESSIDADE de conversar com alguém tão familiar.

Há tempos já não se falavam. Brigas de velhice, que talvez não fizessem mais diferença: há algum tempo que seu irmão já não ouvia, já não falava, e passava o dia sentado com olhar distante. Não era o que dizia sua companheira, que com carinho e otimismo lavava suas roupas, fazia sua comida, e o levava para passear. E que o tratava como se realmente estivesse ali, presente, e contava fatos da vida cotidiana que contrastavam com sua figura estática e inerte. Mesmo assim, sentou-se ao seu lado e apertou sua mão. Deu-se por satisfeito: era o fim das brigas. Achou que não haveria algum mal em pedir ao irmão para ver uma de suas grandes relíquias: a caixa de ferramentas do pai. Seu irmão não falava, mas naquele momento respondeu:

- Não peça pra mim. Peça pro pai... - E foi as únicas coisas e talvez as últimas que lhe disse.

E quem lhe dera pedir ao pai... de volta à solidão da casa vazia, tinha todo o tempo do mundo para ruminar o que ouvira: dava-se conta de que já vivera mais em orfandade que junto de seus pais. E ainda sentia por vezes a mesma lembrança e saudade ardente que lhe fechava a garganta, travava o peito e tornava a respiração difícil, como se fosse uma criança de oito anos com pesadelo à noite ou medo do escuro.

Seguiu trabalhando com veemência a madeira. Encafifou-se com a idéia de que não poderia perder mais tempo. Quando seu neto anunciou o casamento, tratou logo de comprar um forno microondas. Ligou para ele e deu a ordem:

- Léque, venha buscar seu presente!
- Ô vô, valeu! Amanhã, eu vou. Eu passo amanhã sem falta.
- Amanhã não: é hoje! Você vem buscar hoje!

O tempo do hoje. O velho da fundição era turrão: uma ordem era uma ordem. Mas já fazia tempo que a idade lhe tirara a autoridade de quem educava os filhos com vara de marmelo, em um tempo em que faculdade era coisa de homem, em que filhas tornavam-se professoras. E assim se fez: o filho homem virou engenheiro, as filhas, professoras... e o neto não desacatou: foi buscar o forno no mesmo dia.

Naquela véspera de Páscoa, seguiu correndo atrás do tempo até entregar a cesta-básica que entregava todo mês ao moço da cadeira de rodas. Ficou contente: "dever cumprido", disse ele ao fechar o portão. Hora do merecido chá da tarde: suco de laranja com bolo de chocolate. "Agora eu vou fazer a barba e tomar um banho para ver minhas netas!"

O primeiro a chegar foi um dos netos, que avisou os tios, que avisou as filhas, que foram todos para a Casa. O genro ligou para a funerária, as filhas tampavam os olhos com as mãos e gritavam "não é verdade! Fala que não é verdade!". Os netos olhavam para o chão. E os vizinhos que já invadiam a casa assistiam à cena com um deleite de quem assiste a um capítulo de novela, e se perguntavam uns aos outros com sorriso no rosto: "A casa é grande, né? Quem vai ficar com a herança?". Dias depois comentariam sentados em cadeiras na porta de suas casas no final-de-tarde a estranha curiosidade de dois irmãos e o barbeiro que os servia falecerem na mesma semana, como o movimento sincronizado de uma ceifadeira em uma grande colheita.

Sobre a cômoda da sala, duas caixas de bombom, dois coelhos de pelúcia. Não deu tempo.

O texto de hoje é dedicado a uma amiga de Limeira que passa por um desses momentos tristes. Abraço amigo do sheik.

3 comentários:

Anônimo disse...

Belo texto
....


Muito obrigada pelo email.
Passei seu blog e email pra um amigo que faz poli e anda um tanto injuriado com a facul. Boas ferias em paris...
abracao,
Tati

Ariadne disse...

Oi Luís!

Seu blog cada dia melhor! :)
beijo!

Anônimo disse...

Os bombons e os coelhos de chocolate foram entregues depois...
O choro da saudade brotou lágrimas nos olhos das duas netas. Abracei-as e choramos juntos. Mais uma vez e mais um ente querido se foi. Adeus seu "Zé", meu segundo pai...